Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Psicologia (Página 1 de 7)

A ruína da intuição feminina

Em seu livro Psicologia, escreve o filósofo Mário Ferreira dos Santos:

“…a consciência é gradativa; apresenta uma infinidade de graus.

“Acentuava William James que as naturezas geralmente emotivas, muito acessíveis aos movimentos afetivos, podem caracterizar-se, em linhas gerais, por um mais alto grau e por um campo mais estreito de consciência, que os não-emotivos.

“Reduzindo a extensidade, aumenta-se a intensidade, eis uma lei que registramos em todo o existir tempo-espacial.

“O fato de sempre necessitar o homem um campo mais amplo de atividade, levou-o a dispersar mais a sua consciência atencional.

“A mulher sempre esteve mais ligada à moradia. Enquanto o homem tinha maior campo de ação e por isso generalizava mais, a mulher, por estar mais perto da singularidade dos fatos, captou melhor o heterogêneo. Por isso, é ela mais intuitiva que o homem, sendo este mais racional.”

Psicologia, Mário Ferreira dos Santos, Editora Logos, 5ª edição, 1963.

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Agora que a mulher leva uma vida semelhante à do homem, não se espante por vê-la sempre a meter-se em enrascadas sentimentais — culpando um suposto “dedo podre” — e a vê-la, tal como um homem, incapaz de notar que a amiga tem um corte novo de cabelo ou que o cônjuge tem mais problemas do que se imagina. A “caracterologia” e a atenção em profundidade, tão dependentes da intuição intensista, já não são dons femininos — por outro lado, se ainda são dons naturais, estão reprimidos.

Antes de alguém vir criticar o texto acima, lembre-se de que Mário Ferreira dos Santos certamente tinha uma compreensão mais profunda dos conceitos de “extensidade”, “intensidade”, “generalização”, “razão”, “singularização”, “intuição”, “homogêneo”, “heterogêneo”, e assim por diante, do que julga a vã filosofia de quem nunca levou a sério a filosofia.

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Auto-humilhação petista

O sujeito que lê, entre muitíssimos outros, os livros República (Platão), Os Demônios (Dostoiévski), O que há de errado com o mundo? (Chesterton), A teoria da exploração do socialismo-comunismo (Böhm-Bawerk), O Homem Revoltado (Camus), A Invasão Vertical dos Bárbaros (Mário Ferreira dos Santos), Advertência ao Ocidente (Soljenítsin) A Nova Era e a Revolução Cultural (Olavo de Carvalho) e Ponerologia: Psicopatas no Poder (Lobaczewski), e que mesmo assim continua sendo um petista, um progressista, um comunista ou um revolucionário político qualquer, certamente sofre de analfabetismo funcional (e merece por isso nossa compaixão, haja vista o estado de decrepitude da educação brasileira) ou então de um tipo qualquer de psicose (e por isso devia recorrer a algum tipo de psicoterapia). Se é alguém que se recusa a ler livros desse gênero — livros que falam à inteligência, e não ao coração mediante ideologias irracionais e absurdas —, então o sujeito é apenas um fanático. Ou um preguiçoso. Se for um fanático, podemos compreender seu apoio a um oclocrata como Lula: é o que se espera de fanáticos, isto é, a paixão imune a toda prova em contrário, a todo fato, avessa à própria estrutura da realidade. Fanáticos políticos lêem apenas os catecismos da sua fé ideológica, prendendo-se a superstições tais como o socialismo e o comunismo. É até compreensível, embora deplorável. Por outro lado, se o sujeito for simplesmente um preguiçoso, do tipo que não lê sequer um best-seller ao ano, deveria evitar o vexame e parar de bater no peito, escrevendo aqui e ali, mal que mal, seus nonsenses político-econômicos e suas bravatas de sequaz. A defesa do maior bandido que este país já teve no governo não merece a auto-humilhação e a vergonha de quem devia estar simplesmente curtindo a vida.

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Marcel Proust e a memória

Marcel Proust

Assim, por muito tempo, quando despertava de noite e me vinha a recordação de Combray, nunca pude ver mais que aquela espécie de lanço luminoso, recortado no meio de trevas indistintas, semelhante aos que o acender de um fogo de artifício ou alguma projeção elétrica alumiam e secionam em um edifício cujas partes restantes permanecem mergulhadas dentro da noite: na base, bastante larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trilho da alameda escura por onde chegaria o sr. Swann, inconsciente autor de minhas tristezas, o vestíbulo de onde me encaminhava para o primeiro degrau da escada, tão cruel de subir, que constituía por si só o tronco, muito estreito, daquela pirâmide irregular; e, no cimo, meu quarto, com o pequeno corredor de porta envidraçada por onde entrava mamãe; em suma, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo o que pudesse haver em torno, destacando-se sozinho na escuridão, o cenário estritamente necessário (como esses que se veem indicados no princípio das antigas peças, para as representações na província) ao drama do meu deitar; como se Combray consistisse apenas em dois andares ligados por uma estreita escada, e como se fosse sempre sete horas da noite. Na verdade, poderia responder, a quem me perguntasse, que Combray compreendia outras coisas mais e existia em outras horas. Mas como o que eu então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste, nunca me teria lembrado de pensar no restante de Combray. Na verdade, tudo isso estava morto para mim.

Morto para sempre? Era possível.

Há muito de acaso em tudo isso, e um segundo acaso, o de nossa morte, não nos permite muitas vezes esperar por muito tempo os favores do primeiro.

Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas em algum ser inferior, em um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.

É assim com nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência permanecem inúteis. Está ele oculto, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca.

Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de são Tiago. Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primerio, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.

E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidência de sua felicidade, de sua realidade ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma luz nova. Peço a meu espírito um esforço mais, que me traga outra vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar captá-la, afasto todo obstáculo, toda ideia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da peça vizinha. Mas sentindo que meu espírito se fatiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, a refazer-se antes de uma tentativa suprema. Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas aquilo sobe lentamente; sinto a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas.

Por certo, o que assim palpita no fundo de mim deve ser a imagem, a recordação visual que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até chegar a mim. Mas debate-se demasiado longe, demasiado confusamente; mal e mal percebo o reflexo neutro em que se confunde o ininteligível turbilhão das cores agitadas; mas não posso distinguir a forma, pedir-lhe, como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de seu contemporâneo, de seu inseparável companheiro, o sabor, pedir-lhe que me indique de que circunstância particular, de que época do passado é que se trata.

Chegará até a superfície de minha clara consciência essa recordação, esse instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, remover, levantar no mais profundo de mim mesmo? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, tornou a descer talvez; quem sabe se jamais voltará a subir do fundo de sua noite? Dez vezes tenho de recomeçar, inclinar-me em sua busca. E, de cada vez, a covardia que nos afasta de todo trabalho difícil, de toda obra importante, aconselhou-me a deixar daquilo, a tomar meu chá pensando simplesmente em meus cuidados de hoje, em meus desejos de amanhã, que se deixam ruminar sem esforço.

E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de o ter mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto. O simples fato de ver a madalena não me havia evocado coisa alguma antes que a provasse; talvez porque, como depois tinha visto muitas, sem as comer, nas confeitarias, sua imagem deixara aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, daquelas lembranças abandonadas por tanto tempo fora da memória, nada sobrevivia, tudo se desagregara; as formas — e também a daquela conchinha de pastelaria, tão generosamente sensual sob sua plissagem severa e devota — se haviam anulado ou então, adormecidas, tinham perdido a força de expansão que lhes permitiria alcançar a consciência. Mas quando mais nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivos, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, lembrando, aguardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, e suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação.
E mal reconheci o gosto do pedaço de madalena molhado em chá que minha tia me dava (embora ainda não soubesse, e tivesse de deixar para muito mais tarde tal averiguação, por que motivo aquela lembrança me tornava tão feliz), eis que a velha casa cinzenta, de fachada para a rua, onde estava seu quarto, veio aplicar-se, como um cenário de teatro, ao pequeno pavilhão que dava para o jardim e que fora construído para meus pais aos fundos dela (esse truncado trecho da casa que era só o que eu recordava até então); e, com a casa, a cidade toda, desde a manhã à noite, por qualquer tempo, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas por onde eu passava e as estradas que seguíamos quando fazia bom tempo. E, como nesse divertimento japonês de mergulhar numa bacia de porcelana cheia d’água pedacinhos de papel, até então indistintos e que, depois de molhados, se estiram, se delineiam, se cobrem, se diferenciam, tornam-se flores, casas, personagens consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores de nosso jardim e as do parque do sr. Swann, e as ninfeias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradias e a igreja e toda a Combray e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha taça de chá.

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“Em busca do tempo perdido – volume 1 – No caminho de Swann”, de Marcel Proust, tradução de Mario Quintana.

Albert Camus: Niilismo e História

albert camus

« Cento e cinquenta anos de revolta metafísica e de niilismo viram reaparecer, sob máscaras diferentes, mas com obstinação, o mesmo rosto devastado — o do protesto humano. Todos, sublevados contra a condição e contra o seu Criador, têm afirmado a solidão da criatura e o nada de toda a moral. Mas todos, ao mesmo tempo, procuraram construir um reino puramente terrestre em que reinasse a regra por eles escolhida. Rivais do Criador, foram logicamente conduzidos a refazer por si próprios a criação. Aqueles que, pelo mundo que acabavam de criar, recusaram outra regra que não fosse a do desejo ou a do poder, precipitaram-se no suicídio ou na loucura e cantaram o apocalipse. Quanto aos outros, que pretenderam criar as suas regras por meio das próprias forças, escolheram uma parada vã: o parecer ou a banalidade, ou ainda o assassínio e a destruição. Mas Sade e os românticos, Karamazov ou Nietzsche só penetraram no mundo da morte porque desejaram a verdadeira vida. E com tanto empenho que, por efeito inverso, foi o apelo desesperado à regra, à ordem e à moral que ressoou neste universo louco. As suas conclusões só foram nefastas ou liberticidas a partir do momento em que eles se desembaraçaram do fardo da revolta, fugiram à tensão que ela pressupõe e escolheram o conforto da tirania ou da servidão.

« A insurreição humana, nas suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser mais do que um longo protesto contra a morte, uma acusação enraivecida contra essa condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que se nos têm deparado, todas as vezes o protesto se dirige a quanto na criação é dissonância, opacidade, solução de continuidade.Trata-se, pois, essencialmente, de uma interminável reivindicação de unidade. A recusa à morte, o desejo de duração e de transparência são as molas reais de todas essas sublimes ou pueris loucuras. Tratar-se-á simplesmente de uma recusa covarde e pessoal ao ato de morrer? Não, pois muitos desses rebeldes pagaram o que era preciso para se alcandorarem à altura da sua exigência. O revoltado não reclama a vida, mas as razões da vida. Recusa a consequência trazida pela morte. Se coisa alguma dura, nada se justifica; o que morre é falho de sentido. Lutar contra a morte equivale a reivindicar o significado da vida, a combater pela regra e pela unidade.

« O protesto contra o mal que reside mesmo no coração da revolta metafísica é, neste caso, significativo. Não é o sofrimento da criança que se deve considerar revoltante em si próprio, mas o fato de tal sofrimento não ser justificado. No fim das contas, a dor, o exílio, a claustração são por vezes aceites quando a medicina ou o bom senso no-los impõem. Aos olhos do revoltado, o que falta à dor neste mundo, como aos instantes de felicidade, é um princípio de explicação. A insurreição contra o mal mantém-se em primeiro lugar como uma reivindicação de unidade. No mundo dos condenados à morte, à opacidade mortal da condição, o revoltado opõe incansavelmente a sua exigência de vida e de transparência definitivas. Procura, sem o saber, uma moral ou um sagrado. A revolta é uma ascese, embora cega. Se nessa altura o revoltado blasfema, é na esperança de encontrar o novo deus. Sente-se abalado sob o choque do primeiro e do mais profundo dos movimentos religiosos, mas trata-se de um movimento religioso frustrado. Não é a revolta em si própria que se deve ter por nobre, mas sim o que ela exige, embora aquilo que ela obtiver se haja de considerar ainda ignóbil.

« Mas, pelo menos, há que saber identificar o que ela obtém de ignóbil. Cada vez que deifica a recusa total do que existe, o não absoluto, ela mata. Cada vez que cegamente aceita o que é e proclama o sim absoluto, mata igualmente. O ódio ao Criador pode converter-se em ódio da criação ou em amor exclusivo e provocante do que existe. Mas, em ambos os casos, ela vai dar ao assassínio e perde o direito ao seu nome de revolta. Pode ser niilista de duas maneiras e, em cada uma delas, por uma intemperança do absoluto. Existem aparentemente os revoltados que querem morrer e aqueles que querem dar morte. Mas trata-se dos mesmos indivíduos, queimados pelo desejo da verdadeira vida, frustrados no ser e preferindo nessa altura a injustiça generalizada a uma justiça mutilada. Atingido este grau de indignação, a razão converte-se em fúria. Se é certo que a revolta instintiva do coração humano avança a pouco e pouco ao longo dos séculos a caminho da sua máxima consciência, também cresceu, como vimos, em cega audácia até ao momento desmesurado em que decidiu responder ao crime universal pelo assassínio metafísico.

« O mesmo se, que já reconhecemos marcar o momento capital da revolta metafísica, realiza-se em todo o caso na destruição absoluta. Já não é a revolta nem a sua nobreza que resplandecem no mundo, mas sim o niilismo. E são as suas consequências que devemos recordar sem perder de vista a verdade das suas origens. Mesmo que Deus existisse, Ivan [Karamazov] não se teria entregado a Ele, mercê da injustiça feita ao homem. Mas uma ruminação mais longa desta injustiça, uma chama mais amarga transformaram o “mesmo que tu existisses” em “tu não mereces existir” e, depois, em “tu não existes”. As vítimas procuraram a força e as razões do crime último na inocência que elas reconheciam em si próprias. Desesperando da sua imortalidade, certos da sua condenação, decidiram matar Deus. Se não corresponde à verdade afirmar que, a partir desse dia, começou a tragédia do homem contemporâneo, também não é verdade que ela acabasse nessa altura. Esse atentado marca, pelo contrário, o momento mais alto de um drama começado a partir do fim do mundo antigo e cujas últimas palavras ainda não foram pronunciadas. A partir desse momento, o homem decide eximir-se à graça e viver pelos seus próprios meios. O progresso consiste, de Sade até aos nossos dias, em dilatar cada vez mais o recinto fechado onde, segundo a sua própria regra, reinava ferozmente o homem sem Deus. Levaram cada vez mais longe as fronteiras do campo murado perante a divindade, até converterem o universo inteiro numa fortaleza contra o deus decaído e exilado. O homem, ao cabo da sua revolta, enclausurava-se; a sua grande liberdade consistia unicamente, desde o castelo trágico de Sade até ao campo de concentração, em construir a prisão dos seus crimes. Mas o estado de sítio vai-se generalizando a pouco e pouco; a reivindicação de liberdade quer abranger toda a gente. Há então que edificar o único reino que se opõe ao da graça — o da justiça — e reunir enfim a comunidade humana sobre os escombros da comunidade divina. Matar Deus e edificar uma igreja, eis o movimento constante e contraditório da revolta. A liberdade absoluta converte-se enfim numa prisão de deveres absolutos, numa ascese coletiva, numa história por acabar. O século XIX, que é o da revolta, entra assim no século XX da justiça e da moral, onde cada um se ocupa em bater no peito. Chamfort, moralista da revolta, já lhe tinha criado a fórmula: “É preciso ser-se justo antes de se ser generoso, tal como se possuem camisas antes de se terem rendas”. Assim se renunciará à moral de luxo em proveito da áspera ética dos construtores. É este convulsivo esforço em direção ao império do mundo e da regra universal que teremos agora de focar.

« Chegamos ao momento em que a revolta, repelindo toda a espécie de servidão, pretende anexar por completo a criação. Sempre que um malogro se verificava, vimos já anunciar-se a solução política e conquistadora. Doravante, apenas conservará das suas aquisições — e com o niilismo moral — a vontade de poder. Em princípio, o revoltado apenas desejava conquistar o seu próprio ser e mantê-lo à face de Deus. Mas perde a memória das suas origens e, pela lei de um imperialismo espiritual, ei-lo a caminho do império do mundo através dos crimes, multiplicados ao infinito. Expulsou Deus do seu céu, mas o espírito de revolta metafísica, unindo-se então francamente ao movimento revolucionário e à reivindicação irracional da liberdade, vai paradoxalmente eleger como arma a razão, único poder de conquista que lhe parece puramente humano. Morto Deus, restam os homens, isto é, a história que se impõe compreender e construir. O niilismo que, no seio da revolta, submerge nesta altura a força da criação, acrescenta unicamente a seguinte afirmação: podemos edificá-la lançando mão de todos os meios. Aos crimes do irracional, o homem, numa terra que ele reconhece daí em diante como solitária, vai acumular os crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao “revolto-me”, “portanto existimos”, acrescenta, meditando prodigiosos desígnios e até a própria morte da revolta: “E encontramo-nos sós”.»

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Conclusão do segundo capítulo do livro O Homem Revoltado, de Albert Camus.

Hilda Hilst e seu radar mental

Sob a figueira da Casa do Sol, residência da poeta Hilda Hilst, há uma mesa de pedra ladeada por bancos também de pedra. Quando morei ali, essa mesa estava danificada, com o tampo ausente. Um dia lhe perguntei por quê:

— Foi o Jô Soares — respondeu. — Estávamos conversando sob a figueira e, quando ele se sentou na mesa, o tampo partiu em dois.

Eu ri, imaginando a situação constrangedora. Para romper aquela mesa de pedra grossa, só mesmo alguém com o peso do Jô Soares.

— E por que ele não a consertou, Hilda? Não custaria nada pra ele.

— Ah — suspirou ela. — Ele e a Teresa Austregésilo, mulher dele na época, estavam zangados comigo.

— Ué. E por quê? Você se chateou com a mesa e soltou os cachorros neles?

Ela fez um gesto de indiferença e completou sua taça com vinho do Porto: — Não, Yuri. Não me importo com essas coisas. É porque eu tinha dito a verdade pra eles. Não achava que fosse ofendê-los.

— Verdade? Sobre o quê? Às vezes você é uma taurina tão teimosa que acaba confundindo suas opiniões com verdades, né, Hilda. Já notei isso.

Ela me encarou, um ar irônico no olhar: — Nesse caso, era verdade mesmo, viu. Eles estavam com o bebê deles, o Rafael, que tinha apenas alguns meses de idade. Quando eu o peguei no colo, notei que havia algo errado. Ele não reagia a nenhum estímulo, não olhava pra gente, nada. Então me virei pra eles e disse: “Melhor vocês levarem esse menino ao médico. Ele não é normal”. Nossa… pra quê? Ficaram ofendidíssimos! Tomaram o garoto do meu colo, me falaram um monte de coisas, que louca era eu e assim por diante. Foram embora e nunca mais falaram comigo. Acontece que, um ou dois anos depois, descobriram que o Rafael realmente era autista.

— E mesmo assim nunca voltaram?

— Não.

Em 1999, com permissão da Hilda, um casal de amigos foi passar o feriado conosco. (Digamos que ela se chamava C e ele, B.) Hilda se encantou com ambos, achou C elegantérrima, mas sentiu algo mais forte por B. No autógrafo que fez ao livro Do Amor, que deu a ele, ela escreveu: “B, você é lindo!”. Ele se sentiu todo lisonjeado e me mostrou o autógrafo antes de partir. No dia seguinte, Hilda, pensativa, emitindo longas volutas de fumaça, me disse:

— Yuri, seu amigo tem os olhos idênticos aos do meu pai.

— Eu sei, Hilda. São verdes, né.

Ela me olhou cheia de gravidade: — Não, Yuri, não é isso: são olhos insanos…

Achei o fato curioso, cômico até, já que esse meu amigo, de fato, nunca foi uma pessoa convencional. Contudo, passados mais de quinze anos, o prognóstico de Hilda veio à tona: B é hoje tão esquizofrênico quanto o era Apolônio de Almeida Prado Hilst, pai dela. Nada mais triste do que uma doença mental e Hilda, cujos pais morreram internados em sanatórios, sabia disso.

Amor e tempo


Carl Sagan e Ann Druyan

Aos dezesseis anos de idade, li maravilhado o livro “Cosmos”, do astrofísico Carl Sagan. Apesar de realmente ter assimilado todas aquelas informações científicas — eu era um nerd que tirava dez sobre dez nas provas de física — um dos trechos que mais me impressionaram, e de que jamais me esqueci, foi a dedicatória à sua esposa: “Para Ann Druyan — Diante da vastidão do espaço e da imensidade do tempo, é uma alegria compartilhar um planeta e uma época com Annie”. Um cientista romântico!, pensei então. Quantas vezes ouvimos no colégio que um cientista também pode ser um romântico? E quantos cientistas usam e abusam de epígrafes retiradas de livros sagrados ou de relatos mitológicos? Carl Sagan, com seu tom agnóstico e sentimental, conquistou minha simpatia e minha admiração naquela época. E também me lembro de que, enquanto lia seu livro, imaginava a voz de seu dublador brasileiro da série Cosmos a falar em minha cabeça. E essa imagem, de amar uma determinada mulher em meio ao sem-fim de mulheres possíveis, colou-se na minha imaginação: seria realmente possível? Como o tempo e o espaço condicionariam um tal amor?

Dez ou doze anos mais tarde, vencido pela insistência de alguns amigos, li “Paulo e Estevão”, uma biografia romanceada de São Paulo cujo verdadeiro autor não me interessa: Chico Xavier? Seu mentor Emmanuel? E daí? O livro é excelente e, centrado na trama e nos personagens, não se perde em doutrinação ou apologia espíritas. A despeito de possíveis incongruências históricas, trata-se duma obra literária honesta, ponto. Ninguém seria capaz de desmerecer as tragédias e dramas históricos de Shakespeare por conta de seus remendos. A falta de dados e a necessária consistência estética assim o exigem! Ninguém, em sã consciência, tampouco acusaria Shakespeare de apologia ao espiritismo por conta do fantasma do pai de Hamlet. Enfim, a que pese a moral e os costumes judáicos, a maneira como o romance de Chico Xavier justifica a postura pessoal de Paulo diante da castidade, defendida por ele em suas epístolas, é artisticamente verossímil. Saulo (Paulo) teria ficado noivo de Abigail, irmã de Jesiel — mais tarde batizado por São Pedro como Estevão —, sem conhecer essa ligação familiar. A própria Abigail só teria reconhecido o irmão, supostamente prisioneiro das galés no Mediterrâneo, no rosto do grande inimigo de seu noivo caçador de cristãos no dia da execução de Estevão. Quando Saulo se dá conta de que havia condenado à morte o irmão da mulher amada, o mesmo homem que a ela o futuro apóstolo jurara resgatar nos confins do mundo, cai numa tremenda crise. Incapaz de encarar a noiva, afasta-se. Nesse ínterim, ela adoece e morre. Quando Saulo decide que ainda a quer, é tarde demais, o tempo o venceu. Ele, que já odiava os cristãos por serem uma ameaça ao judaísmo, passa a odiá-los como aqueles que também arruinaram sua vida pessoal. O resto é história.

Nas epístolas — perdão, não sou desses que memorizam capítulos e versículos —, Paulo discorre sobre a castidade como sendo análoga à espera tranqüilamente suportada pelo noivo e pelo viúvo. Ambos se guardam enquanto o tempo os afasta do anelado reencontro. Já o hermetista cristão Valentin Tomberg ressalta que a castidade não é uma fuga ao sexo ou ao matrimônio: é, sim, vencer em seu próprio interior a “pulsão de caça ao outro” e, por isso, mesmo uma pessoa casada e sexualmente ativa deve ser casta. A castidade é, pois, paciência, aceitação e amor. A castidade é inimiga da pressa e não deve se deixar enganar pelo tempo.

O dado mais interessante da vida no espaço-tempo é que, conforme essa vida transcorre, o tempo se contrai. Na infância, o tempo tem a dimensão da eternidade, amplo como o mundo. Mesmo um homem de 90 anos de idade confirmará que seus doze primeiros anos correspondem, no fundo, à metade da sua vida. Para uma criança, a espera de um mês é uma longa espera. E tal impressão não se desvanece de uma hora para outra. Aqueles primeiros anos de eternidade relativa permanecem na mente de todo adulto. Uma paixonite infantil pode condicionar, em geral de modo inconsciente, centenas de paixões da maturidade: uma mulher com o mesmo olhar daquela coleguinha de escola, o mesmo sorriso, os mesmos lábios fartos constantemente entreabertos… Enfim, conforme os anos passam, contraem-se, e um ano torna-se uma medida diferente para quem tem quarenta anos de idade e para quem tem vinte. Se uma pessoa de quarenta anos permanece cinco anos sem falar com alguém, é como se tivessem conversado ontem. Para alguém de vinte e poucos anos, ficar sem contato com alguém por cinco anos é como ter permanecido distante por uma eternidade, afinal, cinco anos correspondem a 25% do seu tempo de vida. (E, por isso, homens maduros, se vocês prometerem a uma moça que irão lhe telefonar, telefonem em até duas semanas e não depois de seis meses!)

O tempo, portanto, pode ser um vilão para pessoas apressadas que, apesar da grande diferença de idade, apaixonam-se uma pela outra. Outro dia, meu pai me mostrou no YouTube uma música que, enterrada no subsolo da minha mente, causou-me comoção: “Non ho l’età”, interpretada por Gigliola Cinquetti. A melodia me trouxe aquela dura nostalgia da infância. Foi como me ver novamente aos pés da minha mãe enquanto ela ouvia ao rádio e trabalhava ou na cozinha ou em seus quadros. Mas da letra da música, em italiano, eu não sabia absolutamente nada, não fazia idéia… E essa letra me trouxe outra dura nostalgia, outra mais recente, mais vívida. E o choque entre ambas as nostalgias me abalou a alma, como se eu tivesse finalmente desvendado um vaticínio que me chegara cedo demais, já que, em criança, eu não possuía ferramentas para penetrar sua criptografia. E isso, claro, também me lembra outro caso da Hilda Hilst.

Quando Hilda tinha 69 anos de idade, recebeu a notícia — ao menos me lembro do ocorrido desta maneira — da morte da mulher de um antigo namorado, Paes Barreto, o mesmo homem que inspirou seus poemas do livro “Trovas de muito amor para um amado senhor” (1960). Quando se conheceram nos anos 1950, Paes Barreto era cerca de vinte anos mais velho e já era casado. Ainda assim, eles se apaixonaram e viajaram juntos. Hilda me disse que Paes Barreto pretendia separar-se da esposa para se casar com ela, mas Hilda, apesar de tentada, pois realmente o amava, não queria o carma de ser a destruidora de uma família — e então o rejeitou, afinal, ainda havia todo o tempo do mundo. Ela me confessou que se arrependeu diversas vezes dessa decisão ao longo da vida, pois, além de Paes Barreto, nenhum outro homem a tratou com tanto respeito, carinho e paixão, nenhum outro homem a compreendeu tão bem. Rindo, ela me dizia que a esposa de Paes Barreto, nos anos seguintes, já ciente daquele caso findado, sempre rasgava os jornais quando saía alguma notícia sobre Hilda e seus livros. Ao menos era o que lhe segredavam amigas comuns. E, na ocasião daquele falecimento, ciente de que já não havia um casamento a atrapalhar, Hilda me pediu para encontrar o telefone de Paes Barreto, com quem já não conversava havia mais de vinte anos. Descobri o número e, sabendo que Hilda não se incomodava nem um pouco em dividir sua intimidade comigo, permaneci no escritório enquanto conversavam. Na verdade, eu fiz a ligação e o avisei: “Senhor Paes Barreto? Um telefonema da parte de Hilda Hilst” e passei o aparelho para a poeta.

— Barreto? É Hilda! (Pausa.) Sim, meu querido, eu sei, eu sinto muito. (Pausa.) É verdade, me desculpa. (Pausa.) Eu também tenho muitas, muitas saudades… Não chora.

Nesse momento, Hilda começou a chorar compulsivamente, causando-me grande constrangimento. Não queria incomodá-los, senti que era um momento muito importante, íntimo, e me levantei, dirigindo-me à porta do escritório, de onde ainda a ouvi dizer:

— Eu também, Barreto, eu também. Eu te amo muito, meu querido!

Paes Barreto, salvo engano, faleceu dois anos depois. Não chegaram a se reencontrar. Não na Terra, pois Hilda faleceu seis anos depois. Neste mundo, o tempo se contrai e, se para a jovem Hilda aquele homem mais velho era muito mais velho, agora estavam ambos igualados pela morte. Nem todo mundo tem a sorte que Carl Sagan teve de — além de encontrar numa mesma pessoa um grande amor e uma alma afim — compartilhar com ela uma época e um planeta como um casal.


Marina Di Vicenzi, Hilda Hilst e Paes Barreto, 1959.

UM POEMA DE HILDA HILST PARA SEU AMADO SENHOR:

Dizeis que tenho vaidades.

E que no vosso entender

Mulheres de pouca idade

Que não se queiram perder

É preciso que não tenham

Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento

Flores e renda, cetins,

Se solto o cabelo ao vento

É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes

E a boca fresca e rosada.

E a vaidade só consente

Vaidades, se desejada.

E além de vós

Não desejo nada.

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Timidez imatura

Um traço típico da timidez imatura é fazer algo apenas se alguém já o estiver fazendo: dançar numa festa apenas se já há gente dançando, por mais vontade que tenha de dançar; ir embora durante um filme ruim apenas se mais gente já tiver abandonado o cinema; reclamar do atendimento em órgãos públicos apenas se alguém começar a fazê-lo antes; ir ao show de rock de uma banda idiota porque ninguém quer ir ao show da banda que a pessoa realmente curte; não levantar a mão para fazer uma pergunta inconveniente a um professor esquerdista apenas porque ninguém mais parece se importar com a lavagem cerebral; não ir a um protesto apenas porque não acha que haverá gente suficiente em meio à qual poder ocultar o próprio rosto; e assim por diante.
Desejo mimético é um pé no saco. Deseje seu próprio desejo. A timidez madura se chama modéstia.

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