9:38 amC. S. Lewis: Do ateísmo ao teísmo (documentário)

« Todos os livros estavam começando a se voltar contra mim. Na verdade, devo ter sido tão cego como um morcego por não ter visto, muito antes, a absurda contradição entre minha teoria de vida e minha verdadeira experiência enquanto leitor. Os mais religiosos eram claramente aqueles em que eu realmente podia me alimentar.»

8:45 amC. S. Lewis e o divórcio entre o Céu e o Inferno

C.S. Lewis

« O Sr. William Blake escreveu o livro O Matrimônio do Céu e do Inferno. Se escrevi sobre o abismo entre os dois, isto não é porque me julgo um antagonista à altura de tão grande gênio, nem mesmo porque esteja absolutamente certo de ter entendido o que ele pretendia; mas, num sentido ou outro a tentativa de realizar essa união é perene. Essa tentativa tem como base a crença de que a realidade jamais se apresenta a nós num sentido absoluto, havendo sempre uma opção inevitável a ser feita; mas que, com habilidade e paciência e (acima de tudo) tempo suficiente, algum meio de abranger ambas as alternativa pode ser sempre encontrado. Que o simples desenvolvimento, ajuste ou refinamento, irá de alguma forma transformar o mal em bem, sem que sejamos chamados para uma rejeição final e total de qualquer coisa que desejemos reter.

« Acredito que esta crença represente um erro desastroso. Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas. Em uma dessas viagens até mesmo a sua mão direita ou o seu olho direito podem estar entre as coisas que precisará deixar para trás. Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão. Mesmo no nível biológico, a vida não é como um rio mas como uma árvore. Ela não se move na direção da unidade, mas se distancia dela e as criaturas se afastam cada vez mais das outras, à medida que se aperfeiçoam. O bem, quando amadurece, se mostra cada vez mais diferente, não só do mal, mas de qualquer outro bem.

« Não julgo que todos os que escolhem as estradas erradas perecem; mas o seu resgate consiste em serem colocados de volta na estrada certa. Uma soma errada pode ser corrigida, mas somente fazendo um retrospecto até achar o erro e continuando a partir desse ponto, e não apenas “avançando”. O mal pode ser desfeito, mas não pode “transformar-se” em bem. O tempo não pode curá-lo. O encanto precisa ser quebrado, pouco a pouco, “com murmúrios de trás para diante, a fim de obter a separação” — caso contrário não dá resultado. Continua prevalecendo a necessidade de alternativa. Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a terra) não veremos o Céu. Acredito que qualquer homem que chegue ao Céu descobrirá que aquilo que abandonou (mesmo arrancando o seu olho direito) não ficou perdido: que o âmago daquilo que estava realmente buscando, mesmo em seus mais depravados desejos, continua ali, além de qualquer expectativa, esperando por ele nos “Países Altos”. Nesse sentido, os que tiverem completado a jornada (e somente estes) poderão verdadeiramente dizer que o bem é tudo e que o Céu está em toda parte. Mas nós, deste lado da estrada, não devemos tentar antecipar essa visão retrospectiva. Se fizermos isso, é provável que adotemos o falso e desastroso conceito de que tudo é bom e qualquer lugar é o Céu.

« E a terra? você pode perguntar. A terra, penso eu, não irá ser considerada por ninguém, no final, como sendo um lugar muito definido. Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu.

« Só quero dizer mais uma ou duas coisas sobre este livro. Primeiro, devo reconhecer minha dívida de gratidão a um escritor cujo nome esqueci. Li um artigo seu numa revista americana chamada Scientifiction (Ficção Científica). A qualidade do meu material celeste, que não se curva nem quebra, foi-me sugerida por ele, embora tivesse feito uso da fantasia para um propósito diferente e muito engenhoso. O seu herói viajou para o passado: e ali, muito adequadamente, encontrou pingos de chuva que o feriam como balas e sanduíches que não se podiam comer — porque, naturalmente, nada no passado pode ser alterado. Com menos originalidade, mas (espero) com igual propriedade, transferi esta idéia para a eternidade. Se o autor dessa história porventura ler estas linhas peço que aceite minha gratidão. A segunda coisa é esta. Peço aos leitores que se lembrem tratar-se de uma fantasia. Ela tem naturalmente, ou foi essa a minha intenção, uma moral. Mas as condições além da morte não passam de uma suposição imaginaria: não são sequer um palpite ou uma especulação quanto ao que pode realmente aguardar-nos. A última coisa que desejo seria despertar curiosidade fatual quanto aos detalhes da vida após-morte.»

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O Grande Abismo (prefácio), de C.S. Lewis.

Este foi o livro que o poeta Bruno Tolentino me indicou após conversarmos longamente sobre Swedenborg, O Livro de Urântia, vida após a morte, projeções astrais, Salvação e quejandos. O título em inglês soa ainda mais antagônico ao livro de William Blake: “The Great Divorce”.

10:53 amDa “Filosofia Perene”: Aldous Huxley fala sobre fé

Aldous Huxley

« A palavra "fé" tem vários significados, que é impor­tante distinguir. Em certos casos é usada como sinônimo de "confiança", como quando dizemos que temos fé na habilidade diagnóstica do Dr. X ou na integridade do advogado Y. Análoga a esta é nossa "fé" na autoridade, a crença na probabilidade de que seja certo o que dizem certas pessoas sobre certas coisas, por causa de suas especiais condições. Outras vezes a "fé" significa crença em proposições que não tivemos ocasião de verificar por conta própria, mas que sabemos que poderíamos verificar, se tivéssemos o desejo e a oportunidade de fazê-lo, junto com a capacidade necessária para isso. Neste sentido da palavra, temos "fé", embora nunca estivemos na Austrália, na existência de uma criatura tal como o platypus; temos "fé" na teoria atômica, embora nunca fizemos os experi­mentos em que tal teoria se fundamenta e sejamos incapazes de compreender os cálculos matemáticos que a apóiam. E existe a "fé", que é uma crença em proposições que sabemos que não poderíamos verificar embora o quisésse­mos, tais como as do Credo de Atanasio ou as que constituem a doutrina da Imaculada Concepção. Esta classe de fé é definida pelos escolásticos como um ato do intelecto movido a assentir pela vontade.

« A fé nos três primeiros sentidos desempenha um papel muito importante, não só nas atividades da vida cotidiana, mas também até nas da ciência pura e aplicada. Credo ut intelligam — e também, deveríamos acrescentar, ut agam e ut uiuam. A fé é condição prévia de todo conhecimento sistemático, de todo obrar intencionado e de todo viver decente. As sociedades se mantêm, não principalmente pelo medo dos mais ao poder coativo dos menos, mas sim por uma difundida fé na decência de outros. Tal fé tende a criar seu próprio objeto, enquanto que uma difundida desconfiança mútua, devida, por exemplo, à guerra ou às dissensões domésticas, cria o objeto da desconfiança. Passando agora da esfera moral a intelectual, achamos a fé na raiz de todo pensamento organizado. A ciência e a tecnologia não poderiam existir se não tivéssemos fé na fidelidade do universo — se não acreditássemos implicitamente (para dizê-lo com as palavras de Clark Maxwell) que o livro da Natureza é realmente um livro e não uma revista, uma coerente obra de arte e não um tapete de retalhos. A esta fé geral na racionalidade e integridade do mundo, o buscador da verdade deve adicionar duas classes de fé especiais: fé na autoridade dos peritos qualificados, suficiente para lhe permitir aceitar sua palavra sobre afirmações que não comprovou pessoalmente; e fé em suas próprias hipóteses, suficiente para induzi-lo a comprovar suas crenças provisórias mediante a ação apropria­da. Esta ação pode confirmar a crença que o inspi­rou. Por outra parte, pode provar que a hipótese original estava mal fundada, e neste caso terá que ser modifica­da até que, conforme os fatos, e assim passe do reino da fé ao do conhecimento.

« A quarta classe de fé é o que usualmente se chama "fé religiosa". A qualificação é justa, não porque as outras classes de fé não sejam fundamentais em religião como o são nos assuntos seculares, mas sim porque este volitivo assentimento à proposições que se sabe que não são verificáveis ocorre em religião, e só em religião, como uma adição característica à fé como confiança, a fé na autoridade e a fé em proposições não verificadas, mas verificáveis. Esta é a classe de fé que, segundo os teólogos cristãos, justifica e salva. Em sua forma extrema e mais intransigente, tal doutrina pode ser muito perigosa. Eis aqui, por exemplo, uma passagem de uma das cartas de Lutero. Este peccator, etpecca fortiter; sedfortius crede et gaude in Christo, qui victor est peccati, mortis et mundi. Peccandum est quam diu sic sumus; vito haec non est habitatio justitiae. ("Sou pecador e peco fortemente; mas, mais fortemente, creio e alegro-me em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. Enquanto formos como somos, temos que ter pecados; esta vida não é a morada da retidão.") Ao perigo de que a fé na doutrina da justificação pela fé possa servir de desculpa ao pecado, e até de convite a pecar, deve acrescentar-se outro perigo, ou seja, o de que a fé que se supõe salvadora possa ser uma fé em proposições não meramente não comprovadas, mas sim repugnem à razão e ao sentido moral e estejam em completo desacordo com os resultados obtidos pelos quais cumpriram as condições de penetração espiritual na Natureza das Coisas. "Eis aqui o topo da fé — diz Lutero em De Servo Arbítrio —: acreditar que Deus, salva a tão poucos e condena a tantos, é misericordioso; é justo Quem, a seu prazer, fez-nos necessariamente destinados à condenação, de modo que parece deleitar-se na tortura dos miseráveis e ser mais merecedor de ódio que de amor. Se, por um esforço da razão, pudesse conceber como Deus, que mostra tanta ira e dureza, pode ser misericordioso e justo, não haveria necessidade de fé." A revelação (que, quando é genuína, é simplesmente o relato da experiência imediata dos que são bastante puros de coração e bastante pobres de espírito para poder ver Deus) não diz nada de todas estas doutrinas horríveis, às quais a vontade força o intelecto, que sente por isso uma relutância bastante natural e justa a dar assenti­mento. Tais noções não são produto da penetração dos santos, mas sim da atarefada fantasia de juristas, que estavam tão longe de transcenderem o eu e os prejuízos da educação, que tinham a louca presunção de interpretar o universo em termos da lei judia e Roma­na, com a que estavam familiarizados. "Ai de vós, os juristas!", disse Cristo. A acusação era profética e válida para todos os tempos.

« A medula e o coração espiritual de todas as religiões superiores é a Filosofia Perene; e se pode assentir às proposições da Filosofia Perene e obrar de acordo com elas sem ter que ir à classe de fé sobre a qual escrevia Lutero nas passagens precedentes. Deve, é óbvio, haver fé em sua condição de confiança — pois a confiança no próximo é o princípio da caridade para com os homens, e a confiança, não só na fidelidade material do universo, mas também em sua integridade moral e espiritual, é o princípio da caridade ou amor-conhecimento para com Deus. Deve haver também fé na autoridade — a autoridade daqueles cuja abnegação os pôs em condições de conhe­cer o Fundamento espiritual de todo ser, seja por contato direto ou por ouvi-la. E, finalmente, deve haver fé nas proposições a respeito da Realidade enunciadas por filó­sofos à luz de uma revelação — proposições que o crente sabe que pode comprovar por si mesmo, se estiver disposto a cumprir as condições necessárias. Mas, enquanto a Filosofia Perene seja aceita em sua simplicidade essencial, não há necessidade de volitivo assentimento à proposições das quais de antemão se sabe que não são comprováveis. Aqui é necessário observar que tais proposições podem chegar a ser verificáveis assim que uma intensa fé afete o substrato psíquico e assim crie uma existência cuja derivada objetividade po­de realmente descobrir-se "lá fora". Contudo, recordemos que uma existência que tira sua objetividade da atividade mental dos que acreditam intensamente nela não pode ser o Fundamento espiritual do mundo, e que uma mente atarefada na atividade volun­tária e intelectual que é a "fé religiosa" não pode achar-se no estado de renúncia ao eu e de atenta passividade que é a condição necessária ao conhecimento unitivo do Fundamento. Por isso afirmam os budistas que "a amorosa fé conduz ao céu; mas a obediência ao Dharma conduz ao Nirvana". A fé na existência e poder de qualquer entidade sobrenatural que seja menos que a Realidade espiritual última, e em qualquer forma de adoração que não alcance o abatimento de si mesmo, produzirá sem dúvida, se o objeto da fé é intrinsecamente bom, um melhoramento do caráter, e provavelmente a sobrevivência póstuma de melhorada personalidade em condições "celestiais". Mas esta sobrevivência pessoal dentro do que é ainda a ordem temporária não é a vida eterna da união atemporal com o Espírito. Esta vida eterna "está no conhecimento" da Divindade, não na fé em algo que seja menos que a Divindade.»

A imortalidade obtida pela aquisição de uma condição objetiva (por exemplo, a condição — alcan­çada pelas boas obras inspiradas pelo amor a algo inferior à Divindade suprema e pela crença nesse algo — de unir-se em ato ao adorado) está exposta a terminar; pois nas Escrituras se afirma distintamente que o Carma não é nunca causa de emancipação.

Shankara

« O Carma é a sucessão causal no tempo, da qual somos somente libertados "morrendo para" o eu tem­poral e nos unindo com o eterno, que está além do tempo e causa. Pois “quanto à noção de uma Primeira Causa, ou Causa Sui” (para citar as palavras do Dr. E R. Tennant, eminente teólogo e filósofo), “devemos, por um lado, ter presente que nos refutamos ao tentar estabelecê-la por extensão da aplicação da categoria causal, pois casualidade universalizada implica contradição; e, por outra parte, recordar que o Fundamento último sim­plesmente ‘É’." Só quando também o indivíduo "sim­plesmente é", em virtude de sua união, pelo amor-conhecimento, com o Fundamento, pode haver liberação completa e eterna.»
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A Filosofia Perene, de Aldous Huxley.

8:08 amA fé de Jesus

 Jesus, by Alex Grey

« JESUS possuía uma fé sublime, e de todo o coração, em Deus. Ele experimentou os altos e baixos comuns da existência mortal, mas religiosamente nunca duvidou da certeza da vigilância e do guiamento de Deus. A sua fé era fruto do discernimento nascido da atividade da presença divina do seu Ajustador residente. A sua fé não era nem tradicional nem meramente intelectual; era totalmente pessoal e puramente espiritual.

« O Jesus humano via Deus como sendo santo, justo e grande, assim como verdadeiro, belo e bom. Todos esses atributos da divindade, ele os focalizava na sua mente como a “vontade do Pai no céu”. O Deus de Jesus era, ao mesmo tempo, “O Santo de Israel” e “O Pai vivo e amoroso do céu”. O conceito de Deus, como um Pai, não foi original de Jesus, mas ele exaltou e elevou essa idéia como uma experiência sublime, realizando uma nova revelação de Deus e proclamando que todo ser mortal é um filho desse Pai de amor, um filho de Deus.

« Jesus não se apegou à fé em Deus como o faria uma alma que se debate em luta contra o universo, ou que se agarra à luta de morte contra um mundo hostil e pecaminoso; ele não recorreu à fé meramente como uma consolação em meio a dificuldades, ou como um conforto em meio à ameaça do desespero; a fé não era apenas uma compensação ilusória para as realidades desagradáveis e os sofrimentos da vida. Ao enfrentar todas as dificuldades naturais e as contradições temporais da existência mortal, ele experimentou a tranqüilidade da confiança suprema e inquestionável em Deus e desfrutou a imensa emoção de viver, pela fé, na própria presença do Pai celeste. E essa fé triunfante foi uma experiência viva de realização real do espírito. A grande contribuição de Jesus para os valores da experiência humana não foi de haver revelado tantas idéias novas sobre o Pai no céu, mas foi mais por ele haver, tão magnífica e humanamente, demonstrado um tipo novo e mais elevado de fé viva em Deus. Nunca, em todos os mundos deste universo, na vida de qualquer mortal, Deus tornou-se uma tão viva realidade como na experiência humana de Jesus de Nazaré.

« Na vida do Mestre, em Urântia, este e todos os outros mundos da criação local descobriram um tipo novo e mais elevado de religião, baseada em relações espirituais pessoais com o Pai Universal e totalmente validada pela autoridade suprema da experiência pessoal genuína. Essa fé viva de Jesus era mais do que uma reflexão intelectual, e não era uma meditação mística.

« A teologia pode fixar, formular, definir e dogmatizar a fé, mas, na vida humana de Jesus, a fé era pessoal, viva, original, espontânea e puramente espiritual. Essa fé não era uma reverência à tradição, nem uma mera crença intelectual que ele mantinha como um credo sagrado, era mais uma experiência sublime e uma convicção profunda mantendo-o em segurança. A sua fé era tão real e todo-inclusiva que varreu para longe, absolutamente, quaisquer dúvidas espirituais e destruiu efetivamente todos os desejos conflitantes. Nada foi capaz de afastá-lo de ancorar-se espiritualmente nessa fé fervorosa, sublime e destemida. Mesmo na derrota aparente ou nas fortes dores do desapontamento e do desespero ameaçador, ele permaneceu calmamente na presença divina, livre de medo e totalmente consciente da invencibilidade espiritual. Jesus desfrutou da certeza revigorante da posse de uma fé inflexível e, em cada uma das situações de provação, demonstrou infalivelmente uma lealdade inquestionável à vontade do Pai. E essa fé magnífica não se intimidou, mesmo diante da ameaça cruel e esmagadora de uma morte ignominiosa.

« Em um gênio religioso, uma fé espiritual muito forte, com freqüência, leva diretamente ao fanatismo desastroso, ao exagero do ego religioso, mas não aconteceu assim com Jesus. Ele não foi afetado desfavoravelmente, na sua vida prática, pela sua extraordinária fé e pela realização espiritual, porque essa exaltação espiritual era uma expressão totalmente inconsciente e espontânea, na sua alma, da sua experiência pessoal com Deus.

Continua…

8:17 amSøren Kierkegaard y la búsqueda del caballero de la fe

Kierkegaard

« Lo confieso con sinceridad: no he podido encontrar, a lo largo de mis experiencias, un solo ejemplar de caballero de la fe digno de confianza, sin que con esta afirmación quiera negar que quizás una de cada dos personas lo sea. Pero se da la circunstancia de que llevo muchos años buscando en vano. Generalmente viajamos por el mundo con el fin de ver ríos y montañas, estrellas de otras latitudes, pájaros variopintos, peces deformes y razas humanas grotescas; nos abandonamos a un estupor animal, que nos deja con la boca abierta ante lo existente, y concluimos por creer que hemos visto algo. Nada de eso me interesa. Pero si yo viniera a saber dónde habita un verdadero caballero de la fe, me pondría en el acto en camino hacia aquel lugar, pues esa es la clase de maravilla que me interesa. Una vez encontrado no lo perdería de vista un solo momento, observando constantemente todos y cada uno de sus movimientos. Me sentiría como quien ha encontrado un sustento en esta existencia y dividiría mi tiempo dedicando una parte de él a observarlo y otra a ejercitarme yo mismo, de modo que todo mi tiempo sería empleado en admirar-lo.»

Temor y Temblor, de Søren Kierkegaard.

8:36 amA Negação da Morte: Ernest Becker fala de Otto Rank e Kierkegaard

 Ernest Becker

« …nossa missão capital neste planeta é a heróica.»

(…)

« O instinto comum da natureza humana para com a realidade… sempre sustentou ser o mundo essencialmente um teatro para o heroísmo.» [William James, citado por Ernest Becker]

(…)

« É natural que o homem seja um animal maluco; deve viver uma vida maluca devido ao seu conhecimento da morte.»

(…)

« A aspiração por heroísmo é natural e admiti-lo é honesto. Se todos o admitissem, provavelmente se liberaria tamanha força represada que devastaria as sociedades tais como agora existem…»

(…)

« Não há [na cultura atual] um centro vital pulsante.»

(…)

« […] a religião não é mais eficaz como um sistema de heroísmo, e por isso os jovens menosprezam-na. Se a cultura tradicional é desacreditada como manifestação de heroísmo, então a igreja que a apóia automaticamente se desacredita. Se a igreja, pelo contrário, decide insistir em seu heroísmo característico, talvez constate que, de maneiras cruciais, terá de agir contra a cultura, recrutar jovens para serem anti-heróis face aos estilos de vida da sociedade em que vivem. Este é o dilema da religião em nossa época

(…)

« Todo ser humano é… igualmente preso, isto é, nós… criamos uma prisão com a liberdade…» [Otto Rank, citado por Ernest Becker]

(…)

« A pergunta […] mais importante que o homem pode fazer a si mesmo é simplesmente esta: até onde tem ele consciência do que está fazendo para alcançar um senso de heroísmo?»

(…)

« E esta é a singela verdade: viver é sentir-se perdido — aquele que aceita isso já começou a encontrar-se, a colocar-se em terreno firme.»

(…)

« A Tragédia da vida a que Searles se refere é aquela que estivemos examinando: a finitude do homem, seu pavor da morte e da enormidade esmagadora da vida. O esquizofrênico sente essas coisas mais do que outro qualquer por não ter sido capaz de formar as defesas seguras que uma pessoa normalmente emprega para negá-las.»

(…)

« […] o caráter de uma pessoa é uma defesa contra o desespero, uma tentativa de evitar a insanidade por causa da verdadeira natureza do mundo.»

(…)

« Neurótico é alguém que não consegue rodear sua animalidade com uma ilusão convincente.»

(…)

« …a essência da normalidade é a recusa da realidade.»

(…)

« Isto é neurose em poucas palavras: o insucesso de mentiras desajeitadas no tocante à realidade.»

(…)

« …normalidade é neurose e vice-versa. Chamamos a um homem de “neurótico” quando sua mentira começa a demonstrar efeitos nocivos nele ou em pessoas que o cercam e ele procura ajuda clínica para isso — ou outros procuram por ele. Sob outros aspectos, chamamos a rejeição da realidade de “normal” por não ocasionar qualquer problema perceptível.»

(…)

« O que está em jogo em toda repressão humana: o medo da vida e da morte

(…)

« Uma das circunstâncias que percebemos quando estudamos a história é que a consciência de animalidade é sempre absorvida pela cultura. Esta opõe-se à natureza e transcende-a. A cultura, em sua mais recôndita intenção, é uma negação heróica da animalidade.»

(…)

« A própria salvação não mais é atribuída a uma abstração como Deus, mas pode ser procurada “na beatificação do outro”. Poderíamos chamar esta de “beatificação transferencial”. O homem agora vive em uma “cosmologia de dois”. […] O homem moderno realiza seu impulso de auto-expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus. […] Como diz uma canção hindu: “Meu amor é meu Deus; se ele me aceita minha existência é utilizada”. Não é de espantar que Rank pudesse concluir que o relacionamento amoroso do homem moderno é um problema religioso.»

(…)

« As pessoas precisam de um “além”, mas elas pegam primeiro o mais próximo; isto lhes dá a satisfação de que precisam, mas, ao mesmo tempo, limita-as e escraviza-as. Você pode considerar o problema todo de uma vida humana desta maneira. Pode perguntar: em que tipo de além esta pessoa tenta expandir-se e quanto de individualização obtém nele?»

(…)

« O limite entre a rendição natural, ao querer ser parte de algo superior, e a rendição masoquista ou autonegadora é deveras tênue, como Rank assinalou. O problema é ainda mais complicado por algo que as mulheres, como todos os mais, detestam admitir: sua própria incapacidade natural para se manterem sozinhas em liberdade

(…)

« O que Kierkegaard está dizendo, em outras palavras, é que a escola da angústia leva à possibilidade só pelo fato de destruir a mentira vital do caráter.»

(…)

« E assim se chega à nova possibilidade, à nova realidade, pela destruição do eu ao se fazer face à angústia do terror da existência. O self tem de ser destruído, reduzido a nada, a fim de ter início a transcendência de si próprio. Então, o self pode começar a relacionar-se com poderes além de si mesmo. Ele tem de debater-se em sua finitude, tem de “morrer” para interrogar essa finitude e poder ver para além dela. Para onde? Responde Kierkegaard: para a infinitude, para a transcendência absoluta, para o Poder Final da Criação que fez as criaturas finitas. Nossa moderna interpretação da psicodinâmica confirma ser essa progressão bastante lógica — se você admite ser um animal, conseguiu uma coisa fundamental: demoliu todos os seus elos ou apoios de força inconscientes. Como vimos no último capítulo — e vale a pena repetir aqui —, cada criança firma-se em algum poder que a transcende. Geralmente é uma combinação de seus pais, seu grupo social e os símbolos de sua sociedade e nação. Essa é a trama irracional de apoio que lhe permite acreditar em si própria, enquanto funciona na segurança automática de poderes delegados. Ela, está claro, não admite para si mesma que vive com forças tomadas de empréstimo, pois isso a levaria a duvidar de sua própria ação segura, daquela mesma confiança de que necessita. Ela negou sua animalidade exatamente por imaginar que dispõe de poder seguro, e esse poder seguro foi obtido apoiando-se inconscientemente nas pessoas e coisas de sua sociedade. Uma vez que você revele essa fraqueza e vacuidade básicas da pessoa, sua incapacidade, então é obrigado a reexaminar todo o problema das ligações de poder. Você tem de pensar em refazê-las em uma fonte real de poder criativo e gerador. É nesta altura que uma pessoa pode começar a posicionar sua condição de criatura vis-à-vis um Criador que é a Causa Primeira de todas as coisas criadas, não meramente os criadores de segunda mão, intermediários, da sociedade, os pais e a panóplia de heróis culturais. Esses são os pais sociais e culturais, que, por sua vez, foram causados, que, por sua vez, estão enleados em uma teia de poderes de outrem.

« Uma vez que a pessoa se ponha a examinar seu relacionamento com o Poder Final, com a infinitude, e a reformular seus vínculos desligando-os dos que a rodeiam para ligá-los a esse Poder Final, ela se franqueia o horizonte da possibilidade ilimitada, da verdadeira liberdade. Essa é a mensagem de Kierkegaard, a culminação de todo o seu raciocínio a respeito dos becos sem saída do caráter, o ideal de saúde, a escola da angústia, a natureza da verdadeira possibilidade e liberdade. Passa-se por tudo isso para chegar-se à fé de que a própria condição de criatura tem certo significado para um Criador; que, a despeito da verdadeira insignificância, fraqueza, morte de cada um, sua existência tem um certo sentido definitivo porque existe dentro de um projeto eterno e infinito das coisas produzidas e mantidas dentro de determinado modelo por uma força criadora. Repetidamente, em seus trabalhos, Kierkegaard volta à fórmula básica da fé: a gente é uma criatura que nada pode fazer, mas existe diante de um Deus vivo para quem “tudo é possível”.

« Toda a sua argumentação agora torna-se clara como água, segundo a qual a chave de abóbada da fé coroa a estrutura. Podemos entender por que a angústia “é a possibilidade de liberdade”, por que a angústia derruba “todas as metas finitas”, e assim “o homem que é educado pela possibilidade é educado de acordo com sua infinitude”. A possibilidade a nada conduz se não conduzir à fé. Ela é uma etapa intermediária entre o condicionamento cultural, a mentira do caráter e a abertura da infinitude com a qual a pessoa pode relacionar-se por meio da fé. Mas sem o salto para a fé o novo sentimento de desamparo por ter abandonado a armadura do próprio caráter infunde puro terror. Isso significa que se vive desprotegido pela couraça, exposto à sua solidão e desamparo, à angústia constante. Nas palavras de Kierkegaard:

« “Agora o pavor da possibilidade conserva-o como sua presa, até poder entregá-lo a salvo nas mãos da fé. Em nenhum outro lugar encontrará ele repouso… ele, que atravessou o currículo do infortúnio oferecido pela possibilidade, perdeu tudo, absolutamente tudo, de forma que ninguém o perdeu na realidade. Se nessa situação ele não se comporta falsamente face à possibilidade, se não tenta falar desviando-se do pavor que o salvaria, então receberá tudo de volta novamente, como na realidade ninguém jamais conseguiu mesmo que tenha recebido dez vezes mais, pois o aluno da possibilidade recebeu a infinitude…”

« Se colocarmos toda essa progressão em função de nosso exame das possibilidades de heroísmo, o resultado será o seguinte: o homem irrompe através dos limites do heroísmo meramente cultural; destrói a mentira do caráter que o fazia portar-se como herói no plano social cotidiano das coisas; e, ao fazê-lo, ele se abre para o infinito, para a possibilidade de heroísmo cósmico, para o próprio serviço de Deus. Sua vida, portanto, adquire valor definitivo em vez de valor simplesmente social e cultural, histórico. Ele liga seu eu interior secreto, seu talento autêntico, seus mais profundos sentimentos de originalidade, seu anelo íntimo por um significado absoluto ao próprio substrato da criação. Nas ruínas do eu cultural demolido permanece o mistério do eu particular, invisível, interior, que anelava por significado definitivo, por heroísmo cósmico. Esse mistério invisível no coração de toda criatura agora alcança significado cósmico ao afirmar sua conexão com o mistério invisível do âmago da criação. Esse é o significado da fé. Ao mesmo tempo, é o significado da fusão da psicologia e da religião no pensamento de Kierkegaard. A pessoa verdadeiramente aberta, aquela que se desfez de sua couraça de caráter, da mentira vital do seu condicionamento cultural, está além do auxílio de qualquer mera “ciência”, de qualquer padrão meramente social de saúde. Ela está absolutamente só e tremendo à beira do esquecimento, que é, ao mesmo tempo, o umbral da infinitude. Dar-lhe o novo apoio de que carece, a “coragem para renunciar ao pavor sem qualquer pavor… disso só a fé é capaz”, afirma Kierkegaard. Não que essa seja uma saída fácil para o homem, ou uma panacéia universal para a condição humana — Kierkegaard nunca é fácil. Ele fornece uma idéia extraordinariamente bela:

« “Não que a fé aniquile o pavor, mas, permanecendo sempre jovem, ela está continuamente se formando da convulsão mortal do pavor”.

« Por outras palavras, desde que o homem é um animal ambíguo nunca poderá abolir a angústia; o que pode fazer, em vez disso, é usar a angústia como eterna mola para crescer em novas dimensões de pensamento e confiança. A fé apresenta uma nova missão para a vida, a aventura da abertura para uma realidade multidimensional.

« Podemos entender por que Kierkegaard só tinha de concluir seu grande estudo da angústia com as seguintes palavras que possuem o peso de um argumento evidente:

« “O verdadeiro autodidata [isto é, aquele que por si só transpõe a escola da angústia até a fé] é, exatamente no mesmo grau, um teodidata… Tão logo a psicologia tenha acabado com o pavor, nada mais tem a fazer senão entregá-lo à dogmática”.

« Em Kierkegaard, psicologia e religião, filosofia e ciência, poesia e verdade fundem-se indistintamente reunidas nas aspirações da criatura.»

(…)

« A dinâmica do mal é devida fundamentalmente à negação da condição de criatura

(…)

« Segundo Otto Rank, a dinâmica do mal é a tentativa de fazer o mundo ser diferente do que é, de fazer dele o que ele não pode ser, um lugar livre de acidentes, um lugar livre de impurezas, um lugar livre da morte.»

(…)

« No ponto mais alto da fé existe júbilo porque se compreende que este mundo é de Deus e, uma vez que tudo está nas mãos d’Ele, que direito temos nós de ficarmos tristes — o pecado da tristeza?»

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A Negação da Morte, de Ernest Becker (1924-1974).

9:45 amG.K. Chesterton fala sobre insanidade e criação literária

G.K. Chesterton

« É verdade que alguns falam, de modo superficial e leviano, da insanidade como sendo em si mesma atraente. Mas um momento de reflexão mostrará que, se uma enfermidade é atraente, trata-se em regra da enfermidade dos outros. Um cego pode ser um quadro pitoresco; mas exige-se um par de olhos para ver o quadro. De modo semelhante até mesmo a poesia mais louca da insanidade só pode ser apreciada por quem é sensato. Para o insano a insanidade é totalmente prosaica, porque é totalmente verdadeira.

« Um homem que imagina ser uma galinha é para si mesmo tão comum como uma galinha. Um homem que imagina ser um caco de vidro é para si mesmo tão sem graça como um caco de vidro. A homogeneidade de sua mente é o que o torna sem graça, e o que o torna louco. E somente pelo fato de percebermos a ironia de sua idéia que nós o achamos até engraçado; é somente pelo fato de ele não ver a ironia de sua idéia que ele é internado em Hanwell, não por outro motivo.

« Em resumo, as esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. E por isso que as pessoas comuns têm uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas sempre estão se queixando da chatice da vida. E por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidamente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.

« Comecemos, então, com um manicômio. Dessa estalagem fantástica e perversa vamos partir para a nossa jornada intelectual. Ora, se devemos examinar rapidamente a filosofia da sanidade, a primeira coisa a fazer no caso é apagar um enorme erro comum. Por toda parte existe a noção de que a imaginação, especialmente a imaginação mística, é perigosa para o equilíbrio mental do homem. Geralmente se diz que os poetas não são confiáveis do ponto de vista psicológico, e geralmente faz-se uma vaga associação entre cingir a cabeça com uma coroa de louros e fazer loucuras. Os fatos e a história contradizem totalmente essa visão. A maioria dos poetas realmente grandes não só foi de gente sensata, mas também extremamente prática. Se Shakespeare um dia dominou cavalos, isso se deu por ser ele o homem mais indicado para fazêlo. A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente acontece com artistas criadores. Como se verá, não estou aqui, em nenhum sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na imaginação. A paternidade artística é tão sadia quanto a paternidade física. Além disso, vale a pena observar que, quando um poeta foi realmente mórbido, o fato geralmente se deu porque ele tinha um ponto fraco de racionalidade no cérebro. Poe, por exemplo, foi realmente mórbido; não porque era poético, mas porque era especialmente analítico. Para ele até o jogo de xadrez era poético demais; ele não gostava de xadrez porque era um jogo cheio de peões e castelos, como um poema. Declaradamente, preferia as casas brancas do jogo de damas, por se parecerem mais com os meros pontos pretos num gráfico.

« Talvez o caso mais convincente seja este: apenas um grande poeta inglês enlouqueceu, Cowper. E ele foi definitivamente levado à loucura pela lógica, pela repulsiva e estranha lógica da predestinação. A poesia não foi seu mal, foi seu remédio. A poesia preservou-lhe em parte a saúde. As vezes ele podia esquecer-se do rubro e sequioso interno, para o qual seu hediondo determinismo o arrastava em meio às águas caudalosas e as grandes e achatadas flores aquáticas do rio Ouse. Ele foi condenado por João Calvino; e quase foi salvo por John Gilpin.

« Em todas as partes vemos que os homens não enlouquecem sonhando. Os críticos são muito mais loucos que os poetas. Homero c completo e bastante calmo; os críticos é que o rasgam em trapos extravagantes. Shakespeare é exatamente Shakespeare; apenas alguns de seus críticos é que descobriram que ele era alguma outra pessoa. E embora João, o evangelista, tenha visto monstros estranhos em sua visão, ele não viu nenhuma criatura tão louca como um de seus comentadores. O fato geral é simples. A poesia mantém a sanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito. O resultado é a exaustão mental, como a exaustão física do sr. Holbein.

« Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça.»

_____

Ortodoxia, de G.K. Chesterton (1874-1936)

8:17 amPaul Brunton: algumas ideias em perspectiva (e um conselho)

Paul Brunton

« A beleza, tanto quanto a verdade, é um aspecto da Realidade. Aquele que é insensível a uma ainda não encontrou a outra.»

(…)

« Um estilo de vida refinado e elegante pode ser desaprovado pelas pessoas de tendências ascéticas, e pode até mesmo ser censurado como materialista. O senso estético, porém, pode ser bem compatível com a espiritualidade.»

(…)

« Todos são crucificados pelo próprio ego.»

(…)

« Toda pessoa possui algum tipo de fé; isso inclui a pessoa cuja fé repousa no ceticismo.»

(…)

« Aquele que vive uma vida nobre em meio às coisas do mundo é superior àquele que vive uma vida nobre num mosteiro.» [Eu, Yuri, digo: creio que a busca dessa virtude superior nem passou pelas cabeças dos monges desertores do conto “História sem título”, de Tchekov…]

(…)

« Dissipamos diariamente nossas energias mentais e atiramos nossos pensamentos aos ventos volúveis. Corrompemos o potente poder da Atenção e permitimos que ela se desperdice diariamente nas mil futilidades que preenchem nosso tempo.»

(…)

« O contraste entre os americanos loquazes das cidades e os árabes silenciosos do deserto é inesquecível. O beduíno pode sentar-se com um grupo e não dizer coisa alguma durante horas! A paz do deserto penetrou neles de tal maneira que o dever social da conversação é desconhecido entre eles e considerado desnecessário!» [Eu, Yuri, pergunto: existem beduínos do sexo feminino?… Ok, ok, foi uma pergunta digna de um “americano loquaz”…]

(…)

« A vida permanece o que ela é — imortal e sem limites. Todos nos encontraremos novamente. Saiba o que você é, e seja livre. O melhor conselho hoje é: mantenha-se calmo, alerta. Não deixe que a pressão do ambiente mental viole o que você sabe e o que é real e fundamentalmente verdadeiro. Esse é o talismã mágico que irá protegê-lo; agarre-se a ele. A última palavra é — Paciência! A noite é mais escura antes do amanhecer. Mas o amanhecer vem.»

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Ideias em Perspectiva, de Paul Brunton.

9:03 amMário Quintana e O Mundo de Deus

Mário Quintana

O Mundo de Deus

Aquele astronauta americano que anunciou ter encontrado
Deus na Lua é no fim de contas menos simplório do que os
primeiros astronautas russos, os quais declararam, ao voltar,
não terem visto Deus no céu.

Porque, se Deus é paz e paz é silêncio, afinal, deve Ele
estar mesmo muito mais na Lua do que nas metrópoles terrenas.

E, pelo que me toca, a verdade é que nunca pude esquecer
estas palavras de um personagem de Balzac: “O deserto é Deus
sem os homens”.

Caderno H (1973), de Mário Quintana.

10:45 amSócrates fala sobre a imortalidade da alma

Sócrates recebe a cicuta

« Porém devemos, senhores, considerar também o seguinte: se a alma for imortal, exigirá cuidados de nossa parte não apenas nesta porção do tempo que denominamos vida, senão ao longo de todo o tempo, parecendo que se expõe a um grande perigo quem não atender esse aspecto da questão. Pois se a morte fosse o fim de tudo, que imensa vantagem não seria para os desonestos, com a morte livrarem-se do corpo e da ruindade muito própria juntamente com a alma? Agora, porém, que se nos revelou imortal, não resta à alma outra possibilidade, se não for tornar-se, quanto possível, melhor e mais sensata. Ao chegar ao Hades, nada mais leva consigo a não ser a instrução e a educação, justamente, ao que se diz, o que mais favorece ou prejudica o morto desde o início de sua viagem para lá. O que contam é o seguinte: quando morre alguém, o demônio [daemon, gênio, monitor residente] que em vida lhe tocou por sorte se encarrega de levá-lo a um lugar em que se reúnem os mortos para serem julgados e de onde são conduzidos para o Hades com guias incumbidos de indicar-lhes o caminho. Depois de terem o destino merecido e de lá permanecerem o tempo indispensável, outro guia os traz de volta, após numerosos e longos períodos de tempo. Esse caminho não é o que diz Télefo de Ésquilo, ao afirmar que o caminho do Hades é simples; a meu ver nem é simples nem único. Se fosse o caso, seria dispensável guia, pois ninguém se perde onde a estrada é uma só. O que parece é que ele é cheio de voltas e bifurcações. Digo isso com base nos ritos sagrados e cerimônias aqui em uso.

« De qualquer forma, a alma prudente e moderada acompanha seu guia, perfeitamente consciente do que se passa com ela; mas, como disse há pouco, a que se agarra avidamente ao corpo esvoaça durante muito tempo em torno dele e do mundo visível, e depois de grande relutância e de sofrimentos sem conta, é por fim arrastada dali, à força e com dificuldade pelo demônio incumbido de conduzi-la. Uma vez alcançado o lugar em que se encontram outras almas, a que se acha impura pela prática do mal, de homicídios injustos ou de crimes semelhantes, irmãos daqueles e iguais aos que soem praticar almas irmãs, de uma alma como essa todas se afastam, evitam-na, não havendo guia nem companheiro de jornada que com ela se associe. Tomada de grande perplexidade, vagueia por todos os lugares até escoar-se certo tempo, depois do que a arrasta a Necessidade para a moradia que lhe foi determinada. A que atravessou a vida com pureza e moderação e alcançou deuses por guias e companheiros de jornada, obtém moradia apropriada.

«A Terra apresenta um sem-número de lugares maravilhosos, não sendo nem tão extensa nem da forma como a imaginam os que se comprazem em discorrer a seu respeito, conforme alguém mo demonstrou.

(…)

« Do que vos expusemos, Símias, precisamos tudo fazer para em vida adquirir virtude e sabedoria, pois bela é a recompensa e infinitamente grande a esperança. Afirmar, de modo positivo, que tudo seja como acabei de expor, não é próprio de homem sensato; mas que deve ser assim mesmo ou quase assim no que diz respeito a nossas almas e suas moradas, sendo a alma imortal como se nos revelou, é proposição que me parece digna de fé e muito própria para recompensar-nos do risco em que incorremos por aceitá-la como tal. É um belo risco, eis o que precisamos dizer a nós mesmos à guisa da formula de encantamento. Essa é a razão de me ter alongado neste mito. Confiado nele; é que pode tranqüilizar-se com relação a sua alma o homem que passou a vida sem dar o menor apreço aos prazeres do corpo e aos cuidados especiais que este requer, por considerá-los estranhos a si mesmo e capazes de produzir, justamente, o efeito oposto. Todo entregue aos deleites da instrução, com os quais adornava a alma, não como se o fizesse com algo estranho a ela, porém como jóias da mais feliz indicação: comedimento, justiça, coragem, nobreza e verdade, espera o momento de partir para o Hades quando o destino o convocar. Vós também, Símias e Cebes, acrescentou, e todos os outros, tereis de fazer mais tarde essa viagem, cada um no seu tempo. A mim, porém, para falar como herói trágico, agora mesmo chama-me o destino. Mas esta quase na hora de tomar o banho. Acho melhor fazer isso antes de beber o veneno, para não dar às mulheres o trabalho de lavar o cadáver.»

Fédon – Da Alma, de Platão.

10:18 amO psiquiatra R. D. Laing fala sobre a experiência da loucura

R. D. Laing

« Quando a pessoa enlouquece, ocorre uma profunda transposição de sua posição em relação a todos os domínios do ser. Seu centro de experiência desloca-se do ego para o Self. O tempo mundano torna-se simples anedota, só importa o que é eterno. Contudo, o louco está confuso. Mistura ego com Self, interior com exterior, natural com sobrenatural. No entanto, pode ser com freqüência para nós, mesmo através de sua profunda infelicidade e desintegração, o hierofante do sagrado. Exilado do cenário do ser como o conhecemos, ele é um estranho, um alienígena, acenando para nós do vácuo onde está mergulhando, um vácuo talvez povoado de presenças que nem sequer suspeitamos.»

(…)

« ¿Será a esquizofrenia uma fuga bem sucedida à adaptação a um tipo de ego?»

(…)

« A loucura não precisa ser um colapso total. Pode ser também uma abertura. É potencialmente libertação e renovação, assim como escravização e morte existencial.»

(…)

« Quando o novo ser humano chega aos quinze anos, mais ou menos, já se transformou num ser parecido conosco: uma criatura meio demente, mais ou menos adaptada a um mundo louco. Tal é a normalidade na época presente.»

(…)

« Pois sem o que é interior, o externo perde o seu sentido, e sem o externo, o interior perde a substância.»

(…)

« O nada, como experiência, surge como ausência de alguém ou de alguma coisa: ausência de amigos, relações, prazer, sentido da vida, idéias, alegria, dinheiro. Aplicado às partes do corpo, é ausência de seio, pênis, conteúdo bom ou mau; é o vazio. A lista é, em princípio, infindável.»

(…)

« A condição de alienação, o estar adormecido, inconsciente, fora de si, é a condição do homem normal. A sociedade valoriza altamente o homem-normal, educa as crianças de modo a perderem-se e a tornarem-se absurdas, sendo assim normais. Homens normais mataram talvez 100.000.000 de seus semelhantes normais nos últimos cinqüenta anos. O comportamento é uma função da experiência. Agimos segundo nossa maneira de ver as coisas. Se nossa experiência for destruída, nosso comportamento será destrutivo. Se nossa experiência for destruída, perdemo-nos a nós mesmos.»

(…)

« Ou eu estou ouvindo, ou eu estou louco.» [Raciocínio do esquizofrênico ao ouvir vozes.]

(…)

« O que ocorre então é uma viagem: I) de fora para dentro; II) da vida para uma espécie de morte; III) do progresso para um regresso; IV) do movimento temporal para a imobilidade temporal; V) do tempo mundano para o tempo eônico; VI) do ego para o Self; VII) do lado de fora (pós-nascimento) de volta ao seio de todas as coisas (pré-nascimento); e então, subsequentemente, uma viagem de regresso: 1) do interior para o exterior; 2) da morte para a vida; 3) do movimento retroativo para o movimento novamente progressivo; 4) da imortalidade de volta à mortalidade; 5) da eternidade de volta ao tempo; 6) do Self para um novo ego; 7) de uma fetalização cósmica para um renascimento existencial.»

(…)

« Existem súbitos e aparentemente inexplicáveis suicídios que precisam ser compreendidos como o despertar de uma esperança tão horrível e arrasadora que se torna insuportável.»

(…)

« “É” como nenhuma-coisa é aquilo pelo qual todas as coisas são. E a condição da possibilidade de qualquer coisa ser é estar em relação com aquilo que não-é. O que vale dizer que a base de todos os seres é a relação entre eles.»

(…)

« Para ser louco não é necessário ou obrigatório estar doente, embora em nossa cultura as duas categorias se confundam.»

(…)

« Se existisse apenas a minha consciência, então há validade para a minha vontade.» [Confrontar com a afirmação de Ivan Karamázov, personagem de Dostoiévski: “Se Deus não existe, tudo é permissível”.]

(…)

« Entre médicos e padres deveria haver alguns orientadores que retirassem a pessoa deste mundo e a introduzissem no outro. Que a  orientassem dentro dele e a conduzissem de volta.»

(…)

« O “ego” é o instrumento para se viver neste mundo. Se ele se romper, ou for destruído (pelas invencíveis contradições de certas situações na vida, por meio de toxinas, alterações químicas, etc.), então a pessoa talvez fique exposta a outros mundos, “reais” de diferentes maneiras, da esfera mais familiar dos sonhos, da imaginação, da percepção ou da fantasia. O mundo que se penetra, a nossa capacidade para experienciá-lo, parece estar em parte condicionado ao estado do próprio ego.»

(…)

« Fenomenologicamente, os termos interior e exterior têm pouca validade.»

(…)

« Em parte alguma da Bíblia existe qualquer debate relativo à existência de deuses, demônios, anjos. As pessoas não ‘crêem em Deus’, para começar`: sentem a sua Presença, como ocorre com outros agentes espirituais. A questão não era a existência de Deus, mas se este Deus em particular era o maior de todos, ou o único, e qual a relação dos vários agentes espirituais, uns com os outros. Existe hoje um debate público, não com respeito à autenticidade de Deus, ao lugar atribuído na hierarquia espiritual aos diferentes espíritos, etc., mas se Deus ou esses espíritos chegam a existir, ou jamais existiram.»

(…)

« Precisamos de uma história dos fenômenos e não apenas mais fenômenos históricos.»

(…)

« Vivemos num mundo secular. Para adaptar-se a este mundo a criança renuncia ao seu êxtase. (“L’enfant abdique son extase”, Mallarmé).»

(…)

[Na loucura] « A perda do ego pode ser confundida com a morte física.»

(…)

« ¿Não vemos que não é desta viagem que precisamos curar-nos, mas que ela é, em si mesma, um meio natural de curar o nosso espantoso estado de alienação chamado normalidade?»

(…)

« Seria desejável que a sociedade estabelecesse locais com a finalidade expressa de ajudar pessoas a vencerem as tempestades de uma viagem assim.»

 

Do livro A Política da Experiência e A Ave do Paraíso, de R. D. Laing.

Anos atrás, após ter lido esse livro, aproveitei-me de uma experiência pessoal e escrevi o conto Genus irritabile vatum. ;^D

10:20 amVintila Horia fala sobre a psicanálise

Vintila Horia

« É evidente que a psicologia, sobretudo a freudiana — e Jung pressentiu-o logo desde o primeiro encontro com Freud — se transformou, com o tempo, numa filosofia, no sentido mais vulgar do termo. O homem para quem “Deus morreu”, como reza o desespero contemporâneo, tem que se refugiar numa algaravia. E aquele que não se quer politizar, ou vender a alma ao diabo, põe-se a acreditar na psicanálise ou nos seus sacerdotes. É todo um culto laico, engendrado por um profeta do século XX, de cuja propaganda se encarregaram, pelo menos ao princípio, as mulheres, como acontece na fase inicial de todas as religiões.»

Vintila Horia, em Viagem aos Centros da Terra.

9:09 amJulius Evola fala sobre os anjos caídos e a origem da tradição hermética

Evola

« Uma tradição, contada por Tertuliano, e que aparece no hermetismo árabe-sírio, leva-nos de novo ao mesmo ponto. Diz Tertuliano que as obras da natureza, “malditas e inúteis”; os segredos dos metais; as virtudes das plantas; as forças dos esconjuros mágicos e de “todas aquelas estranhas doutrinas que vão até à ciência dos astros” — quer dizer, todo o corpus das antigas ciências mágico-herméticas — foram reveladas aos homens por Anjos caídos. Esta idéia aparece no Livro de Enoch; e, no contexto desta tradição mais antiga, a ideia completa-se, traindo assim a unilateralidade própria da interpretação religiosa. Entre os Ben Elosim, os anjos caídos que desceram sobre o monte Hérmon, de que se fala em Enoch, e a estirpe dos Veladores e dos Vigilantes — εγρεγοροι (lê-se egregoroi) — que desceram a instruir a humanidade, do mesmo modo que Prometeu “ensinou aos mortais todas as artes”, referido também no Livro dos Jubileus como faz notar Mereshkowskij, existe uma evidente correspondência. Mais ainda: em Enoch (LXIX, 6-7), Azazel, que “seduziu Eva”, teria ensinado aos homens o uso das armas que matam, o que, deixando de parte a metáfora, significa que teria infundido nos homens o espírito guerreiro. Já se sabe, neste sentido, qual é o mito da queda: os anjos incendiaram-se de desejo pelas “mulheres”; pois bem, já explicamos o que significa a “mulher” na sua relação com a árvore, e a nossa interpretação confirma-se se examinarmos o termo sânscrito çakti, que se emprega metafisicamente para referir-se à “mulher de deus”, à sua “esposa”, e ao mesmo tempo à sua potência (vigor sexual) e, em conjunto, caíram, desceram à terra, sobre um lugar elevado (o monte Hérmon): desta união nasceram os Nefelin, uma poderosa raça (os titãs — Τιτάνες — como são chamados no Papiro de Giszé), alegoricamente descritos como gigantes, mas cuja natureza sobrenatural fica a descoberto no Livro de Enoch (XV, 11): “Não necessitam de comida, não têm sede e escapam à percepção [material]”.

« Os Nefelin, anjos caídos, são afinal os “titãs” e “os que vigiam”, a estirpe chamada, no Livro de Baruch (III, 26), “gloriosa e guerreira”, a mesma raça que despertou nos homens o espírito dos heróis e dos guerreiros, que inventou as suas artes e que lhes transmitiu o mistério da magia.

« Ora bem, que prova pode ser mais decisiva, no que respeita à investigação, acerca do espírito da tradição hermético-alquímica, que a explícita e contínua referência dos textos precisamente àquela tradição? Podemos ler num texto hermético: “Os livros antigos e divinos — diz Hermes — ensinam que certos anjos se incendiaram de desejos pelas mulheres. Desceram à Terra e ensinaram-lhes todas as operações da Natureza. Foram eles que compuseram as obras [herméticas] e é deles que provém a tradição primordial desta Arte”.»

Do livro A Tradição Hermética, de Julius de Evola.

Qualquer semelhança entre esses “anjos caídos” e o séquito do Príncipe Planetário, entre este e Azazel, entre os Nefelin e os Seres Intermediários Primários — etc. etc. — não há de ser mera coincidência…

12:10 pmPensamentos memoráveis no romance Eumeswil, de Ernst Jünger

junger

Do romance Eumeswil (1977), de Ernst Jünger, 454 páginas:

« Onde a vida se apresenta sem véus, como na nudez, no rapto e nos antigos sacrifícios, paga-se em sangue e ouro. Que o ouro é melhor, o homem sabe e a mulher melhor ainda; e este saber sobreviverá aos Estados, por muitos que sejam os que desmoronem ou floresçam.

« Tirar o ouro dos indivíduos, negar-lhes o direito a ele, eis o que tentam os Estados, enquanto o indivíduo procura escondê-lo de suas vistas. Querem “o melhor para ele”… por isso lhe tiram seu ouro e o armazenam em cofres e pagam com papel, cujo valor diminui a cada dia.

« Quanto mais domesticado é o homem, mais se deixa enganar por qualquer mentira. Mas o ouro é digno de fé. Tem seu valor em si, nele não há engodo. Esta realidade é patente entre nós; é uma das vantagens de Eumeswil.»

(…)

« Permito-me repetir que prefiro a história da cultura à dos Estados. Com aquela começa e acaba a humanidade. Portanto, concedo também maior importância à história da corte, inclusive seus amores e intrigas do que à história política e dos partidos. A história é feita pelos homens e, no máximo, regulada pelas leis; daí sua inesgotável capacidade de surpresas

(…)

« O cuidado com que o Domo utiliza a linguagem contrasta de modo estranho com o desalinho costumeiro em Eumeswil. Só se escutam frases desgastadas, de contornos imprecisos como as moedas do mendigo — e, naturalmente, mais nos lábios de universitários que no porto e no mercado. Nem sempre foi assim: os camponeses, os artesãos, os caçadores, os soldados, os velhacos sempre souberam utilizar imagens fortes.

« A “popularização” acabou com tudo isto. Para tanto contribuíram eumenistas do talento de um Sperling e um Kessmuller. O objetivo era acabar com a linguagem elevada. “O estilo é o homem”… era preciso acabar com isto; era preciso impedir que se reconhecesse a classe espiritual de um homem pelo seu modo de falar. Surgiu aqui uma vulgarização da linguagem, que já não era própria nem dos de cima nem dos de baixo.

« Na verdade, nem todos os cálculos deram certo. Inclusive nas épocas em que desaparecem os bons marceneiros, um bom armário ou um simples tabuleiro bem-feito se destacam do resto. Igualmente, quando as elites são raras ou estão reduzidas a indivíduos isolados, as palavras claras, precisas, sólidas convencem o homem sem cultura — precisamente este, o não-deformado pela cultura. Ele pressente — e isto o tranqüiliza — que o poderoso, apesar de sua força, reconhece regras e leis. Caesar non supra grammaticos. Um consolo para épocas decadentes.»

(…)

« A tortura do historiador e sua transformação em anarca vem da convicção de que não se pode eliminar o cadáver e que sempre haverá novos enxames de abutres e moscas pressurosos ao seu redor… isto é, o pensamento de que, consideradas as coisas em seu conjunto, o mundo é imperfeito e deve ter havido desde o princípio algum erro de planejamento

(…)

« Rosner é um materialista da mais pura cepa e, como tal, inteligente demais para ser darwinista. Poderia ser considerado seguidor de certos neovitalitas.»

(…)

« O contemporâneo só tem capacidade para configurar fatos. É contado como voto, como contribuinte e assalariado, como espécie que sobrevive nos arquivos dos registros civis e nos ministérios. Sua memória desce à sepultura junto com seus netos.

« A capacidade de configurar anedotas é mais poderosa, é fecunda em história. Nela se condensa o gênero com seus caracteres próprios; fixa-se durante séculos. Pelo cristal se conhece uma montanha e, pela moeda, um metal. Aqui não existe um privilégio de papas e imperadores: um monge, um camponês, um bufão podem fazê-lo com maior eficácia.

« A capacidade de configurar mitos é, em contrapartida, a-histórica, não está submetida a uma origem e uma evolução; repercute de maneira incalculável e imprevisível sobre a história. Não pertence ao tempo, e sim o cria.

« É por isso que em épocas de declínio em que a substância histórica está esgotada e já nem sequer consegue garantir a ordem zoológica da espécie, sempre se lhe viu indissoluvelmente acoplada uma expectativa surda e inexpressa. A teologia desaparece sob a areia, cede lugar à teognose: já não se quer saber nada mais sobre os deuses; quer-se vê-los.»

(…)

« Em todo caso, o primeiro Estado Mundial teria sido inimaginável sem a repercussão niveladora da técnica, e mais concretamente da eletrônica… também poderia dizer-se (mais uma vez como Bruno) que “foi subproduto”. Vigo, que tem pela técnica uma antipatia visceral, concorda plenamente.»

(…)

« O tirano será substituído pelo demagogo. O demagogo conduz o timão através do sistema de realizar plebiscitos quando bem lhe aprouver. A arte está no modo de formular a pergunta; se este ponto for bem resolvido, a resposta será esmagadoramente afirmativa, não só em virtude do número, como também em virtude da uniformização espiritual, que chegará até as elites

(…) Continua…

12:11 pmA verdade sobre o processo de Galileu Galilei

Documentário procura esclarecer que nunca houve um conflito entre fé e ciência no caso Galileu Galilei. Na verdade, o que houve foi um choque entre os estudos apresentados por Galileu e certos aspectos da visão de mundo pagã — que permaneciam em voga na época — além de, o que foi ainda mais determinante, picuinhas puramente pessoais com seu amigo, o Papa Urbano VIII…

7:17 pmObsessões de Hilda Hilst

Hilda Hilst

« …escrever será um ato de, digamos, caridade, para consolar o ser humano de ser o que é? Ou escrever não tem sentido?»

« …a anedota que Paulo Mendes Campos me contou: um ser perfeito, lindíssimo, civilizadíssimo, desceu de um disco voador e o terráqueo, embasbacado, pergunta: “ah, vocês evoluíram assim foi depois do caos, é?” “É”, respondeu o outro, “surgiu lá no nosso planeta um homem chamado Jesus, que pregava o amor ao próximo e até aos inimigos”. O habitante da Terra observou: “é, aqui também, e nós o crucificamos”. O extraterrestre achou inacreditável: “cru-ci-fi-ca-ram?!” Pois no planeta dele tinham seguido Jesus e por isso tinham se tornado perfeitos todos os habitantes de lá…»

« Sinto que nós estamos naquela região das trevas, no vértice supremo das trevas, da maldade, da ignorância que o hinduísmo chama de Kali yuga. Acho que nos estamos aproximando celeremente de um desfecho apavorante, sem retorno.»

« Uma pessoa que tiver essa hiperlucidez de se compreender livre em um mundo esquizofrênico poderá sobreviver a essa iluminação interior ameaçadora?»

« Me parece que Deus não é omnipotente. Acho que Ele está irremediável e definitivamente sozinho. Deus está na escuridão, o próprio Deus luta, procura, quer que alguém Lhe estenda a mão, O ajude.»

Hilda Hilst (1930 – 2004), durante uma entrevista.

(Infelizmente, em meu bloco de anotações não consta a fonte.)