Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Religião (Página 1 de 15)

A FIFA e o Islã

Se a FIFA realmente aceitar as reivindicações dos muçulmanos e proibir as comemorações de cunho cristão em campo — sinal da cruz, faixas e camisetas com o nome de Jesus, etc. –, então descobriremos quais jogadores são de fato HERÓIS e GUERREIROS, e quais são apenas bundões muito bem pagos.

Enquanto isso, em Miami… (conto)

Mal entrou no X Club, badalada casa noturna da Eleventh Street, em Miami, André Jorge, o mais novo galã das novelas globais, dirigiu-se ao balcão e pediu um uísque com energético. Feliz com sua nova aquisição, só pensava em comemorar. Chegara naquela tarde de Orlando, onde assinara o contrato de sua nova propriedade: uma mansão de quatro suítes e três pisos no condomínio Magic Village Resort. Após quase quatro horas de viagem num carro alugado, ali estava ele, cartão magnético do hotel no bolso, pronto para a caça. Cansado do assédio constante que sofria no Brasil — em geral, um assédio promovido por quem não lhe interessava —, na Flórida poderia se desvencilhar facilmente das raras brasileiras que por ventura lhe cruzassem o caminho, o que, para um pretenso alívio da sua vaidade, o faria sentir-se novamente uma pessoa normal. Sim, ele também sentia muita falta da difícil arte da sedução, aquela arte à qual, ‘confidenciava’ nas entrevistas, tanto se dedicara antes do estrelato. Mulher fácil, repetia aos colegas do Projac, não era com ele.

— It’s today! — gritou ele, copo na mão, traduzindo ao inglês uma expressão idiomática brasileira que não fez o menor sentido para quem estava à sua volta.

André Jorge era um homem bonito, másculo, simpático e seu olhar sedutor, do alto de seus trinta e dois anos, fazia as fãs brasileiras se atirarem aos seus pés. Tendo tantas vantagens naturais, colocou seus atributos masculinos em ação. Infelizmente, após meia-dúzia de tentativas frustradas, percebeu que, nos Estados Unidos, seu parco domínio do inglês tornara-se um súbito entrave aos seus planos. Ora, flertar em inglês não era tão fácil quanto pedir um prato num restaurante ou um quarto num hotel! Por mais que preferisse trabalhar arduamente para levar uma mulher para a cama, nada conseguiria se continuasse tartamudeando feito um inseguro nerd. Sem dizer que aquelas mulheres do club, pelo jeito, não eram dotadas de nenhum espírito de baile funk, no qual uma mera encoxada já fazia as vezes de uma conversa envolvente. Decidiu, pois, que teria mais sucesso abordando mulheres latinas com seu portunhol recentemente desenvolvido em Madrid. Sim, desenvolvido tal como apregoou, embora o famoso ator o tenha negado, o site O Fuxico: mediante a assistência de prostitutas hispano-americanas residentes na Espanha… Durante as gravações naquela capital dos capítulos iniciais de sua última novela, adotou, sem o saber, a técnica de aprendizado de idiomas do explorador inglês Sir Richard Francis Burton: um mês utilizando a língua num bordel.

— Hola! — disse ele para uma linda morena, metida num vestido colante revelador, que acabara de pedir um Apple martini. — Hablas español?

Ela o olhou de cima a baixo, e então sorriu: — Sí, claro.

— Puedes decirme cuales son los mejores drinks acá?

— Pero si ya estás bebiendo! — contestou a gata de olhos grandes e lábios fartos.

De fato, ele já estava bebendo. Mas dissera a primeira coisa que lhe viera à mente. Riu meio sem jeito e foi direto ao ponto: — Queres bailar conmigo un rato?

— Qué pasa, cariño? Ese huevón te está molestando? — disse um sujeito enorme, surgido repentinamente do meio da multidão, que se achegou à linda garota e a abraçou pela cintura.

Ela riu: — No. Solo me preguntaba sobre los drinks.

O homem se inclinou na direção do ator global e rosnou: — Oiga! No moleste mi novia solo porque ella es famosa! Queremos privacidad!

André Jorge já ia dizendo que também era uma celebridade, ao menos no Brasil, mas o casal, de mãos dadas, desapareceu em meio à efervescência da pista de dança. Aquilo o irritou profundamente… Virou pois o copo, tragando a bebida num único gole, e decidiu que o melhor a fazer era mesmo dançar. Dirigiu-se, pois, à pista de dança e tentou, em meio à espremeção geral, dar vazão à sua dança do acasalamento versão “música eletrônica”. Claro, sendo apenas “mais um entre muitos”, permaneceu no seu papel de incógnito solitário a atrair, no máximo, sorrisos de desdém ou até mesmo de escárnio, afinal, danças ridículas só fazem sucesso entre amigos e fãs. Mas ele, álcool na cachola, persistiu e, a certa altura, avistou outra bela morena, olhos amendoados, seios enormes, longas pernas, a qual, com um olhar estranhamente acanhado, vinha abrindo passo em meio à algazarra. Ele se deixou enfeitiçar por aquela beldade e, sem se dar conta, estacou enquanto ela cruzava sua frente. Então, de repente, alguém se chocou contra suas costas e o empurrou na direção da moça, que, de olhos arregalados, tentou recuar: tarde demais. O encontrão foi tão violento que ele quase a derrubou! Segurando-a pelos braços, pediu desculpas em espanhol, mas ela retrucou, enfastiada: “I’m don’t speak spanish, asshole! I speak only a little english”. E, aparentemente ofendida por ser confundida com uma latina, se desvencilhou dele, tencionando seguir seu caminho. Nesse momento, ele não pôde evitar uma espiada naqueles incríveis seios, mas o que viu o assustou: havia agora uma pequena mancha de sangue na parte inferior do seio direito. O vestido branco, extremamente colado, não deixava dúvidas: ele a havia ferido. Quis avisá-la, mas ela não lhe fez caso e prosseguiu seu caminho até o outro lado da pista. Talvez fosse brasileira, já que não falava espanhol, senão apenas “um pouco de inglês”. Brasileiras… Que se dane, pensou. André Jorge logo decidiu que era hora de voltar ao hotel. Estava cansado daquilo, não era um lobo solitário e já começava a sentir saudade de algo indefinível. Sorridente, fez então um selfie — precisava informar a seus seguidores do Instagram que sua vida era uma maravilha — e se dirigiu à saída. Antes de lá chegar, porém, ao passar novamente pelo balcão do bar, deparou-se com a loira mais deslumbrante que jamais vira na vida: e ela lhe sorriu! Num impulso, o ator soltou um tímido “hi”.

— Hola! — disse ela, o sorriso mais belo do mundo. — Eres brasileño, no es cierto?

— Sí — respondeu ele, surpreso.

— Creo que te he visto en una novela cuando estuve en Rio.

Salvo pela fama, cheio de alívio, entabulou uma agradável conversa na qual descobriu que aquela linda mulher era a mais famosa apresentadora de TV da Colômbia. Ela inclusive já havia entrevistado, em seu talk show, a atriz global que interpretara, na novela de estréia de André Jorge, o seu par romântico. E a colombiana começou a lhe apontar diversas outras celebridades latinas ali presentes: uma atriz mexicana, um âncora de telejornal argentino, uma cantora equatoriana, uma socialite chilena, dois atores venezuelanos e assim por diante. A linda garota, a quem havia abordado minutos antes, aquela do namorado brutamontes, não era senão a mais nova cantora celebridade do México, a qual, agora, iniciava uma promissora carreira de atriz nos Estados Unidos.

— Increíble — repetia ele.

E a apresentadora colombiana o convenceu a acompanhá-la até sua mesa, onde André Jorge conheceu mais meia-dúzia de famosos hispano-americanos. A conversa teve como mote, de início, esse irônico fato de haver tantas celebridades presentes que mal conheciam umas às outras. “E que os americanos não fazem a menor idéia de que sejam famosos em seus países”, acrescentou alguém. Depois falaram de suas casas na Flórida, de como era mil vezes melhor morar num país onde havia liberdade de ir e vir sem serem atormentados constantemente pelos fãs, e assim por diante. Uma atriz equatoriana, ademais, era vizinha do Sílvio Santos em Orlando e, apesar de saber que se tratava de um brasileiro rico e famoso, não tinha a menor idéia de quem ele era ou o que fazia.

— Que verga! — exclamou ela. — Una celebridad desde los años 1960!

Em seguida, falaram de como era muito mais seguro viver nos Estados Unidos, longe dos crimes horríveis e da eterna corrupção que assolam a América Latina. Dois dos presentes logo narraram os episódios em que, cada qual em seu país, haviam sido sequestrados, permanecendo em cativeiro vários dias, até que, num caso, o resgate foi pago e, no outro, os bandidos foram mortos pela polícia. O próprio André Jorge já havia sido vítima de um sequestro relâmpago no Rio de Janeiro, mas nada comentou a respeito porque, não apenas sua aventura havia sido inferior àquelas duas narradas, mas também nem sequer era famoso na época do ocorrido. A conclusão daquele assunto, enfim, era a verdade pungente de que a América Latina continuava desgovernada e cruel, e de que não havia melhor saída do que a clássica saída do aeroporto.

— Me voy una vez cada semana para mi país y despues vuelvo corriendo! — finalizou um ator colombiano, ao que lhe replicou um venezuelano que, no seu caso, nem sequer voltava mais para a Venezuela, afinal, seu país era agora um país socialista mergulhado no caos e todos os cidadãos que tinham condições e meios já se haviam exilado.

— Que buena nota es Estados Unidos, no? Todavía somos libres acá — comentou a equatoriana, toda sorridente.

Depois de algumas enfáticas concordâncias, a bela apresentadora colombiana, com ar sombrio, disse: — Sí, pero los americanos son estúpidos! Eligieron Trump!

E então iniciou-se uma série de longas asserções onde cada qual, inclusive o ator brasileiro, expressou seu espanto diante do resultado das eleições americanas e sua incapacidade de compreender como um povo tão próspero era capaz de eleger um louco como Donald Trump.

— Luego ya no podremos vivir acá! Trump odia a los inmigrantes.

E esse tema se prolongou tanto — recheado de tantas previsões de catástrofes que o novo presidente americano certamente causaria — que André Jorge, que falava apenas portunhol, começou a perder o fio da meada, já que todos, eufóricos de tanta indignação, passaram a falar o espanhol demasiado rápido para seus ouvidos brasileiros. E ele se distraiu. E, distraído, deixou o olhar vagar pelo club. Observou as pessoas na pista, dançando ao ritmo da música eletrônica, as pessoas mais ao longe, no balcão do bar, aqueles que, como ele e seus colegas famosos, estavam sentados nas mesas dos camarotes e então… Sim, cruzou olhares com a beldade, a mesma que se irritou ao ser confundida com uma latino-americana! Que linda ela era! E estava sentada apenas três mesas adiante acompanhada por outra garota tão bonita quanto ela. Curiosamente, pareciam tensas, irritadas, deslocadas. Talvez já tivessem se dado conta de que ele a machucara. Era bem provável que, tal como acontecera meses atrás com uma colega do Projac — uma atriz recém saída da adolescência — ele, ao chocar-se contra ela, tenha rompido os pontos de uma cirurgia para implantes de silicone mal feita. Sentindo-se culpado, decidiu ir pedir-lhe desculpas e, talvez, caso ela necessitasse, oferecer a devida reparação financeira. Vai que realmente se tratava de uma brasileira, pensou. Pediu, pois, licença aos novos amigos — já tinha o WhatsApp de todos (fariam muitas festas em Orlando) — e se dirigiu à mesa da morena, que, ao notar sua aproximação, pareceu ficar ainda mais aflita. Quando ele já estava abrindo a boca para lhe dirigir a palavra, ela sussurrou qualquer coisa para a amiga e, numa pressa nervosa, levantou-se e se retirou, metendo-se rapidamente entre os dançantes da pista. A moça que permaneceu na mesa o encarou, muito séria, e retirou um celular da bolsa. Ele a ignorou e saiu no encalço da primeira, a qual, provavelmente por acreditar ser ele um tipo qualquer de stalker, devia estar à procura de um segurança. André Jorge, porém, sentido-se seguro de si — afinal encontrara “sua turma” e voltara a ter consciência de quem ele era — não se fez de rogado e a perseguiu até o meio da pista, quando ela então estacou de costas para ele.

— Excuse me, miss — disse ele amavelmente, tocando-a de leve no braço.

Ela se virou, brusca, os olhos arregalados, uma expressão ao mesmo tempo decidida e cheia de espanto: encarando-o, ela ergueu o celular na mão direita. Ao mesmo tempo, André Jorge ouviu um grito vindo da mesa que acabara de deixar: — Allahu Akbar!!! Allahu Akbar!!! A garota que ele seguia repetiu o grito: — Allahu Akbar!!! Allahu Akbar!!! — e imediatamente apertou uma tecla do celular: as duas enormes explosões foram praticamente simultâneas. Havia trezentas e vinte e duas pessoas naquele club de Miami. Sessenta e três morreram instantaneamente. Outras sete morreram mais tarde no hospital ou a caminho dele. Setenta ficaram feridas. De fato, soube-se mais tarde, quando o vídeo das duas terroristas tornou-se público, que André Jorge tinha razão: não apenas a primeira, mas ambas haviam feito cirurgias para aumentar os seios. Contudo, em vez de silicone, haviam implantado o famigerado explosivo C-4, o qual fora detonado via bluetooth mediante um singelo aplicativo de celular. O próximo papel de André Jorge, na Globo, teria sido o de Riobaldo, numa nova adaptação do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Foi por isso que a revista Época, em sua capa, na qual falava desse atentado e da morte do ator, usara como manchete a frase do mais famoso jagunço da literatura brasileira: “Viver é muito perigoso”.

Mário Ferreira dos Santos: as virtudes

“Chamam-se virtudes todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer pessoalmente, quer coletivamente.

É esse o conceito de virtude (de vir, homem). É a potência racional que inclina o homem à prática de operações honestas, tendentes para o bem.

Pode-se, assim, falar de virtudes morais e virtudes intelectuais. As que tendem para o bem honesto são morais, as que tendem para a verdade são as intelectuais. A caridade é uma virtude moral. As virtudes intelectuais, também chamadas especulativas, são a sabedoria, a ciência, etc.”


VIRTUDES CARDEAIS

“A palavra cardeal vem de cardo, cardinis, que, em latim, significa gonzo, em torno do qual gira a porta. As virtude cardeais são as virtudes fundamentais em torno das quais gira o ser humano. Toda virtude é uma capacidade ou aptidão para levar avante ações adequadas ao homem. Entre as virtudes adquiridas pelo homem, estabelecem-se quatro, que são fundamentais, ou capitais, às quais estão subordinadas outras, que são acessórias, ou subordinadas. Desde a antiguidade, classificou-se como virtudes cardeais: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.

A prudência é aquela virtude que permite ao entendimento reflexionar sobre os meios conducentes a um fim racional. A prudência manifesta-se, assim, de vários modos. É uma virtude intelectual. Por si só ela não é realizadora de atos morais, mas, por facilitar a escolha, ela pode guiar a vontade, a fim de que esta se dirija, após a seleção feita pelo entendimento, para aqueles fins mais benéficos ao homem. Há uma prudência (sapiência) para conduzir a si mesmo e para conduzir os outros. A prudência exige: reflexão, capacidade atencional, para examinar os juízos e as idéias, e acuidade, para descobrir os meios mais hábeis. Exige, ademais, inteligência, capacidade de resolver com clareza e segurança, de modo a alcançar as melhores soluções.

A segunda virtude é a fortaleza ou valentia. Consiste esta na capacidade de enfrentar os perigos que se oferecem à obtenção dos bens mais elevados, e entre estes perigos, os males e a morte. Chama-se heroísmo a fortaleza quando enfrenta até a morte. Medo é o estado emocional que detém o ser humano ante o perigo. A fortaleza é uma vitória sobre o medo. A audácia é um desafio ao risco e à morte, indo-lhes ao encontro. É ela uma virtude, quando refreada. Os meios de fortalecimento da fortaleza são o exercício, que consiste em enfrentar os riscos e a perseveração na obtenção dos fins. Como as virtudes cardeais conjugam-se, a fortaleza recebe apoio e equilíbrio da prudência, pois, pelo saber, pode o homem empregar esta virtude em termos que lhe sejam mais benéficos possíveis.

A paciência é uma virtude subordinada à fortaleza, e consiste na capacidade constante de suportar as adversidades. Também o é, a generosidade, que é aquela virtude que se caracteriza pela energia e decisão no ataque do homem de brio e de valentia, sobretudo quando ele enfrenta a morte. São ainda virtudes afins à fortaleza, a confiança na sua capacidade de enfrentar os riscos, a munificência, que constitui a pronta decisão de sacrificar seus próprios bens para atingir fins elevados, a tenacidade, que é a disposição firme de enfrentar os obstáculos exteriores, e a constância, que é saber manter-se firme ante os obstáculos interiores.

A terceira virtude cardeal é a temperança. Esta consiste em aperfeiçoar, constantemente, a potência petitiva, sensitiva, de modo a conter o prazer sensitivo dentro dos limites estabelecidos da sã razão. Assim, a moderação é a temperança no comer, a sobriedade, no beber, a castidade, no prazer sexual.

Há virtudes outras auxiliares da temperança, como seja o decoro no modo de vestir e proceder, e o sentimento de honra, a humildade, que é a moderação na tendência a salientar-se, a mansidão, que é a temperança em refrear a ira, a clemência, que se manifesta na indulgência ao castigar, e a modéstia, que é a temperança nas manifestações exteriores.

A quarta é a justiça. Consiste ela na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém ou a alguma coisa.

O domínio da justiça permite o equilíbrio da moderação, da temperança, da fortaleza e da própria prudência. Essas quatro virtudes cardeais, que lhes são acessórias, ou subordinadas, nos limites marcados pela interatuação de umas sobre as outras, permitem formar o homem dentro dos mais altos valores. São assim as virtudes cardeais fundamentais, não só para a ordem social, como para a pessoal, pois não pode haver homens sãos nem sociedades sãs, onde a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança não estejam presentes. Todo trabalho pedagógico tem de se fundamentar, primacialmente, na preparação de seres humanos para que adquiram, pelos meios mais aptos e eficientes, estas quatro virtudes, infelizmente tão pouco estudadas pelos modernos, que as esquecem e não lhes dão o valor que elas realmente têm.

Distinguem-se as virtudes cardeais das virtudes teologais, no seguinte: as primeiras são adquiridas e fortalecidas pelo hábito; as segundas, ou nascemos com elas ou não, porque nem a fé, nem a esperança, nem a caridade as obtemos pelo exercício dos hábitos, mas, ou elas moram em nós mesmos, ou não moram.”


VIRTUDES TEOLOGAIS

“Assim como há virtudes cardeais, adquiridas pelo hábito constante, há virtudes que nos parecem espontâneas, que não são produtos de um hábito humano, como sejam a fé, a esperança e a caridade.

Na Ética religiosa, essas três virtudes são chamadas de teologais, porque não são elas produtos de um hábito, pois o homem não as adquire através do seu próprio esforço.

A é o assentimento do intelecto que crê, com constância e certeza, em alguma coisa. A prudência, podemos adquiri-la, a pouco a pouco, como podemos adquirir a fortaleza e alcançar, pelo nosso esforço, a justiça e a moderação, mas, para crer com constância e certeza em alguma coisa, não basta o nosso querer, é preciso que esse assentimento do nosso intelecto se dê espontaneamente. Ninguém gesta dentro de si a fé; ou a tem, ou não. Ou com ela nascemos, ou subitamente ela aflora em nós, sem necessidade de termos dirigido para ela, conscientemente, qualquer de nossos esforços.

A esperança é a expectação de algo superior e perfeito. Tem esperança aquele que aguarda algo de maior, de melhor, de mais perfeito, que venha a suceder.

A esperança não é o produto de nossa vontade, mas de uma espontaneidade, cujas raízes nos escapam, porque não é ela genuinamente uma manifestação do homem, mas algo que se manifesta pelo homem, porque não encontramos na estrutura da nossa vida biológica, nem da nossa vida intelectual, uma razão que a explique.

A caridade é a mãe de todas as virtudes como diziam os antigos, e diziam-no com razão; é a raiz de todas as virtudes, porque ela é a bondade suprema para consigo mesmo, para com os outros, para com o Ser Infinito. A caridade, assim, supera a nossa natureza, porque, graças a ela, o homem avança além de si mesmo, além das suas exigências biológicas. É essa a razão porque, na Religião, essas três virtudes, que Cristo nos apontou, são consideradas como vindas de uma raiz mais longínqua.

A palavra de Cristo é clara. A fé, a esperança e a caridade são aquelas virtudes pelas quais o homem supera a si mesmo, pelas quais o homem tange a suprema perfeição. Todas as tentativas de explicar essas virtudes, com origem nos fatores emergentes e predisponentes, malograram até aqui. Elas não são o produto de uma prática, porque pode o homem praticar a caridade, sem tê-la no coração; pode o homem exibir uma crença firme, sem alimentá-la no seu âmago; pode o homem tentar revelar aos outros que é animado pela esperança, sem ressoar ela em sua consciência. Assim, podem praticar-se atos de fé, atos de esperança e atos de caridade, e estar-se ainda muito distante dessas três virtudes.

Não basta desejar adquiri-las; é preciso tê-las. A ciência é um hábito, como um hábito são também as outras virtudes, mas, sem a presença dessas três, aquelas esmaecem e se apagam. O verdadeiro homem religioso e virtuoso afana-se em adquirir as virtudes cardeais, mas humildemente espera que nele se fortaleçam as três virtudes teologais.

E nesta humilde espera está em grande parte a sua grandeza.”

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Santos, Mário Ferreira. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. São Paulo: Ed. Matese, 1963. Vols 1,4. (págs 1271-1272: “Virtude” e “Virtudes Teologais”; págs 233-235: “Cardiais”).

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10 anos: parece que foi ontem

Em 2006, publiquei cerca de dez horas de entrevista (em áudio) com Olavo de Carvalho, sua primeira aparição no YouTube. Eu procurava, procurava, procurava e não encontrava nada sobre ele ali. ¿Como era possível? ¿Depois de Olavo ter escrito todos aqueles livros?! Absurdo. Então lhe fiz a proposta e ele a aceitou. Nas gravações, a atualidade de tudo o que ele diz é espantosa. Desde então, graças ao movimento revolucionário, o Brasil permaneceu completamente atolado. Ou melhor: afundou mais.

Quem não ouviu essa conversa — que acabou dando origem ao programa True Outspeak — não sabe o que está perdendo…

Caso alguém queira baixar os arquivos MP3, clique aqui.

Ouça a entrevista completa abaixo:

Albert Camus: Niilismo e História

albert camus

« Cento e cinquenta anos de revolta metafísica e de niilismo viram reaparecer, sob máscaras diferentes, mas com obstinação, o mesmo rosto devastado — o do protesto humano. Todos, sublevados contra a condição e contra o seu Criador, têm afirmado a solidão da criatura e o nada de toda a moral. Mas todos, ao mesmo tempo, procuraram construir um reino puramente terrestre em que reinasse a regra por eles escolhida. Rivais do Criador, foram logicamente conduzidos a refazer por si próprios a criação. Aqueles que, pelo mundo que acabavam de criar, recusaram outra regra que não fosse a do desejo ou a do poder, precipitaram-se no suicídio ou na loucura e cantaram o apocalipse. Quanto aos outros, que pretenderam criar as suas regras por meio das próprias forças, escolheram uma parada vã: o parecer ou a banalidade, ou ainda o assassínio e a destruição. Mas Sade e os românticos, Karamazov ou Nietzsche só penetraram no mundo da morte porque desejaram a verdadeira vida. E com tanto empenho que, por efeito inverso, foi o apelo desesperado à regra, à ordem e à moral que ressoou neste universo louco. As suas conclusões só foram nefastas ou liberticidas a partir do momento em que eles se desembaraçaram do fardo da revolta, fugiram à tensão que ela pressupõe e escolheram o conforto da tirania ou da servidão.

« A insurreição humana, nas suas formas elevadas e trágicas, não é nem pode ser mais do que um longo protesto contra a morte, uma acusação enraivecida contra essa condição regida pela pena de morte generalizada. Em todos os casos que se nos têm deparado, todas as vezes o protesto se dirige a quanto na criação é dissonância, opacidade, solução de continuidade.Trata-se, pois, essencialmente, de uma interminável reivindicação de unidade. A recusa à morte, o desejo de duração e de transparência são as molas reais de todas essas sublimes ou pueris loucuras. Tratar-se-á simplesmente de uma recusa covarde e pessoal ao ato de morrer? Não, pois muitos desses rebeldes pagaram o que era preciso para se alcandorarem à altura da sua exigência. O revoltado não reclama a vida, mas as razões da vida. Recusa a consequência trazida pela morte. Se coisa alguma dura, nada se justifica; o que morre é falho de sentido. Lutar contra a morte equivale a reivindicar o significado da vida, a combater pela regra e pela unidade.

« O protesto contra o mal que reside mesmo no coração da revolta metafísica é, neste caso, significativo. Não é o sofrimento da criança que se deve considerar revoltante em si próprio, mas o fato de tal sofrimento não ser justificado. No fim das contas, a dor, o exílio, a claustração são por vezes aceites quando a medicina ou o bom senso no-los impõem. Aos olhos do revoltado, o que falta à dor neste mundo, como aos instantes de felicidade, é um princípio de explicação. A insurreição contra o mal mantém-se em primeiro lugar como uma reivindicação de unidade. No mundo dos condenados à morte, à opacidade mortal da condição, o revoltado opõe incansavelmente a sua exigência de vida e de transparência definitivas. Procura, sem o saber, uma moral ou um sagrado. A revolta é uma ascese, embora cega. Se nessa altura o revoltado blasfema, é na esperança de encontrar o novo deus. Sente-se abalado sob o choque do primeiro e do mais profundo dos movimentos religiosos, mas trata-se de um movimento religioso frustrado. Não é a revolta em si própria que se deve ter por nobre, mas sim o que ela exige, embora aquilo que ela obtiver se haja de considerar ainda ignóbil.

« Mas, pelo menos, há que saber identificar o que ela obtém de ignóbil. Cada vez que deifica a recusa total do que existe, o não absoluto, ela mata. Cada vez que cegamente aceita o que é e proclama o sim absoluto, mata igualmente. O ódio ao Criador pode converter-se em ódio da criação ou em amor exclusivo e provocante do que existe. Mas, em ambos os casos, ela vai dar ao assassínio e perde o direito ao seu nome de revolta. Pode ser niilista de duas maneiras e, em cada uma delas, por uma intemperança do absoluto. Existem aparentemente os revoltados que querem morrer e aqueles que querem dar morte. Mas trata-se dos mesmos indivíduos, queimados pelo desejo da verdadeira vida, frustrados no ser e preferindo nessa altura a injustiça generalizada a uma justiça mutilada. Atingido este grau de indignação, a razão converte-se em fúria. Se é certo que a revolta instintiva do coração humano avança a pouco e pouco ao longo dos séculos a caminho da sua máxima consciência, também cresceu, como vimos, em cega audácia até ao momento desmesurado em que decidiu responder ao crime universal pelo assassínio metafísico.

« O mesmo se, que já reconhecemos marcar o momento capital da revolta metafísica, realiza-se em todo o caso na destruição absoluta. Já não é a revolta nem a sua nobreza que resplandecem no mundo, mas sim o niilismo. E são as suas consequências que devemos recordar sem perder de vista a verdade das suas origens. Mesmo que Deus existisse, Ivan [Karamazov] não se teria entregado a Ele, mercê da injustiça feita ao homem. Mas uma ruminação mais longa desta injustiça, uma chama mais amarga transformaram o “mesmo que tu existisses” em “tu não mereces existir” e, depois, em “tu não existes”. As vítimas procuraram a força e as razões do crime último na inocência que elas reconheciam em si próprias. Desesperando da sua imortalidade, certos da sua condenação, decidiram matar Deus. Se não corresponde à verdade afirmar que, a partir desse dia, começou a tragédia do homem contemporâneo, também não é verdade que ela acabasse nessa altura. Esse atentado marca, pelo contrário, o momento mais alto de um drama começado a partir do fim do mundo antigo e cujas últimas palavras ainda não foram pronunciadas. A partir desse momento, o homem decide eximir-se à graça e viver pelos seus próprios meios. O progresso consiste, de Sade até aos nossos dias, em dilatar cada vez mais o recinto fechado onde, segundo a sua própria regra, reinava ferozmente o homem sem Deus. Levaram cada vez mais longe as fronteiras do campo murado perante a divindade, até converterem o universo inteiro numa fortaleza contra o deus decaído e exilado. O homem, ao cabo da sua revolta, enclausurava-se; a sua grande liberdade consistia unicamente, desde o castelo trágico de Sade até ao campo de concentração, em construir a prisão dos seus crimes. Mas o estado de sítio vai-se generalizando a pouco e pouco; a reivindicação de liberdade quer abranger toda a gente. Há então que edificar o único reino que se opõe ao da graça — o da justiça — e reunir enfim a comunidade humana sobre os escombros da comunidade divina. Matar Deus e edificar uma igreja, eis o movimento constante e contraditório da revolta. A liberdade absoluta converte-se enfim numa prisão de deveres absolutos, numa ascese coletiva, numa história por acabar. O século XIX, que é o da revolta, entra assim no século XX da justiça e da moral, onde cada um se ocupa em bater no peito. Chamfort, moralista da revolta, já lhe tinha criado a fórmula: “É preciso ser-se justo antes de se ser generoso, tal como se possuem camisas antes de se terem rendas”. Assim se renunciará à moral de luxo em proveito da áspera ética dos construtores. É este convulsivo esforço em direção ao império do mundo e da regra universal que teremos agora de focar.

« Chegamos ao momento em que a revolta, repelindo toda a espécie de servidão, pretende anexar por completo a criação. Sempre que um malogro se verificava, vimos já anunciar-se a solução política e conquistadora. Doravante, apenas conservará das suas aquisições — e com o niilismo moral — a vontade de poder. Em princípio, o revoltado apenas desejava conquistar o seu próprio ser e mantê-lo à face de Deus. Mas perde a memória das suas origens e, pela lei de um imperialismo espiritual, ei-lo a caminho do império do mundo através dos crimes, multiplicados ao infinito. Expulsou Deus do seu céu, mas o espírito de revolta metafísica, unindo-se então francamente ao movimento revolucionário e à reivindicação irracional da liberdade, vai paradoxalmente eleger como arma a razão, único poder de conquista que lhe parece puramente humano. Morto Deus, restam os homens, isto é, a história que se impõe compreender e construir. O niilismo que, no seio da revolta, submerge nesta altura a força da criação, acrescenta unicamente a seguinte afirmação: podemos edificá-la lançando mão de todos os meios. Aos crimes do irracional, o homem, numa terra que ele reconhece daí em diante como solitária, vai acumular os crimes da razão a caminho do império dos homens. Ao “revolto-me”, “portanto existimos”, acrescenta, meditando prodigiosos desígnios e até a própria morte da revolta: “E encontramo-nos sós”.»

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Conclusão do segundo capítulo do livro O Homem Revoltado, de Albert Camus.

Pêro de Magalhães Gândavo e o verdadeiro nome da nossa terra

Concordo com Pero de Magalhães Gândavo: Terra de Santa Cruz é um nome melhor que Brasil. Um país com nome de produto extrativista não passa de um país com um povo venal…

” Reinando aquelle mui Catholico e Serenissimo Principe El Rey Dom Manuel, fez-se huma frota para a India, de que ia por Capitam mór Pedralvarez Cabral, que foi a segunda navegaçam que fizerão os Portuguezes para aquellas partes do Oriente. A qual partio da Cidade de Lisboa a nove de Março no anno de 1500. E sendo jà entre as IIhas do Cabo Verde, as quaes ião demandar para fazer ahi agoada, deu-lhes hum temporal, que foi causa de as nam poderem tomar, e de se apartarem alguns navios da companhia. E depois de haver bonança junta outra vez a frota, empégarão-se ao mar, assi por fugirem das calmarias de Guinè que lhes podião estorvar sua viagem, como por lhes ficar largo poderem dobrar o Cabo de Boa Esperança. E avendo jà hum mez que ião naquella volta navegando com vento prospero, forão dar na Costa desta Provincia: ao longo da qual cortárão todo aquelle dia, parecendo a todos que era alguma grande llha que ali estava sem haver piloto nem outra pessoa alguma que tivesse noticia della nem que presumisse que podia estar terra firme para aquella parte Occidental. E no logar que lhes pareceu della mais accomodado, surgirão aquella tarde, onde logo tiverão vista da gente da terra: de cuja semelhança nam ficarão pouco admirados, porque era differente da de Guiné, e fóra do comum parecer de toda outra que tinhão visto. Estando assi surtos nesta parte que digo saltou aquella noite com elles tanto tempo, que lhes foi forçado levarem as ancoras, e com aquelle vento que lhes era largo por aquelle rumo, forão correndo a costa atè chegarem a hum porto limpo, e de bom surgidouro, onde entrarão: ao qual pozeram então este nome que hoje em dia tem de Porto Seguro, por lhes dar colheita, e os assegurar do perigo da tempestade que levavão Ao outro dia seguinte sahio Pedralvarez em terra com a maior parte da gente na qual se disse logo missa cantada, e houve prégaçam: e os Indios da terra que ali se ajuntarão ouvirão tudo com muita quietaçam, usando de todos os actos e cerimonias que vião fazer aos nossos: e assi se punhão de giolhos e batião nos peitos como se tivérão lume de Fé, ou que por alguma via lhes fora revelado aquelle grande e inefabil misterio do Santissimo Sacramento, no que se mostravão claramente estarem dispostos para receberem a doctrina Christã a todo o tempo que lhes fosse denunciada como gente que nam tinham impedimento de idolos, nem professava outra Lei alguma que podesse contradizer a esta nossa, como adiante se verà no capitulo que trata de seus costumes. Então despedio logo Pedralvarez hum navio com a nova a ElRey Dom Manuel, a qual foi delle recebida com muito prazer e contentamento: e dahi por deante começou logo de mandar alguns navios a estas partes e assi se foi a terra descobrindo pouco a pouco, e conhecendo de cada vez mais, até que depois se veio toda a repartir em Capitanias e a povoar da maneira que agora está. E tornando-a Pedralvarez, seu descobridor, passado alguns dias que ali esteve fazendo sua agoada e esperando por tempo que lhe servisse, antes de se partir por deixar nome áquella Provincia, por elle novamente descoberta, mandou alçar huma cruz no mais alto lugar de uma arvore, onde foi arvorada com grande solenidade e bençãos de Sacerdotes que levava em sua companhia, dando á terra este nome de Santa Cruz: cuja festa celebrava naquelle mesmo dia a Santa Madre Egreja,que era aos tres de maio. O que nam parece carecer de Misterio, porque assi como nestes Reinos de Portugal trazem a cruz no peito por insignia da Ordem e Cavallaria de Christus, assi prouve a elle que esta terra se descobrisse a tempo que o tal nome lhe podesse ser dado neste Santo dia, pois havia de ser possuida de Portuguezes, e ficar por herança de patrimonio ao Mestrado da mesma Ordem de Christus. Por onde nam parece razam que lhe neguemos este nome, nem que nos esqueçamos delle tam indevidamente por outro que lhe deu o vulgo mal considerado, depois que o pao da tinta começou de vir a estes Reinos; ao qual chamaram brasil por ser vermelho, e ter semelhança de brasa, e daqui ficou a terra com este nome de Brasil. Mas para que nesta parte magoemos ao Demonio, que tanto trabalhou e trabalha por extinguir a memoria da Santa Cruz e desterra-la dos corarões dos homens, medeante a qual somos redimidos e livrados do poder de sua tirania, tornemos-lhe a restituir seu nome e chamemos-lhe Provincia de Santa Cruz, como em principio (que assi o amoesta tambem aquelle illustre e famoso escritor João de Barros na sua primeira Década, tratando deste mesmo descobrimento) porque na verdade mais he destimar, e melhor soa nos ouvidos da gente Christã o nome de hum pao em que se obrou o misterio de nossa redençam que o doutro que nam serve de mais que de tingir pannos ou cousas semelhantes.

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História da Província de Santa Cruz, de Pêro de Magalhães Gândavo.

Tolstói fala sobre os “grandes homens”, o bem e o mal

Liev Tolstói

Dir-se-ia que perante esta fuga doida dos Franceses, quando eles faziam tudo para se perderem a si mesmos, quando todos os seus movimentos, desde o desvio pela estrada de Kaluga até à fuga atrás do chefe do exército, eram desprovidos de qualquer bom senso, dir-se-ia que, ao menos, para este primeiro período da campanha, os historiadores, que atribuem a ação das massas à vontade de um só homem, confessassem o erro das suas teorias ao descreverem esta retirada. Montanhas de livros se escreveram sobre esta campanha e em toda a parte se encontram exaltadas as disposições tomadas por Napoleão, a argúcia dos seus planos e das suas manobras e o gênio dos seus marechais.

Explicam-nos, por uma série de profundos raciocínios, o motivo da retirada dos Franceses de Maloiaroslovets por uma estrada devastada quando se lhes deixava a passagem livre por uma região rica em abastecimentos e se lhes oferecia o caminho paralelo que seguiu posteriormente Kutuzov para os perseguir. Também se nos explica assim a retirada de Smolensk para Orcha. Em seguida traçam-nos um quadro do comportamento heróico de Napoleão em Krasnoie, onde, ao que parece, teve intenção de travar batalha e pôr-se à frente das suas tropas. E mostram-no-lo de um lado para o outro, com uma vara de olmo na mão, dizendo:

— Já estou farto de fazer de imperador, é tempo de fazer de general. — O que o não impediu, pouco depois, de prosseguir na fuga, abandonando à sua triste sorte todos os corpos de exército dispersos que o seguiam.

Descrevem-nos igualmente a bravura dos marechais, particularmente a de Ney, bravura que se limitou a operar um desvio pela floresta a fim de atravessar o Dniepre de noite e fugir na direção de Orcha, depois de perder as bandeiras, a artilharia e nove décimos dos efetivos.

Enfim, o abandono pelo grande imperador do seu heróico exército é-nos apresentado como uma grande ação e um rasgo de gênio. Até mesmo o empreendimento final da sua fuga, que em qualquer língua só pode ter um nome, a última das cobardias, ato que envergonharia uma criança, até mesmo isso encontra a sua justificação na pena dos historiadores.

Quando já lhes não é possível estenderem mais o fio elástico dos raciocínios, quando o ato é realmente contrário ao que os homens chamam o bem e a justiça, recorrem, à míngua de argumentos, à noção de grandeza. A grandeza parece excluir a possibilidade de apreciar o bem e o mal. O mal não existe para o que é grande. Quem é grande nunca poderá ser acusado de uma atrocidade.

«É grande!», dizem os historiadores, e então deixa de existir o bem e o mal, para só haver o que é grande e o que não é grande. O que é grande é o bem, o que não é grande, o mal. O grande é, segundo eles, privilégio de indivíduos especiais que recebem a classificação de heróis. Napoleão, muito bem embrulhado numa peliça, volta para casa, deixando morrer não só companheiros, mas pessoas que, assim ele o confessou, arrastara atrás de si. Para si mesmo diz: sou o grande, e a alma tranquiliza-se-lhe.

«Do sublime ao ridículo vai apenas um passo», dizia Napoleão, e o sublime era ele próprio. E de há cinquenta anos para cá o universo inteiro repete: «Sublime! Grande! Napoleão, o Grande! Do sublime ao ridículo vai apenas um passo!»

E a ninguém ocorre que confessar que a grandeza está para além do bem e do mal é como reconhecer, ao mesmo tempo, a sua inferioridade e a sua infinita pequenez. Para nós, que recebemos de Cristo a medida do bem e do mal, nada existe fora dessa medida. Não há autêntica grandeza sem espontaneidade, bondade e verdade.

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Livro 4º, Terceira Parte, Capítulo XVIII, do romance Guerra e Paz, de Liev Tolstói.

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