Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Religião (Página 1 de 16)

Stárietz Zossima: o mundo superior

Muitas coisas deste mundo nos são dissimuladas, mas em compensação Deus nos concedeu a misteriosa sensação do laço vivo que nos une ao outro mundo, o mundo celeste, superior; e, aliás, as próprias raízes dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos não estão em nós, porém em outra parte. E é por isso que os filósofos dizem que não se pode conhecer na terra a essência das coisas. Deus tomou sementes que pertenciam a outros mundos, semeou-as nesta terra e cultivou o seu jardim. O que podia germinar cresceu, mas tudo que se podia desenvolver não viveu senão graças ao sentimento do seu contato com outros mundos misteriosos; se esse sentimento enfraquece ou desaparece da tua alma, tudo o que floriu dentro de ti morrerá.

Stárietz Zossima em Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.

As crianças sempre dizem: “de novo!”

Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levante regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: “Vamos de novo”; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: “Vamos de novo”; e todas as noites à lua: “Vamos de novo”. Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um bis teatral.

G.K. Chesterton, in Ortodoxia.

Chesterton: como discutir com um oponente

Aqui, neste momento, encontra-se talvez seu [de Santo Tomás de Aquino] único momento de paixão pessoal, com exceção daquela efusão solitária durante as dificuldades da sua juventude. E mais uma vez ele está lutando contra seus inimigos com uma tocha ardente. No entanto, mesmo neste isolado apocalipse de fúria, há uma frase que poderia ser recomendada às pessoas de todos os tempos que às vezes ficam irritadas por muito menos. Se há uma frase que poderia ser esculpida em mármore para representar a racionalidade mais calma e resistente, é a frase que surgiu juntamente com todo o resto desta lava derretida. Se há uma frase que passou para a história como típica de Tomás de Aquino, é a frase sobre o seu próprio argumento: “Não se baseia em documentos da fé, mas nas razões e nas afirmações dos próprios filósofos”. Que bom teria sido se todos os doutores ortodoxos da Igreja, quando enraivecidos, tivessem sido tão razoáveis quanto Aquino! Que bom seria se todos os apologistas cristãos se lembrassem daquela máxima e a escrevessem em letras grandes na parede antes de pregar ali suas teses. No auge da sua fúria Tomás de Aquino entende o que muitos defensores da ortodoxia não conseguem entender. É inútil dizer a um ateu que é ateu; ou atirar contra um negador da imortalidade a infâmia da sua negação; ou imaginar que alguém pode forçar um adversário a admitir que está equivocado demonstrando que está equivocado segundo os princípios de outra pessoa e não de acordo com seus próprios princípios. Após o grande exemplo de Santo Tomás, foi estabelecido o princípio — ou deveria ter sido estabelecido para sempre — de que, ou não devemos discutir com uma pessoa de forma alguma, ou devemos fazê-lo em seu próprio terreno e não no nosso. Podemos fazer outras coisas em vez de discutir, de acordo com nossa concepção de ações moralmente admissíveis; mas, se nós discutimos, devemos fazê-lo “com as razões e as afirmações dos próprios filósofos”. Este é o senso comum contido em uma frase atribuída a um amigo de Tomás, o grande São Luis, rei de França, que as pessoas superficiais citam como exemplo de fanatismo e cujo significado é: ou te dedicas a discutir com um infiel como somente um verdadeiro filósofo pode discutir, ou então “crava-lhe uma espada no corpo o mais profundamente possível”. Um verdadeiro filósofo (mesmo um da escola contrária) seria o primeiro a concordar que São Luis foi inteiramente filosófico neste assunto.

G. K. Chesterton, in “Santo Tomás de Aquino” (ensaio biográfico).

Hilda Hilst e a força sexual

Há sempre uma “galera de teatro” planejando adaptar um dos livros da trilogia erótica da Hilda Hilst. E, em geral, parecem considerar o tema algo super cor-de-rosa, como se o sexo, em si mesmo, fosse a maravilha das maravilhas. O que eles desconhecem é a declaração que Hilda repetia ao menos três vezes por dia: “Sexo é um terror! Um terror!”. Claro que ela, até os 50 anos de idade, curtiu muito o sexo. Mas também aprendeu direitinho o que esse “diabo em potencial” é capaz de fazer com uma pessoa. Que o digam dois de seus namorados: Cássio, que após o rompimento do namoro metralhou a portaria do prédio dela; e Wilson que, em situação semelhante, a rendeu toda uma noite mantendo um revólver apontado para sua cabeça. Por essas e outras, Hilda ficou muito impressionada com um livro que lhe emprestei: A Força Sexual ou o Dragão Alado, de Omraam Mikhaël Aïvanhov. Mesmo que a pessoa não creia literalmente nas colocações do autor — porque suas descrições são demasiado bizarras e fantásticas — deveria no mínimo encarar suas palavras de maneira simbólica. O ato sexual reiterado cria liames invisíveis entre os envolvidos e, quando um deles tenta romper tal ligação, a dor causada no outro pode até mesmo enlouquecê-lo. Claro, o amor nos salva desse “diabo”. Mas quem disse que todos os que se julgam sexualmente maduros conhecem de fato o amor?

Outra questão tratada por Aïvanhov também chamou a atenção de Hilda: a força sexual é inerentemente uma força criativa. Isto parece óbvio se pensarmos meramente na função estrita dos órgãos sexuais. Mas ele não se referia apenas à reprodução humana: a força sexual alimenta nossa criatividade em todos os âmbitos. E, segundo ele, essa força deve vir de Deus, do contrário, a pessoa se torna uma vampira sexual: incapaz de voltar-se devotamente para o Criador, o sujeito já não consegue receber essa “energia” senão mediante a relação sexual ou, em certo nível, mediante a paixão platônica. Foi quando leu sobre isso que Hilda me falou do seu livro Júbilo Memória Noviciado da Paixão: seu título tem as mesmas iniciais de Júlio de Mesquita Neto, ex-diretor do jornal O Estado de São Paulo, por quem foi apaixonada. No fundo, seu título deveria ser Júlio de Mesquita Neto da Paixão. O jornalista, já um homem casado, além de bastante sério, conservador, não quis manter nenhum relacionamento ilícito com a poeta. Hilda me disse que ele chegou a lhe confessar: “Hilda, tenho medo de você”. Ela resgatou esse fato para exemplificar algo que ela própria já havia notado antes: todos os seus livros de poemas foram escritos ao embalo de alguma paixão, na maior parte dos casos, regada a muito sexo. E, quando finalizava o livro, acabava também o relacionamento com o homem que o inspirara.

— Será que eu os vampirizava? — me perguntou.

— Não sei, Hilda. É possível. Mas vai saber…

O mais triste é que essa falta de conexão com Deus, seja ela permanente ou passageira, leva a pessoa ao vampirismo sexual com os pretextos criativos mais variados: às vezes estão apenas recriando seu próprio ego; noutras estão alimentando sua “biografia” com mais um caso sensacional; ou então estão criando uma obra de arte, uma conspiração, um plano de domínio político/comercial, ou até mesmo uma nova invenção tecnológica. Seja como for, se o agente criador não estiver assegurado por um, digamos, “fio-céu”, acabará causando um choque, um trauma emocional dos mais intensos em suas vítimas. Os vampiros não ligam para Deus: o que sua criatividade exige é “sangue” e, conseqüentemente, choro e ranger de dentes.

Terra à vista

No livro Ortodoxia, Chesterton afirma que, incapaz de seguir a religião corrente — no caso inglês, a Igreja Anglicana —, decidiu inventar sua própria heresia. E assim o fez. Por fim, sentiu-se como um náufrago que, chegando a uma ilha supostamente deserta, descobre anos depois que não havia aportado senão às costas de uma ilha tão grande e tão habitada quanto a própria Inglaterra… Isto é: criou sua própria heresia, sentindo-se solitário nela, para finalmente descobrir que sua heresia era apenas a ortodoxia católica: não estava numa ilha deserta.

O curioso é que isso, ao longo da vida, também ocorre com nossos conceitos e com nossa conduta. Frustados com os inúmeros fracassos advindos da observância de algum ditame pequeno-burguês, ou então de algum outro progressista, começamos a buscar valores e significados mais profundos em nós mesmos, no nosso íntimo. Ora, Deus está dentro de cada um de nós! Em algumas pessoas, claro, enterrado beeeeeem lá no fundo, oculto sob uma massa de besteiras ideológicas e de sujeiras convencionais sem fim. E então, ao encontrar tais valores e significados, obviamente graças apenas a Ele, a pessoa acredita ser o único habitante dessa ilha de conduta moral — embora sempre tensa e problemática — de conduta moral quase paradisíaca. Quase paradisíaca ao menos para a própria consciência, o que é mais do que o suficiente, pois os dramas e conflitos desta vida não se extinguem por passe de mágica. (Ora, até Cristo, a consciência pura encarnada, morreu na cruz deste mundo.)

Enfim, o sujeito se acha numa ilha deserta e, de repente, esbarra na própria avó, aquela velha que reza todo santo dia pela família inteira: ela sempre esteve na ilha! Tal como a mãe dela, e a mãe da mãe dela, e o pai da mãe da mãe dela e assim por diante. Salvar-se do naufrágio do mundo é agarrar-se ao eterno madeiro flutuante, que sempre nos espera à margem do espaço, desde antes do início dos tempos — e com ele seguir até o porto seguro da única ilha que realmente importa habitar. Inventar uma ilha, como na origem latina da palavra — “invenção” é descoberta —, é apenas redescobrir o já descoberto. Não há nada de novo sob o sol…

A FIFA e o Islã

Se a FIFA realmente aceitar as reivindicações dos muçulmanos e proibir as comemorações de cunho cristão em campo — sinal da cruz, faixas e camisetas com o nome de Jesus, etc. –, então descobriremos quais jogadores são de fato HERÓIS e GUERREIROS, e quais são apenas bundões muito bem pagos.

Enquanto isso, em Miami… (conto)

Mal entrou no X Club, badalada casa noturna da Eleventh Street, em Miami, André Jorge, o mais novo galã das novelas globais, dirigiu-se ao balcão e pediu um uísque com energético. Feliz com sua nova aquisição, só pensava em comemorar. Chegara naquela tarde de Orlando, onde assinara o contrato de sua nova propriedade: uma mansão de quatro suítes e três pisos no condomínio Magic Village Resort. Após quase quatro horas de viagem num carro alugado, ali estava ele, cartão magnético do hotel no bolso, pronto para a caça. Cansado do assédio constante que sofria no Brasil — em geral, um assédio promovido por quem não lhe interessava —, na Flórida poderia se desvencilhar facilmente das raras brasileiras que por ventura lhe cruzassem o caminho, o que, para um pretenso alívio da sua vaidade, o faria sentir-se novamente uma pessoa normal. Sim, ele também sentia muita falta da difícil arte da sedução, aquela arte à qual, ‘confidenciava’ nas entrevistas, tanto se dedicara antes do estrelato. Mulher fácil, repetia aos colegas do Projac, não era com ele.

— It’s today! — gritou ele, copo na mão, traduzindo ao inglês uma expressão idiomática brasileira que não fez o menor sentido para quem estava à sua volta.

André Jorge era um homem bonito, másculo, simpático e seu olhar sedutor, do alto de seus trinta e dois anos, fazia as fãs brasileiras se atirarem aos seus pés. Tendo tantas vantagens naturais, colocou seus atributos masculinos em ação. Infelizmente, após meia-dúzia de tentativas frustradas, percebeu que, nos Estados Unidos, seu parco domínio do inglês tornara-se um súbito entrave aos seus planos. Ora, flertar em inglês não era tão fácil quanto pedir um prato num restaurante ou um quarto num hotel! Por mais que preferisse trabalhar arduamente para levar uma mulher para a cama, nada conseguiria se continuasse tartamudeando feito um inseguro nerd. Sem dizer que aquelas mulheres do club, pelo jeito, não eram dotadas de nenhum espírito de baile funk, no qual uma mera encoxada já fazia as vezes de uma conversa envolvente. Decidiu, pois, que teria mais sucesso abordando mulheres latinas com seu portunhol recentemente desenvolvido em Madrid. Sim, desenvolvido tal como apregoou, embora o famoso ator o tenha negado, o site O Fuxico: mediante a assistência de prostitutas hispano-americanas residentes na Espanha… Durante as gravações naquela capital dos capítulos iniciais de sua última novela, adotou, sem o saber, a técnica de aprendizado de idiomas do explorador inglês Sir Richard Francis Burton: um mês utilizando a língua num bordel.

— Hola! — disse ele para uma linda morena, metida num vestido colante revelador, que acabara de pedir um Apple martini. — Hablas español?

Ela o olhou de cima a baixo, e então sorriu: — Sí, claro.

— Puedes decirme cuales son los mejores drinks acá?

— Pero si ya estás bebiendo! — contestou a gata de olhos grandes e lábios fartos.

De fato, ele já estava bebendo. Mas dissera a primeira coisa que lhe viera à mente. Riu meio sem jeito e foi direto ao ponto: — Queres bailar conmigo un rato?

— Qué pasa, cariño? Ese huevón te está molestando? — disse um sujeito enorme, surgido repentinamente do meio da multidão, que se achegou à linda garota e a abraçou pela cintura.

Ela riu: — No. Solo me preguntaba sobre los drinks.

O homem se inclinou na direção do ator global e rosnou: — Oiga! No moleste mi novia solo porque ella es famosa! Queremos privacidad!

André Jorge já ia dizendo que também era uma celebridade, ao menos no Brasil, mas o casal, de mãos dadas, desapareceu em meio à efervescência da pista de dança. Aquilo o irritou profundamente… Virou pois o copo, tragando a bebida num único gole, e decidiu que o melhor a fazer era mesmo dançar. Dirigiu-se, pois, à pista de dança e tentou, em meio à espremeção geral, dar vazão à sua dança do acasalamento versão “música eletrônica”. Claro, sendo apenas “mais um entre muitos”, permaneceu no seu papel de incógnito solitário a atrair, no máximo, sorrisos de desdém ou até mesmo de escárnio, afinal, danças ridículas só fazem sucesso entre amigos e fãs. Mas ele, álcool na cachola, persistiu e, a certa altura, avistou outra bela morena, olhos amendoados, seios enormes, longas pernas, a qual, com um olhar estranhamente acanhado, vinha abrindo passo em meio à algazarra. Ele se deixou enfeitiçar por aquela beldade e, sem se dar conta, estacou enquanto ela cruzava sua frente. Então, de repente, alguém se chocou contra suas costas e o empurrou na direção da moça, que, de olhos arregalados, tentou recuar: tarde demais. O encontrão foi tão violento que ele quase a derrubou! Segurando-a pelos braços, pediu desculpas em espanhol, mas ela retrucou, enfastiada: “I’m don’t speak spanish, asshole! I speak only a little english”. E, aparentemente ofendida por ser confundida com uma latina, se desvencilhou dele, tencionando seguir seu caminho. Nesse momento, ele não pôde evitar uma espiada naqueles incríveis seios, mas o que viu o assustou: havia agora uma pequena mancha de sangue na parte inferior do seio direito. O vestido branco, extremamente colado, não deixava dúvidas: ele a havia ferido. Quis avisá-la, mas ela não lhe fez caso e prosseguiu seu caminho até o outro lado da pista. Talvez fosse brasileira, já que não falava espanhol, senão apenas “um pouco de inglês”. Brasileiras… Que se dane, pensou. André Jorge logo decidiu que era hora de voltar ao hotel. Estava cansado daquilo, não era um lobo solitário e já começava a sentir saudade de algo indefinível. Sorridente, fez então um selfie — precisava informar a seus seguidores do Instagram que sua vida era uma maravilha — e se dirigiu à saída. Antes de lá chegar, porém, ao passar novamente pelo balcão do bar, deparou-se com a loira mais deslumbrante que jamais vira na vida: e ela lhe sorriu! Num impulso, o ator soltou um tímido “hi”.

— Hola! — disse ela, o sorriso mais belo do mundo. — Eres brasileño, no es cierto?

— Sí — respondeu ele, surpreso.

— Creo que te he visto en una novela cuando estuve en Rio.

Salvo pela fama, cheio de alívio, entabulou uma agradável conversa na qual descobriu que aquela linda mulher era a mais famosa apresentadora de TV da Colômbia. Ela inclusive já havia entrevistado, em seu talk show, a atriz global que interpretara, na novela de estréia de André Jorge, o seu par romântico. E a colombiana começou a lhe apontar diversas outras celebridades latinas ali presentes: uma atriz mexicana, um âncora de telejornal argentino, uma cantora equatoriana, uma socialite chilena, dois atores venezuelanos e assim por diante. A linda garota, a quem havia abordado minutos antes, aquela do namorado brutamontes, não era senão a mais nova cantora celebridade do México, a qual, agora, iniciava uma promissora carreira de atriz nos Estados Unidos.

— Increíble — repetia ele.

E a apresentadora colombiana o convenceu a acompanhá-la até sua mesa, onde André Jorge conheceu mais meia-dúzia de famosos hispano-americanos. A conversa teve como mote, de início, esse irônico fato de haver tantas celebridades presentes que mal conheciam umas às outras. “E que os americanos não fazem a menor idéia de que sejam famosos em seus países”, acrescentou alguém. Depois falaram de suas casas na Flórida, de como era mil vezes melhor morar num país onde havia liberdade de ir e vir sem serem atormentados constantemente pelos fãs, e assim por diante. Uma atriz equatoriana, ademais, era vizinha do Sílvio Santos em Orlando e, apesar de saber que se tratava de um brasileiro rico e famoso, não tinha a menor idéia de quem ele era ou o que fazia.

— Que verga! — exclamou ela. — Una celebridad desde los años 1960!

Em seguida, falaram de como era muito mais seguro viver nos Estados Unidos, longe dos crimes horríveis e da eterna corrupção que assolam a América Latina. Dois dos presentes logo narraram os episódios em que, cada qual em seu país, haviam sido sequestrados, permanecendo em cativeiro vários dias, até que, num caso, o resgate foi pago e, no outro, os bandidos foram mortos pela polícia. O próprio André Jorge já havia sido vítima de um sequestro relâmpago no Rio de Janeiro, mas nada comentou a respeito porque, não apenas sua aventura havia sido inferior àquelas duas narradas, mas também nem sequer era famoso na época do ocorrido. A conclusão daquele assunto, enfim, era a verdade pungente de que a América Latina continuava desgovernada e cruel, e de que não havia melhor saída do que a clássica saída do aeroporto.

— Me voy una vez cada semana para mi país y despues vuelvo corriendo! — finalizou um ator colombiano, ao que lhe replicou um venezuelano que, no seu caso, nem sequer voltava mais para a Venezuela, afinal, seu país era agora um país socialista mergulhado no caos e todos os cidadãos que tinham condições e meios já se haviam exilado.

— Que buena nota es Estados Unidos, no? Todavía somos libres acá — comentou a equatoriana, toda sorridente.

Depois de algumas enfáticas concordâncias, a bela apresentadora colombiana, com ar sombrio, disse: — Sí, pero los americanos son estúpidos! Eligieron Trump!

E então iniciou-se uma série de longas asserções onde cada qual, inclusive o ator brasileiro, expressou seu espanto diante do resultado das eleições americanas e sua incapacidade de compreender como um povo tão próspero era capaz de eleger um louco como Donald Trump.

— Luego ya no podremos vivir acá! Trump odia a los inmigrantes.

E esse tema se prolongou tanto — recheado de tantas previsões de catástrofes que o novo presidente americano certamente causaria — que André Jorge, que falava apenas portunhol, começou a perder o fio da meada, já que todos, eufóricos de tanta indignação, passaram a falar o espanhol demasiado rápido para seus ouvidos brasileiros. E ele se distraiu. E, distraído, deixou o olhar vagar pelo club. Observou as pessoas na pista, dançando ao ritmo da música eletrônica, as pessoas mais ao longe, no balcão do bar, aqueles que, como ele e seus colegas famosos, estavam sentados nas mesas dos camarotes e então… Sim, cruzou olhares com a beldade, a mesma que se irritou ao ser confundida com uma latino-americana! Que linda ela era! E estava sentada apenas três mesas adiante acompanhada por outra garota tão bonita quanto ela. Curiosamente, pareciam tensas, irritadas, deslocadas. Talvez já tivessem se dado conta de que ele a machucara. Era bem provável que, tal como acontecera meses atrás com uma colega do Projac — uma atriz recém saída da adolescência — ele, ao chocar-se contra ela, tenha rompido os pontos de uma cirurgia para implantes de silicone mal feita. Sentindo-se culpado, decidiu ir pedir-lhe desculpas e, talvez, caso ela necessitasse, oferecer a devida reparação financeira. Vai que realmente se tratava de uma brasileira, pensou. Pediu, pois, licença aos novos amigos — já tinha o WhatsApp de todos (fariam muitas festas em Orlando) — e se dirigiu à mesa da morena, que, ao notar sua aproximação, pareceu ficar ainda mais aflita. Quando ele já estava abrindo a boca para lhe dirigir a palavra, ela sussurrou qualquer coisa para a amiga e, numa pressa nervosa, levantou-se e se retirou, metendo-se rapidamente entre os dançantes da pista. A moça que permaneceu na mesa o encarou, muito séria, e retirou um celular da bolsa. Ele a ignorou e saiu no encalço da primeira, a qual, provavelmente por acreditar ser ele um tipo qualquer de stalker, devia estar à procura de um segurança. André Jorge, porém, sentido-se seguro de si — afinal encontrara “sua turma” e voltara a ter consciência de quem ele era — não se fez de rogado e a perseguiu até o meio da pista, quando ela então estacou de costas para ele.

— Excuse me, miss — disse ele amavelmente, tocando-a de leve no braço.

Ela se virou, brusca, os olhos arregalados, uma expressão ao mesmo tempo decidida e cheia de espanto: encarando-o, ela ergueu o celular na mão direita. Ao mesmo tempo, André Jorge ouviu um grito vindo da mesa que acabara de deixar: — Allahu Akbar!!! Allahu Akbar!!! A garota que ele seguia repetiu o grito: — Allahu Akbar!!! Allahu Akbar!!! — e imediatamente apertou uma tecla do celular: as duas enormes explosões foram praticamente simultâneas. Havia trezentas e vinte e duas pessoas naquele club de Miami. Sessenta e três morreram instantaneamente. Outras sete morreram mais tarde no hospital ou a caminho dele. Setenta ficaram feridas. De fato, soube-se mais tarde, quando o vídeo das duas terroristas tornou-se público, que André Jorge tinha razão: não apenas a primeira, mas ambas haviam feito cirurgias para aumentar os seios. Contudo, em vez de silicone, haviam implantado o famigerado explosivo C-4, o qual fora detonado via bluetooth mediante um singelo aplicativo de celular. O próximo papel de André Jorge, na Globo, teria sido o de Riobaldo, numa nova adaptação do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Foi por isso que a revista Época, em sua capa, na qual falava desse atentado e da morte do ator, usara como manchete a frase do mais famoso jagunço da literatura brasileira: “Viver é muito perigoso”.

Página 1 de 16

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén