11:26 pmO machista feminista

Tempos atrás participei de um encontro literário na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, onde, ao longo de uma semana, debati com outros autores as perspectivas da literatura brasileira neste novo milênio. Foi lá que, entre outros, conheci pessoalmente Elisa Andrade Buzzo, Luis Eduardo Matta, Miguel Sanches Neto, André de Leones, Fabrício Carpinejar e Antonio Prata, com quem, na última noite, dividi uma carona oferecida pela esposa de Julio Daio Borges, organizador do evento. Embora o encontro tenha sido muito interessante — principalmente porque pela primeira vez eu participava de algo do gênero enquanto escritor convidado, e não como leitor —, este relato nada tem a ver com o evento em si, com os demais colegas ali presentes ou sequer com literatura — ao menos não diretamente. O fato é que, justamente no dia em que Daniela Rede, minha bela e auto-proclamada assessora de imprensa, não pôde comparecer, fui abordado ao final do debate daquela noite por um sujeito de ar simultaneamente astuto e simpático.

— Li seu livro — revelou ele, após apertar-me a mão e me cumprimentar pelas intervenções daquela noite.

— ¿Foste tu? — repliquei, sorrindo.

Ele riu: — Escritores brasileiros estão sempre achando que não são lidos.

— Deve ser por causa do xerox das faculdades e dos ebooks piratas — retruquei. — O que o bolso não vê, o coração não sente.

Alto, metido num elegante paletó escuro feito sob medida, em lustrosos sapatos Oxford, exibindo um reluzente Cartier dourado no pulso, óculos de Clark Kent, o cachecol posto à la “forca”, tal como agora se usa — em vez de à la “estrangulamento”, se é que me entendem —, esse cara bem vestido parecia um desses freqüentadores de vernissages que vemos em filmes alemães ou franceses. Com isso, quero dizer que se tratava de alguém que, a despeito de sua aparência de intelectual, também tinha um quê de empresário de sucesso, e nitidamente atraía a atenção feminina circundante. No fundo, ele parecia alguém montado para a ocasião — ou seja, se aquela fosse uma reunião de navegadores, ele teria aparecido em trajes de marinheiro de revista de moda.

— Também acompanho seu blog — tornou ele.

— ¿Você? Pensei que apenas um punhado de universitários lia meu blog.

— Bom, fiquei sabendo desses debates por causa dele.

O sujeito, que se apresentou como Nathan, após tratar por alto de alguns temas sobre os quais eu havia escrito naquela semana, talvez para me provar que realmente era meu leitor, ofereceu-me uma carona até a Vila Madalena, onde residia o amigo com quem eu estava hospedado, e também me perguntou se eu não queria aproveitar os bares da região para beber alguma coisa. ¿Carona e drinques ofertados por alguém que comprou meu livro? Claro que aceitei.

— ¿Sua mulher não veio com você hoje? — perguntou quando nos dirigimos à porta da frente.

— Não, não veio. E ela, infelizmente, não é minha mulher.

— Uma linda garota. Eu a vi aqui ontem à noite.

Saímos da Casa. Ele tinha um desses Jeeps Cherokee blindados, uma mania entre os endinheirados paranóicos de São Paulo, pois, apesar de pesados e de beberem feito loucos, em nosso restrito mercado eram os mais indicados para sobreviver à guerrilha urbana de todos os dias. Lá dentro, no banco de trás, muitos livros empilhados.

— Você por acaso não é um editor… ¿ou é?

— Não, não. — E vendo meu desapontamento involuntário: — Não precisa fazer essa cara. Você logo logo terá um bom editor. Basta esquecer um pouco os contos e escrever um romance.

— Ou arranjar um agente literário — acrescentei.

— Um agente, não! Uma agente — e Nathan sorriu.

Quando ainda percorríamos a avenida Pacaembu, ele começou a entrar no assunto que realmente lhe interessava:
— ¿Yuri, você já trabalhou como ghost-writer?

— Não e, sinceramente, nunca tive interesse. Gosto de assumir o que escrevo. Prefiro publicar algo ruim com meu nome do que publicar uma obra prima anonimamente. Coisas do ego.

— Entendo. Mas você não se importaria de aconselhar quem nunca escreveu um livro, ¿não é?

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ATENÇÃO: O conto, que me parece muito longo para o blog, continua aqui.

8:14 amRosenstock-Huessy e os amados

Eugen Rosenstock-Huessy, independente do que alguém possa pensar a respeito do Livro de Urântia (e muita gente pensa dele muita coisa sem nunca o ter lido), teria ficado deslumbrado ao saber que, segundo o dito livro, o primeiro casal humano teria escolhido para si estes nomes: Sonta-an e Sonta-en.

Segundo Rosenstock, a linguagem humana não se originou por razões nominativas, isto é, para simplesmente nomear coisas, classificá-las, etc. A linguagem não surgiu para que alguém vivo se relacionasse com algo morto, mas para que duas pessoas vivas interagissem. Não surgiu para enumerar a multiplicidade do mundo, mas para mostrar a alguém que esse alguém era único. Por isso, segundo ele, o modo imperativo do verbo representa a forma mais primitiva da gramática. (E lembre-se que o “modo imperativo” não implica necessariamente, digamos, um “modo de subjugação”.) A fala se tornou viva no momento em que uma pessoa imprimiu, pela palavra, uma ação a uma outra pessoa, sendo a reposta desta última (o feedback, diriam os cibernéticos) uma narrativa a relatar se, quando ou como a ação foi efetivada. Rosenstock também chama a atenção para a enorme importância do vocativo. Chamar alguém é portanto colocar-se para fora de si e esperar que o outro faça o mesmo ao atender o nosso chamado: juntos deixam de ser “eu” e “tu” para serem “nós”.

Sonta-an foi o nome do primeiro homem; Sonta-en, o da primeira mulher. Sonta-an significa “amado pela mãe” e Sonta-en, “amada pelo pai”. A forma “amado” é particípio, mas isto significa que o amar foi realizado, foi efetivado. O nome de cada um deles era, portanto, uma “narrativa” que confirmava a realização do amor do outro, um amor imperativo. Mas o deslumbramento de Rosenstock-Huessy teria ido ainda mais longe, pois sabemos que seu “nome de solteiro” era Rosenstock, sendo Huessy o sobrenome de sua esposa, o qual ele adotou ao se casar assim como ela adotou o dele. Rosenstock-Huessy, estudioso da linguagem humana, teve atitude semelhante ao do casal que descobriu a si mesmo na linguagem.

2:59 pmA sábia ingenuidade do doutor Pinto Grande

(À maneira de Chesterton…)

Doutor Pinto pediu licença para ligar seu cigarro eletrônico e se sentou. Indicou a cadeira com a mão, aguardou alguns longos segundos, e nada. O rapaz mantinha-se de pé, do outro lado da mesa, visivelmente desconfortável: era óbvio que jamais estivera diante de um advogado na condição de cliente.

— O senhor não vai se sentar? Por favor, fique à vontade.

Roberto, um sorriso amarelo nos lábios, finalmente se sentou. Então olhou em torno, admirado com os quadros, com os livros na estante, com o aquário de peixes do mar. Devia estar pensando em quanto iria custar aquilo.

— O senhor dizia que pretende processar seus colegas de trabalho. Não vai me dizer o porquê?

— Racismo, doutor.

— Racismo. Certo, certo. Você deve estar se sentindo prejudicado na sua posição, imagino. É preterido nas promoções?

— Preterido?

— Sim, você certamente não recebe a devida atenção e reconhecimento por seu trabalho.

O outro pigarreou:
— Não é isso, doutor. Meu chefe e o dono da empresa também são negros. O problema são meus colegas. Fazem bullying comigo o tempo todo, me perseguem, zoam comigo.

— Você já levou o problema até seu superior?

— Já. Ele disse que eu tenho de parar de sorrir quando mexem comigo, que tenho de dizer que não gosto e pronto.

— E você já fez isso?

— Não consigo. Na hora, sem querer, eu sorrio, sei que estão brincando. Mas depois, em casa, fico relembrando, remoendo. E aí percebo o quanto são racistas, intolerantes e desrespeitosos.

—  Bom, você precisa saber que iniciar um processo é, por assim dizer, uma primeira instância apenas no sentido legal. Em termos de convivência social, é na verdade uma última instância, pra lá da gota d’água.

O rapaz se aprumou na cadeira e, talvez sob influxo de adrenalina, desatou a falar rápida e destemidamente:
— Eu sei o que o senhor está insinuando. Acha que devo conversar com todos eles em particular, ou talvez com todos juntos. Resolver tudo no gogó, tipo, “é conversando que a gente se entende”. Acha que eu preciso ser compreensivo e tolerante como eles jamais conseguiriam ser. Mas o problema é que eu também sei que essa atitude não leva a nada, não vale nada. Meus colegas são pessoas ignorantes, toscas e, se resolverem me poupar, vão acabar indo encher o saco de outra pessoa. Eu acredito que só irão parar com essa palhaçada se algo sério acontecer com eles. Acho que merecem ser processados pelo bem de outras pessoas, de outros negros que já não aguentam mais ser motivo de chacota.

Doutor Pinto franziu o cenho, pensativo. Então, pegando do iPad, abriu um aplicativo para fazer as anotações.

— Ok, senhor Roberto. Vamos começar do começo. O que é que eles fazem para perseguir você?

— Eles me chamam o tempo todo por um nome que odeio.

— Só por um nome? Ou por vários nomes? Apelidos talvez?

— Só por um. Quer dizer, tem um outro também. E depois riem da minha cara minutos a fio. Ficam no meu pé o dia inteiro, às vezes usam esses nomes até diante dos clientes.

— Posso saber que nomes são esses?

— Pode, sim: prompt de comando e cmd.

— Como? Desculpe, eu…

— Prompt de comando.

O advogado, confuso, ficou em silêncio por meio minuto. Então começou a desatarraxar a bateria do cigarro e, ainda cabisbaixo, a trocou por outra.

— O senhor não vai dizer nada, doutor?

— Desculpe, senhor Roberto. É que não faço a mais mínima idéia do que seja um… Prompt de Comando? Ceemedê? É uma sigla? Tem algo a ver com as Forças Armadas?

O rapaz riu:
— Meu Deus, o senhor não sabe o que é um Prompt de Comando?

— Por quê? O senhor vai fazer bullying da minha ignorância?

O rapaz fechou a cara instantaneamente.

— Bom — começou ele, esforçando-se para não iniciar um atrito — o doutor pode por favor abrir esse ultrabook aí? Vou lhe mostrar o que é um Prompt de Comando.

— Então tem a ver com computadores?

— Sim.

— Ah, compreendo. Apesar do cigarro eletrônico, que ganhei da minha esposa, sou um analfabeto tecnológico. Sei apenas ligar as coisas e usar suas funções mais óbvias e banais.

— Eu sei como é, doutor. Lá na empresa, nós trabalhamos com sistemas de informação e, por isso, sei o quanto as pessoas, apesar de usá-las, realmente desconhecem o funcionamento das máquinas. Mas, por favor, ligue seu ultrabook. É mais fácil mostrar do que explicar.

Doutor Pinto abriu, pois, a tampa do computador e acionou o botão. Graças à memória SSD, da qual ele tampouco imaginaria a razão de ser, a máquina ligou em menos de três segundos.

— Agora, por favor, aperte essa tecla com o símbolo do Windows e, em seguida, a letra “r”, de “run”.

— Executar? De inglês eu entendo.

— Isso.

— Pronto. E agora?

— Digite “cmd” nesse espaço aí e aperte Enter.

— Hum. Ok.

Uma pequena janela se abriu no meio da tela. E doutor Pinto ficou aguardando novas instruções, que não vieram.

— O que faço agora?

O outro se irritou:
— O senhor não percebeu, doutor?

— Percebeu o quê, seu Roberto?

— Esse é o Prompt de Comando.

— O quê? Essa janelinha?

— É!

Doutor Pinto franziu os lábios:
— Mas… e daí? O que tem essa janelinha?

— O senhor por acaso está zoando com a minha cara?

Doutor Pinto encarou-o cheio de espanto:
— Eu? Debochando do senhor? Por que estaria? Não o entendo!

— Doutor, essa janela é preta! Pretinha da silva!!

— E…?

— Como assim “e…”? Eles estão me chamando de preto, uê!

— E o senhor por acaso é preto?

— Claro que não! Sou da raça negra!

— Então por que está tão irritado? É como se alguém me chamasse de parafuso e isso me chateasse. O que eu tenho que ver com um parafuso? Nada.

— O senhor está tirando com a minha cara! — explodiu o rapaz.

Doutor Pinto abriu os braços, as palmas das mãos voltadas para cima:
— Juro que não! — e realmente parecia surpreso. — Ora, eu sei que antigamente as pessoas da raça negra odiavam ser chamadas de “negras” e preferiam o termo “preto”, e que hoje ocorre, sei lá por qual razão, justamente o contrário. Mas e daí? Por que o senhor se chateia com isso?

— Eles riem de mim!

— E o senhor sorri de volta.

— De puro nervosismo! —  e deu um tapa na mesa. — Caramba… ¿O senhor não viu como quiseram arrancar a pele do Pelé quando ele…

— A pele do Pelé… Parece nome de documentário.

— Doutor! O senhor está zoando comi…

— Não estou, seu Roberto! Não mesmo! Tenha calma. Por favor, volte a se sentar e se acalme.

O rapaz, mais abatido que irritado, refestelou-se na cadeira. E então, resfolegando, pediu um copo d’água, que a secretária, acionada pelo intercomunicador, apressou-se em fornecer.

— Doutor — voltou a falar, mais calmo —, como eu dizia, o senhor não viu o que fizeram com o Pelé quando ele disse que dava de ombros quando sofria racismo no futebol? Acabaram com ele! A gente não pode ser condizente com essas coisas.

— Desculpe, não passo os dias nas redes sociais, não sei exatamente o que fizeram com o Pelé ou o que disseram dele. Ouvi apenas que estavam bravos com ele. Mas sei muito bem o que ele fez consigo mesmo: é o esportista mais famoso de todos os tempos e um cara rico, de sucesso.

— Isso mostra apenas o quão egoís…

— Seu Roberto — interrompeu-o Doutor Pinto —, deixe-me contar-lhe duas histórias. Posso?

Roberto, apesar de visivelmente contrariado, assentiu com a cabeça.

— Seja sincero, seu Roberto. Você não acha engraçado um advogado cujo sobrenome seja “Pinto Grande”? Veja só! O senhor sorriu. Claro que acha cômico, um tal palavrão, grafado na fachada do meu escritório. Talvez tenha até tido dúvidas ao vir me procurar. Deve ter achado que não me levo a sério. Ou que sou tão bobo que nem percebo a piada embutida nisso. Ou, pelo contrário, que sou tão seguro de mim mesmo que não me incomodo… Pouco importa o que pensou. O fato é que o senhor vem me chamando de doutor, doutor, doutor, mas nem sei se, em algum momento, disse meu nome: doutor Pinto. Quanto mais meu nome completo: doutor João Pinto Grande. E Pinto Grande é realmente meu sobrenome!

Roberto, sem suportar a pressão interna, deu uma profunda risada. Doutor Pinto riu com ele.

— Percebe? Pois então. O senhor tem idéia da quantidade de assédio moral que sofri ao longo da vida? Minha infância e minha adolescência, até minha juventude, foram verdadeiros infernos. Cheguei a odiar meus pais por conta disso. Ironicamente, o Pinto é da minha mãe, e o Grande, do meu pai.

O rapaz caiu na gargalhada. Doutor Pinto, um ar irônico no rosto, altivo, aguardou-o paciente e compreensivamente.

— Desculpe, doutor — disse Roberto, afinal. — Não consegui me segurar.

— Não tem o menor problema. E nem é porque “estou acostumado”. É porque, hoje em dia, adoro meu nome. Enquanto ainda somos imaturos, sofremos com toda sorte de acidentes, de eventualidades, de contingências, de questões secundárias. A maturidade só vem ao fim de muita reflexão, de muita meditação, de muita aceitação. Principalmente da aceitação de nós mesmos. Quando eu era um jovem imaturo, meu nome sempre dificultou, entre outras coisas, arranjar uma namorada. Quando comecei a amadurecer, ele se tornou meu maior aliado nesse quesito! O maior sucesso! Mas estou me perdendo em circunlóquios. Deixe eu lhe contar a primeira história. Quando eu tinha quinze anos de idade, eu pensei em me matar.

Roberto arregalou os olhos e ficou ainda mais atento.

— Eu estudava no colégio Ateneu Dom Bosco —  continuou o doutor — e tinha colegas realmente infernais. Era algo estranho: os padres, ao contrário do que dizem, eram demasiado tolerantes. Na minha época, é verdade, já não havia reguadas, palmatórias ou joelhos no milho. Apenas aconselhamentos dos mais educados. Eu nunca atinava com o porquê de meus perseguidores não sofrerem penas maiores. Nunca receberam sequer uma suspensão! Claro, eu não era dedo-duro, mas esperava inutilmente que as testemunhas do meu contínuo assédio moral tomassem meu partido.

— Ninguém sabe o que vai dentro da gente.

—  Exato! Além de nós mesmos, nenhum outro humano está aqui dentro — e doutor Pinto apontou o próprio coração. — Mas, enfim, voltemos ao meu quase suicídio… Bom, no segundo ano colegial, veio estudar na minha sala um sujeito brutamontes dos mais expansivos, dominadores e territoriais. Era o típico macho alfa que precisava impor a qualquer custo o seu poderio, que precisava humilhar os machos mais fracos e conquistar o resto do bando. Ele não fazia isso por mal, percebi meses mais tarde, quando então nos tornamos amigos. No fundo, era praticamente uma imposição da natureza dele, à qual, com muito custo, ele finalmente aprendeu a dizer “não”. Tornar-se homem, em geral, é um aprender a dizer não à nossa animalidade, à nossa natureza, e não o contrário, como os hippies pensavam. Mas compreenda: esse dizer não… não é um “negar negativo”… — é, sim, um “negar positivo”, um aceitar e um driblar, é um ouvir e entender, mas discordar. No final das contas, você acaba percebendo que acontecem coisas assim e assado com nosso corpo, com nossa mente, que muitos impulsos se impõem, mas, conscienciosamente, tem de dar passagem apenas ao que nos leva ao bom, ao belo e ao justo. A tudo o que não presta, seu bom senso, que é o mais comum dos sensos, deve dizer “não!”.

— Entendo.

— Pois bem. Um dia, eu estava na fila da cantina e esse sujeito veio por trás de mim, colocou uma mão de cada lado dos meus ombros e, como direi?… ele me “masturbou”! Mas entre aspas! Quero dizer, sem encostar em mim senão as mãos, ele ficou friccionando meus braços para cima e para baixo, como se meu tronco fosse um corpo cavernoso e minha cabeça, a glande de um pênis. Enquanto o fazia, berrava: “E aí, Pintããão?!!”. Em volta, todos começaram a rir e a gritar “Pintão! Pintão!”. Tudo parecia ainda mais engraçado porque eu era baixinho e muito magro. Sabe como é, o contraste sempre causa frisson nos espectadores do que quer que seja. Naquele momento humilhante, minha única reação foi fugir da fila e correr para o banheiro. Chorei durante todo o intervalo, dentro de um dos reservados, e ninguém foi falar comigo. Ninguém! Eu era um Pinto Grande solitário.

Roberto sorriu: — Deve ter sido duro.

Doutor Pinto sorriu de volta: — Só quando eu me excito.

Riram juntos.

— Ao longo daquela semana — prosseguiu o doutor — esse cara me… me “cumprimentou” do mesmo jeito todas as vezes que me encontrou nas filas, nos corredores, dentro da sala, na escada, na calçada. Sim, para ele era um cumprimento. E dos mais divertidos! Era seu jeito de dizer “oi, magricela do nome ridículo”. E quem estivesse por perto sempre ria de mim, apontando-me o dedo. É óbvio que fiquei famoso no colégio, popular da pior maneira. Naquela semana de Fevereiro, eu só procurava as sombras, estava sempre me escondendo atrás das colunas, das esquinas dos prédios, das moitas, das árvores. Foi horrível. Já passara a infância toda fugindo do meu nome e agora enfrentava aquilo. Cheguei inclusive a levar um canivete para o colégio na sexta-feira e, quando ele me “masturbou-entre-aspas” de novo, antes da primeira aula, fiquei apertando a lâmina dentro do bolso, com medo e desejo de usá-la. Mas não a usei, o que se mostrou ainda mais humilhante para mim, pois me senti o mais vil dos covardes. No sábado, escrevi uma carta de suicídio, e passei todo o dia com uma lata de veneno no quarto, um veneno que minha mãe usava para borrifar as plantas do jardim. Ficava alternando os olhos entre a lata e o copo, o copo e a lata. Cheguei a escrever que a culpa da minha morte era dos meus pais, por terem me colocado um nome tão burlesco e absurdo. E, obviamente, nada fiz. Sobrevivi ao final de semana. Na segunda-feira, voltei ao colégio como um condenado à forca, resignado. Eu já havia sofrido muito graças ao meu nome, mas aquele gesto estúpido, bruto, daquele cara enorme, era demais para mim, o fim da picada. A humilhação me consumia. Mas… — e doutor Pinto fez uma pausa.

— Mas…?

— Mas uma coisa esquisita aconteceu. Inesperada. Com minha resignação e desamparo, eu parei de prestar atenção aos meus temores e receios, parei de olhar para dentro, e fiquei mais ligado, mais atento ao mundo. Estava tão certo de que tudo se repetiria, que nem sequer me importava mais. Sem saber, eu estava pronto para o que desse e viesse. Na verdade, foi minha primeira disposição desse tipo, a qual eu acabaria por perder e recuperar muitas e muitas vezes, até finalmente conquistá-la integralmente na maturidade.

— Resumindo: o senhor ligou o foda-se.

— Mais ou menos isso. Um “foda-se” acompanhado por uma atenção às coisas, uma contemplação, que me remetia à primeira infância. Sabe, né, aquela atenção cheia de pureza. Bastante semelhante à atitude de um lutador de arte marcial, que não podendo comparar o momento exato da luta ao treinamento prévio, não tendo tempo para rememorar teorias, porque isso o distrairia, tem apenas de reagir convenientemente à situação real.

— O senhor deu uma porrada no cara?

—  Não, nada disso. Eu me entreguei ao momento. Eu estava no corredor que dava acesso à minha sala e, de repente, o sujeito me segurou por trás. E, isso mesmo, me masturbou-entre-aspas pela milésima vez! Em volta, formou-se o público de sempre. Ele gritava: “E aí, Pintãããão?!”. Então aconteceu.

— Aconteceu o quê?

— Sem dar por mim, limpei a garganta e dei uma grossa cusparada.

— Nele?

— Não, ele estava atrás de mim, cuspi para frente.

— Não entendi.

— Tudo bem, eu também não entendi de primeira o tal Prompt de Comando — e o doutor sorriu. — Seu Roberto, o senhor sabe o que ocorre ao final da masturbação, não sabe?

O outro arregalou os olhos, compreendendo:
— Ah, entendi! O senhor gozou-entre-aspas?

— Exato. E todos caíram na mais épica das gargalhadas, percebendo que eu finalmente aderira à brincadeira. E o melhor: meu amigo brutamontes, apesar de também ter rido, ficou nitidamente decepcionado, visto que eu superara sua piada. Depois disso, ele repetiu a cena apenas mais uma vez, e eu voltei a cuspir. Ninguém mais se divertiu com a coisa. Era uma bobagem já batida, ultrapassada. E ele finalmente parou com aquilo.

— E todos pararam de chamá-lo de Pintão.

— Não, isso continuou até a faculdade — e o doutor sorriu, divertido. — Mas, na escola, fiquei com fama de ser alguém engraçado e inteligente, coisas que sempre atraem as mulheres. Tudo porque, em vez de me refugiar dentro de mim mesmo, eu agi naquela situação vendo a cena inteira, e não apenas sofrendo o meu próprio papel. Deixei de ser apenas um personagem e compartilhei a autoria da peça.

O rapaz coçou a cabeça, pensativo. Tamborilou os dedos na mesa. Por fim, disse:
— Bom, não sei exatamente como eu poderia aplicar isso ao meu caso…

— Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, com gente tentando negar, não de forma positiva nossa animalidade intrínseca, mas negar a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

— Hum.

— O que me leva à minha segunda história. Ainda quer ouvi-la?

— Sim, por favor.

— Seu Roberto, eu compartilho de certas crenças religiosas bastante, como dizer?… controversas? Sim, bastante controversas. Sou cristão, mas faço parte de uma linha minoritária… Bem, isso não importa. O que realmente interessa é: por que Deus, se é que o senhor crê em Deus — se não crê, pense de forma hipotética —, por que Deus criou as raças de cor na Terra? Ou melhor, por que Ele teria permitido tal coisa? Eu me refiro a todas as raças de cor: branca, amarela, vermelha, negra, etc.

— Não faço a menor idéia.

— O senhor acha que o mundo seria melhor se não houvesse diferenças de raça?

— Ah, doutor, certeza que sim. Se todos se misturassem, se fôssemos todos mestiços, ninguém iria brigar por causa disso.

Doutor Pinto deu uma longa tragada no cigarro eletrônico. Logo emitiu grandes volutas de vapor de propileno glicol. Ambos observaram aquela pseudo-fumaça por alguns momentos. Vendo que o rapaz permanecia atento, disse:
— Seu Roberto, o senso comum é a média da sabedoria de uma sociedade. É o mais confiável dos sentidos, dos sensos. Mas nem sempre está certo. Nem sempre se confunde com o verdadeiro bom senso, embora tenha o costume de confundir-se com ele e, no fundo, nasça dele. Como já disse, é triste que o senso comum e o bom senso estejam sendo solapados pelas ideologias e besteiras culturais da nossa época. Mas, na verdade, o senso comum é uma bagagem levada de geração em geração, a experiência coletiva, uma bagagem de valores e idéias que deram certo, que costumam ainda dar certo e que certamente, em sua maioria, ainda valerão no futuro. Já o bom senso não é uma bagagem: é o farejar do viajante atento.

— Certo.

— É praticamente senso comum o fato de que, se tivesse existido uma única raça na Terra, do início até agora, jamais teríamos as guerras e conflitos raciais que temos hoje. Mas a verdade é o exato oposto disso: se houvesse uma única raça de cor nesse mundo, o ser humano teria entrado em extinção há mais de 900 mil anos.

— Não vejo o porquê.

— A espécie de hominídeos conhecida hoje como Homo habilis não era ainda propriamente humana. Eram conscientes tais como os animais são conscientes, e isto significa: não eram autoconscientes. Sabiam de certas coisas — o que comer, o que não comer, quando fugir, quando lutar, o que era chuva, noite ou sol e assim por diante — mas não sabiam que sabiam. Tinham consciência de vários fenômenos do mundo, mas não tinham, enfim, consciência de si. O fenômeno “eu” lhes era desconhecido. Entende?

— Sim.

— Foi de um casal de hominídios Homo habilis que nasceu o primeiro casal de gêmeos da espécie Homo erectus. Esse casal fugiu da convivência de seus ancestrais animais — eram muito maltratados por eles — e deram origem à primeira espécie verdadeiramente humana: eles sabiam que sabiam, desenvolveram uma linguagem verbal primitiva e, o que é o mais humano, fizeram uso de seu livre-arbítrio, pois um fragmento de Deus passou a habitar suas mentes. Eles tomaram decisões e, graças a eles, estamos aqui agora.

— Você se refere a Adão e Eva.

— Não, Adão e Eva vieram pra cá milhares de anos depois.

O outro fez uma careta:
— Nossa, isso está muito confuso e não sei aonde você quer chegar.

— Calma. Você não precisa acreditar em mim. Entenda tudo isso apenas como hipótese, como mais uma possibilidade. Ora, os cientistas de hoje não sabem exatamente o que se passou. O que interessa para esta nossa discussão é o seguinte: os descendentes desse primeiro casal, quando centenas de anos depois já chegavam aos milhares, iniciaram lutas tremendas e encarniçadas, quase levando à extinção a primeira espécie verdadeiramente autoconsciente. Foram lutas por poder, por comida, por inveja, por território, por egoísmo, por mulheres, todas essas coisas que motivam os mais baixos instintos dos homens.

— Compreensível.

— Nessa época, ninguém mais confiava em ninguém, seus ascendentes mais antigos, que os fizeram parentes no passado, já haviam morrido, sua memória estava perdida, e todos, apesar de serem semelhantes, viam-se como totalmente distintos. Por analogia: numa terra de cegos, se ninguém nela tem um olho sequer, jamais se saberá que são todos cegos! Um ser de outra terra, dotado de olhos, veria a semelhança, mas eles, os cegos, não. Logo, por não haver razões evidentes para o surgimento da confiança mútua, de um arremedo da fraternidade espiritual, as alianças tornaram-se provisórias e volúveis. E tome guerra sobre guerra! Foi então que, por mandato de Deus, surgiram os primeiros humanos das diferentes raças de cor. Por mutação aparentemente espontânea. Essa nova semelhança, pela cor, não bastaria para gente extremamente sofisticada e avançada, como acreditamos ser hoje, chegar à paz. Mas trouxe a paz dentro dos grupos raciais da época. Havia uma confiança natural dentro de cada raça e a antiga desconfiança, que antes era geral e irrestrita, passou a dirigir-se apenas a outras raças. Percebe?

— Não vou negar: o raciocínio é interessante.

— Bom, foi assim que aconteceu. A guerra geral de todos contra todos tornou-se a guerra de uma raça contra outra e, ao mesmo tempo, e como corolário, veio a migração das diferentes raças pelos continentes. Cada um procurando o seu quadrado. No fundo, ninguém queria briga. Era melhor fazer a trouxa e pegar a estrada. Algumas raças quase desapareceram totalmente nesse processo, restando delas apenas algumas características genéticas transmitidas devido ao contato mútuo. Na verdade, não existem mais raças puras. A maneira como chegamos a isso pode parecer uma coisa terrível hoje, mas esse arranjo foi muito melhor do que nossa extinção. Deus escreve certo por linhas tortas.
Roberto estava pensativo. Os olhos perdidos algures. Por fim, descobrindo-se novamente dentro do escritório de um advogado, endireitou-se na cadeira e soltou um…

— Ufa!… Não foi fácil chegar até aqui.

— Não foi mesmo —  concordou doutor Pinto. — O senhor fala muito bem, seu Roberto, quase como um advogado de sucesso — e sorriu. — É formado em alguma coisa? Ou apenas lê a Bíblia. Pessoas que lêem a Bíblia falam muito melhor do que as demais. João Ferreira de Almeida, Deus o tenha, fez um serviço que foi muito além da salvação das almas.

— Sou formado em Administração de sistemas.

— Ah, é verdade. E o senhor tem economias?

— Bom, doutor Pinto, depois de tudo o que o senhor me disse hoje, eu preciso é ir pra casa pensar melhor. Sei que o senhor é ocupado e deve cobrar um valor elevado pelo seu tempo.

O doutor sorriu:
— Não, não, seu Roberto. Não estou de olho na sua carteira. O senhor é um rapaz inteligente e tenho certeza de que tem suas ambições e projetos. Se o senhor gosta tanto do que faz, e se tem algum dinheiro poupado, devia propor sociedade ao seu chefe. Como vai a saúde da empresa?

Roberto estava aturdido, um sorriso cheio de surpresa estampado no rosto:
— Como o senhor sabe que eu tinha essa idéia na cabeça? Minha namorada, que não é negra, e que por odiar o racismo insistiu comigo a vir recorrer ao senhor, vive me dizendo para propor sociedade ao meu patrão. Ela inclusive quer que eu use, além das minhas economias, as dela. Como o senhor sabia disso?

— O senhor lê códigos binários, seu Roberto. Eu leio pessoas. Eu vi sua expressão quando me disse que seu chefe e o dono da empresa também eram negros… O senhor devia fazer como nossos ancestrais Homo erectus e, enquanto não recebe o dom da plena maturidade — me desculpe, mas o senhor é muito jovem, praticamente um menino —, devia unir-se de forma apropriada a quem julga ser da sua turma. Faça como Pelé, seja um sucesso e vire chefe dos seus antagonistas. Não os processe, não os odeie, apenas jogue a piada de volta sobre eles. Não estou lhe dizendo para ser um racista, estou apenas aconselhando-o a ter senso de humor e jogo de cintura. Mas voltando… como vai a empresa? Está bem das pernas?

— Há muita concorrência, doutor.

— Vocês precisam é de uma eficiente estratégia de marketing. No seu lugar eu iria até seu patrão, mostraria o quanto economizou e proporia sociedade.

— E o senhor acha que isso seria jogar a piada de volta sobre meus colegas?

— Não inteiramente. Eu ainda não concluí. É o seguinte: o senhor tem de propor a sociedade e também sugerir um novo nome para a empresa: Prompt de Comando. Prompt quer dizer imediato, rápido, diligente. Um excelente nome. E uma foto do comando da empresa, com sócios negros, seria uma excelente propaganda.

Roberto deu uma súbita e gostosa risada:
— Doutor Pinto Grande, o senhor é foda!

— Eu sei, meu caro, nomen est omen: nome é destino.

E foi assim que surgiu a bem sucedida empresa de gerenciamento de sistemas Prompt de Comando, com filiais em quatro continentes.

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Leia outro conto: Doutor Pinto Grande e o pedinte do metrô.

9:02 amHavona, por Jaco Pastorius

Tal como declarou sua viúva, Ingrid Pastorius, Jaco compôs Havona após ler sobre o Universo Central de Havona no Livro de Urântia. A versão abaixo foi gravada em 1977 enquanto participava da banda de jazz fusion Weather Report (álbum Heavy Weather).

uma versão anterior, de 1975, que tem Herbie Hancock ao piano, Jaco Pastorius no baixo e Lenny White na bateria. (Infelizmente o vídeo não pode ser incorporado.)

8:11 pmA Parceria do Homem com a Mulher

Kiss, by Alex Grey

«(938.5) 84:6.1 O impulso da reprodução leva infalivelmente homens e mulheres a unirem-se para a autoperpetuação; todavia, por si só, isso não assegura que permaneçam juntos, em cooperação mútua — na fundação de um lar.

«(938.6) 84:6.2 Todas as instituições humanas de êxito abrangem antagonismos de interesse pessoal, ajustados na harmonia da prática do trabalho; e os trabalhos de casa não são exceção. O matrimônio, a base da edificação do lar, é a mais alta manifestação dessa cooperação entre antagonistas, que tão freqüentemente caracteriza os contatos da natureza e da sociedade. O conflito é inevitável. O acasalamento é inerente e natural. O matrimônio, contudo, não é biológico; é sociológico. A paixão assegura que homem e mulher se reúnam, mas o instinto, menos forte, da paternidade e os costumes sociais mantêm-nos juntos.

«(938.7) 84:6.3 Se considerados, na prática, o macho e a fêmea são duas variedades distintas da mesma espécie; vivendo em associação próxima e íntima. Os seus pontos de vista e reações vitais são todos essencialmente diferentes; eles são totalmente incapazes de uma compreensão mútua, plena e real. Um entendimento completo entre os sexos não é alcançável.

«(938.8) 84:6.4 As mulheres parecem ter mais intuição do que os homens, mas também demonstram ser um tanto menos lógicas. A mulher, contudo, tem sempre sido o esteio moral e tem tido a liderança espiritual da humanidade. É a mão que embala o berço e que ainda confraterniza com o destino.

«(938.9) 84:6.5 As diferenças de natureza, reação, ponto de vista e pensamento, entre homens e mulheres, longe de ocasionar preocupação, deveriam ser consideradas como altamente benéficas à humanidade, tanto individual quanto coletivamente. Muitas ordens de criaturas do universo são criadas em fases duais de manifestação de personalidade. Essa diferença é descrita como o macho e a fêmea, entre os mortais, os Filhos Materiais e os midsonitas; entre os serafins, os querubins e os Companheiros Moronciais, tem sido denominada positiva ou ativa, e negativa ou reservada. Tais associações duais multiplicam grandemente a versatilidade e superam limitações inerentes, como o fazem algumas associações trinas no sistema Paraíso-Havona.

«(939.1) 84:6.6 Homens e mulheres necessitam uns dos outros, nas suas carreiras moronciais e espirituais, exatamente como nas suas carreiras mortais. As diferenças de ponto de vista entre o macho e a fêmea perduram mesmo além da primeira vida e durante as ascensões do universo local e do superuniverso. E, mesmo em Havona, os peregrinos que uma vez foram homens e mulheres ainda estarão ajudando-se mutuamente na ascensão até o Paraíso. Nunca, mesmo no Corpo de Finalidade, a criatura irá metamorfosear-se tanto, a ponto de obliterar os traços de personalidade que os humanos chamam de masculinos e femininos; sempre essas duas variações básicas da humanidade continuarão a intrigar, estimular, encorajar e ajudar-se mutuamente; sempre serão mutuamente dependentes da cooperação para a solução dos problemas desconcertantes do universo e a superação das múltiplas dificuldades cósmicas.

«(939.2) 84:6.7 Embora os sexos nunca possam esperar entender-se mutuamente, eles são efetivamente complementares e, embora a cooperação seja com freqüência mais ou menos antagônica pessoalmente, ela é capaz de manter e de reproduzir a sociedade. O matrimônio é uma instituição destinada a compor as diferenças dos sexos, ao mesmo tempo em que efetua a continuação da civilização e assegura a reprodução da raça.

«(939.3) 84:6.8 O matrimônio é a mãe de todas as instituições humanas, pois conduz diretamente à fundação e manutenção do lar, que é a base estrutural da sociedade. A família está vitalmente ligada ao mecanismo da autopreservação; é a única esperança de perpetuação da raça sob os costumes da civilização e ao mesmo tempo provê, de modo bastante eficaz, algumas formas de autogratificação suficientemente satisfatórias. A família é a mais elevada realização puramente humana, combinando, como o faz, a evolução das relações biológicas de macho e fêmea nas relações sociais entre o marido e a esposa.»
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Fonte: The Urantia Book.

Sobre o mesmo tema:

«As mulheres não querem ser compreendidas, elas querem ser amadas.» Olavo de Carvalho

(Vale a pena lembrar que Olavo considera o livro citado acima “alucinante”, e isto não exatamente num bom sentido.)

3:28 pmReligião e Sociedades Secretas – podcast com Olavo de Carvalho

Há exatos seis anos, publiquei meu sexto podcast com o filósofo Olavo de Carvalho, no qual conversamos sobre “Religião e Sociedades Secretas”. (Veja os tópicos logo abaixo de cada parte.) Volto a postá-lo aqui, em duas partes, porque, dentre todos os gravados naquele ano (2006), foi exatamente este o que mais me marcou. A primeira parte — que chamo de “lado A” — foi ouvida, até o momento, mais de 97 mil vezes. A segunda parte (“lado B”), por alguma razão que desconheço, foi danificada no YouTube quando já havia sido ouvida mais de 22 mil vezes. Voltei a postá-la novamente e, hoje, conta 5160 acessos. Não sei o porquê dessa discrepância de acessos entre as duas partes, mas a questão é que considero a segunda parte tão ou mais importante que a primeira. Creio que, na primeira, Olavo prepara a mesa enquanto que, na segunda, ele nos serve um banquete. O que Olavo fala sobre a fé, nessa segunda parte, é algo que jamais esquecerei. Não sugiro que seja ouvida antes ou em vez da primeira parte, mas, sim, que não seja deixada de lado. Você irá entender o porquê.


Neste sexto bate-papo, “lado A”, o filósofo Olavo de Carvalho discorre sobre os seguintes temas: Islã, Frithjof Schuon, religião comparada, judaísmo/hinduísmo/budismo; Conceito de religião, revelação e doutrina; Cristianismo, o indiví­duo, fé e crença; a filosofia perene; Martin Heidegger; religião evolutiva?; Islã e terrorismo; queda do Império Romano, os feudos, a Igreja Católica, racionalismo e moral cristã; Emmanuel Swedenborg, a Bí­blia; ateus; sociedades secretas, Maçonaria, os Illuminati; René Guénon, o caos e a unidade do Islã, califado mundial; etc.


Neste sexto podcast, “lado B”, Olavo discorre sobre os seguintes tópicos: pensamento epidérmico e pensamento profundo; diferença entre Deus e Alá; fraternidade; a conversão acentuadamente “civil” islâmica e a conversão estritamente espiritual cristã; o Verbo Divino; Fé e confiança; a conversão não é instantânea; a Salvação; o pensamento de Jacques Derrida como testemunho da perdição da alma; a Imortalidade; o Livro de Urântia (Urantia Book); a Bí­blia e a literatura; a Bí­blia como chave para interpretação da vida pessoal; alma fechada e alma aberta; a diferença entre o poeta e o louco; “Deus não é objeto para o pensamento”; “o desconstrucionismo, o marxismo e a psicanálise defendem-se da crí­tica tal como o faz o homossexualismo”; unidade planetária e globalização; abismos culturais; George Soros; “os quatro graus de credibilidade”; maturidade intelectual; uma dica de filme; o lançamento de sua rádio online (TrueOutspeak).

12:51 pmJesus fala sobre misericórdia, justiça, autodefesa e não-resistência

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Trecho do Documento 133, intitulado O Retorno de Roma, do Livro de Urântia:

Um incidente muito interessante ocorreu, em uma tarde, no acostamento da estrada, quando eles se aproximavam de Tarento. Viram um jovem rude intimidando brutalmente um outro menor do que ele. Apressando-se a ajudar o menino atacado, quando o havia resgatado, Jesus permaneceu apenas segurando apertadamente o ofensor até que o menor tivesse escapado. No momento em que Jesus liberou o pequeno brigão, Ganid agarrou o menino e começou a bater nele estrepitosamente, então, Jesus prontamente interferiu, para espanto de Ganid. Depois de haver contido Ganid e permitido ao menino amedrontado escapar, tão logo recuperou o fôlego, Ganid exclamou sobressaltado: “Eu não consigo entender-te, Mestre. Se a misericórdia exige que tu resgates o menino menor, a justiça não exige a punição do menino maior e que era o ofensor?” Respondendo, Jesus disse:

“Ganid, é verdade que tu não entendeste. A ministração da misericórdia é sempre trabalho do indivíduo, mas a justiça da punição é função do social, do governo ou dos grupos que administram o universo. Enquanto indivíduo sou obrigado a mostrar misericórdia; eu devia livrar o garoto atacado e, com toda firmeza, empregar a força necessária para conter o agressor. E isso foi exatamente o que fiz. Realizei a libertação do menino atacado; e esse foi o fim da ministração da misericórdia. E então, à força eu detive o agressor por um período de tempo suficiente para permitir que a parte mais fraca, na disputa, escapasse; após o que eu me retirei do caso. E não continuei, não fiz o julgamento do agressor, nem repassei o seu motivo — nem julguei tudo o que motivou o seu ataque ao seu companheiro — e não assumi executar a punição que a minha mente podia ditar como compensação justa pelo erro dele. Ganid, a misericórdia pode ser pródiga, mas a justiça deve ser precisa. Não podes discernir que não há duas pessoas que porventura concordem quanto à punição que deveria satisfazer as exigências da justiça? Um imporia quarenta chicotadas, o outro vinte, enquanto outro iria aconselhar ainda o confinamento em solitária como uma justa punição. Não vês que, neste mundo, essas responsabilidades ou deveriam ficar com o grupo ou deveriam ser administradas pelos representantes escolhidos do grupo? No universo, o julgamento é entregue àqueles que conhecem plenamente os antecedentes de todos os erros, bem como as suas motivações. Na sociedade civilizada e em um universo organizado, a administração da justiça pressupõe aplicar uma sentença justa em conseqüência de um julgamento equânime; e essas prerrogativas são dadas aos grupos jurídicos dos mundos e aos administradores todo-cientes dos universos mais elevados de toda a criação”.

Durante vários dias eles conversaram sobre a questão da manifestação da misericórdia e da administração da justiça. E Ganid, ao menos em uma certa medida, compreendeu por que Jesus não queria entrar em combate pessoalmente. Ganid, no entanto, fez uma última pergunta, para a qual ele nunca recebeu uma resposta totalmente satisfatória; e essa pergunta foi: “Mas, Mestre, se uma criatura mais forte e de temperamento maldoso te atacasse e ameaçasse destruir-te, o que farias? Não farias nenhum esforço para defender-te?” Embora Jesus não pudesse plena e satisfatoriamente responder à pergunta do jovem, porquanto ele não estava querendo revelar-lhe que ele (Jesus) estava vivendo na Terra como a exemplificação do amor do Pai do Paraíso, para um universo que a tudo assistia; ainda assim, ele disse o seguinte:

“Ganid, posso entender bem o quanto te deixam perplexo algumas dessas questões e vou esforçar-me para responder à tua pergunta. Primeiro, em todos os ataques que poderiam ser feitos à minha pessoa, eu determinaria se o agressor seria ou não um filho de Deus — meu irmão na carne — e, se eu achasse que uma tal criatura fosse desprovida de juízo moral e de razão espiritual, eu defenderia sem hesitar a mim próprio com toda a capacidade dos meus poderes de resistência, a despeito das conseqüências para o atacante. Mas, eu não agrediria assim a um irmão que tenha o status de filiação, nem mesmo em autodefesa. Isto é, eu não o puniria precipitadamente e sem julgamento por uma agressão contra mim. Por todos os meios possíveis eu procuraria impedir e dissuadi-lo de fazer aquele ataque; e faria tudo para mitigá-lo caso eu fracassasse em evitá-lo. Ganid, eu tenho confiança absoluta nos cuidados do meu Pai celeste; e estou consagrado a fazer a vontade do meu Pai no céu. Não acredito que nenhum mal real possa sobrevir a mim, não acredito que o trabalho da minha vida possa ser ameaçado por qualquer coisa que os meus inimigos possam desejar que aconteça a mim, e certamente não há nenhuma violência dos nossos amigos a ser temida. Estou absolutamente seguro de que todo o universo é amigável comigo — essa é a verdade todo-poderosa na qual eu insisto em acreditar, com uma confiança de todo o coração, a despeito de todas as aparências em contrário”.

Ganid, todavia, não ficou plenamente satisfeito. Muitas vezes eles falaram sobre essas questões; e Jesus contara a ele algo das suas experiências de infância e também sobre Jacó, o filho do pedreiro. Ao saber como Jacó se propusera a defender Jesus, Ganid disse: “Oh, eu começo a perceber! Em primeiro lugar muito raramente qualquer ser humano normal iria atacar uma pessoa tão boa como tu és e, mesmo que alguém seja tão irrefletido a ponto de fazer tal coisa, há de haver muito certamente algum outro mortal à mão que acorrerá em tua proteção, do mesmo modo que tu sempre acorres em defesa de qualquer pessoa que tu percebes estar em aperto. No meu coração, Mestre, eu concordo contigo, mas na minha cabeça eu ainda acho que se eu tivesse sido Jacó, eu teria gostado de punir aqueles irmãos rudes que ousaram atacar-te só porque sabiam que tu não irias defender-te a ti mesmo. Eu presumo que tu estás a salvo o suficiente nessa tua jornada pela vida, já que passas grande parte do teu tempo ajudando aos outros e ministrando aos teus semelhantes em desespero — bem, muito provavelmente haverá sempre alguém à mão para defender-te”. E Jesus retorquiu: “Esse teste ainda está para acontecer, Ganid, e, quando vier, nós teremos que nos conformar com a vontade do Pai”. E isso foi tudo o que o jovem pôde levar o seu Mestre a dizer sobre essa questão difícil, da autodefesa e da não-resistência. Numa outra ocasião ele conseguiu tirar de Jesus a opinião de que a sociedade organizada tinha todo o direito de empregar a força para o cumprimento dos seus mandados de justiça.

Fonte: The Urantia Book.

10:18 pmUm romano indagou a Jesus: “O que devo fazer com minha riqueza?”

Jesus Cristo

Aconselhando o Homem Rico

Um certo homem rico, um cidadão romano estóico, tornou-se bastante interessado nos ensinamentos de Jesus, tendo sido apresentado por Angamon. Depois de muitas conversas pessoais, esse cidadão abastado perguntou a Jesus o que ele faria com a riqueza se ele a tivesse, e Jesus respondeu-lhe: “Eu consagraria a riqueza material à elevação da vida material, como também ministraria conhecimentos, sabedoria e serviço espiritual para o enriquecimento da vida intelectual, para o enobrecimento da vida social e o avanço da vida espiritual. Eu administraria a riqueza material como um depositário sábio e eficaz dos recursos de uma geração e para o benefício e o enobrecimento das gerações próximas e subseqüentes”.

O homem rico, contudo, não ficou totalmente satisfeito com a resposta de Jesus. Ele ousou perguntar de novo: “Mas o que tu pensas que um homem, na minha posição, deveria fazer com a sua riqueza? Deveria eu mantê-la ou distribuí-la?” E quando percebeu que ele realmente desejava saber mais sobre a verdade da sua lealdade a Deus e sobre o seu dever para com os homens, Jesus desenvolveu a sua resposta: “Percebo, meu bom amigo, que és um buscador sincero da sabedoria e amante honesto da verdade; assim sendo, estou disposto a colocar diante de ti minha visão da solução para os teus problemas, no que eles têm a ver com as responsabilidades da riqueza. Faço isso porque pediste meu conselho e, ao dar-te esse conselho, não me ocupo da riqueza de nenhum outro homem rico; estou oferecendo esse conselho apenas a ti e para a tua orientação pessoal. Se desejares honestamente considerar tua fortuna como uma responsabilidade, se queres transformar-te em um administrador sábio e eficiente dos teus bens acumulados, então eu te aconselharia a fazer a seguinte análise das fontes de tuas riquezas: pergunta a ti próprio, e faz o melhor para encontrar a resposta honesta: de onde veio essa riqueza? E, como ajuda no estudo das fontes da tua grande fortuna, eu sugeriria que tivesses em mente os dez métodos diferentes de acumular a riqueza material:

“1. A riqueza herdada — riquezas que se originam de pais e de outros ancestrais.

“2. A riqueza descoberta — riquezas que vieram de recursos não cultivados da mãe Terra.

“3. A riqueza do comércio — riquezas obtidas pelo lucro justo na troca e no intercâmbio de bens materiais.

“4. A riqueza indevida — riquezas que se derivaram de uma exploração injusta ou da escravização do semelhante.

“5. A riqueza dos juros — a renda proveniente das justas e honestas possibilidades de ganho do capital investido.

“6. A riqueza do gênio — riquezas provindas de recompensas de dons criativos e inventivos da mente humana.

“7. A riqueza acidental — riquezas que se derivam da generosidade de um semelhante ou que têm origem nas circunstâncias da vida.

“8. A riqueza roubada — riquezas asseguradas pela injustiça, a desonestidade, o roubo ou a fraude.

“9. A riqueza de fundos — riquezas colocadas nas tuas mãos pelos teus semelhantes para algum uso específico, agora ou no futuro.

“10. A riqueza ganha — riquezas derivadas diretamente de teu próprio trabalho pessoal, a recompensa justa e honesta dos esforços diários de tua mente e teu corpo.

“E assim, meu amigo, se quiseres ser um administrador fiel e justo da tua grande fortuna, perante Deus e no serviço dos homens, tu deves dividir aproximadamente os teus bens nessas dez grandes divisões e, então, continuar a administrar cada porção de acordo com a interpretação sábia e honesta das leis da justiça, da eqüidade, da probidade e da verdadeira eficiência; embora o Deus no céu não irá condenar-te se, algumas vezes, tu errares nas situações duvidosas, quanto à consideração da misericórdia e da generosidade para com a infelicidade das vítimas sofridas em circunstâncias desafortunadas da vida mortal. Quando tiveres dúvida séria e sincera sobre a eqüidade e a justiça das situações materiais, que as tuas decisões favoreçam aqueles que estão em necessidade, que favoreçam aqueles que sofrem da infelicidade de privações imerecidas”.

Após discutirem sobre essas questões por várias horas, e em resposta ao pedido de uma instrução com mais e maiores detalhes, feito pelo homem rico, Jesus passou a ampliar o seu conselho, dizendo em essência: “Ao oferecer-te mais sugestões para a atitude a tomar para com a riqueza, eu deveria admoestar-te a receber meu conselho como dado a ti e para tua orientação pessoal. Falo apenas por mim próprio e para ti, o amigo que me pergunta. E te convoco a não te transformar em um ditador de como devem os outros homens ricos considerar suas riquezas. Assim, te aconselharia:

“1. Como administrador da riqueza herdada deverias considerar as suas fontes. Tu estás sob a obrigação moral de representar a geração passada na transmissão honesta da riqueza legítima às gerações que se sucedem, depois de subtraíres uma taxa justa, em benefício da geração atual. Entretanto, não és obrigado a perpetuar nenhuma desonestidade ou injustiça, que tiver sido envolvida na acumulação injusta dessa riqueza, ainda que cometida pelos teus ancestrais. Qualquer porção da tua riqueza herdada que resulta como sendo proveniente de fraude ou de injustiça, tu podes desembolsar de acordo com as tuas convicções de justiça, generosidade e restituição. Quanto ao remanescente da tua legítima riqueza herdada podes fazer uso com eqüidade e transmiti-lo, em segurança, como curador, de uma geração para a outra. A discriminação sábia e o julgamento sadio deveriam ditar as tuas decisões quanto ao legado das riquezas para os teus sucessores.

“2. Todo aquele que desfruta de riqueza obtida pelas descobertas deveria lembrar-se de que um indivíduo só pode viver na Terra senão por um curto período de tempo e deveria, por isso, fazer a provisão adequada ao compartilhamento dessas descobertas para o bem do maior número possível de semelhantes seus. Ainda que ao descobridor não devesse ser negada uma recompensa pelos esforços da descoberta, não deveria ele pretender, egoisticamente, reclamar exclusividade sobre todas as vantagens e bênçãos derivadas da revelação dos recursos acumulados pela natureza.

“3. Se os homens escolherem conduzir os negócios por meio do comércio e da troca, eles terão direito a um lucro justo e legítimo. Todo comerciante merece pagamento para os seus serviços; o mercador tem direito ao seu salário. A eqüidade no comércio e um tratamento honesto conferido a um semelhante, nos negócios organizados do mundo, criam muitas espécies diferentes de riquezas de lucros e todas essas fontes de riquezas devem ser julgadas pelos mais altos princípios da justiça, honestidade e eqüidade. O comerciante honesto não deveria hesitar em ter o mesmo lucro que, com contentamento, ele daria ao seu companheiro comerciante em uma transação semelhante. Ainda que essa espécie de riqueza não seja idêntica à renda individualmente ganha, quando os negócios são conduzidos em uma larga escala, ao mesmo tempo, tais riquezas honestamente acumuladas dotam o seu possuidor de uma eqüidade considerável quanto a ter voz ativa na sua subseqüente redistribuição.

“4. Nenhum mortal sabedor de Deus e que busca fazer a vontade divina pode rebaixar-se ao engajamento em opressões por meio da riqueza. Nenhum homem nobre esforçar-se-á para ajuntar riquezas e acumular o poder da riqueza, se feita sobre a escravidão ou exploração injusta dos seus irmãos na carne. As riquezas são uma maldição moral e um estigma espiritual quando provenientes do suor de homens mortais sob opressão. Toda essa riqueza deveria ser devolvida àqueles que nisso foram roubados. ou aos filhos ou netos deles. Uma civilização perdurável não pode ser construída sobre a prática da espoliação do salário do trabalhador.

“5. A riqueza honesta tem direito aos juros. Desde que os homens emprestem e tomem emprestado, aquilo que são os juros justos pode ser recebido desde que o capital emprestado provenha de riqueza legítima. Primeiro, purifica o teu capital antes de reivindicar os juros. Não sejas tão pequeno e ávido a ponto de rebaixar-te à prática da usura. Nunca te permitas ser tão egoísta a ponto de empregar o poder do dinheiro para obter vantagens injustas sobre o teu companheiro que labuta. Não cedas à tentação de exigir juros usurários do teu irmão em desespero financeiro.

“6. Se por acaso conseguires a riqueza por meio dos arroubos do gênio, se as tuas riquezas provêm de recompensas de dons inventivos, não reivindiques uma parte injusta como remuneração. O gênio deve um pouco, tanto aos seus ancestrais quanto à sua progênie; e do mesmo modo ele deve obrigação à raça, à nação e às circunstâncias das suas descobertas inventivas; deveria também se lembrar de que foi como um homem entre os homens que trabalhou e completou as suas invenções. Seria igualmente injusto privar o gênio de todo o aumento da sua riqueza. E será sempre impossível aos homens estabelecer leis e regras aplicáveis igualmente a todos esses casos de distribuição equânime da riqueza. Deves primeiro reconhecer o homem como teu irmão, e, se desejares honestamente fazer por ele como gostarias que fizesse por ti, os imperativos comuns da justiça, da honestidade e da probidade te guiarão no estabelecimento justo e imparcial e na liquidação de todo problema que surgir da recompensa econômica e justiça social.

“7. Exceto pelas taxas justas e legítimas ganhas pela administração, nenhum homem deveria fazer reivindicação pessoal sobre a fortuna que o tempo e o acaso fizeram cair nas suas mãos. As riquezas acidentais deveriam ser consideradas mais sob a luz de serem um depósito a ser gasto para o benefício do próprio grupo social ou econômico. Aos possuidores de uma tal fortuna deveria ser consentida apenas maior voz ativa na determinação da distribuição sábia e efetiva desses recursos pelos quais não trabalharam. O homem civilizado não deveria sempre considerar tudo o que ele controla como sendo sua posse pessoal e privada.

“8. Se alguma parte da tua fortuna é consabidamente proveniente de fraudes, se algo da tua riqueza foi acumulado por práticas desonestas ou métodos injustos; se as tuas riquezas são o produto de negociações injustas com os teus semelhantes, apressa-te a restituir todos esses ganhos obtidos de modo desonesto aos seus devidos proprietários. Faz correções completas e, assim, purifica a tua fortuna de todas as riquezas desonestas.

“9. A gestão da riqueza que uma pessoa faz, para o benefício de outrem, é uma responsabilidade solene e sagrada. Não coloques em risco nem em perigo essa gestão. Extrai para ti próprio, ao gerir qualquer desses bens, apenas aquilo que todos os homens honestos permitiriam.

“10. Aquela parte da tua fortuna que representa os ganhos dos teus próprios esforços mentais e físicos — se o teu trabalho tem sido feito com justiça e eqüidade — verdadeiramente te pertence. Nenhum homem pode impugnar o teu direito de manter e usar tal riqueza da forma como tu julgares adequada, desde que o teu exercício desse direito não cause dano aos teus semelhantes”.

Quando Jesus tinha terminado de dar-lhe os conselhos, esse abastado romano levantou-se do seu sofá e, despedindo-se por aquela noite, fez a si próprio a promessa: “Meu bom amigo, percebo que és um homem de grande sabedoria e muita bondade; assim, amanhã eu começarei a administração de todos os meus bens conforme o teu conselho”.

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O Livro de Urântia, Documento 132 – A Permanência em Roma.

Não, esta não é uma releitura da passagem em que Jesus diz ao jovem rico para doar tudo o que tem e segui-lo. A passagem acima ocorreu durante sua pouco conhecida viagem a Roma.

Segundo o Livro de Urântia, a passagem que corresponde a Mateus, 19:21 é a que segue:

Então André trouxe a Jesus um certo homem, jovem e rico, que era um devoto e desejava receber a ordenação. Esse homem, Matadormus, era um membro do sinédrio de Jerusalém; tinha ouvido Jesus ensinar e havia sido instruído posteriormente, no evangelho do Reino, por Pedro e outros apóstolos. Jesus conversou com Matadormus a respeito dos quesitos da ordenação e pediu-lhe que tomasse a sua decisão depois de pensar mais profundamente sobre a questão. Bem cedo na manhã seguinte, quando Jesus saía para uma caminhada, esse jovem aproximou-se dele e disse: “Mestre, eu gostaria de saber de ti sobre as certezas da vida eterna. Uma vez que eu tenho observado todos os mandamentos desde a minha juventude, gostaria de saber o que mais devo fazer para ganhar a vida eterna?” Em resposta a essa pergunta, Jesus disse: “Se tu cumprires os mandamentos — de não cometer adultério, de não matar, de não roubar, de não dar falso testemunho, de não trapacear e de honrar aos teus pais — , tu terás feito muito bem, mas a salvação é uma recompensa da fé, e não meramente das tuas obras. Tu crês nesse evangelho do Reino?” E Matadormus respondeu: “Sim, Mestre, eu creio em tudo o que tu e os teus apóstolos me ensinaram”. E Jesus disse: “Então tu és de fato meu discípulo e um filho do Reino”.

E então o jovem disse: “Mas, Mestre, não me contento em ser teu discípulo; gostaria de ser um dos teus novos mensageiros”. Ao ouvir isso, Jesus olhou para ele e, com um grande amor, disse: “Eu terei a ti como um dos meus mensageiros, se estiveres disposto a pagar o preço, se satisfizeres o único quesito que te falta”. Matadormus respondeu: “Mestre, farei qualquer coisa para que me seja permitido seguir-te”. E Jesus, beijando na fronte o jovem ajoelhado, disse: “Se quiseres ser um mensageiro meu, vai e vende tudo o que tens e, quando tiveres doado o produto aos pobres ou aos teus irmãos, vem e segue-me; e tu terás um tesouro no Reino do céu”.

Quando Matadormus ouviu isso, o seu semblante esmoreceu. Ele levantou-se e partiu pesaroso, pois possuía muitos bens. Esse jovem fariseu rico fora criado na crença de que a riqueza era um sinal do favorecimento de Deus. Jesus sabia que ele não estava liberto do amor de si próprio e das riquezas. O Mestre queria libertá-lo do amor das riquezas, não necessariamente da riqueza em si. Embora os discípulos de Jesus não precisassem desfazer-se de todos os bens terrenos, os apóstolos e os setenta desfaziam-se deles. Matadormus desejava ser um dos setenta novos mensageiros, e por esse motivo Jesus lhe pediu que se desfizesse de todas as suas posses temporais.

Quase todo ser humano tem uma coisa à qual se apega, como a um mal necessário e querido, e à qual deverá renunciar, como parte do preço da admissão ao Reino do céu. Se Matadormus se houvesse desfeito da sua riqueza, ela provavelmente teria sido colocada de volta nas suas mãos, para que ele a administrasse, como tesoureiro dos setenta. Pois, mais tarde, depois do estabelecimento da igreja de Jerusalém, ele obedeceu à determinação do Mestre, embora, então, haja sido tarde demais para que ele tivesse podido desfrutar da companhia dos setenta, como membro; e ele tornou-se o tesoureiro da igreja de Jerusalém, da qual, Tiago, o irmão do Senhor, na carne, era o dirigente.

Sempre foi assim e para sempre será: os homens devem tomar as suas próprias decisões. E existe uma certa amplitude, nas possibilidades da liberdade de escolha, dentro da qual os mortais podem atuar. As forças do mundo espiritual jamais coagirão o homem; elas permitem que ele siga o caminho da sua própria escolha.

Jesus previu que, com as suas riquezas, Matadormus não teria possibilidade de ser ordenado como companheiro dos homens que a tudo haviam abandonado pelo evangelho; ao mesmo tempo, sentiu que, sem as suas riquezas, ele tornar- se-ia o dirigente máximo de todos eles. Mas, como os próprios irmãos de Jesus, Matadormus nunca chegou a ser grande no Reino, porque privou a si próprio daquele convívio íntimo e pessoal com o Mestre. Convívio este que poderia ter feito parte da experiência dele, tivesse ele estado disposto a fazer, no momento certo, aquilo que lhe tinha sido pedido por Jesus, e que, vários anos depois, ele realizou de fato.

As riquezas não têm nenhuma relação direta com a entrada no Reino do céu, mas o amor pela riqueza tem. As lealdades espirituais ao Reino são incompatíveis com uma profunda servidão à cobiça materialista. O homem não pode dividir, com uma devoção material, a sua lealdade suprema a um ideal espiritual.

Jesus nunca ensinou que é errado ter riquezas. Apenas aos doze e aos setenta ele pedia que dedicassem todas as suas posses no mundo à causa comum. E, ainda assim, cuidou para que fosse efetuada uma liquidação vantajosa das propriedades deles, como no caso do apóstolo Mateus. Jesus, por muitas vezes, aconselhou aos seus discípulos abastados aquilo que havia ensinado ao homem rico de Roma. O Mestre considerava o sábio investimento dos ganhos excedentes como sendo uma forma legítima de seguro para uma adversidade futura inevitável. Quando a tesouraria apostólica estivera transbordante, Judas colocara os fundos em um depósito a ser utilizado futuramente, quando eles pudessem estar sofrendo de uma diminuição grande na renda. E isso, Judas havia feito depois de consultar-se com André. Jesus nunca teve nada a ver pessoalmente com as finanças apostólicas, exceto quanto ao desembolso para as esmolas. No entanto, por muitas vezes, ele condenou o abuso econômico, tal como a exploração injusta dos fracos, dos ignorantes e dos menos afortunados entre os homens, pelos seus semelhantes mais fortes, mais sagazes e mais inteligentes. Jesus declarou que o tratamento desumano impingido aos homens, mulheres e crianças era incompatível com os ideais de irmandade do Reino do céu.

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O Livro de Urântia, Documento 163 – A Ordenação dos Setenta em Magadam

2:23 pmA amizade e o entusiasmo pela vida

urantia

"O isolamento tende a exaurir a carga de energia da alma. A associação com os semelhantes é essencial para a renovação do gosto pela vida e é indispensável à manutenção da coragem para lutar nas batalhas conseqüentes da ascensão aos níveis mais elevados da vida humana. A amizade intensifica as alegrias e glorifica os triunfos na vida. As ligações humanas de amor e intimidade tendem a aliviar o sofrimento das penas da vida e a dificuldade de muitas amarguras. A presença de um amigo acentua toda a beleza e exalta toda a bondade. Por meio de símbolos inteligentes, o homem torna-se capaz de vivificar e aumentar as capacidades de apreciação dos seus amigos. Uma das glórias que coroam as amizades humanas é esse poder e possibilidade de estímulo mútuo da imaginação. Um grande poder espiritual é inerente à consciência da devoção, de todo o coração, a uma causa comum, à lealdade mútua a uma Deidade cósmica."

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The Urantia BookDocumento 160: Rodam de Alexandria

8:08 amA fé de Jesus

 Jesus, by Alex Grey

« JESUS possuía uma fé sublime, e de todo o coração, em Deus. Ele experimentou os altos e baixos comuns da existência mortal, mas religiosamente nunca duvidou da certeza da vigilância e do guiamento de Deus. A sua fé era fruto do discernimento nascido da atividade da presença divina do seu Ajustador residente. A sua fé não era nem tradicional nem meramente intelectual; era totalmente pessoal e puramente espiritual.

« O Jesus humano via Deus como sendo santo, justo e grande, assim como verdadeiro, belo e bom. Todos esses atributos da divindade, ele os focalizava na sua mente como a “vontade do Pai no céu”. O Deus de Jesus era, ao mesmo tempo, “O Santo de Israel” e “O Pai vivo e amoroso do céu”. O conceito de Deus, como um Pai, não foi original de Jesus, mas ele exaltou e elevou essa idéia como uma experiência sublime, realizando uma nova revelação de Deus e proclamando que todo ser mortal é um filho desse Pai de amor, um filho de Deus.

« Jesus não se apegou à fé em Deus como o faria uma alma que se debate em luta contra o universo, ou que se agarra à luta de morte contra um mundo hostil e pecaminoso; ele não recorreu à fé meramente como uma consolação em meio a dificuldades, ou como um conforto em meio à ameaça do desespero; a fé não era apenas uma compensação ilusória para as realidades desagradáveis e os sofrimentos da vida. Ao enfrentar todas as dificuldades naturais e as contradições temporais da existência mortal, ele experimentou a tranqüilidade da confiança suprema e inquestionável em Deus e desfrutou a imensa emoção de viver, pela fé, na própria presença do Pai celeste. E essa fé triunfante foi uma experiência viva de realização real do espírito. A grande contribuição de Jesus para os valores da experiência humana não foi de haver revelado tantas idéias novas sobre o Pai no céu, mas foi mais por ele haver, tão magnífica e humanamente, demonstrado um tipo novo e mais elevado de fé viva em Deus. Nunca, em todos os mundos deste universo, na vida de qualquer mortal, Deus tornou-se uma tão viva realidade como na experiência humana de Jesus de Nazaré.

« Na vida do Mestre, em Urântia, este e todos os outros mundos da criação local descobriram um tipo novo e mais elevado de religião, baseada em relações espirituais pessoais com o Pai Universal e totalmente validada pela autoridade suprema da experiência pessoal genuína. Essa fé viva de Jesus era mais do que uma reflexão intelectual, e não era uma meditação mística.

« A teologia pode fixar, formular, definir e dogmatizar a fé, mas, na vida humana de Jesus, a fé era pessoal, viva, original, espontânea e puramente espiritual. Essa fé não era uma reverência à tradição, nem uma mera crença intelectual que ele mantinha como um credo sagrado, era mais uma experiência sublime e uma convicção profunda mantendo-o em segurança. A sua fé era tão real e todo-inclusiva que varreu para longe, absolutamente, quaisquer dúvidas espirituais e destruiu efetivamente todos os desejos conflitantes. Nada foi capaz de afastá-lo de ancorar-se espiritualmente nessa fé fervorosa, sublime e destemida. Mesmo na derrota aparente ou nas fortes dores do desapontamento e do desespero ameaçador, ele permaneceu calmamente na presença divina, livre de medo e totalmente consciente da invencibilidade espiritual. Jesus desfrutou da certeza revigorante da posse de uma fé inflexível e, em cada uma das situações de provação, demonstrou infalivelmente uma lealdade inquestionável à vontade do Pai. E essa fé magnífica não se intimidou, mesmo diante da ameaça cruel e esmagadora de uma morte ignominiosa.

« Em um gênio religioso, uma fé espiritual muito forte, com freqüência, leva diretamente ao fanatismo desastroso, ao exagero do ego religioso, mas não aconteceu assim com Jesus. Ele não foi afetado desfavoravelmente, na sua vida prática, pela sua extraordinária fé e pela realização espiritual, porque essa exaltação espiritual era uma expressão totalmente inconsciente e espontânea, na sua alma, da sua experiência pessoal com Deus.

Continua…