Eis um ótimo artigo de Sam Jennings sobre o trabalho de Harold Bloom, autor de “A Ansiedade da Influência”, entre outras obras. (Aliás, li meu exemplar de “O Cânone Ocidental” em 2000, na casa da Hilda Hilst para quem em seguida o emprestei: ela o encheu de rabiscos e anotações. Mais tarde emprestei o mesmo livro para Bruno Tolentino, que conheceu Bloom pessoalmente na Inglaterra: embora tenha discordado em alguns pontos secundários, Bruno apreciou a leitura.)
A Influência da Ansiedade
Algo engraçado acontece quando você menciona o nome de Harold Bloom em um ambiente acadêmico. Eu já vi isso acontecer muitas vezes: os olhos revirados ou desviados, talvez até um pequeno escárnio, um olhar que diz Jesus, ele de novo?. “Escreva sobre as idéias dele”, um professor me disse uma vez, “e ninguém levará seu trabalho a sério”.
Se o nome de Bloom chega a surgir em sala de aula hoje em dia, geralmente é para zombar de sua hipérbole mais infame: a suposta “invenção do humano” por Shakespeare, tema do livro de Bloom de mesmo nome, best-seller em 1998. Essa obra, junto com os tomos Gênio: Um Mosaico de Cem Mentes Criativas Exemplares (2002) e Os Melhores Poemas da Língua Inglesa (2004), formou a apoteose da guinada final do velho acadêmico para longe da academia, em direção a uma escrita abertamente didática e explicativa para um público de massa — e havia públicos muito grandes para esses livros naquela época.
Desde seu autodenominado “divórcio” do restante do departamento de inglês de Yale na década de 1970, Bloom já vinha sendo torpedeado nessa direção. Quando lançou sua melhor e principal polêmica, O Cânone Ocidental, em 1994, ele havia se tornado a figura de proa do descontentamento para com os programas de inglês das universidades e com as muitas vertentes da teoria crítica e do historicismo em voga por lá (as quais ele se referia indiscriminadamente como a “escola do ressentimento“). No papel, em entrevistas de televisão, em palestras, o velho crítico pontifical de olhos tristes denunciava e deplorava o estado dos estudos literários nos Estados Unidos e no Reino Unido, nunca se cansando de atacar o sistema. Os acadêmicos nunca o perdoaram realmente por isso — nem, suspeito eu, o perdoaram por ter um público popular.
Agora, se você mencionar Harold Bloom fora dos muros da academia, para alguém que conseguiu manter intacta algo de uma paixão literária privada, é muito mais provável que descubra que essa pessoa compartilha sentimentos calorosos pelo homem. “Oh, aquele livro sobre Shakespeare mudou minha vida”, confessou-me uma vez uma pós-graduada especialista em Shakespeare em um pub — um sentimento que duvido que ela tenha compartilhado com seu famoso professor da Columbia, que, ele próprio, juntou-se a muitos outros críticos ao massacrar o Shakespeare de Bloom nos anos 1990. Como seus colegas profissionais, essa mulher entendia que, apesar de quaisquer interesses pessoais que pudesse ter, estar realmente atualizada sempre significa consentir com a moda vigente. E essa moda é (como talvez sempre tenha sido) dizer que somente agora o estudo acadêmico começou a descobrir as maneiras corretas de estudar a literatura do passado.
Meu retrato favorito de Bloom vem dos últimos anos de sua vida (ele faleceu em 2019), em uma entrevista de 2018 para a Los Angeles Review of Books com o romancista Joshua Cohen, cuja breve amizade com Bloom rendeu a Cohen as histórias que se tornaram a base para seu romance vencedor do Pulitzer, Os Netanyahus. Na entrevista, Cohen relata os mesmos detalhes biográficos que sempre cercaram Bloom (e aos quais o próprio Bloom se apegava): uma infância falando apenas iídiche em uma família de imigrantes de um shtetl estabelecida no Bronx ; uma velocidade de leitura obscena e uma memória prodigiosa, que aparentemente o tornava capaz de recordar verbalmente a maior parte do que lia ; e muitas experiências juvenis poderosas e formativas com a poesia (mais notavelmente, lendo William Blake e Hart Crane). A entrevista percorre escritores de Kafka a Proust, chegando ao próprio Cohen e a muitos grandes escritores judáico-americanos (Philip Roth, Nathanael West, Cynthia Ozick). Mas o que é mais marcante na conversa deles é que, ao falar com o crítico, Cohen sabe precisamente como corresponder à maneira de Bloom discutir os passados literários. Ou seja — como sempre, com Bloom — em termos de influência, uma palavra carregada que esteve praticamente colada ao crítico durante grande parte de sua vida.
Abordando o próprio trabalho de Cohen, Bloom a certa altura lhe pergunta: “Mas por que D.H. Lawrence está ausente em você? Eu teria pensado que o vitalismo dele o atrairia”. Cohen rebate: “Não sei. Provavelmente porque Bellow, Malamud e Roth estão presentes demais em mim?”. Se isso lhe parece uma troca de mensagens bastante misteriosa — bem, este é o modo literário de Harold Bloom. Conforme originalmente exposto em seu livro de 1973, A Ansiedade da Influência: Uma Teoria da Poesia, a “influência” para Bloom é a água na qual todos os grandes escritores — mas especialmente os poetas — estão eternamente nadando. Para se tornar um autor sério de qualquer mérito duradouro real, deve-se necessariamente enfrentar certos precursores literários, escritores que o impulsionaram a escrever por si mesmo. Mas para Bloom, isso não é uma simples tradição de ofício, transmitida benevolentemente de geração em geração. Para ele, o que começa como inspiração literária termina como um agon sublimado, como um conflito interminável, manifestando-se na obra como as tensões enterradas de uma competição intergeracional pela imortalidade literária.
Como cada nova geração de escritores está em competição com todas as outras, vivas ou mortas, para inclusão nos salões da memória mundana, cada artista deve desenvolver maneiras de, estrategicamente e até inconscientemente, “ler erroneamente” (misreading) a obra do precursor. Assim, a poesia de T.S. Eliot torna-se uma luta contra Alfred Lord Tennyson e, mais veladamente, Walt Whitman. O próprio Whitman está sempre em embate com Ralph Waldo Emerson e a poesia da Bíblia do Rei Jaime. William Wordsworth precisa repelir a sobre-influência de John Milton e Shakespeare para alcançar um sucesso romântico comparável. O próprio jovem Shakespeare engaja-se em um breve agon com seu contemporâneo Christopher Marlowe, antes de se tornar um dos poucos escritores na cosmologia bloomiana a elevar-se inteiramente acima do campo da influência. Shakespeare, de acordo com a avaliação de Bloom, não deve nada a ninguém. Na verdade, todos nós agora devemos a maior parte de nós mesmos a Shakespeare — tanto que quaisquer tentativas acadêmicas ou críticas de desestabilizar a preeminência do Bardo apenas provam o quão embaraçosa a dívida se tornou.
À medida que a história da palavra escrita avança, o fardo da influência se acumula, até que, finalmente, os jovens escritores sentem tamanha pontada por seu próprio atraso que se perguntam se algum dia serão capazes de acrescentar uma única coisa à sua herança escandalosamente rica. É fácil ver o efeito que essa idéia pode ter em um jovem escritor, já predisposto a um certo temperamento ansioso e depressivo, e eu estava mais do que um pouco desestabilizado e estressado quando absorvi eu mesmo a filosofia bloomiana. Também é fácil ver o lado controverso de sua teoria. Afinal, é uma filosofia bastante implacável — até desesperadora. Onde está o êxtase da influência? Onde está a alegria de pegar emprestado? Onde está o ideal clássico, mantido de Aristóteles até o Renascimento, do artista como artífice, como um imitador da natureza, empregador de todas as formas mais adequadas? Tudo muito bem, diz Bloom. No entanto, tudo deve ser depositado, finalmente, no altar da Memória. A vida é curta, nossas memórias são mais curtas ainda, e o que perdura é aquilo que mais importa para a condição de nossas mentes e almas.
Essa posição é exatamente o que parece: essencialmente religiosa, condizente com um crítico que gosta de dizer que não há diferença real entre literatura secular e sagrada. A Ansiedade da Influência é um livro um tanto insano — insano como certas partes da Bíblia, ou os escritos visionários de Blake, ou Assim Falou Zarathustra. Não há consolo a ser encontrado em lugar algum de suas páginas. O que está presente é uma abundância de insights apocalípticos e enunciados poéticos. Embora tivesse começado sua carreira como um revitalizador dos grandes poetas românticos nas décadas de 1950 e 1960, na época em que escreveu Ansiedade, Bloom havia descoberto suas obsessões mais profundas, e agora lhes dava uma voz profética e inquietante.
Abordar o livro exige quase uma “leitura errônea” forte por si só. O quadro que Bloom pinta da poesia é exaustivo. Ele está sempre ouvindo poetas falando com outros poetas, detectando alusões e ecos subterrâneos, revelando infinitas estratégias retóricas de evasão e revisão. Bloom presumivelmente leu e memorizou uma maioria substancial da grande literatura do Ocidente — da maneira como vitorianos esquecidos, como George Saintsbury, costumavam fazer — e você pode ouvir as reverberações de tudo isso, ressoando e combinando-se em sua mente, transbordando para a página.
Contudo, embora seja um tanto insano, a Ansiedade de Bloom é comprovadamente necessária. Encontrá-la é como encontrar uma verdade dolorosa, mas ultimamente fortificante, uma espécie de campo de prova para outras teorias mais felizes sobre a autoria. Para usar a linguagem bloomiana, é também a obra dele que melhor sustenta a releitura — que possui o valor estético mais autêntico. É, por si só, literatura poderosa.
Minha introdução a Bloom veio em uma idade fatal: no início da graduação, quando a mãe de um bom amigo (uma professora de inglês) me deu um exemplar de Gênio, de Bloom. Até hoje nunca o li inteiro. Ao longo dos anos, conforme comecei a ler com mais intensidade e a sonhar em ser escritor, eu abria suas páginas às vezes apenas para ver o que ele tinha a dizer sobre quem quer que eu estivesse lendo naquele momento. Essa prática tornou-se cada vez mais comum. Na época da pandemia de COVID, enquanto eu vivia e estudava sozinho em uma pequena cidade do centro-oeste americano, passei a remeter compulsivamente quase tudo o que lia àquela voz — à voz de Bloom — buscando constantemente sua aprovação, temeroso de sua admoestação.
Comecei a usar seu Os Melhores Poemas como um guia para minha própria leitura cronológica dos principais poetas ingleses; foi então que li pela primeira vez A Ansiedade da Influência, O Cânone Ocidental e vários outros livros. Muito desse tempo foi bem aproveitado: sempre havia nova inspiração a ser descoberta ao meditar sobre os fardos de Bloom. E, no entanto, esses fardos — acima de tudo, a aparente impossibilidade de uma liberdade literária genuína — haviam começado a se transferir para mim também.
Poucos retratos críticos de Bloom capturaram isso plenamente. Mesmo em sua morte, os obituários nos principais jornais foram, muitas vezes, punitivamente equívocos. No entanto, por meio de seus enormes guias, de suas entrevistas televisivas e palestras gravadas, o ideal de Bloom de um tipo de leitura visionária era exatamente a inspiração que eu precisava para me fortalecer contra um mundo que parecia estar perdendo o contato com a história de suas maiores formas de arte. Apesar de todo o seu alarde, o que me cativou em Bloom (e a dezenas de milhares de outros leitores) foi a sensação de que eu finalmente havia encontrado um mestre. Não alguém que desejava apenas historicizar, ou falar elipticamente sobre o contexto sociopolítico da literatura em questão, mas alguém que via os livros e seus autores como sustento, como um verdadeiro baluarte contra a morte e a perda em um mundo desprovido de significado organizado. Alguém que falava, em encantações oraculares, sobre as ressonâncias ocultas do melhor da linguagem humana.
Em outras palavras, eu buscava alguma compreensão da literatura como uma vocação essencialmente espiritual — e Bloom era o sacerdote perfeito para isso. Ele era como algum monge dedicado ou cabalista da Idade Média, escrevendo sem parar seus comentários sagrados e apologias, enquanto o resto do mundo seguia com o negócio sangrento do esquecimento. Ele ensinou uma forma de pensar sobre a cognição e a memória que envolvia defender, preservar e, acima de tudo, amar os produtos dessa longa tradição da literatura ocidental. Para Bloom, o trêmulo e introspectivo “eu” ocidental — por mais ansioso e depressivo que nos tivesse tornado — era uma ferida bela. Exigia cura e nutrição constantes, que apenas a leitura intensa e solitária poderia proporcionar.
Seguindo a trajetória patentemente religiosa de sua vocação, o Bloom tardio tornara-se nada menos que um evangelista. E seu sermão mais primoroso e exaustivo foi O Cânone Ocidental, o livro que selou sua imagem e reputação pública. Revisitá-lo agora apenas reforça minha sensação de que Bloom é amplamente mal caracterizado: no fim das contas, ele é essencialmente um pensador místico, e deveríamos lê-lo como tal. Como manifestações desse ideal literário, O Cânone Ocidental apresenta 26 indivíduos exemplares, os quais Bloom divide de acordo com o sistema de períodos históricos elaborado pelo filósofo italiano Giambattista Vico. Saltando a “Idade Teocrática” de Vico, Bloom pula de imediato para a “Idade Aristocrática”, cujos maiores nomes para ele são Dante, Chaucer, Shakespeare, Cervantes, Montaigne, Molière, Goethe e Dr. Johnson. Para a “Idade Democrática”, temos Wordsworth, Austen, Dickens, Whitman, Dickinson, George Eliot, Ibsen e Tolstói. A “Idade Caótica” (invenção do próprio Bloom) nos traz até Freud, Proust, Woolf, Joyce, Kafka, Pessoa, Borges, Neruda e Beckett. Os ensaios sobre essas figuras são precedidos pela “Elegia para o Cânone” de Bloom, e depois brevemente posfaciados com uma “Conclusão Elegíaca” e uma série de apêndices (aparentemente impostos a ele por seu editor), contendo centenas de recomendações para um cânone “completo”, de Homero a Toni Morrison.
Muitos leitores contemporâneos terão de superar receios consideráveis ao ler O Cânone Ocidental. Embora nem sempre esteja certo, Bloom avança com uma certeza avassaladora. O leitor deve aceitar que Bloom irá se repetir constantemente; deve aceitar, também, que Bloom está travando uma guerra retórica pírrica que ele acredita já ter perdido. E, no entanto, esses são modos literários legítimos (embora antiquados): eles apenas aumentam o pathos gloriosamente tenso que pulsa por todo o livro. Visto dessa forma — como as orações exortativas de um dinossauro belo e triste — o livro assume sua própria grandeza decadente e trágica, como uma catedral gótica em ruínas. E o sermão assume, na maioria das vezes, a forma de uma lamentação, cujo centro reside em uma passagem do prelúdio de abertura da elegia:
É um sinal da degeneração do estudo literário que alguém seja considerado excêntrico por sustentar que o literário não depende do filosófico, e que o estético é irredutível à ideologia ou à metafísica. A crítica estética nos devolve à autonomia da literatura imaginativa e à soberania da alma solitária, o leitor não como uma pessoa na sociedade, mas como o eu profundo, nossa interioridade última.
Essa profundidade de interioridade em um escritor forte constitui a força que afasta o peso massivo das conquistas do passado, para que cada originalidade não seja esmagada antes de se manifestar. A partir daí, o leitor é lançado na elegia propriamente dita — uma verdadeira jeremiada sobre a perda dos padrões canônicos. Como Bloom insiste, o propósito do cânone é, muito simplesmente, preservar certas obras para o ensino. Como a vida é limitada e o tempo também, e como tudo o que foi escrito não pode ser lido, deve haver ao menos algum mecanismo para selecionar e transmitir os produtos de qualquer tradição específica. “Nada é tão essencial ao Cânone Ocidental quanto seus princípios de seletividade, que são elitistas apenas na medida em que são fundados em critérios severamente artísticos”, escreve ele.
E quais são esses critérios? Novamente, Bloom está mais interessado naqueles escritores que continuam a influenciar outros escritores. São os próprios artistas, argumenta ele, que determinam o cânone. Os escritores continuam a ser inspirados por outros escritores, de modo que as antigas influências permanecem. Ele sabe que muitos críticos e acadêmicos questionarão sua completa rejeição da consciência histórica e do contexto sociopolítico: “A liberdade de apreender o valor estético pode surgir do conflito de classes, mas o valor não é idêntico à liberdade”, diz ele. “Há sempre culpa na individualidade alcançada; é uma versão da culpa de ser um sobrevivente e não produz valor estético”. Nessas passagens, os argumentos de Bloom contra o legado do estudo literário do final do século XX são os mais lúcidos que jamais seriam:
Nossas legiões que desertaram representam uma vertente em nossas tradições que sempre esteve em fuga do estético: o moralismo platônico e a ciência social aristotélica. O ataque à poesia ou a exila por ser destrutiva para o bem-estar social ou permite sua tolerância se ela assumir o trabalho de catarse social sob as bandeiras do novo multiculturalismo.
Não precisamos nos opor ao multiculturalismo em geral para apreciar a capacidade de Bloom de contextualizar concisamente aquilo a que ele se opõe. Se você conseguir mergulhar na polêmica de O Cânone Ocidental mantendo seu próprio critério intacto, permitindo que seu jargão o envolva e buscando o sustento real de que Bloom sempre falava, você o encontrará. Os capítulos individuais estão entre as coisas mais ricas que Bloom escreveu sobre os autores em questão. Onde mais você encontraria um crítico abolindo tão despreocupadamente a distinção entre o cristianismo de Dante e sua secularidade? Ou declarando que o grande florentino e Milton eram, cada um, em última análise, uma “seita de um só”? Onde mais você ouviria que a “religião” de Virginia Woolf era o puro “esteticismo pateriano”, ou perceberia as maneiras pelas quais os personagens pioneiros de Chaucer deram a Shakespeare o ponto de partida de que ele precisava para colocar um novo tipo de personalidade no palco?
No cortejo histórico de Bloom, o leitor desempenha o maior papel imaginável: cada leitura é uma ressurreição. E é essa a maior das afirmações de Bloom sobre o poder da literatura — que achei mais pessoalmente inspiradora. Esse encargo sagrado, essa importância ponderosa dada à missão de compreender e preservar essa tradição, teve o efeito pretendido sobre mim. Fui transportado e inspirado, e tudo o que eu queria fazer era escrever.
E, no entanto: ansiedade. Sempre aquela ansiedade, sempre presente. O que havia começado em inspiração e empolgação tinha ido além disso — ido inclusive além da ansiedade que Bloom encontrou personificada nos textos dos poetas, tornando-se uma preocupação inteiramente consciente e persistente sobre a contaminação de qualquer influência que fosse. Conforme eu lia a obra de Bloom, reproduzindo e repetindo suas entrevistas e palestras apenas para ouvir sua voz rouca entoar o encargo sagrado novamente, eu continuava percebendo que, apesar de toda a força e sustento que eu reunia como leitor, como escritor eu apenas sofria bloqueios cada vez mais agudos e dolorosos. Paralisado, diante da influência e da história.
As idéias de Bloom me pareceram sensatas a princípio: quando recebi seu livro, eu estava treinando como músico clássico e já havia visto, na música que estava estudando, as mesmas operações que ele descrevia. Apenas ali elas eram ainda mais evidentes. Certas linhagens de melodia, certos fundamentos harmônicos, emergiam através das obras de compositores como dívidas óbvias aos anteriores. O Primeiro Concerto para Piano de Brahms, por exemplo, está em toda parte no famoso Terceiro de Rachmaninoff; momentos em Beethoven têm o mesmo toque de seu mestre Haydn, mesmo que Beethoven tenha acabado transcendendo seu mentor tão plenamente que todo o século XIX foi preenchido com tentativas óbvias de superá-lo. Eu já tinha minhas próprias evidências auditivas para os efeitos que Bloom discutia. Eu era fácil de convencer.
Eu também era um candidato ideal para a ansiedade. Ou, na verdade, para uma ansiedade sobre a ansiedade, que é o que muitas ansiedades acabam se tornando. O quadro de Bloom era convincente, porém profundamente perturbador: por trás de cada sentimento ostensivo de amor, alegria ou empolgação, espreitava apenas mais ambivalência, mais repressão. Nada na arte poderia ser simplesmente bom ou saudável. Na verdade, a literatura parecia tão presa a uma insalubridade essencial que equivalia a uma doença — um auto-engano após o outro, resolvível apenas por mais estratégias de evasão.
O poeta bloomiano era, em muitos aspectos, como um dos pacientes de Freud: um conjunto de estruturas frágeis tentando desesperadamente evitar a colisão com suas próprias suspeitas profundas sobre si mesmo. E cada tentativa de encarar esse abismo — como Bloom alegava fazer, assim como Freud — poderia sempre ser reduzida a mais uma evasão, mais uma forma de lidar com a ansiedade que o abismo provocava. Tornou-se implacável: aquela voz crítica e o fardo de milhares de anos de realizações literárias. Minha relação com o mundo também estava envolvida nessa ansiedade, e me ocorreu que o “presentismo” implacável do século atual era uma defesa clara contra esse mesmo tipo de ansiedade. Esmagadoramente, a literatura e a mídia contemporâneas pareciam incapazes de admitir o poder do passado.
É verdade que os jovens sempre se ressentiram de que lhes dissessem o que ler, mas a moda atual era dizer que eles estavam certos — certos em se irritar com a idéia de que havia obras e histórias às quais eles teriam que estar à altura se quisessem ser grandes. Parecia óbvio que essa incapacidade em massa de encarar a herança e a influência do passado era o que realmente estava por trás da esterilidade das artes e letras contemporâneas — uma esterilidade que muitos escritores e artistas contemporâneos sequer reconheceriam. Era o mesmo ethos que eu observara levando aqueles acadêmicos a historicizar ou “complicar” a imagem de Shakespeare como o gênio moderno supremo. De fato, a rejeição geral da academia ao próprio Bloom parecia pouco diferente de sua necessidade de limitar a preeminência do Bardo, ou mesmo a própria idéia de um cânone ocidental.
Certamente, aquela teia nebulosa que compunha o rescaldo do modernismo — do pós-estruturalismo à desconstrução, da teoria feminista e pós-colonial ao Novo Historicismo — tinha muitas alegações razoáveis para atualizar o que havia sido um campo majoritariamente branco, cristão e masculino. E, no entanto, todos pareciam ter chegado tarde demais, restando-lhes exumar um cadáver que a era moderna já havia esquartejado e matado. Essas disciplinas não estavam produzindo nada novo. Elas desenvolveram muitas formas refinadas e filosoficamente densas de dissecar seus temas, muitas vezes ao ponto de minar suas próprias razões iniciais para estudá-los. Mas a proliferação de todos esses métodos interpretativos exaustivos parecia nada mais do que o trabalho profundamente ansioso de profissionais que nunca poderiam admitir plenamente seu próprio atraso essencial. Artistas sempre tiveram que lidar com a influência; cada geração sempre desejou poder dar à luz a si mesma, em vez de ser nascida. Mas o mundo contemporâneo está sobrecarregado com o maior excesso de influências e modelos já disponível para qualquer povo na história. Pode parecer paradoxal afirmar, mas nada prova mais claramente essa paralisia essencial do que a massiva superprodução cultural de nossa era, do que aquelas indústrias criativas que fabricam livros, programas de televisão e filmes, mas permanecem sempre fixadas em tendências contemporâneas, em conteúdos sem contexto, com pouca ou nenhuma conexão com qualquer tradição profunda.
O paradoxo faz algum sentido psicologicamente: um sintoma da ansiedade paralisante é a hiperatividade compensatória. O próprio Bloom sugeriu que os artistas lidam com essa superabundância escolhendo as influências certas (ou sendo escolhidos por elas), para então redescrevê-las e lê-las erroneamente de forma criativa — esperando chegar a uma revisão radical o suficiente para seguir adiante com seu próprio material transformado. É claro que, a princípio, parece mais do que tolo acreditar que uma pessoa possa transcender a ansiedade de forma alguma. No entanto, em algum momento de minha própria luta com a idéia, percebi que a tolice era a única saída. Que qualquer método que eu pudesse encontrar e que me levasse a esse lugar de crença seria algo que eu teria que adotar sem questionar, ou do contrário sofreria para sempre.
Assim, meu método teve que se tornar literário em si mesmo. Eu devo alegorizar, pensei. Devo transformar a ansiedade e minhas tentativas de derrotá-la em parte da própria obra. Fiz perguntas à Ansiedade; exigi respostas da Ansiedade e, lentamente, ao longo de anos, comecei a encontrar algumas. Mesmo que Bloom ou Freud, em todo o seu pessimismo filosófico, pudessem ter chamado isso de ilusões, ou evasões, ou sublimações.
O próprio Bloom era assombrado pela possibilidade de que a autocriação e a autocrença fossem fundamentalmente impossíveis — que a “interioridade profunda” que ele tanto valorizava nos grandes escritores só pudesse ser mediada por aquela ansiedade de influência constante e sublimada. Talvez seja revelador que o próprio Bloom nunca tenha se tornado um poeta ou um escritor sério de ficção (ele escreveu um romance de fantasia altamente gnóstico, o qual renegou mais tarde). Ainda assim, os autores que ele mais idolatrava — cujas obras ele sentia serem as mais inesgotáveis e vitais — todos compartilhavam ao menos isto: eram feroz e zelosamente dedicados a proteger e ouvir sua própria voz. E se é de fato uma questão espiritual, como para Bloom obviamente era, então a paralisante ansiedade da influência é excessivamente parecida com nossas ansiedades mais profundas nesta era caótica: nossa dúvida religiosa, nosso pessimismo sobre o amor romântico, nossa crença frouxa na possibilidade de um mundo melhor. O ruído de nossos medos e preocupações nos impede de ouvir a voz que deveríamos ouvir — impede-nos de acreditar que seja possível ouvir essa voz, para começo de conversa. E a mesma ansiedade reside no coração de todas as formas contemporâneas, tão certamente quanto residiu no coração da minha própria prática por tantos anos.
À medida que giramos loucamente neste século, tentando descobrir como sobreviver a um possível apocalipse da linguagem e da expressão humana, todos devemos aprender os segredos da ansiedade. Temos que entender qual era a sua utilidade inicial para nós quando ela aconteceu, por que precisamos nos preocupar, por que precisamos duvidar sobre os fardos da história. No entanto, depois disso, temos também que aprender como deixá-la passar; quando descansar na fé. Podemos nunca estar livres de nossas influências. Nossos precursores podem nos envergonhar com seu brilhantismo, e podemos, às vezes, sentir vergonha ao considerar as coisas extraordinárias que eles criaram, muitas vezes com muito menos recursos do que nós mesmos possuímos.
Contudo, devemos sempre lembrar que essas coisas foram criadas para nós, da mesma forma que fazemos coisas para transmitir aos nossos próprios sucessores. Elas são uma memória da qual não podemos nos dar ao luxo de abrir mão. A lição é esta: a maior parte da humanidade está sempre em risco de esquecer o melhor de sua herança. Apenas uma arte da memória sustentada e praticada impede que isso aconteça. E essa é a responsabilidade que não podemos deixar de escolher, se quisermos evitar que o mundo se perca no esquecimento.
Se desejamos genuinamente ver arte em nosso próprio tempo que seja realmente digna de nossa história, então não podemos nos dar ao luxo de fingir que não é imensamente difícil — talvez mais difícil do que nunca — criar algo verdadeiramente novo. Mas não podemos parar na ansiedade. Somente passando pela ansiedade, somente nomeando-a, aprendendo com ela e deixando-a entrar e sair de nós, podemos sobreviver à pressão esmagadora de nossas próprias tradições. O próprio Bloom pode não ter nos dado um guia para sair deste labirinto, mas ele também não mentiu sobre a dificuldade. Ele falou apaixonada e belamente sobre a necessidade de tentar. Nenhum mestre moderno nos deu uma exortação maior para recordar essa vocação. É o nosso fardo — e, finalmente, o nosso prazer — descobrir por nós mesmos que nossa ansiedade não é (e nunca foi) o fim que ela finge ser.
Fonte: https://thepointmag.com/examined-life/the-influence-of-anxiety/
