palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Autor: Yuri Vieira Page 26 of 82

O Pecado Favorito

O advogado do diabo

— Você já assistiu ao filme “O Advogado do Diabo”?

— Aquele com o Al Pacino?

— Esse mesmo.

— Já vi. Por quê?

— Lembra qual a declaração final do Diabo?

— Claro: “A vaidade é definitivamente o meu pecado favorito”.

— Pois é, acho que o pecado favorito do demônio que me atormenta é a luxúria.

— Ah, é bem mais fácil de lidar com esse. Sabe como se faz?

— Não.

— É só dar um chute no saco do demônio.

— Ah, tá certo, me ajudou muito.

— Sério. Posso fazer isso agora mesmo se você quiser.

— Beleza, manda.

E o amigo lhe dá um forte chute no saco, fazendo-o desabar ao chão. Enquanto rola de tanta dor, as mãos segurando os testículos, murmura entre gemidos:

— Seu filho da puta, que brincadeira idiota!

— Mas não foi brincadeira: qual saco você acha que o demônio da luxúria usa?

— Run, Forrest, run!

O amigo sai correndo pela coxia enquanto o outro, gemelhicando, rasteja vagarosamente em seu encalço para fora do palco. Cai o pano. Ninguém ri, ninguém aplaude, afinal, para o público de hoje já não existem demônios, pecados e, sobretudo, colhões — não houve a mais mínima identificação, não entenderam nada.

Fim.

Camille Paglia: “Nós sufocamos os homens”

Camille Paglia

As mulheres ganharam. Ou, pelo menos, a maneira feminina de encarar o mundo vem levando a melhor – e isso não é necessariamente bom, diz Camille Paglia. Para ela, a valorização das características associadas às mulheres emparedou os homens e fez com que certas virtudes masculinas caíssem perigosamente em desuso. Em entrevista a Veja [5/3/2014], a autora de Personas Sexuais mostra que, aos 66 anos, continua sendo uma fervorosa dissidente do feminismo ortodoxo dos anos 60. Segundo ela, ao priorizarem o sucesso profissional, as mulheres da sua geração deram “de cara com a parede” – e em breve verão que as felizes de verdade não são as ricas e bem-sucedidas, mas as que, em vez de correr atrás do sucesso, se dedicaram a construir grandes famílias.

As mulheres venceram? 

Nosso mundo político e econômico certamente não é regido pelas mulheres. Os homens ainda são maioria, talvez porque seja mais fácil para eles trabalhar harmoniosamente em equipe. As mulheres, porém, reinam nos domínios emocional e psicológico. Valores femininos como cooperação, sensibilidade e compromisso hoje são promovidos em todas as escolas públicas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Fico preocupada com isso. Não é responsabilidade escolar moldar ou influenciar o caráter dos alunos. Então, sim, há uma vitória feminina no sistema de educação, e é por isso que tantos meninos se sentem sufocados ou presos nesse ambiente governado por mulheres.

Essa constatação veio da sua experiência de ser mãe de um menino? (Camille adotou Lucien, hoje com 11 anos) 

A maternidade apenas confirmou minhas opiniões. Nos meus trabalhos, sempre parti de uma observação social, e não de teorias criadas a priori. Ser mãe me permitiu outras descobertas, entre elas a existência de uma rede de mulheres com enorme poder de organização e capacidade de administrar o próprio tempo.

Mas os homens estão mais frágeis? 

A masculinidade tradicional está numa encruzilhada. O que os homens podem ser? Como eles podem se diferenciar das mulheres? Alguns não veem problema em receber ordens delas. Mas, para outros, é como se a masculinidade tivesse sido apagada, como se eles tivessem perdido sua posição dentro da família. Sentem-se sufocados e precisam estar com outros homens. Aí entram a pornografia, os clubes de strip-tease, os esportes: é quando os homens escapam para o mundo deles. Chutar uma bola no meio do campo é muito revigorante e bom para escapar das mulheres.

Em outras palavras, elas fazem com que eles se sintam errados o tempo todo? 

Sim! Em uma palavra: sim! Houve um tempo em que homens faziam coisas que as mulheres não podiam fazer. Então, ninguém questionava se eles “eram homens” ou não. Eu lembro que, em casa, depois do jantar, os homens ficavam na sala, falavam de carro, assistiam a algum esporte na TV. Enquanto isso, as mulheres conversavam arrumando a cozinha. Hoje, elas querem que o homem seja igual à mulher. Querem falar com ele do mesmo jeito que conversam com as amigas. Isso é com os gays! Os gays conversam por horas, fofocam, falam sobre a vida pessoal… Os héteros não. Eles não querem aprofundar-se nos sentimentos. Há um grande desentendimento no casamento moderno porque mulheres e homens não têm tanto em comum assim. Quando nasce uma criança, então, o homem é marginalizado. Pode escolher entre escapar de casa e ser apenas mais um dos planetas orbitando ao redor do “Sol”. Famílias de classe média são basicamente ambientes femininos. Tudo é bom e gentil, e os homens têm de mudar seu comportamento para se encaixar nelas. As mulheres pedem a eles que sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais. “Ah, meu marido é meu terceiro filho, é meu bebê.” Ouvimos isso o tempo todo. O problema número 1 é que as mulheres não estão receptivas aos homens. Elas precisam ouvi-los. O feminismo é duro demais com eles.

Ao longo do tempo, as mulheres incorporaram alguns atributos masculinos. Diz-se frequentemente que agora é hora de eles incorporarem atributos femininos. A senhora não concorda? 

Não. No que diz respeito aos governos ocidentais, por exemplo, a tendência é agirem no estilo “estado-babá”, cheios de complacência e cuidados, atributos associados ao universo femininos. Só que isto está incapacitando as nações de ficar seriamente em alerta contra as ameaças de terrorismo, por exemplo. As sociedades ocidentais são ingênuas e complacentes ao imaginar que todo mundo é naturalmente benevolente. Várias grandes civilizações entraram em colapso por se apresentar vulneráveis. A compaixão e a sensibilidade femininas são virtudes positivas, mas as maiores conquistas nas áreas de cultura e tecnologia ainda requerem certos traços masculinos, bem como planejar a defesa de uma sociedade sob ameaça de ataque.

Essa “lacuna” explicaria o fato de existirem poucas mulheres no poder? 

O líder de uma nação tem de ter diferentes atributos. Precisa saber compor, comandar, controlar os nervos – precisa combinar qualidades masculinas e femininas. Falta às mulheres uma educação voltada a desenvolver visões de longo prazo, capacidade de decisão, pensamento militar. Essa história de ser carinhosa e ter compaixão já está resolvida – vamos parar de falar disso. O que não é valorizado como deveria é a capacidade de decisão. E, do jeito que as mulheres são educadas, não vejo como essa mudança pode acontecer. Por exemplo: liderar uma nação significa cuidar também de suas questões militares. Isso requer um tipo de personalidade firme e assertiva. Por isso, em vez de estudarem questões de gênero, as mulheres que querem ascender politicamente deveriam estudar história militar e economia. Não é fixando proporções – “as mulheres têm de representar 50% dos legisladores” – que produziremos lideranças. O Brasil não tem a mesma obsessão pela questão militar que os Estados Unidos, por isso vocês têm uma mulher presidente.

Como a senhora avalia uma eventual candidatura de Hillary Clinton à Presidência em 2016? 

Hillary Clinton é completamente incompetente. Em tudo o que fez, não teve êxito. Seu currículo segue em branco, sem nenhuma grande conquista, exceto ter se casado com Bill Clinton. É incrível como temos poucas candidatas. Sempre achei que a senadora democrata Dianne Feinstein, da Califórnia, deveria ter tentado concorrer à Presidência, e não Hillary Clinton. O que precisamos aprender é como exercer a liderança e nos comunicar com as pessoas sem que nos sintamos diminuídas, da maneira como a Hillary Clinton faz. Ela é estridente, irritante, sempre sorrindo, sorrindo, sorrindo. E é mal-humorada, tola – o oposto do que queremos de um líder. Continuar a impulsioná-la vai atrasar a evolução feminina em décadas.

Quais as perspectivas femininas para as próximas décadas? 

Eu vejo um mundo muito instável à frente, tanto política quanto economicamente. Acho que essa maneira de encarar as coisas baseada em gêneros está errada. É como se as mulheres tivessem respostas para tudo. E, se não estão felizes, a culpa é dos homens. Temos de olhar para a natureza da vida moderna, para o nosso isolamento psicológico, para essa quebra da família tradicional, transformada em pequenos núcleos. Tudo isso resulta em ansiedade. As mulheres sentem que têm de ser essas pessoas bem-sucedidas, tudo na vida delas tem de estar relacionado com o poder feminino, com “encarar obstáculos”. É um modo de vida muito estressante.

E ainda há a questão não resolvida de como conciliar carreira e vida pessoal. Por que isso continua a ser um sofrimento? 

O feminismo cometeu o engano de tentar reduzir a vida feminina às conquistas profissionais. Uma coisa é exigir que se retirem as barreiras para o avanço social das mulheres e que se ofereçam a elas oportunidades, promoções, salários etc. Outra é supor que essas conquistas suprirão as demandas da vida pessoal – não suprirão. Questões pessoais são de uma natureza diferente das profissionais: têm a ver com sexo, procriação e viver a vida. Essas feministas anglo-americanas dos anos 60 têm uma visão mecânica do que é viver. Há ainda um grande problema com o sistema de carreira moderno. O modo de progredir profissionalmente faz com que seja difícil para elas lidar com os homens em pé de igualdade. A mulher precisa ter uma vida dupla: ser ambiciosa e dominadora no escritório, mas adaptar-se em casa para ser sexualmente desejada e emocionalmente carinhosa. Minha prioridade sempre foi esta: temos de parar de culpar os homens e começar a olhar o sistema e as mudanças ocorridas no trabalho e nos lares no último século.

Quais seriam as transformações mais significativas? 

Uma das que mais merecem atenção é o isolamento feminino. As pessoas amam ter privacidade, ter sua própria casa. O resultado disso é uma quantidade tremenda de trabalho doméstico que recai sobre as mulheres e do qual elas têm de dar conta sem a ajuda de outras mulheres. Não muito tempo atrás, as pessoas viviam em uma espécie de tribo, em que umas olhavam pelas outras. Minha mãe se lembra disso em sua infância na Itália. As mulheres reuniam-se, pegavam suas crianças e iam lavar roupa nas pedras. Havia uma comunidade de mulheres, uma vida social construída a partir dessas atividades. Hoje estamos muito felizes com as nossas máquinas de lavar e secar, mas o que isso significa? Isolamento total! A mulher está isolada, desconectada do mundo feminino. Quando você é parte de um grupo, você sabe quem você é, não precisa ir descobrir.

Recentemente, a senhora foi criticada por declarar que as mulheres deveriam pensar melhor no que vestem para não ficar tão vulneráveis. O que quis dizer? 

Eu apoio totalmente as mulheres que se vestem de maneira sexy. Mas quem faz isso tem de compreender que sinais está enviando. Quando disse isso, estava me referindo às garotas americanas brancas de classe alta, que frequentaram as melhores universidades e terão os melhores empregos. Elas usam roupas sexy, mas seu corpo está morto, sua mente está morta. Elas nem entendem o que estão vestindo.

Por que esse diagnóstico se restringe às americanas? 

Mulheres na Itália, França, Espanha, Brasil e outros países da América do Sul comunicam melhor sua sexualidade, estão mais confortáveis com seu corpo. Afro-americanas também sabem fazer isso. Mas as mulheres americanas brancas que estão cursando as melhores universidades… oh! Bom, você deve se lembrar de Sexy and the City. Elas são espertas e ambiciosas, mas vivem uma situação em que fazem sexo com uma incrível quantidade de homens e de repente é o homem quem escolhe com quem vai ficar e quando é a hora de casar. E, quando resolvem casar, querem as de 20 anos. É muito difícil. Antigamente não se fazia sexo antes de casar. Mas hoje… as mulheres são tediosas.

Tediosas? 

Quando eu vou a Nova York vejo essas mulheres nas ruas: bem cuidadas, lindas, bem-sucedidas, graduadas em Harvard, Yale e… tediosas! Te-di-o-sas. Não têm nenhuma mística erótica. Acho que o número de homens gays vem aumentando porque os homens são mais interessantes do que as mulheres.

Onde elas deveriam buscar a felicidade? 

Bem, achar que as mulheres profissionalmente bem-sucedidas são o ponto máximo da raça humana é ridículo. Vejo tantas delas sem filhos porque acreditaram que podiam ter tudo: ser bem-sucedidas e mães aos 40 anos. Minha geração inteira deu de cara com a parede. Quando chegarmos aos 70, 80 anos, acredito que a felicidade não estará com as ricas e poderosas, mas com as mulheres de classe média que conseguiram produzir grandes famílias.

Fonte: Veja – edição 2363.

Tuitando e andando


Dez anos sem Hilda Hilst

Hilda Hilst faleceu há exatos dez anos (!!). Por isso, em sua homenagem, segue abaixo o início de um texto — que publicarei oportunamente com a coletânea O Exorcista na Casa do Sol — sobre algumas de minhas experiências na Casa do Sol, residência da escritora, onde morei de 1998 a 2000.

Yuri Vieira e Hilda Hilst, na Casa do Sol, 1999.
Yuri Vieira e Hilda Hilst na Casa do Sol, 1999.

A melhor das casas possíveis

Era um domingo qualquer de 1999 e, mesmo assim, eu não podia me dar ao luxo de dormir até tarde. Obviamente vontade não faltava; mas uma das minhas obrigações era estar de pé, todos os dias sem exceção, antes das oito da manhã. Não podia faltar às charlas matutinas no escritório da poeta Hilda Hilst – sempre muito divertidas, instrutivas, memoráveis e… tacitamente obrigatórias. Eu não era um hóspede com estadia previamente programada, no entanto, ao contrário de um mordomo ou de um jardineiro, tampouco tinha vínculo profissional. Tinha casa e comida – mas lavava minha própria roupa. Éramos amigos, de início, tanto quanto o são uma professora e seu aluno; mas nossa amizade se estreitaria e se aprofundaria no transcurso dos meses. Sim, no dia a dia, eu fazia as vezes de secretário e webmaster, mas era sempre apresentado pela poeta como seu “amigo Yuri, jovem escritor”. Em suma, estava ali para ajudá-la com o necessário – pagar contas, fazer compras, representá-la nas reuniões de condomínio, atender aos telefonemas, manter a correspondência em dia, controlar a agenda, manter o site atualizado, etc. – e, em troca, estudar e aprender o ofício. E o necessário costuma madrugar, como se sabe. Mas que eu sentia falta de dormir até tarde aos domingos, ah, isso eu sentia. Às vezes, eu até conseguia disfarçar um pouco: acordava às sete da manhã, chamava o ramal do escritório – no qual Hilda já se encontrava desde as seis –, interpretávamos mutuamente nossos sonhos noturnos, e depois… bem, depois, sem que ela soubesse, e ao contrário dos dias comuns, voltava a dormir outra meia hora, como se estivesse a alongar minha ida ao banheiro. Isso, claro, acabava encurtando o prazo real da minha toalete, mas, dependendo da densidade da preguiça, ou da ressaca de sábado, valia a pena.

“Ah, só mais dois minutinhos…”, e tornava a ressonar sob as cobertas.

Felizmente, naquele mês o escritor José Luis Mora Fuentes voltara à Casa do Sol para passar conosco uma curta temporada. Amigo de Hilda desde os anos sessenta, ele sabia como lidar com suas idiossincrasias melhor do que ninguém. Ele não a via como um monstro sagrado das letras ou como uma outsider eivada de misantropia, mas, sim, como uma amiga genial e geniosa. Sentia-se, pois, à vontade para dobrá-la com aquela irreverência que costumamos reservar apenas aos velhos camaradas. Quando ele chegava muito tarde ao escritório e ela, irritada, começava a lhe pregar um sermão, Mora Fuentes suspirava:

“Tá, Hilda, me dá uma suspensão, me manda pra madre superiora…” e, na maior fleuma, acendia um cigarro.

Ao perceber a inutilidade de exigir que um homem de quase cinqüenta anos de idade levantasse cedo num domingo, Hilda sorria, acrescentava alguma pilhéria — “Mas, Zé, eu é que sou a madre superiora deste lupanar… digo, deste lugar!” — e esquecia o assunto. Portanto, a chegada de Mora Fuentes à chácara contribuiu enormemente para me converter de aluno em amigo de fato. Até então — eu estava ali desde Setembro de 1998 — vinha levando minha relação com Hilda de um modo excessivamente tímido, formal. E, do ponto de vista da preguiça domingueira, estava na cara que a nova situação me beneficiaria mais do que a ninguém, afinal, se naquele domingo eu chegasse ao escritório por volta das dez, já estaria de bom tamanho, simplesmente porque estaria acordando antes do Zé Mora Fuentes. Ou seja, por contraste, ele também me ajudaria a evitar outro sermão semelhante ao que recebi, no ano anterior, na primeira vez em que dormi (e acordei tarde) na Casa do Sol. Sermão este cujo remake eu tentava evitar a todo custo, com disciplina militar e madrugadeira. E olha que naquela primeira ocasião, além do fato de ter sido um domingo frio e chuvoso, havia outra boa desculpa para ficar na cama: estava com minha então namorada…

Contudo, naquele domingo de 1999, fui despertado por batidas secas à porta do quarto. Pelo jeito, meu plano de testar a paciência dominical de Hilda não daria certo. Mal passava das oito da manhã e Mora Fuentes já estava de pé. Parecia muito preocupado.

“Desculpa te acordar, Yuri. É que tô achando que fiz uma besteira enorme.”

“Puts, o que aconteceu?”, resmunguei, esfregando os olhos.

Ele sorriu com um ar desanimado: “Ainda não rolou nada, mas vai rolar”.

“Como assim, Zé?”, e tentei encará-lo através da minha miopia sem óculos.

Mora Fuentes entrou no quarto, puxou a pesada cadeira de cedro e se sentou de costas para meu computador.

“Lembra do que te falei, de a gente tentar fazer a Casa do Sol reviver seus melhores dias, de fazer a Hilda voltar a se animar e até a, quem sabe, escrever?”

“Claro.”

“Então. Ontem um cara telefonou pra cá, disse que não vê a Hilda faz quase vinte anos, que tem saudade dela, da Casa e assim por diante. Disse que se chama Candide e eu me lembrei do nome. Sabia que ele realmente tinha nos visitado nos anos setenta, na época em que eu também morava aqui.”

“Hum.”

“Pois é, ontem me lembrei do nome, mas não tinha me lembrado da pessoa. Devo ter ficado com o cérebro entupido pelo personagem do Voltaire. Só agora, num relance, meio acordado meio sonhando, ainda deitado, me lembrei quem é o cara. Quase caí da cama.”

Eu ri: “Não vai me dizer que é um assassino psicopata…”

“Acho que falta bem pouco pra isso”, respondeu Mora Fuentes, em meio a um sorriso nervoso. “A questão é que, na última vez em que esse Candide esteve aqui, a Hilda o expulsou. O cara é completamente doido, pirado mesmo, Yuri. Ele conseguiu quebrar toda a harmonia da casa, deixava todo mundo irritado, tenso. Queria dar palpite em tudo, se intrometia em tudo e — o pior — achava que estava ajudando… Quando ele chegou, todo mundo estava ótimo; quando ele saiu, havia conflito sobre conflito, treta em cima de treta, todos os nervos em frangalhos… O Dante, que era o fortão da Casa, chegou a pegá-lo pelos fundos da calça e pela gola da camisa, e o atirou lá no meio do jardim. Entende? Do mesmo jeito que fazem esses leões-de-chácara nos night clubs hollywoodianos…”

“Caramba.”

“Agora não sei o que fazer.”

“Uê, Zé; é só não atender mais aos telefonemas dele.”

Mora Fuentes coçou a cabeça, suspirou: “O problema é que, com essa idéia de reviver os bons anos da Casa, pensei que ele realmente fosse um amigo antigo da Hilda e o convidei a vir aqui hoje. Ele ficou de fazer o almoço, Yuri”.

“Liga pra ele e cancela.”

“Já liguei e a pessoa que atendeu disse que ele já tinha saído, que está vindo de bicicleta.”

“Ai-ai-ai…”, resmunguei, já sentindo o dia que teríamos de enfrentar. “E a Hilda? O que ela disse?”

“Vou falar com ela agora. Quis te avisar antes pra você já se levantar e ficar esperto. Ele mora perto da UNICAMP, já deve estar chegando. Conforme for, teremos de unir nossas magrezas e jogá-lo juntos lá no meio do jardim”, e riu.

“Beleza, Zé. Vou reunir a tropa.”

Mora Fuentes saiu pelo átrio em direção ao escritório de Hilda. Quanto a mim, depois de me espreguiçar mortalmente por um ou dois minutos, fui ao banheiro. Nunca estou plenamente desperto antes dum banho. E ali, sob o chuveiro quente, fiquei me lembrando das inúmeras histórias de malucos atraídos pela lendária Casa do Sol. Hilda me contara vários casos, assim como seu ex-marido, Dante Casarini, o próprio Mora Fuentes e também J. Toledo, outro grande amigo dela. Todos tinham mil anedotas bizarras para narrar — personagens malucos a dar com o pau. E isso incluía não apenas visitantes ocasionais já conhecidos, como certos ex-namorados, mas até mesmo pseudo-gurus, leitores fanáticos, artistas surtados, caseiros birutas, cozinheiras hipocondríacas, faxineiras cleptomaníacas… um leque sem fim de gente desprovida de parafuso. Se Hilda tivesse vivido além de 2004, seu hipotético perfil no Orkut certamente teria participado da comunidade “Eu atraio loucos!”.

Houve, por exemplo, um caseiro muito mal encarado que respondia a tudo com monossílabos cavernosos e grunhidos gulturais. Quando ele cometia algum erro no trabalho, e alguém lhe chamava a atenção, seus monossílabos tornavam-se díssilabos, mas emitidos num tom ainda mais sinistro e imperscrutável, provavelmente envolvendo ameaças e imprecações. Ninguém nunca o entendia direito. O corolário disso é que ele acabava fazendo o que lhe dava na telha, já que as cabeças dos patrões, desorientadas e constrangidas por seus resmungos, costumavam se mover afirmativamente diante de suas propostas ininteligíveis, o que ele acabava interpretando como anuências voluntárias. Mas isso não durou muito. A certa altura, durante sua estada na Casa do Sol, cães começaram a desaparecer misteriosamente. E, é claro, todos sabiam que mexer com os cães da Hilda era o mesmo que mexer com ela. Assim, num final de semana em que esse caseiro fora visitar alguém em Campinas — aparentemente num puteiro —, Hilda instigou Dante e Mora Fuentes a entrar na casinha dele. Como tinham uma cópia da chave, foram revistá-la. Encontraram uma impressionante coleção de armas brancas: navalhas, punhais, adagas, facas de combate à la Rambo, espadas, espadins e por aí vai. E o pior: algumas tinham manchas de sangue! Ficaram chocados com a descoberta e Hilda, claro, apavorada. Colocaram tudo no lugar conforme haviam encontrado e, quando ele retornou, inventaram alguma desculpa mais ou menos esfarrapada para demiti-lo: falência geral, dívidas, doenças contagiosas, etc. E o sujeito, sempre grunhindo e resmungando, partiu dali a quatro ou cinco dias, sem causar qualquer problema, frustrando a paranóia geral.

“Anos depois, quando vi aquele filme com o Freddy Krueger, fiquei besta: o caseiro tinha uma camiseta listrada idêntica!”, comentou Mora Fuentes ao me narrar o causo.

No rol dos ex-namorados, marcou presença o próprio primo de Hilda: Wilson Hilst. Esse primo, segundo ela me confessou, havia sido seu último namorado e amante; e isso quando ela já alcançara os cinqüenta anos de idade. Contou-me inclusive que Ehud, personagem de seu livro A Obscena Senhora D, fora inspirado nele. Wilson, um homem dominador e de temperamento difícil, era piloto de avião e costumava visitá-la em sua Harley-Davidson Fat Boy. Cansada de suas paranóias e de seu ciúme doentio, Hilda decidiu findar o relacionamento, o que deu enorme trabalho a Mora Fuentes e a Dante (a essa altura ex-marido, mas ainda morador da Casa): ambos tiveram de negociar com o mancebo até a chegada da polícia, uma vez que, nessa ocasião, o amante manteve Hilda, ali mesmo na Casa do Sol, sob a mira de um revólver toda uma longa noite, ameaçando matá-la e suicidar-se em seguida.

“Você nem imagina o trabalho que essa mulher já nos deu…”, disse-me Dante, diante do olhar maroto de Hilda.

Anos após esse qüiproquó, Hilda acordou sobressaltada ao ouvir, adentrando sua chácara, o motor da Harley. Levantou-se, foi ao encontro do primo que tanto a amara, mas não encontrou ninguém. Ainda era madrugada, a casa estava vazia e a Lua iluminava o jardim fronteiro. Um tanto confusa, retornou a seu quarto e voltou a dormir. No dia seguinte, recebeu por telefone a notícia de que Wilson fora encontrado morto em seu monomotor — provavelmente assassinado por passageiros narcotraficantes.

Hilda atribuía essa “força de atração insana” não ao mistério que a cercava, mas à sua velha figueira, que supostamente teria poderes mágicos, e ao nome da chácara, afinal, o Sol costuma não apenas manter um grande número de planetas, planetóides e asteróides à sua órbita, mas também está sempre a atrair ocasionais cometas. Até mesmo o gaúcho Caio Fernando Abreu, então em sua fase de buscas, entrou para a lista de satélites desvairados. Esteve ali na Casa do Sol durante o ano de 1969, dando muito trabalho ao triângulo Hilda-Dante-Mora Fuentes, que se viu obrigado a fazer revistas periódicas ao quarto do então jovem escritor, o qual vivia deprimido e ameaçando suicidar-se. Qualquer objeto pontiagudo ou cortante, qualquer fio ou cordão que pudesse converter-se numa forca improvisada, comprimidos misteriosos, tudo era sistematicamente suprimido para evitar que Caio fizesse algum mal a si mesmo. Hilda me contou que Caio viu-se perseguido durante muitos anos por essa sombra temível, a morte — memento moris —, e que somente após descobrir-se um soropositivo entregou-se à Luz, passando finalmente a escrever-lhe cartas cheias de vida. Sim, de médico e louco…

“Yuri, gosto de você porque você é tão doido quanto eu”, confessou-me ela certa feita, sugerindo que, se eu fora parar ali, também devia retirar meu cavalinho da chuva da normalidade.

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[Seguem mais 80 páginas, descrevendo um dos dias mais bizarros que vivi na Casa do Sol…]

No Paiz dos Yankees

Adolfo Caminha

Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel…, o apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um bock, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca houvesse entre elles a menor desavença.

―Leva-me para o Brazil, Manoel… (ella só o tratava por Manoel).

―Sim, filha, depois havemos de ver isso…

―I love you very much…

―Oh! yess… I think so…

Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n’um quarto d’hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.

Um bello dia:

Elle―Olha, sabes? O Barroso suspende ferro amanhã.?.

Ella (surprehendida)―What do you say?!

Elle (trincando um rabanete)―É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.

Ella (cruzando o talher)―Impossivel! Por que já não me disseste?

―Para te poupar o desgosto…

―Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã…

―Assim é preciso. São cousas da vida…

―Não, não, meu amor (my love) tu não vás, porque eu não quero, do contrario faço escandalo, estás ouvindo?

E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima…

Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.

Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.

Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepusculo.

Almirante Barroso, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena… Ultimos preparos.

No cáes agita-se uma multidão compacta.

De repente surge á tona d’agua o cepo da ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.

A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d’outro, e acena para terra ao som de―vivas!

Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um fremito percorre os que estão no cruzador…

É o momento decisivo.

Um grande rebocador, The Warriaro, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do Barroso, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, envolto n’uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.

O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a marcha.

As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam tambem com os seus lenços brancos.

E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas palavras tocadas de saudade:

Good bye!

Good bye! repete a mesma voz avelludada como um carinho…

Olhámos uns para os outros commovidos.

Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brazileiros?

A voz era de mulher, não restava duvida…

Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do rebocador Eva Smith, a amante de Manoel…, a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.

E quando o Barroso desappareceu na primeira curva do rio, ainda ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:

Good bye, Manoel! Good bye!

E dizer que a Dama das Camelias é uma excepção na vida sentimental das filhas de Eva!…

O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se cahir n’uma saudade profunda, n’um longo adormecimento d’alma, de que só accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa americana.

[…]

No fim de oito dias o Barroso deixava de uma vez o paiz dos yankees, fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o coração de alegria.

Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.

Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n’um cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.

Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da morte não os preoccupa: um yankee triste é cousa rara e toma proporções de phenomeno.

Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua patria mais do que qualquer outro povo.

A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.

Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum: engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra, assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.

Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.

Emquanto as nações da Europa degladiam-se n’uma lucta continua, perdendo na guerra o que difficilmente accumularam em poucos annos de paz, a grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exercito e sem marinha, confiada no seu proprio valor, no patriotismo de seus filhos, certa de que, n’um dado momento, cada cidadão, cada americano saberá cumprir com heroismo o seu dever e honrar as suas tradições de povo independente e forte.

Go ahead! never mind; help yourself!―eis a maxima de todo yankee. Elles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como quem tem absoluta confiança no proprio valor.

ceará―1890.
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Trechos de No Paiz dos Yankees, de Adolpho Caminha.

A Ária da Rainha da Noite

Preciso postar esta ária – Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen (A vingança do inferno arde em meu coração), também conhecida como Ária da Rainha da Noite, da ópera A Flauta Mágica, de Mozart – apenas porque a ouvi umas dez vezes no último final de semana. A soprano Diana Damrau conjuga voz e interpretação impressionantes. (Vi outras sopranos que talvez cantem melhor do que ela, mas não com a mesma carga dramática, ajudada, é certo, por excelentes figurino, cenário e direção.)

Você vai querer o DVD depois desse vídeo…

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The perfect bitch. :^)

Mário Ferreira dos Santos: Deus e o índio do Mackenzie

Reproduzimos a seguir as palavras de Grouard, citadas por Foulquié, expressivas e de grandes sugestões. Pertencem ao livro “Souvenirs de mes soixant ans d’apostolat”:

« Um índio de Mackenzie disse-me um dia:

— Padre, antes de te ter visto, eu sabia que Deus existe.

— Como o sabias? Creio que fui o primeiro a te falar de Deus.

— Na verdade — retrucou — antes de ti, ninguém me havia falado nele, e contudo, eu sabia que há um Deus.

Um dia, quando tinha catorze ou quinze anos, fui à caça com o meu arco e minhas flechas. Conhecia os bosques, os rios, os lagos por onde havia passado, buscando matar alguma caça. Nesse dia, no verão, cheguei à borda de um lago cercado de belas árvores. Patos desciam sobre a água, o sol brilhava no céu sem nuvens; lá longe, montanhas elevavam-se, em variadas alturas. Detendo-me, contemplei tudo isso com um imenso prazer. Subitamente, a idéia me veio: “Quem fez tudo isso? Não fomos nós, nem tampouco os ingleses, pois são homens semelhantes a nós. É preciso que haja alguém mais forte que todos os homens que tenha feito isso”. Vês — acrescentou o índio — eu sabia que essas florestas, esses lagos, esse sol, não haviam sido feitos por si sós. Eu não podia explicar-me mais corretamente. Mas, quando tu nos ensinaste: “Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra”, eu compreendi logo e disse a mim mesmo: “Ei-lo; eu sabia que ele existia”.»

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Trecho de “O Homem Perante o Infinito (Teologia)”, de Mário Ferreira dos Santos.

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