palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Literatura Page 23 of 37

Monteiro Lobato fala sobre os Amigos do Brasil

Monteiro Lobato

Amigos do Brasil! Pois há disso? Há. Houve e há estrangeiros que se apaixonam das nossas coisas, vêm estudá-las e de volta às suas terras dão-se ao sentimentalismo de querer bem ao país onde a primavera e o estado de sítio são eternos.

O saudoso e recém falecido J. C. Branner, reitor da Universidade de Stanford, estudou na mocidade a nossa geologia e de regresso, até o fim da vida, conservou-se um amigo do Brasil. Quando publiquei meu primeiro livro recebi dele uma carta que conservo como prêmio. Discutia a “geringonça”, ou gíria como dizemos hoje, e falava disso com a segurança do homem de ciência para o qual tudo quanto representa criação tem valor.

Na Alemanha tivemos sempre inúmeros amigos, a partir do grande Martius. Hoje também os temos e um deles é o Dr. Frederico Sommer, que se empenha em verter e lá publicar os livros mais característicos da nossa literatura.

Até na França, tão de si própria, temos amigos. Mr. Le Gentil dedica-se a estudos brasileiros e em companhia de M. Gahisto, Martinenche e outros mantém na Revue de l’Amerique Latine uma seção dedicada amorosamente ao Brasil. Não contentes, criaram na Sorbonne um centro de estudos brasileiros e cuidam agora de constituir uma biblioteca de livros brasileiros. Tudo isto sem subvenções, à custa de enormes esforços e ao arrepio da nossa muçulmana indiferença. (Aviso aos autores de livros: essa biblioteca da Sorbonne aceita com grande prazer e pede a remessa de obras nacionais para lá, sobretudo as científicas. Endereço: Mr. Le Gentil, Centro de estudos portugueses, Sorbonne, Paris).

Outro, de nome menos conhecido entre nós, é Mr. Jean Turiau (Boulevard Murat, 29, XVIme). Já residiu no Brasil, conhece as nossas coisas e as rememora com saudades. O Brasil é uma coisa deliciosa vista assim de longe. Um meu amigo, grande patriota, dizia sempre: — Meu ideal é a diplomacia. Viver do Brasil mas longe dele, de modo a sentir sempre doces saudades da pátria, que delícia!

Mas Turiau quer bem a isto aqui e gostos não se discutem. Trabalha em traduções e vai tornando conhecida em França a nossa esfarrapada literatura. Na última carta que me escreveu lamenta-se da sua situação de funcionário público, como toda gente em França, situação que lhe não permite adquirir obras sobre o Brasil. E chora por uma Rondônia, por uma História do Brasil, de Rocha Pombo, trop chère… (Aviso aos srs. Roquette Pinto e a Rocha Pombo: não percam a oportunidade de um tal leitor. Nada há mais raro e que mais honre a um escritor do que um bom leitor).

A interpenetração literária é o que há de mais profícuo na aproximação dos povos. Só ela suprime as muralhas que a estupidez dos governos ergue. Só ela demonstra que somos todos irmãos no mundo, com as mesmas vísceras, os mesmos defeitos, os mesmos ideais. Se a França tornou-se amada entre nós a ponto de bombardear Damasco e esmagar Abd-el-Krim sem que isso nos arrepie as fibras da indignação, deve-o aos senhores Perrault, Lafontaine, Hugo, Maupassant, Taine, Anatole e quantos mais nos trouxeram para aqui esta sensação da irmandade do homem. Se a Alemanha não se gozou de idênticas simpatias é que víamos os atos de violência dos seus homens de governo e não havia dentro de nós, para atenuar-lhes a repercussão, o coxim de veludo da literatura alemã bem absorvida como temos a francesa.

Grande serviço, pois, prestam aos povos esses homens beneméritos que trabalham na difusão da literatura alheia em seus próprios países. Estão a preparar os preciosos coxins de veludo, amortecedores dos choques. Criam a compreensão e a tolerância. Demonstram, com a exibição de documentos humanos, que somos iguais, todos filhos do mesmo macaco que rachou a cabeça ao cair do pau.

Mas o nosso descaso é imenso. Nenhuma livraria do Rio, por exemplo, tem à venda essa revista da América Latina. Por que? Não há procura. Estupidificados pelo estado de sítio crônico, parece que um desalento nos ganhou a todos, um desânimo de tudo, indiferença de chim.

Se alguma coisa valesse alguma coisa nesta terra: eis a frase com que um jornalista traduz tal estado d’alma. Frase horrível, reflexo do desespero do desânimo, e, no entanto, lógica, sempre que um povo perde a sua liberdade e tomba no boçalismo da escravidão. Mas tudo passa. Depois da noite vem o dia. Depois da Idade Média vêm os 89. Tolice é desesperar. Esperemos, e enquanto esperamos não contaminemos com o nosso desalento de escravos os abnegados pioneiros das nossas letras em França. É noite? Não importa. Também de noite se trabalha e não há trabalho mais abençoado do que o que se faz dentro da noite para apressar a vinda do dia claro. E é trabalhar para um dia melhor meter mãos à obra da difusão literária.

Os morcegos passam e os livros ficam.

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Na Antevéspera, de Monteiro Lobato.

“O assassino” — um conto de Arthur Schnitzler

Arthur Schnitzler - 1878

Um jovem, doutor em direito canônico e romano, sem exercer sua profissão, órfão de pai e mãe, vivendo em circunstâncias confortáveis, benquisto por sua agradável companhia, estabelecera havia mais de um ano uma relação com uma moça de origem humilde, que, sem parentes como ele, não tinha necessidade de levar em consideração a opinião alheia. Logo no início do relacionamento, menos por bondade ou paixão do que pela necessidade de gozar sua felicidade da forma mais tranqüila possível, Alfred levara a amante a deixar seu emprego como balconista numa respeitada loja vienense. Mas, depois que, durante longo tempo, embalado pela grata ternura da amante e pelo mais confortável gozo da liberdade comum, se sentira melhor do que durante qualquer relacionamento amoroso anterior, começou a sentir paulatinamente aquela inquietude promissora, sua velha conhecida, que, em outros casos, lhe prenunciava o fim iminente da relação amorosa, um fim que, neste caso, parecia não ser ainda previsível. Já estava se vendo, em sua mente, como companheiro de sina de um amigo de juventude que, envolto fazia anos num relacionamento similar, era obrigado a levar agora uma vida retirada e limitada, como enfadado pai de família; e algumas horas, que sem intuições dessa espécie lhe teriam oferecido o mais puro dos prazeres, ao lado de um ser tão gracioso e suave como Elise o era, começaram a lhe causar enfado e sofrimento. Embora tivesse a capacidade e, fato ao qual gostava de atribuir maior valor ainda, a deferência de não deixar Elise nada notar desses estados de alma, eles possuíam, todavia, o poder de fazê-lo procurar novamente com maior freqüência os círculos da alta burguesia, dos quais havia se afastado quase que por completo no decorrer do último ano. E quando, por ocasião de uma festa dançante, uma dama muito cortejada, filha de um próspero industrial, veio a seu encontro com surpreendente amabilidade, fazendo-o ver muito subitamente uma possibilidade fácil de estabelecer uma relação que fosse mais adequada à sua posição social e à sua fortuna, começou a sentir aquela outra, que havia começado como uma aventura alegre e desembaraçada, como um incômodo grilhão de que um jovem de seus méritos poderia se desvencilhar sem escrúpulos. Contudo, a sorridente calma com que Elise sempre tornava a recebê-lo, sua entrega sempre igual nas horas em que estavam juntos e que agora iam se tornando mais escassas, a ingênua segurança com que ela o deixava partir de seus braços para um mundo que lhe era desconhecido, tudo isso não apenas afastava de seus lábios, todas as vezes, as palavras de despedida, antes sempre prestes a serem proferidas, mas também o enchia de uma espécie de torturante compaixão, cujas manifestações quase inconscientes só poderiam parecer, a uma mulher tão crédula como Elise, novos e mais densos sinais de sua inclinação. E assim a coisa chegou a um ponto em que Elise acreditava ser adorada por ele, de forma mais cálida do que nunca, justamente nas ocasiões em que ele voltava de um encontro com Adele; quando ele, agitado pela lembrança de olhares doces e interrogativos, apertos de mão cheios de promessas e, finalmente, em meio à embriaguez dos primeiros beijos escondidos, voltava para aquela casa dedicada só a ele e a seu amor; e em lugar de despedir-se com um adeus, como se dispusera a fazer ainda no limiar da porta, Alfred deixava a amante todas as manhãs com novas juras de eterna fidelidade.

Assim passaram-se os dias entre as duas aventuras; finalmente só restou a decisão sobre qual anoitecer seria mais apropriado para a inevitável explicação a Elise; a saber, se seria a noite anterior ao noivado com Adele, ou a seguinte; e na primeira dessas duas noites, como ainda ficara um prazo pela frente, Alfred compareceu à casa da amante num estado de espírito quase tranqüilizado pelo hábito desse seu jogo duplo.

Encontrou-a pálida, como nunca a vira antes, recostada num canto do divã; ela também não se ergueu como de costume quando de sua entrada, para oferecer-lhe testa e os lábios aos beijos de boas-vindas, mas mostrou um sorriso cansado, um pouco forçado, de tal forma que, simultaneamente com uma sensação de alívio, cresceu em Alfred a conjetura de que a notícia de seu iminente noivado tivesse chegado até ela, não obstante todas as precauções, seguindo o caminho enigmático de todos os boatos. Mas, apesar de todas as precipitadas perguntas, nada ficou sabendo a não ser que Elise, de tempos em tempos, sofria de espasmos no coração, fato que ela ocultara até então, e que desses espasmos em geral ela rapidamente se restabelecia; só que, dessa vez, seus efeitos ameaçavam ser mais duradouros do que nunca. Alfred, consciente de suas intenções culposas, ficou tão tocado com estas revelações que exagerou em suas manifestações de compaixão e bondade; e, antes da meia-noite, sem compreender como poderia ter chegado tão longe, havia desenvolvido com Elise o plano de uma viagem em comum, durante a qual ela encontraria com certeza a cura para aqueles desagradáveis ataques.

Lin Yutang fala sobre a arte de ler

 Lin Yutang

A leitura, ou o gozo dos livros, foi sempre contada entre os encantos da vida culta e é respeitada e invejada por aqueles que raramente se concedem esse privilégio. É fácil compreendê-lo quando comparamos a diferença entre a vida de um homem que não lê e a de um homem que lê. O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, relativamente ao tempo e ao espaço. Sua vida cai numa rotina fixa; acha-se limitado ao contato e à conversação com uns poucos amigos e conhecidos, e só vê o que acontece na vizinhança imediata. Não há como escapar a tal prisão. Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra num mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Este conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns de seus pesares pessoais, ou discute com ele uma forma especial ou um aspecto da vida de que o leitor nada sabe. Um autor antigo o põe em comunhão com um espírito morto há já muito tempo, e, à medida que lê, começa a imaginar como seria esse autor antigo fisicamente e que espécie de pessoa seria. Tanto Mêncio como Ssema Ch’ein, o maior historiador chinês, expressaram a mesma idéia. Poder viver duas horas, sobre doze, em um mundo diferente e furtar os pensamentos ao apelo presente imediato, é este um privilégio que deve causar inveja às pessoas que vivem encerradas na sua prisão corporal. Tal mudança do ambiente é na verdade semelhante a uma viagem, no seu efeito psicológico.

Mas há mais do que isto. O leitor se vê levado sempre a um mundo de pensamentos e reflexões. Embora se trate de um livro de fatos objetivos, há uma diferença entre ver esses fatos, ou vivê-los, e ler sobre eles nos livros, porque então os fatos assumem sempre a qualidade de um espetáculo, e o leitor se converte em espectador desapaixonado. A melhor leitura é, pois, a que nos leva a esse mundo contemplativo, e não a que se ocupa unicamente do registro dos fatos. Considero que não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais, pois os comuns leitores de jornais se preocupam antes de tudo em obter notícias sobre fatos e acontecimentos.

A melhor fórmula sobre a finalidade da leitura, a meu ver, foi dada por Huang Shanku, poeta Sung e amigo de Su Tungp’o, que disse: “Um intelectual que nada leu durante três dias sente que a sua conversação não tem sabor (que se torna insípida) e a sua cara se torna odiosa de ver (ao espelho)”. O que quis dizer é que a leitura dá ao homem certo encanto e sabor, que é o objeto da leitura, e só pode chamar-se arte a leitura com esse objetivo. Não se lê “para melhorar o espírito”, pois quando se começa a pensar em melhorar o espírito, desaparece todo o prazer da leitura. Este é o tipo de pessoas que dizem com os seus botões: “Devo ler Shakespeare, Sófocles e Cervantes, para poder ser um homem culto”. Estou certo de que um homem assim nunca será culto. Uma noite se obrigará a ler Hamlet, e sairá disso como de um mau sonho, com o único benefício de poder dizer que “já leu” Hamlet. Todo aquele que leia um livro como quem cumpre uma obrigação, é porque não compreende a arte da leitura. Essa leitura com intuitos de negócio é como a leitura de arquivos, por um político, antes de pronunciar um discurso. É apenas pedir conselho e informação de negócios, e não ler.

Ler para cultivar o encanto do aspecto físico e do sabor na palavra é, segundo Huang, a única espécie de leitura que se pode admitir. Este encanto do aspecto deve ser interpretado, evidentemente, como algo mais que a beleza física. Huang não se refere à fealdade em sua frase. Há caras feias que têm um encanto fascinador e caras formosas que são insípidas para quem as olha. Entre os meus amigos chineses há um cuja cabeça têm a forma de uma bomba e, contudo, vê-lo é sempre um prazer. A cara mais linda dentre as dos autores ocidentais contemporâneos, pelo que pude observar nas fotografias, era a de G. K. Chesterton. Tinha um tão diabólico conglomerado de bigodes, óculos, emaranhadas pestanas e carregadas sobrancelhas! Ao olhá-la, sentia-se que dentro daquela fronte havia uma boa quantidade de idéias em ação, prontas para saltar, a qualquer momento, por aqueles olhos estranhamente penetrantes. Aquela cara era uma das que Huang chamaria formosas, uma cara que não era feita pelos pós e a pintura, mas pela pura força do pensamento. Quanto ao sabor da palavra, tudo depende da forma de ler. Que se tenha “sabor” ou não quando se fala, isto depende do método de leitura. Se um leitor frui sabor nos livros, demonstrará esse sabor em suas conversações, e se tem sabor em suas conversações, tê-lo-á no que escreve.

Considero o sabor, ou gosto, como a chave de toda leitura. Segue-se daí que o gosto é seletivo e individual, como o gosto na comida. A forma mais higiênica de comer é, afinal de contas, a de comer o que nos agrada, pois só então se poderá ter segurança da digestão. Quando se lê, como quando se come, o que faz bem a um pode matar a outro. O mestre não pode forçar seus discípulos a que gostem do que a ele agrada como leitura, e um pai não pode esperar que os filhos tenham o mesmo gosto que ele. E se o leitor não tem gosto no que lê, perde o seu tempo. Já o disse Yüan Chunglang: “Podeis deixar de lado os livros que não vos agradam: os outros que os leiam”.

Não pode, pois, haver livros que a gente deva ler. Porque os nossos interesses intelectuais crescem como uma árvore ou fluem como um rio. enquanto haja seiva adequada, há de crescer de algum modo a árvore; e enquanto haja água do manancial, o rio continuará correndo. Quando a água topa com um escolho de granito, não faz mais que rodeá-lo; quando encontra um vale baixo e aprazível, detém-se e espraia-se por um momento; quando se encontra num fundo tanque da montanha, está contente de quedar-se ali; e salta nas cataratas. Assim, sem esforço algum, sem propósito determinado, chegará certamente um dia ao mar. Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período de sua vida. Chego a crer que a leitura, como o casamento, está determinada pelo destino, ou yinyüan. Embora haja certo livro que todos devem ler, como a Bíblia, há um momento para fazê-lo. Quando os pensamentos e a experiência de uma pessoa não chegaram a certo ponto para ler uma obra-prima, esta só lhe deixará um mau sabor. Confúcio diz: “Aos cinqüenta anos, pode-se ler o Livro das Mutações”, o que significa que não o devemos ler aos quarenta e cinco. O leitor obtém uma sabedoria quando lê o Livro das Mutações aos quarenta anos, e outra espécie de sabedoria quando o lê aos cinqüenta anos, depois de ter visto mais mudanças na vida. Portanto, todos os bons livros podem ser relidos com proveito e renovado prazer. Quando estudante, fizeram-me ler Westward Ho! e Henry Esmond, mas, embora fosse capaz de apreciar Westward Ho! quando não tinha vinte anos, o verdadeiro sabor de Henry Esmond me escapou completamente, até que refleti, anos mais tarde, e suspeitei que havia neste livro muito mais encanto do que me fora possível apreciar.

A leitura, pois, não é um ato simples; tem duas faces: o autor e o leitor. O ganho provém tanto da contribuição do leitor, por meio da sua visão íntima e da sua experiência, como do autor. Com respeito às Analectas de Confúcio, disse o confucionista Ch’eng Yich’uan, da época Sung: “Há leitores e leitores. Alguns lêem as Analectas e sentem que nada aconteceu, a alguns agradam uma ou duas passagens, e outros começam a sacudir as mãos e a dançar sem querer”.

Considero o descobrimento do autor favorito de cada um como o momento definitivo da sua evolução intelectual. Há algo que se chama afinidade de espíritos, e, entre os antigos e modernos autores, devemos procurar aquele cujo espírito seja semelhante ao nosso. Só desta maneira se pode auferir real proveito da leitura. Cumpre ser independente e procurar por conta própria os mestres. Ninguém pode dizer quem será o autor favorito de cada qual: talvez nem o próprio leitor possa dizê-lo. É como o amor à primeira vista. Não se pode dizer ao leitor que ame a este ou àquele autor; mas quando se encontra com o autor a quem ama, sabe-o por uma espécie de instinto. Conhecemos casos famosos a este respeito. Há sábios que viveram em épocas diferentes, separados por muitos séculos, mas com maneiras de pensar e de sentir tão semelhantes que, ao se encontrarem nas páginas de um livro, pareciam uma única pessoa que encontrava a própria imagem. Dizem os chineses, desses espíritos semelhantes, que são reencarnações da mesma alma, como se dizia de Su Tungp’o que era uma reencarnação de Tchuang-tsé, ou de T’ao Yüanming, e de Yüan Chunglang que era uma reencarnação de Su Tungp’o. Su Tungp’o disse que, quando leu pela primeira vez Tchuang-tsé, teve a sensação de que desde a meninice tinha estado a pensar as mesmas coisas e a formar os mesmos pontos de vista. Quando Yüan Chunglang descobriu uma noite Hsü Wench’ang, autor contemporâneo a quem não conhecia, em um pequeno livro de poemas, saltou da cama e chamou aos gritos o seu amigo, e seu amigo começou a ler e gritou por sua vez, e logo ambos leram e gritaram de tal modo que o servente ficou intrigadíssimo. George Eliot diz que a sua primeira leitura de Rousseau foi um choque elétrico. Nietzsche sentiu o mesmo no tocante a Schopenhauer, mas Schopenhauer era um mestre ranzinza e Nietzsche um discípulo teimoso, e era natural que o aluno se rebelasse mais tarde contra o mestre.

Só essa espécie de leitura, esse descobrimento do autor favorito pode fazer bem. Como acontece com um homem que se enamora à primeira vista, tudo é como deve ser. A noiva tem a estatura exata, o rosto exato, o cabelo da cor exata, a voz de exata qualidade, e a forma exata de falar e de sorrir. O mesmo acontece com o autor: seu estilo, seu ponto de vista são exatamente o que se esperava encontrar. E logo começa o leitor a devorar cada palavra e cada linha que escreve o autor e, como há afinidade espiritual, absorve e digere tudo o que lê. O autor aplicou sobre ele a sua magia, e alegra-o estar debaixo do sortilégio, e, com o tempo, a sua voz e as suas maneiras e o jeito de sorrir e de falar se vão tornando como os do autor. Assim se impregna do seu amante literário, de cujos livros extrai o sustento para a alma. Ao fim de alguns anos, quebra-se o encanto e cansa-se um pouco desse amante literário, e procura outros e, depois de ter uns três ou quatro e havê-los devorado completamente, surge ele próprio como autor. Há muitos leitores que nunca se enamoram, como esses moços ou moças que vivem em galanteios e são incapazes de sentir um profundo afeto por uma pessoa em particular. Podem ler todo e qualquer autor e nunca chegam a coisa alguma.

Tal conceito da arte de ler destrói por completo a arte da leitura como dever ou obrigação. Na China, anima-se amiúde os estudantes a que estudem amargamente. Houve um famoso sábio que estudava amargamente e que cravava um alfinete na barriga da perna toda vez que lhe sucedia adormecer durante o estudo. Houve outro que fazia com que a criada ficasse a seu lado enquanto ele estudava de noite, para despertá-lo quando ele adormecesse. Isto é uma insensatez. Se alguém tem um livro ante os olhos e adormece enquanto um sábio autor antigo está lhe falando, faz muito bem em ir para a cama. Nem a picada de um alfinete na barriga da perna, nem as sacudidelas da criada lhe farão bem algum. Um homem assim perdeu todo senso do prazer da leitura. Os sábios que valem alguma coisa não sabem o que significa “estudar com afinco”. Amam os livros e os lêem porque não podem evitá-lo, nada mais.

Resolvida esta questão, também se dá resposta à do momento e local em que se deve ler. Não há momento nem locais especiais para ler. Quando se tem vontade de ler, deve-se ler em qualquer parte. Se se conhece o gozo da leitura, ler-se-á na escola ou fora dela, e apesar de todas as escolas. Pode-se estudar assim nas melhores escolas. Tseng Kuofan, numa das cartas à família, referindo-se ao desejo expresso por um de seus irmãos menores de ir à capital estudar numa escola melhor, respondeu que: “Se se tem desejo de estudar, pode-se estudar numa casa de campo, ou mesmo num deserto ou numa rua cheia de gente, e até como lenhador ou guardador de porcos. Mas se não se tem desejo de estudar, então não somente é inadequada para o estudo a escola de campo, mas também uma quieta casa de campo ou uma ilha de fadas”. Há pessoas que adotam posturas importantes defronte à mesa quando querem ler um pouco, e logo se queixam de que não podem ler porque o quarto está demasiado frio, ou a cadeira é muito dura, ou muito forte a luz. E há escritores que se queixam de não poder escrever porque há muitos mosquitos, ou porque o papel é muito brilhante, ou vem muito ruído da rua. O grande sábio Sung, chamado Ouyang Hsiu, confessou as três ocasiões ou lugares em que criava as suas melhores obras: no travesseiro, montado a cavalo e durante a toilette. Outro famoso sábio Ch’ing, Ku Ch’ienli, era conhecido pelo seu costume de “ler os clássicos confucianos completamente nu, no verão”. Em compensação, se não nos agrada a leitura, não faltam motivos para não ler em nenhuma das estações do ano:

Estudar na primavera é traição;
Não há como o estio para o sono;
E espera, enquanto o inverno vai tangendo o outono,
Que a primavera seja a próxima estação.

Em que consiste, pois, a verdadeira arte da leitura? A resposta, muito simples, é tomar um livro e ler quando se tem vontade. Pega a gente um lindo volume de Lisao, ou de Omar Khayyam, e vai, de mãos dadas com o seu amor, ler à margem de um rio. Se há boas nuvens no céu, pode-se ler as nuvens e esquecer o livro, ou ler o livro e as nuvens ao mesmo tempo. Às vezes, um bom cachimbo, ou uma taça de chá, constituem o momento mais perfeito. Ou talvez por uma noite nevada, sentado ante o fogo, quando canta uma chaleira e há uma boa bolsa de fumo ao alcance da mão, a gente reúne dez ou doze livros de filosofia, economia, poesia, biografia e os empilha no divã e depois preguiçosamente os folheia e mergulha suavemente naquele que mais atrai a atenção, de momento. Chin Shengt’an considera que um dos maiores prazeres da vida é ler um livro proibido, a portas fechadas, por uma noite de neve.

A melhor descrição do prazer da leitura, encontrei-a na autobiografia da maior poetisa chinesa, Li Ch’ingchao (Yi-an, 1081-1141). Ela e seu marido costumavam ir ao templo, onde se vendiam livros de segunda mão e cópias de inscrições em pedra, no dia em que ele recebia sua mensalidade como estudante da Academia Imperial. No regresso compravam também algumas frutas e, chegados em casa, começavam a descascá-las, ou a beber chá, enquanto comparavam as variações em edições diferentes. No seu esboço autobiográfico, diz ela:

“Eu tenho boa memória, e, sentados a sós depois de comer, no Salão do Regresso à Casa, costumávamos preparar chá e, mostrando os livros nas estantes, dizíamos em que linha, de que página, e de que volume de certa obra se achava determinada passagem, para quem acertava, e o que ganhava tinha o privilégio de beber primeiro sua taça de chá. Quando um dos dois acertava, erguíamos muito alto a taça e rompíamos em gargalhadas, tanto que às vezes se derramava o chá sobre as nossas vestes e não o podíamos beber. Que contentes estávamos por viver e envelhecer num mundo assim! Por isso mantínhamos alta a cabeça, embora vivêssemos na pobreza e cheios de cuidados… Com o tempo a nossa coleção foi aumentando, e os livros e objetos de arte se empilharam em mesas e escrivaninhas e camas, e nós os gozávamos com os olhos e com o espírito, e discutíamos sobre eles, saboreando uma felicidade muito superior à dos que gozam dos cachorros, dos cavalos, da música e da dança…”

Li escreveu isto na velhice morto já seu marido, quando era uma velha solitária que fugia de um lugar para outro, durante a invasão do norte da China pelas tribos Chin.

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A Importância de Viver, de Lin Yutang (tradução de Mário Quintana).

Ray Bradbury, o contribuinte e a viagem a Marte

Ray Bradbury

   Março de 2000: O contribuinte

Ele queria ir a Marte no foguete. Foi até o campo de foguetes de manhã cedo e gritou através da cerca de arame, para os homens fardados, que queria ir a Marte. Disse-lhes que era um contribuinte, chamava-se Pritchard e tinha todo o direito de ir a Marte. Não havia nascido ali em Ohio? Não era um cidadão cumpridor de seus deveres? Então por que não podia ir a Marte? Sacudiu o punho cerrado na direção deles e disse-lhes que queria ir embora da Terra, que qualquer pessoa com a cabeça no lugar queria ir embora da Terra. Dentro de dois anos iria ser desencadeada uma enorme guerra atômica na Terra e ele não queria estar ali quando isso acontecesse. Ele e milhares de outros como ele, se tivessem bom senso, quereriam ir para Marte. Pergunte-lhes se não quereriam! Ficar longe de guerras, censuras, estatizações, conscrição, controle governamental disto e daquilo, da arte e da ciência! Vocês podem ficar com a Terra! Estava lhes oferecendo sua mão direita, seu coração, sua cabeça, pela oportunidade de ir para Marte! Que se devia fazer, que se devia assinar, que se devia saber para embarcar no foguete?
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As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury.

Bráulio Mantovani: “Idéias sem forma são apenas idéias”

Do Planeta Tela:

Enquanto isso, um de seus roteiristas, Bráulio Mantovani, deu um puxão de orelhas nos críticos de cinema esta semana. Quando questionado pela jornalista Maria do Rosário Caetano sobre a não inclusão do nome de Wagner Moura como co-roteirista do filme [Tropa de Elite 2], Mantovani afirmou: “Para ser co-roteirista, é preciso sentar-se junto ao computador e escrever. Dar idéias não é o mesmo que escrever roteiros. Como disse Mallarmé a Degas: um poema não se faz com idéias, um poema se faz com palavras. O mesmo raciocínio se aplica à escrita de roteiros. Wagner Moura, assim como Daniel Rezende, Rodrigo Pimentel e outros, fizeram leituras críticas e deram sugestões para as muitas versões de roteiro de Tropa de Elite 2. Mas quem sentou a bunda diante do computador para dar forma dramática às idéias que iam surgindo fomos José Padilha e eu. Era nossa a responsabilidade de resolver os problemas da narrativa”.

E conclui: “Ninguém em Tropa de Elite 2 tem crédito não merecido e ninguém deixou de ser creditado pelo trabalho que fez. A participação intensa do Wagner no roteiro corresponde ao que se espera de um coprodutor (assim como eu, que também tenho o mesmo crédito, participei da montagem e de todas as decisões importantes relacionadas à produção e ao lançamento do filme). Já está na hora de vocês críticos assimilarem a evolução do trabalho do escritor no cinema brasileiro. Desde que nós fundamos a AC (Autores de Cinema), o crédito de roteiro passou a ser encarado com mais rigor, mais seriedade e mais profissionalismo. A era dos diretores que assinam roteiros sem sequer saber escrever direito acabou. Idéias sem forma são apenas idéias. Arte é forma”.

Ernest Hemingway: A Fome como Boa Disciplina

Ernest Hemingway

Se você não se alimentava bem em Paris, tinha sempre uma fome danada, pois todas as padarias exibiam coisas maravilhosas em suas vitrinas e muitas pessoas comiam ao ar livre, em mesas na calçada, de modo que por toda a parte via comida ou sentia o seu cheiro. Se você abandonou o jornalismo e ninguém nos Estados Unidos se interessa em publicar o que está escrevendo, se é obrigado a mentir em casa, explicando que já almoçara com alguém, o melhor que tem a fazer é passear nos jardins do Luxembourg, onde não via nem cheirava comida, desde a Place de l’Observatoire até a rue de Vaugirard. Poderá sempre entrar no Musée du Luxembourg, onde todos os quadros ficam mais vivos, mais claros e mais belos quando se está com a barriga vazia, roído de fome.

Aprendi a compreender Cézanne muito melhor, a entender realmente como é que pintava suas paisagens quando estava faminto. Costumava perguntar a mim mesmo se ele também tinha passado fome quando pintava, mas imaginava que talvez apenas se tivesse esquecido de comer. Era um daqueles pensamentos doentios mas brilhantes que nos ocorrem quando estamos com falta de sono ou de comida. Mais tarde, bem mais tarde, concluí que Cézanne provavelmente passara fome, mas de maneira diferente.

Depois de ter saído do Luxembourg, você poderia andar pela estreita rue Férou até a Place St. Sulpice sem ver restaurante algum, somente a praça silenciosa, com seus bancos e suas árvores. Havia uma fonte com leões, e pombos andavam nas calçadas ou pousavam nas estátuas dos bispos.

No lado norte da praça ficavam a igreja e lojas que vendiam objetos religiosos e paramentos.

Para além da praça é que não podia prosseguir em direção ao rio sem passar por lojas que vendiam frutas, legumes, vinhos, ou por padarias e pastelarias. Mas, escolhendo cuidadosamente o caminho, conseguiria avançar pela direita, ao redor da igreja de pedra, cinzenta e branca, chegar à rue de l’Odéon e virar de novo à direita em direção à livraria de Sylvia Beach, sem encontrar muitos lugares onde se vendessem coisas de comer. A rue de l’Odéon era desprovida de restaurantes até chegar à praça, onde havia três.

Quando chegasse à rue de l’Odéon, nº 12, a fome estaria contida mas por outro lado, todos os seus sentidos estariam aguçados. As fotografias lhe pareceriam diferentes e descobriria livros que nunca tinha visto antes.

– Você está magro demais, Hemingway – diria Sylvia. – Você anda comendo o suficiente?

– Claro que sim!

– O que é que comeu no almoço?

Apesar das cólicas, eu diria: – Ainda não almocei. Agora é que estou indo para casa.

– Ás três da tarde?

– Não sabia que era tão tarde assim.

– Adrienne disse outro dia que gostaria que você e Hadley fossem jantar com ela. Convidaremos Fargue também. Você gosta do Fargue, não gosta? Ou Larbaud. Você gosta dele. Sei que você gosta dele. Ou qualquer outro de quem você realmente goste. Você falará com Hadley?

– Sei que ela adorará aceitar esse convite.

– Eu lhe enviarei uma carta pneumática para combinar tudo. Quanto a você, Hemingway, não trabalhe tanto, pois não está se alimentando adequadamente.

– Cuidarei disso.

– Vá logo para casa, antes que seja tarde demais para o almoço.

– Guardam o almoço para mim.

– Comida fria também faz mal. Coma um bom almoço quente.

– Chegou alguma carta para mim?

– Acho que não. Mas deixe-me ver.

Foi ver e encontrou um recado. Levantou os olhos, satisfeita, e depois abriu uma porta da sua escrivaninha, que estava fechada a chave.

– Isto chegou enquanto eu estava fora – disse ela.

Era uma carta e dava a impressão de conter dinheiro.

– Wedderkop – disse Sylvia.

– Deve vir do Der Querschnitt – disse eu. – Você esteve com Wedderkop?

– Não. Mas ele passou por aqui, com o George. Ele falará com você, não se preocupe. Talvez quisesse primeiro pagar o que lhe deve.

– São estes seiscentos francos. E diz que receberei mais.

– Foi ótimo você me ter lembrado da correspondência!

Meus parabéns, Dr. Sabe-Tudo.

– É realmente muito engraçado que a Alemanha seja o único lugar onde posso vender alguma coisa. A Wedderkop e ao Frankfurter Zeitung.

– É mesmo! Mas não se aborreça. Você pode vender alguns contos ao Ford – disse ela para me provocar.

– A trinta francos a página! Faça os cálculos: um conto, cada três meses, no The Transatlantic. Um conto de cinco páginas dá cento e cinquenta francos por trimestre. São seiscentos francos por ano.

– Mas, Hemingway, não se preocupe com o que lhe rendem agora. O essencial é você poder escrevê-los.

– Sei. Posso escrevê-los. Mas ninguém os comprará. Não tem entrado dinheiro algum desde que abandonei o jornalismo.

– Estou certa de que conseguirá colocá-los. Você não acaba de receber esse dinheiro?

– Desculpe-me, Sylvia. Perdoe-me por falar nos meus problemas.

– Desculpá-lo de quê? Fale sempre disso ou do assunto que quiser. Você não sabe que todos os escritores sempre falam de suas dificuldades? Mas prometa-me que não se preocupará demais e comerá bastante.

– Prometo.

– Então vá para casa agora e almoce.

J. J. Benítez e Júlio Verne: a mesma pessoa?

 J.J. Benítez e Jules Verne

Siempre lo dije. Una de las posibles claves del éxito de mis libros se asienta en la verosimilitud de cuanto escribo. Todo ha sido escrupulosamente verificado de la mano de la ciencia. Ello explica la confianza y, en ocasiones, la extrema e ingenua credulidad de los lectores, que no atinan a distinguir la realidad de la ficción. Y dime, viejo tramposo, ¿puede darse algo más hermoso y romántico?

La gente sueña despierta, olvidando, aunque sólo sea momentánea y temporalmente, sus más inmediatas y prosaicas realidades. ¡Viva Verne, sí, señor! En 1865, a raíz de la publicación en el Journal des Débats de mi novela De la Tierra a la Luna, sucedió algo prodigioso y tierno. Conforme iban apareciendo los capítulos del libro, los ciudadanos fueron volcándose en la acción y en la trama, compartiendo las venturas y desventuras del héroe: Ardan. ¡Cientos de lectores escribieron al periódico solicitando una plaza en el obús que debía viajar a la Luna! ¿Hay algo más sublime? ¡Y para qué vamos a hablar de La vuelta al mundo en ochenta días! ¿Julio Verne un "iluminado"? ¿Cómo pudo prever este loco semejante audacia? Los lectores me preguntan y se hacen cruces, perplejos ante mi "profecía". La verdad, como casi siempre, es mucho más elemental y terrestre. La idea surgió merced a mi pasión por los periódicos. Un buen día leí una noticia que me entusiasmó: ya era posible dar la vuelta al mundo en menos de tres meses. El artículo incluso me proporcionó el itinerario… Fueron suficientes algunos ligeros "retoques" y del anuncio turístico de la agencia Cook brotó una novela.

¿Yo un "iluminado"? No… Yo, Julio Verne, sólo soy un incomprendido, un árbol muerto, un viejo oso acosado por la diabetes, amenazado de ceguera, cojo y definitivamente solo. El 27 de agosto del pasado año, mi querido hermano Paul también me dejaba… Jamás imaginé que le sobreviviría. ¡Ah, Paul, cómo te añoro! Tú fuiste mi consejero, mi guía y mi confidente. ¿En quién descansaré ahora? Tu muerte anuncia la mía. 1897 suma "7"… ¿Serán ésos los años que me restan para emprender contigo y con Anne la última y azul singladura de los cielos? ¿Será 1905 el año de mi desaparición? Estoy listo. Mi equipaje cabe en mi corazón. Fui un hombre que amó… tardíamente. Quizá eso me salve…

Pero partiré de este mundo con una íntima tristeza. Sólo tú, Paul, y Anne lo sabíais. Ahora no hay tiempo para rectificar… Salgo de la vida con decenas de novelas, sí… Muchas de ellas — dicen — admirables… Pero en la obra de Verne falta "alguien" y "algo"… Dos palabras son suficientes para resumir el lamentable "vacío" de estos treinta y cinco años de trabajo:

JESÚS DE NAZARET Y AMOR.

A pesar de mi admiración por Él, no he sido valiente. Mi secreto sueño — escribir sobre el Hijo del Hombre — queda pendiente…

En cuanto al AMOR, sí, con mayúsculas, mi obra queda igualmente vacía.

Y a la sombra de ambas frustraciones, otros pequeños-grandes sueños incumplidos me escoltarán hasta la tumba, la que Roze tiene preparada para mí:

REESCRIBIR LA HISTORIA… ¿Y por qué no?

ESTUDIAR ESAS MISTERIOSAS "LUCES" QUE, DICEN LOS PERIÓDICOS NORTEAMERICANOS, HAN EMPEZADO A SURCAR LOS CIELOS DESDE 1897.

ABRIR LA CONCIENCIA DE LA HUMANIDAD CON LA ESPADA MÁGICA DEL ESOTERISMO, YA APUNTADO SUBTERRÁNEAMENTE EN MIS LIBROS…

Pero muero optimista. De igual forma que yo, Julio Verne, continué la truncada labor de Alan Poe, otro hombre, más audaz y resuelto que yo en el dominio de las cosas aparentemente imposibles, nacerá un día, no muy lejano, y llevará a buen fin lo que este viejo oso, culo de plomo, ha dejado inconcluso…

Y ese hombre seré yo, Julio Verne, de acuerdo con lo que me ha sido revelado. He aquí la revelación, que nace de mi propio epitafio:

VERS L’IMMORTALITÉ ET L’ETERNELLE JEUNESSE

(HACIA LA INMORTALIDAD Y LA ETERNA JUVENTUD)

Mandé construir mi tumba, bajo el espíritu de este epitafio.

En su eslabón está el camino que conduce a la inmortalidad, a través del secreto de la eterna juventud.

Mi nombre envuelve el camino.

Por él fui y, por él, he de volver.

El número de los días que excederán a los millares de los días de mi vida, será el de las centenas de los días de mi muerte.

El número de los días que excederán al de las centenas de los días de mi muerte, será el de los millares de los días de mi vida.

El número de los días de mi vida y el número de los días de mi muerte tendrán, como veréis, el mismo número secreto.

Por mis obras me conocéis, y

por mis obras me reconoceréis.

______

Yo, Julio Verne, de Juan José Benítez.

O trecho acima seria um excerto do diário perdido de Jules Verne – na verdade, uma biografia do autor francês escrita por Benítez na primeira pessoa. Nele, “Verne” anuncia a vinda de um “outro homem”, um outro escritor que faria o que ele deixou de fazer. E acrescenta: “E esse homem serei eu, Júlio Verne, de acordo com o que me foi revelado”. Quem aí tiver saco para fazer todos os cálculos numerológicos citados perceberá que Benítez – autor de vários livros sobre OVNIs e da série Operação Cavalo de Tróia (que trata da vida de Jesus tal como a retrata o Livro de Urântia) – perceberá que Benítez está tentando nos dizer que ele e Jules Verne são a mesma pessoa.

Ah, esses escritores…

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