Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Emanuel Swedenborg: “O mal no homem é o inferno nele”

Emanuel Swedenborg

« Em algumas pessoas há prevalecido a opinião que Deus desvia Sua face do homem, o rejeita de Si e o precipita no inferno, e que Ele Se irrita contra o homem por causa do mal. Outros vão ainda mais longe e crêem que Deus pune o homem e lhe faz mal. Eles se confirmam nessa opinião pelo sentido literal da Palavra, onde se acham semelhantes expressões. Não sabem que o sentido espiritual da Palavra, que explica o sentido da letra, é inteiramente diferente, e que, conseqüentemente, a doutrina genuína da igreja, que vem do sentido espiritual da Palavra, ensina outra coisa, a saber, que Deus nunca desvia Sua face do homem e não o rejeita de Si; nunca lança alguém no inferno e não Se encoleriza. E também o que percebe todo homem cuja mente está na iluminação, quando lê a Palavra, pelo simples fato de que Deus é o Bem mesmo, o Amor mesmo e a Mise­ricórdia mesma; e que o Bem mesmo não pode fazer mal a alguém, e o Amor mesmo e a Misericórdia mesma não podem rejeitar o homem de Si, porque é contra a essência mesma da misericórdia e do amor, e assim, contra o Divino Mesmo. Por isso, aqueles que pensam por uma mente iluminada quando lêem a Palavra, claramente percebem que Deus nunca Se desvia do homem, e que, não Se desviando dele, age com ele segundo o bem, o amor e a misericórdia, isto é, Ele quer seu bem, ama-o e tem compaixão dele. Daí também eles vêem que o sentido da letra da Palavra, no qual se acham tais expressões, encerra em si um sentido espiritual segundo o qual devem ser expli­cadas essas expressões, que foram, no sentido da letra, acomodadas à concepção do homem e pronunciadas segundo as suas idéias pri­meiras e comuns.»

(…)

« Disto resulta que o homem é que é a causa de seu mal e de forma alguma o Senhor. O mal no homem é o inferno nele. Por isso, dizer mal ou inferno, é a mesma coisa. Ora, como o homem é a causa de seu mal, é pois ele próprio que se induz ao inferno e não o Senhor que o induz. O Senhor, em vez de induzir o homem ao inferno, o liberta do inferno tanto quanto o homem não quiser e não desejar estar em seu mal. O todo da vontade e do amor do homem permanece nele depois da morte; aquele que quer e ama um mal no mundo, quer e ama o mesmo mal na outra vida: ele não tolera então que se separe dele. Daí vem que o homem que está no mal está ligado ao inferno e tam­bém está realmente quanto ao seu espírito no inferno; e depois da morte não deseja outra coisa senão estar onde está seu mal. Por isso, é o homem que, depois da morte se precipita no inferno por si mesmo e não o Senhor que o precipita.

« Dir-se-á também como isso se dá. Quando o homem entra na outra vida, ele é primeiramente recebido pelos anjos, que lhe prestam todos os serviços possíveis e que lhe falam do Senhor, do céu, da vida angélica, e o instruem nas verdades e bens. Mas se o homem, então espírito, é tal que no mundo – ele haja de fato rece­bido instruções sobre semelhantes coisas, mas de coração as haja negado ou desprezado, então, depois de algumas conversas com eles, ele deseja e também procura separar-se deles. Ora, quando os an­jos percebem isso, eles o deixam; e ele, depois de algumas ligações com outros, se associa finalmente aos que estão em um mal seme­lhante ao seu. Quando isso se dá, ele se desvia do Senhor e volta sua face para o inferno ao qual ele tinha sido associado quando estivera no mundo, e onde residem os que estão em um se­melhante amor do mal. Tudo isso mostra com evidência que o Se­nhor atrai a Si todo espírito, através de seus anjos e também pelo influxo do céu, mas os espíritos que estão no mal resistem veemen­temente e se desprendem, por assim dizer, do Senhor, e são arras­tados por seu mal como por uma corda, assim pelo inferno; e como são arrastados, e pelo amor do mal querem ser arrastados, é eviden­te que eles se precipitam no inferno por sua livre vontade. Que isso seja assim, ninguém pode crê-lo no mundo, por causa da idéia que se faz do inferno; e mesmo na outra vida, isso só aparece aos olhos daqueles que estão fora do inferno, mas não aos que nele se lançam. Porque eles nele entram por sua livre vontade, e os que entram por um ardente amor do mal aparecem como se se tivessem precipitado com a cabeça para baixo e os pés para cima. E por esta aparência que parece que eles são lançados por uma força Divina. De tudo isso pode-se ver por que o Senhor não precipita pessoa alguma no inferno, mas cada um é que se precipita nele por si próprio, não só enquanto vive no mun­do, como também depois da morte, quando vem entre os espíritos.

« Se o Senhor não pode, por Sua Divina essência, que é o Bem, o Amor e a Misericórdia, agir do mesmo modo com todo ho­mem, é porque os males e por conseguinte os falsos obstam e não só enfraquecem mas até rejeitam Seu influxo Divino. Os males, e por conseguinte os falsos, são como nuvens negras que se interpõem entre o sol e os olhos do homem, e arrebatam o brilho e a serenidade da luz. Persistindo o sol em um contínuo esforço para dissipar as nuvens que fazem obstáculo, porque ele está por trás, opera, e, du­rante esse tempo, ele também envia, por diversas passagens aqui e ali, alguma luz mesclada de sombra aos olhos do homem. No mundo espiritual dá-se o mesmo: lá, o Sol é o Senhor e o Divino amor; a luz é a Divina verdade; as nuvens ne­gras são os falsos do mal; os olhos são o entendimento. Lá, quanto mais alguém está nos falsos do mal, mais há ao redor dele uma tal nuvem, negra e condensada segundo o grau do mal. Por esta com­paração se pode ver que a presença do Senhor é perpétua em cada um, mas é recebida de diversos modos.

« Os maus espíritos são punidos severamente no mundo dos espíritos, para que, pelos castigos, sejam desviados de praticar males. Também parece que eles são punidos pelo Senhor, mas a verdade é que nenhuma coisa da pena vem do Senhor, mas do próprio mal, porque o mal foi de tal modo unido à sua pena que eles não podem ser separados. Pois a turba infernal só deseja e só ama fazer o mal, e principalmente infligir penas e tormentos; por isso ela faz mal e inflige penas a quem quer que não se acha sob a tutela do Senhor. Quando pois um mal é feito de mau coração, como esse mal repele de si toda a tutela do Senhor, os espíritos infernais se precipitam sobre aquele que fez tal mal e o punem. Isto pode ser ilustrado, de algum modo, pelos males e pelas penas dos males no mundo, onde os males e as penas também foram conjuntos, porquanto as leis prescrevem uma pena para cada mal. Por isso, aquele que se precipita no mal, se precipita também na pena do mal. A dife­rença consiste unicamente em que o mal no mundo pode estar oculto, enquanto não o pode na outra vida. Tudo isso mostra que o Senhor não faz mal a pessoa alguma, e que dá-se o mesmo no mundo, onde o rei, o juiz e a lei não são a causa pela qual o réu é punido, porque eles não são a causa do mal do malfeitor

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O Céu (e as suas Maravilhas) e o Inferno (Segundo o que foi Ouvido e Visto), de Emanuel Swedenborg.

Para saber mais sobre Emanuel Swedenborg, leia a conferência escrita por Jorge Luis Borges (com notas de minha autoria). Conheça também o depoimento de Immanuel Kant.

Thomas Wolfe fala sobre a solidão e seu antídoto, o amor

Thomas Wolfe

« Minha vida, mais do que a vida de qualquer pessoa que conheço, foi passada em solidão e peregrinações. Por que isto é verdade, ou como aconteceu, não sei dizer: mas assim é. Desde os meus quinze anos – exceto por um único intervalo –, tenho vivido uma vida tão solitária quanto é possível a um homem moderno. Quero dizer com isso que o número de horas, dias, meses e anos que passei sozinho descrevem a experiência da solidão humana exatamente como eu a conheci.

« A razão que me impele a fazer isto não é que eu considere meu conhecimento da solidão diferente, em qualidade, daquele dos outros homens. Muito pelo contrário. Toda a convicção de minha vida hoje baseia-se na crença de que a solidão, longe de ser um fenômeno raro e curioso, é o fator central e inevitável da existência humana. Quando examinamos os momentos, os atos, as afirmações de todos os tipos de pessoas – não somente a dor e o êxtase dos grandes poetas, mas também a enorme infelicidade da alma mediana, como fica evidente nas inúmeras palavras estridentes de insulto, ódio, desprezo, desconfiança e escárnio que sempre raspam nossos ouvidos quando a multidão de gente passa por nós nas ruas –, descobrimos, creio, que todas estão sofrendo pela mesma coisa. A causa final da queixa delas é a solidão.

« Se minha experiência de solidão não é diferente da de outros homens em qualidade, acho, no entanto, que ela é mais aguda em intensidade. Isto me dá, portanto, a maior autoridade do mundo para falar sobre o tema, sobre nossa queixa geral, pois acredito conhecer mais sobre isso do que qualquer pessoa de minha geração. Ao dizer isto, estou simplesmente afirmando um fato da maneira que o vejo, embora reconheça que pode soar como arrogância ou vaidade. Mas antes que alguém se precipite nessa conclusão, deixe-me considerar como seria estranho encontrar arrogância em alguém que viveu sozinho tanto quanto eu. A cura mais assegurada para a vaidade é a solidão. Pois, mais do que outros homens, nós que vivemos no cerne da solidão somos sempre vítimas do autoquestionamento. Sempre e sempre, em nossa solidão, sentimentos vergonhosos de inferioridade erguem-se de repente para nos esmagar numa torrente de horror, descrença e desolação; para adoecer e corromper nossa saúde e nossa confiança; para contaminar a própria raiz de nossa alegria forte e exultante. O eterno paradoxo disto é que, se um homem deve conhecer o trabalho triunfante da criação, ele é obrigado a resignar-se em longos períodos de solidão, e amargar a solidão que furta dele a saúde, a confiança, a crença e a alegria, que são essenciais ao trabalho criativo.

« Para viver sozinho como tenho vivido, um homem deveria ter a confiança em Deus, a fé tranqüila de um santo monástico, a invencibilidade implacável de Gibraltar. Sem isto, há épocas em que qualquer coisa, tudo, os incidentes mais triviais, as palavras mais casuais conseguem num instante privar-me de minha couraça, enfraquecer minha mão, apertar meu coração num terror gélido, encher minhas entranhas com a substância cinzenta da impotência arrepiante. Às vezes não passa de uma sombra cruzando o sol; às vezes nada é senão a luz tórrida e turva de agosto, ou a feiúra despojada e o decoro sórdido das ruas do Brooklyn, esmaecendo na paisagem enfadonha daquela luz turva, e evocando a miséria insuportável de prostitutas incontáveis e vidas indefiníveis. Às vezes é apenas o horror estéril do concreto cru, ou então o calor chispando nos milhões de carros que passam disparados pelas ruas tórridas, ou ainda os monótonos terrenos de estacionamentos, cobertos de escória de hulha, ou o estrondo violento, a balbúrdia da Ferrovia Elevada, ou a multidão de gente que caminha pela terra, avançando sempre, numa fúria exacerbada, indo apressada para lugar nenhum.

« Pode ainda ser apenas uma frase, um olhar, um gesto. Pode ser a fria e desdenhosa inclinação de cabeça que um almofadinha contido e afetado da Park Avenue dispensa quando lhe apresentam alguém, como se para dizer: “Você é um nada”. Ou pode ser também uma referência sarcástica, um repúdio por parte de um crítico, numa revista semanal da classe alta. Ou ainda uma carta de uma mulher dizendo que estou perdido e arruinado, que meu talento desapareceu, todos os meus esforços são falsos e inúteis – só porque renunciei à verdade, à visão de mundo e à realidade que tão maravilhosamente pertencem a ela.

« E às vezes é menos que tudo isso – nada que eu possa ver, tocar, escutar ou definitivamente recordar. Pode ser tão vago quanto uma espécie de horrenda atmosfera da alma, sutilmente composta de toda a fome e fúria, de todo o desejo impossível que minha vida já experimentou. Pode, também, ser uma lembrança meio esquecida do vermelho frio e pálido das tardes de domingo de inverno em Cambridge; e de um rosto lívido, estético e sensível, que despertou minha atenção por seu discurso sincero naquela mesma tarde de domingo em Cambridge, dizendo-me que todas as minhas esperanças da juventude eram ilusões lamentáveis, e que minha vida inteira resultaria em nada, enquanto o vermelho da luz pálida de março refletia-se no rosto lívido com uma impotência desoladora, extinguindo instantaneamente de meu sangue todas as paixões da juventude.

« Sob a evocação dessas luzes e dessas atmosferas, dessas palavras frias e desdenhosas, dessa gente cheia de escárnio e afetação, toda a música e alegria do dia esvai-se como uma vela apagada, a esperança me parece perdida para sempre, e toda a verdade que eu já tenha descoberto e conhecido parece-me falsa. Num momento como esse o homem solitário sente que toda a evidência de seus próprios sentidos o traiu, e que nada vive ou se move na terra a não ser criaturas da morte-em-vida – aquelas de corações frios e apertados, de rins doentios, que para sempre existem no vermelho pálido da luz de março e das tardes de domingo.»

(…)

« Então de repente, um dia, por nenhuma razão aparente, sua fé e sua confiança na vida renascem numa maré enchente. Despertam nele com uma força jubilante e invencível, escancarando uma janela na vasta parede do mundo, restaurando tudo em formas de um brilho imortal. Miraculosamente restabelecido e seguro de si mesmo, ele se lança de novo na lida triunfante da criação. Toda a sua velha força lhe pertence de novo: ele sabe o que sabe, ele é o que é, ele encontrou o que encontrou. Vai dizer a verdade que está dentro dele, vai dizê-la nem que o mundo inteiro a negue, afirmá-la nem que um milhão de homens gritem que ela é falsa.

« Num tal momento de triunfante confiança, com este sentimento dentro de mim, ouso agora afirmar que conheço a solidão tão bem quanto qualquer homem, e escreverei agora sobre ela como se ela fosse minha própria irmã, que é. Vou retratá-la para você com tanta fidelidade à sua imagem verdadeira que ninguém que leia isso duvidará de sua fisionomia quando a solidão doravante lhe aparecer.

« A mais trágica, sublime e bela expressão da solidão humana que jamais conheci é aquela que li no Livro de Jó; e a maior e mais filosófica é o Eclesiastes. Devo aqui destacar um fato que diverge tanto de tudo o que me ensinaram a respeito da solidão quando eu era criança, a respeito da tessitura trágica da vida, que quando o descobri fiquei perplexo e incrédulo, duvidando do peso opressor da evidência que se revelava a mim. Mas lá estava ele, tão sólido quanto uma rocha, para não ser removido ou negado; com o passar dos anos, a verdade desta descoberta tornou-se parte da estrutura de minha vida.

« O fato é este: o homem solitário, que é também o homem trágico, é invariavelmente o homem que mais ama a vida – ou seja, é o homem feliz. Nessas declarações não há paradoxo algum. Uma condição implica na outra, e a torna necessária. A essência da tragédia humana está na solidão, não no conflito, quaisquer que sejam os argumentos sustentados pelo teatro. Da mesma forma que o grande escritor trágico (digo “escritor trágico” para distinguir de “escritor de tragédias”, pois certas nações, a romana e a francesa entre elas, não tiveram grandes escritores trágicos; pois Virgílio e Racine não foram senão grandes escritores de tragédia), da mesma forma que o grande escritor trágico – Jó, Sófocles, Dante, Milton, Swift, Dostoiévski – sempre foi o homem solitário, assim também ele foi o homem que mais amou a vida e que teve o mais profundo senso de felicidade. A verdadeira qualidade e substância da felicidade humana encontra-se nos trabalhos desses grandes escritores trágicos como em nenhum outro lugar, em nenhum outro registro da vida do homem sobre a terra. Como prova disso, posso dar aqui uma ilustração conclusiva:

Atualizações semanais no Twitter em 2010-09-13

  • "Buen día, América del Sur" (Facundo Cabral) http://bit.ly/bEXXBz #
  • Muito sintomática a reação do entrevistador à declaração de Henri Falcón, qdo este diz admirar o "socialismo de Lula" http://bit.ly/cO4KJY #
  • O caso Watergate foi um caso de espionagem bem mais humilde que esse da Receita Federal. E custou o mandato de Nixon. Já no Brasil-sil-sil!! #
  • O brasileiro médio parece o escritor do filme "Livro de Cabeceira", aquele que dá o fiofó para o editor em troca da publicação do seu livro. #
  • Se vc se interessa por eBooks e eReaders (i.e., se vc gosta de ler), eis uma comparação entre os formatos PDF e EPUB: http://bit.ly/cu51FW #
  • Deve ser divertido ler as cartas de Dom Pedro I à sua amante, a Marquesa de Santos, nas quais ele assina "O Demonão" ou "Fogo Foguinho"… #
  • O PT diz que o PIBão é natural, mas é puro silicone. http://bit.ly/cpfKUg #
  • Esse vídeo é real? É de fato Ingrid Betancourt sendo estuprada pelas FARC? Ou é uma encenação? 8^o http://bit.ly/c3O3Jw #
  • eReaders – aprovados p/ leitura pessoal, mas não p/ o estudo de livros didáticos: http://bit.ly/8XkgQ7 (via @patylouzada e @JulietaLionetti) #
  • Carácoles!, os últimos tweets da @Cleycianne são o fim da picada. Ou o começo. B^) #
  • Eu mal termino de correr e já me dá uma vontade de tomar um chope. E isso antes das 7 da manhã! Carajo, ¡estoy fregado!! #
  • "Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta
    Lábaro não; a minha pátria é desolação De caminhos" http://bit.ly/aUbRXl #
  • Declamação do poema "Pátria Minha" de Vinicius de Moraes, no Documentário de Miguel Faria Jr. http://bit.ly/bmjz93 #
  • Support Sou brasileiro, add a #twibbon to your avatar now! – http://bit.ly/1861JB #
  • "Qdo se grava nas bandeiras o lema humanidade,isso significa ñ só excluir o inimigo da sociedade,ms tbm privá-lo de tds os direitos humanos" #
  • A citação anterior http://bit.ly/96ZzSp é do escritor Ernst Jünger. #
  • Vc caminha alguns quarteirões até a padaria e não vê nenhuma bandeira do Brasil: claro, não há jogo hoje. Por que haveria bandeiras? #
  • "Passione – Segredo de Gerson (a versão que foi censurada)" http://bit.ly/c7CbDm #
  • Entrevista de Antony Sutton a Stanley Monteith, 1980: “Wall Street e a ascensão de Hitler” http://bit.ly/drPhfy #
  • "Thomas Sowell on the people 'who drove the car into the ditch'." http://bit.ly/ca9sbC #
  • Readability – uma maneira de acabar com a poluição visual que prejudica nossa leitura na internet: http://bit.ly/auuR4F (via @rafael_salvi) #
  • Vc volta das férias de verão e descobre que o professor Vincent agora é a professora Martine… Esses franceses… B^) http://bit.ly/cPrm7b #
  • ETA nóis. Parece um programa de TV dos bate-bolas do umbral, dos farricocos do mal ou coisa assim.Très bizarre. http://bit.ly/9ppX7D #
  • Tal como Sakineh, outras 7 mulheres e 3 homens aguardam apedrejamento no Irã. (Le Figaro) http://bit.ly/c89VCB #
  • A última entrevista de François Truffaut: http://nyr.kr/da08pQ (The New Yorker) #cinema #
  • "Fecha os olhos e me dá a mão." Ela obedece. "O que é isso?", digo. Ela: "Um rinoceronte?" "Não, é a pele do meu cotovelo.Viu como tá seco?" #
  • Adotar uma ortografia pessoal? Gosto muito da idéia (sim, com acento) portuguesa de diferenciar "amamos" (presente) de "amámos" (passado). #
  • Queimar bandeira do PT é atentar contra a liberdade religiosa? Matutando aqui… #
  • O bom de ser seu próprio editor é q ninguém "corrige" seu texto p/ a NOI(Nova Ortografia Idiota).O ruim é q vc fica sem um Superego externo. #
  • Sabe qdo vc compra um pacífico sítio e, anos depois, lançam um loteamento ao lado criando uma multidão de vizinhos? Facebook em 2007 e hoje. #
  • Já usei Twhirl, TwitterFox, DestroyTwitter, TweetDeck e Chromed Bird. Desisti.Eu me sentia aquelas telefonistas cheias de fios e plugues… #
  • Olha com o que você se parece ao usar programas de acesso ao Twitter: http://j.mp/aijOwp Você fica na neurose de atender a tudo e a todos. #
  • Não acho nada estranho encontrar pessoas inteligentes que não crêem em Deus. É o Zeitgeist. Estranho é quando, ao mesmo tempo, crêem no Lula #
  • "O que o autor espera do agente literário?" (Marisa Moura) http://bit.ly/cl9lXF #
  • "Um em cada cinco brasileiros é analfabeto funcional, diz IBGE" http://bbc.in/amBY8q (Cadê a novidade?) #
  • Toda vez que leio essas notícias de analfabetismo no Brasil, me lembro do conselho da Hilda Hilst para novos autores: "Escrevam em inglês!" #
  • Hoje é aniversário de Tolstói. Aproveite e leia um trecho de "A Morte de Ivan Ilitch": http://j.mp/dqoYX9 #
  • "Lula não leva em conta a idéia de que a democracia é o governo da lei e não o governo dos homens." http://j.mp/9STHLF #
  • Ouça Tolstói (aniversariante de hoje) lendo um de seus textos: http://j.mp/azJTx2 (Alguém fala russo?) B^/ #
  • Mikhail Bulgakov narra o diálogo,em plena URSS, entre o Diabo e 2 escritores ateus e comunistas s/ a existência de Deus http://bit.ly/97VggB #
  • Sempre que minha namorada entra em semana de provas, cai sobre nós o Feitiço de Áquila… B^/ #
  • Acabo de saber, pela @revistabula, que hoje é o lançamento de uma coletânea da qual participo: em Goiânia, na rua 23, Centro, às 20h. #
  • "Desde quando apoio popular é evidência de que o líder está certo, não é mesmo, Hitler? Não é mesmo, Mussolini?" http://j.mp/9QsbZs #
  • Interessante como o diretor Terry Gilliam previu até mesmo o tratamento estético da Dilma em seu filme "Brazil": http://j.mp/9eZkoB #
  • "Calou-se a voz da consciência q, na solidão da sua alma, lhe trazia a lembrança amarga de seus delitos e de seus vícios" http://j.mp/bBHtpS #
  • A 1ra cena do trailer de "Brazil", filme de Terry Gilliam s/ o totalitarismo, mostra os bisbilhoteiros da Receita Federal http://j.mp/cQJ3ew #
  • "A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau" está no Google Livros: http://j.mp/c7hIap #
  • "A Bacante da Boca do Lixo" está no Google Livros: http://j.mp/9JxFGP #
  • Essa acusação de plágio feita ao escritor Michel Houellebecq é completamente ridícula. http://j.mp/ctPmRc #literatura #livros #
  • «Livrai-me, Senhor, dos abestados e dos atoleimados.» Hilda Hilst ( A Obscena Senhora D) #
  • A incrível seqüência de escândalos do PT deve ter método: cada qual faz o cidadão se esquecer do anterior http://bit.ly/cnJFzK #
  • Qdo eu finalmente estava me acostumando a chamar Lao Tsé de Lao Tzu, descubro que agora é Lao Zi. Que virá em seguida? http://bit.ly/cl5Bcr #
  • Olha só por que o tal pastor "desistiu" de queimar o textículo do Mafamede… http://bit.ly/9qPgVt #
  • Dirigir à noite, numa estrada deserta, pode ser muito, muuuuito perigoso… http://bit.ly/ddBvIi #
  • Michael Moore's Utopian Nightmare: "Capitalism: A Love Story" – http://bit.ly/d74HxE #
  • E a @Racheldoesstuff (lembra dela? http://bit.ly/d10XSp ) acabou se encontrando mesmo com Ray Bradbury!!! http://fb.me/xf2SoYZx B^) #
  • “How do you decide which book to write? (…) I also stopped trying to write movies. I went to books." http://bit.ly/9zsdN6 #

Lao Tsé e o governo (citado por Octavio Paz)

Lao Tsé

« Tzu Kung, discípulo de Confúcio, disse a Lao-Tsé: “Dizes que não deve haver governo. Mas, se não há governo, ¿como se purificará o coração dos homens?”. O mestre respondeu: “O único que não devemos fazer é intrometermo-nos com o coração dos homens. O homem é como uma fonte de água; se a tocas, se turva; se pretendes imobilizá-la, seu jorro irá mais alto… Pode ser tão ardente como o fogo mais ardente; tão frio, como o próprio gelo. Tão rápido que, num piscar de olhos, pode dar a volta ao mundo; em repouso, é como o leito de um tanque; ativo, é poderoso como o céu. Um cavalo selvagem que ninguém doma: isso é o homem”.»

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Citado por Octavio Paz, no livro Chuang-Tzu. (A traição tradução é minha.)

Marcel Proust fala sobre a leitura

Marcel Proust

« Para nós, que pretendemos discuti-la aqui, em si mesma, sem nos ocupar de suas origens históricas, a tese de Ruskin pode ser resumida de modo bastante exato por estas palavras de Descartes, quando diz que “a leitura de todos os bons livros é como uma conversação com as pessoas mais honestas dos séculos passados e que foram seus autores”. Provavelmente Ruskin não tenha conhecido esse pensamento, aliás um pouco seco, do filósofo francês, mas é ele, na realidade, que encontramos em toda a sua conferência, apenas envolvido num ouro apolíneo no qual se dissipam as brumas inglesas, e semelhante àquele cuja glória ilumina as paisagens de seu pintor preferido. “Supondo, diz ele, que tenhamos a vontade e a inteligência de escolher bem nossos amigos, quão poucos entre nós têm o poder para fazê-lo e quanto é limitada a esfera de nossa escolha. Não podemos conhecer quem queremos… Podemos, com muita sorte, entrever um grande poeta e escutar o som de sua voz, ou fazer uma pergunta a um homem de ciência que nos responderá amavelmente. Podemos usurpar dez minutos de entrevista no gabinete de um ministro, ter uma vez na vida o privilégio de deter o olhar de uma rainha. Contudo, esses acasos fugitivos, nós os cobiçamos, dispendemos nossos anos, nossas paixões e nossas faculdades perseguindo um pouco menos que isso, enquanto, durante esse tempo, há uma sociedade que nos é sempre aberta, pessoas que nos falariam o quanto quiséssemos, seja qual for a nossa posição. Esta sociedade, porque ela é tão numerosa e tão dócil e que podemos fazê-la esperar perto de nós durante um dia inteiro — reis e homens de Estado esperam pacientemente não para dar uma audiência, mas para consegui-la — não iremos jamais procurá-la nestas antecâmaras mobiliadas de modo simples que são as prateleiras de nossas bibliotecas, não escutamos jamais uma só palavra do que teriam a nos dizer.” “Vocês me dirão talvez, continua Ruskin, que se vocês preferem conversar com os vivos é porque vocês vêem os seus rostos, etc.”, e refutando esta primeira objeção, depois uma segunda, mostra que a leitura é exatamente uma conversação com homens muito mais sábios e mais interessantes que aqueles que podemos ter a chance de conhecer à nossa volta. Procurei mostrar nas notas que se seguem a este volume que a leitura não poderia ser assimilada a uma conversação, mesmo com o mais sábio dos homens; que a diferença essencial entre um livro e um amigo, não é a sua maior ou menor sabedoria, mas a maneira pela qual a gente se comunica com eles, a leitura, ao contrário da conversação, consistindo para cada um de nós em receber a comunicação de um outro pensamento, mas permanecendo sozinho, isto é, continuando a desfrutar do poder intelectual que se tem na solidão e que a conversação dissipa imediatamente, continuando a poder ser inspirado, a permanecer em pleno trabalho fecundo do espírito sobre si mesmo.»

(…)

« E nisto reside, com efeito, um dos grandes e maravilhosos caracteres dos belos livros (que nos fará compreender o papel, ao mesmo tempo essencial e limitado que a leitura pode desempenhar na nossa vida espiritual) que para o autor poderiam chamar-se “Conclusões” e para o leitor “Incitações”. Sentimos muito bem que nossa sabedoria começa onde a do autor termina, e gostaríamos que ele nos desse respostas, quando tudo o que ele pode fazer é dar-nos desejos. Estes desejos, ele não pode despertar em nós senão fazendo-nos contemplar a beleza suprema à qual o último esforço de sua arte lhe permitiu chegar. Mas por uma lei singular e, aliás, providencial da ótica dos espíritos (lei que talvez signifique que não podemos receber a verdade de ninguém e que devemos criá-la nós mesmos), o que é o fim de sua sabedoria não nos aparece senão como começo da nossa, de sorte que é no momento em que eles nos disseram tudo que podiam nos dizer que fazem nascer em nós o sentimento de que ainda nada nos disseram. Aliás, se lhes fizermos perguntas, às quais não podem responder, também pedimos-lhes repostas que não nos instruirão em nada. Porque é um efeito do amor que os poetas consigam fazer com que demos uma importância literal a coisas que não são para eles mais do que significativas de emoções pessoais. Em cada quadro que nos mostram, parecem dar-nos apenas uma ligeira impressão de uma paisagem maravilhosa, diferente do resto do mundo e no coração da qual gostaríamos que eles nos fizessem penetrar.»

(…)

« Este é o preço da leitura e esta é a sua insuficiência. É dar um papel muito grande ao que não é mais que uma iniciação para uma disciplina. A leitura está no limiar da vida espiritual; ela pode nela nos introduzir, mas não a constitui.

« Há, contudo, certos casos patológicos, por assim dizer, de depressão espiritual para os quais a leitura pode tornar-se uma espécie de disciplina curativa e se encarregar, por incitações repetidas, de reintroduzir perpetuamente um espírito preguiçoso na vida do espírito. Os livros desempenham então um papel análogo ao dos psicoterapeutas para certos neurastênicos.

« Sabe-se que, em certas afecções do sistema nervoso, o doente, sem que tenha nenhum de seus órgãos atingidos, é mergulhado numa espécie de impossibilidade de querer, como numa rotina profunda da qual não pode escapar sozinho e na qual acabará por perecer se uma mão poderosa e segura não lhe for estendida. Seu cérebro, suas pernas, seus pulmões, seu estômago continuam intactos. Não têm nenhuma incapacidade real de trabalhar, de andar, de expor-se ao frio, de comer. Mas estes diferentes atos, que ele seria absolutamente capaz de realizar, ele é incapaz de querer realizá-los. E uma degradação orgânica, que terminaria por tornar-se equivalente a uma doença que ele não tem, seria a conseqüência irremediável da inércia de sua vontade, se o estímulo que ele não pode encontrar em si mesmo não lhe viesse de fora, de um médico que queira por ele, até o dia em que sejam pouco a pouco reeducadas suas diversas vontades orgânicas. Ora, existem certos espíritos que poderiam ser comparados a esses doentes e que uma espécie de preguiça ou de frivolidade impedem de descer espontaneamente às regiões mais profundas de si mesmos onde começa a verdadeira vida do espírito. Não basta que sejam conduzidos uma vez para que sejam capazes de descobrir e de explorar as verdadeiras riquezas, que lá subjazem, mas, sem essa intervenção estrangeira, eles vivem na superfície num perpétuo esquecimento de si mesmos, numa espécie de passividade que os torna o brinquedo de todos os prazeres, os diminui até o tamanho dos que os cercam e os agitam, e, semelhantes a este cavalheiro que, convivendo desde a sua infância com salteadores de estrada, não se lembrava mais de seu nome, por ter há muito cessado de utilizá-lo, eles terminariam por abolir em si próprios todo sentimento e toda lembrança de sua nobreza espiritual, se um estímulo exterior não viesse, de alguma forma, reintroduzir força na vida do espírito, no qual subitamente reencontram o poder de pensar por si mesmos e de criar. Ora, este estímulo que o espírito preguiçoso não pode encontrar em si próprio e que deve vir de outrem, é claro que deve recebê-lo no seio da solidão fora da qual, como vimos, não se pode produzir esta atividade criativa que é preciso ressuscitar. Da pura solidão o espírito preguiçoso não pode tirar nada, pois é incapaz de, sozinho, pôr em movimento sua atividade criativa. Mas a mais elevada conversação, os conselhos mais profundos também de nada serviriam, já que essa atividade original, eles não a podem produzir diretamente. O que é preciso, portanto, é uma intervenção que, vinda de um outro, se produza no fundo de nós mesmos, é o estímulo de um outro espírito, mas recebido no seio da solidão. Ora, vimos que essa era precisamente a definição de leitura e que não era conveniente senão à leitura. A única disciplina que pode exercer uma influência favorável sobre estes espíritos é, portanto, a leitura: como queríamos demonstrar, à maneira do que dizem os geômetras. Mas ainda aqui a leitura não age senão sob a forma de um estímulo que não pode de modo algum substituir-se à nossa atividade pessoal; ela se contenta em nos devolver o seu uso como nas afecções nervosas às quais aludimos há pouco, o psicoterapeuta não faz mais que restituir ao doente a vontade de se servir de seu estômago, de suas pernas, de seu cérebro, que permaneceram intactos. Aliás, seja porque todos os espíritos participam mais ou menos dessa preguiça, dessa estagnação nos níveis mais baixos, seja porque, sem que lhe seja necessária, a exaltação que acompanha certas leituras tem uma influência propícia sobre o trabalho pessoal, cita-se mais de um escritor que amava ler uma bela página antes de se pôr a trabalhar. Emerson raramente começava a escrever sem reler algumas páginas de Platão. E Dante não é o único poeta que Virgílio conduziu às portas do Paraíso.

« Na medida em que a leitura é para nós a iniciadora cujas chaves mágicas abrem no fundo de nós mesmos a porta das moradas onde não saberíamos penetrar, seu papel na nossa vida é salutar. Torna-se perigosa, ao contrário, quando, em lugar de nos despertar para a vida pessoal do espírito, a leitura tende a substituir-se a ela, quando a verdade não aparece mais como um ideal que não podemos realizar senão pelo progresso íntimo de nosso pensamento e pelo esforço do nosso coração, mas como uma coisa material, depositada entre as folhas dos livros como um mel todo preparado pelos outros e que não temos senão de fazer o pequeno esforço para pegar nas prateleiras das bibliotecas e, em seguida, degustar passivamente num repouso perfeito do corpo e do espírito.»

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Sobre a Leitura, de Marcel Proust (trad. de Carlos Vogt).

Carl Sagan e o contato com civilizações extraterrestres

Carl Sagan

« Um motivo padrão na ficção científica e na literatura de UFOs assume serem os extraterrestres tão capazes como nós. Talvez tenham um tipo diferente de espaçonave ou raios, mas em uma batalha — e a ficção científica adora descrever batalhas entre civilizações — nós e eles competimos igualmente. Na verdade, não há quase chance de duas civilizações galácticas interagirem no mesmo nível. Em qualquer confronto, uma quase sempre dominará inteiramente a outra. Um milhão de anos é muita coisa. Se uma civilização avançada estiver para chegar em nosso sistema solar, não haverá nada que possamos fazer a respeito. Sua ciência e tecnologia estarão muito além de nós. É perda de tempo preocuparmo-nos com as possíveis intenções malévolas de uma civilização avançada com a qual deveremos estabelecer contato. É mais provável que, se sobreviveram tanto tempo, isto signifique que tenham aprendido a viver com eles mesmos e com os outros. Talvez nossos receios sobre um contato extraterrestre sejam meramente uma projeção de nosso próprio passado, uma expressão da nossa consciência culpada pela nossa história anterior, a destruição de civilizações só um pouco mais atrasadas do que a nossa. Lembramos Colombo e os Arawaks, Cortés e os Astecas, mesmo o destino dos Tlingits nas gerações pós-La Pérouse. Lembramo-nos e preocupamo-nos. Mas se uma armada interestelar aparecer em nossos céus, prevejo que seremos muito obsequiosos.

« É muito mais provável um tipo bem diferente de contato — o caso que já discutimos, no qual recebemos uma mensagem complexa e rica, provavelmente pelo rádio, de outra civilização no espaço, mas não estabelecemos, pelo menos por um tempo, um contato físico com ela. Neste caso não há como a civilização transmissora saber se recebemos a mensagem. Se acharmos o conteúdo ofensivo ou assustador, não seremos obrigados a responder. Mas se a mensagem contiver uma informação valiosa, as conseqüências para a nossa própria civilização serão espantosas — visões de ciência, tecnologia, arte, música, política, ética, filosofia e religião alienígenas, e acima de tudo, uma profunda desprovincialização da condição humana. Saberemos o que mais é possível.»

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Cosmos, de Carl Sagan.

 

E se o contato já tiver ocorrido? E se foi utilizado um meio mais eficaz que o rádio? E se a mensagem já estiver na internet?

Hehehe…

O Mestre e Margarida: Mikhail Bulgakov narra o diálogo, em plena União Soviética, entre o Diabo e dois escritores comunistas sobre a existência de Deus

Mikhail Bulgakov

Por Mikhail Bulgakov.

Essa conversa, como depois se soube, era sobre Jesus Cristo. O editor tinha encomendado ao poeta um longo poema anti-religioso para o próximo número da revista. Ivan Nikolaevitch tinha composto o poema, e até com muita rapidez, mas infelizmente o editor não tinha ficado nada satisfeito com ele. Bezdomni pintara a principal personagem do seu poema, ou seja, Jesus, com cores muito sombrias, e, no entanto, na opinião do redator, era preciso reescrever todo o poema. E agora o redator fazia ao poeta uma espécie de conferência sobre Jesus, a fim de sublinhar o erro fundamental do poeta.

Era difícil dizer o que é que precisamente traíra o poeta: se o poder imaginativo do seu talento ou o completo desconhecimento do assunto sobre o qual escrevia. Mas o Jesus que ele retratara era, digamos, como que uma personagem viva, embora não muito atraente. E Berlioz queria provar ao poeta que o mais importante não era como tinha sido Jesus, mau ou bom, mas que esse Jesus, como indivíduo, nunca existira e que todas as histórias sobre ele eram pura invenção, o mais vulgar dos mitos.

Devemos assinalar que o redator era um homem de muitas leituras e citava habilidosamente no seu discurso os historiadores antigos, por exemplo o célebre Fílon de Alexandria, o brilhante erudito Flávio Josefo, que nunca disseram nem uma palavra acerca da existência de Jesus. Mostrando uma sólida erudição, Mikhail Alexandrovitch informou o poeta, entre outras coisas, de que a passagem do Livro Quinze, no Capítulo 44 dos famosos Anais de Tácito, onde se fala de Jesus, não é mais que uma interpolação posterior e falsa.

O poeta, para quem tudo aquilo que o redator dizia era novidade, escutava atentamente Mikhail Alexandrovitch, fixando nele os seus olhos verdes, vivos e desenvoltos, e só de vez em quando soluçava, amaldiçoando em voz baixa o refresco de alperce.

– Não há uma única religião oriental – dizia Berlioz – em que, como regra, uma virgem imaculada não dê à luz um deus. E os cristãos, sem inventarem nada de novo, criaram do mesmo modo o seu Jesus, o qual de fato nunca existiu. E é isto que deve ser principalmente realçado…

A forte voz de tenor de Berlioz ecoava na alameda deserta, e, à medida que Mikhail Alexandrovitch penetrava em labirintos onde só um homem muito culto se pode aventurar sem correr o risco de quebrar a face, o poeta aprendia cada vez mais coisas interessantes e úteis sobre o Osíris egípcio, o deus benfazejo, filho do Céu e da Terra, sobre o deus fenício Tamuz, sobre Marduque, e até sobre o menos conhecido e terrível deus Huitzilopochtli, outrora profundamente venerado pelos astecas no México.

E no preciso momento em que Mikhail Alexandrovitch contava ao poeta como os astecas moldavam em massa de pão a figura de Huitzilopochtli, apareceu na alameda o primeiro transeunte.

Posteriormente, quando, para falar verdade, era já demasiado tarde, várias instituições apresentaram relatórios com a descrição desse homem. A comparação entre esses relatórios não pode deixar de causar estupefação. Assim, no primeiro diz-se que ele era de baixa estatura, tinha dentes de ouro e coxeava da perna direita. No segundo, esse homem era de estatura enorme, tinha coroas de platina e coxeava da perna esquerda. O terceiro relatório informa laconicamente que o homem não tinha quaisquer sinais particulares.

Devemos reconhecer que nenhum desses relatórios tem qualquer utilidade.

Antes de mais, o homem descrito não coxeava de nenhuma das pernas e não era de estatura baixa nem demasiado alta, mas simplesmente alto. Quanto aos dentes, do lado esquerdo tinha coroas de platina e de ouro no lado direito. Vestia um traje caro cinzento, e usava sapatos estrangeiros da mesma cor. O boné cinzento caía-lhe ousadamente sobre a orelha e debaixo do braço trazia uma bengala com castão preto em forma de cabeça de cão-d’água. Aparentava ter pouco mais de quarenta anos, tinha a boca um pouco torcida e estava muito bem barbeado. Era moreno. O olho direito era negro e o esquerdo, não se sabe por quê, era verde. As sobrancelhas eram negras, mas uma mais alta que a outra. Em suma, um estrangeiro.

Ao passar junto do banco onde estavam sentados o editor e o poeta, o estrangeiro olhou-os de soslaio, parou e, subitamente, sentou-se no banco próximo, a dois passos dos amigos.

“Alemão”, pensou Berlioz. “Inglês”, pensou Bezdomni. “E de luvas, com este calor.”

O estrangeiro percorreu com o olhar os altos edifícios que formavam um quadrado em volta do lago, e era evidente que via aquele lugar pela primeira vez e que ele lhe interessava.

Deteve o olhar nos andares superiores cujos vidros refletiam ofuscantemente o sol fragmentado que abandonava Mikhail Alexandrovitch para sempre, depois baixou-o para onde as vidraças começavam a escurecer com a noite, sorriu com ar superior, semicerrou os olhos, colocou as mãos sobre o castão da bengala e apoiou o queixo nas mãos.

– Tu, Ivan – disse Berlioz -, descreveste muito bem e em tom satírico, por exemplo, o nascimento de Jesus, filho de Deus, mas a questão está em que, antes de Jesus, nasceu toda uma série de filhos de deuses como, por exemplo, o Átis frígio. Em suma, nenhum deles nasceu e nenhum deles existiu, incluindo o próprio Jesus. E é preciso que tu, em vez do nascimento ou, digamos, da chegada dos Reis Magos, descrevas os boatos absurdos sobre esse nascimento… Ora do teu relato resulta que ele realmente nasceu!…

Então Bezdomni fez uma tentativa para acabar com os soluços, sustendo a respiração, o que o fez soluçar mais dolorosamente e mais alto, e, nesse mesmo instante, Berlioz interrompeu o seu discurso, porque de súbito o estrangeiro levantou-se e encaminhou-se para os escritores. Estes olharam-no atônitos.

– Desculpem, por favor – disse o homem, com sotaque estrangeiro mas sem deformar as palavras -, se, não vos conhecendo, tomo a liberdade… mas o tema da vossa erudita conversa é tão interessante que…

Tirou polidamente o boné, e os dois amigos não tiveram outro remédio senão levantarem-se e cumprimentá-lo.

“Não, deve ser francês … “, pensou Berlioz. “Polaco? … “, pensou Bezdomni. Deve-se acrescentar que desde as primeiras palavras o estrangeiro suscitou no poeta uma impressão de repulsa, enquanto Berlioz gostou dele, ou antes, não é que tenha gostado dele, mas… como dizer.. despertou-lhe interesse, digamos.

– Permitem que me sente? – pediu com polidez o estrangeiro, e, involuntariamente, os amigos afastaram-se, o estrangeiro sentou-se entre eles e entrou de imediato na conversa. – Se bem ouvi, o senhor dizia que Jesus nunca existiu? – perguntou o estrangeiro, voltando para Berlioz o seu olho esquerdo, verde.

– Sim, ouviu bem – respondeu cortesmente Berlioz. – Foi precisamente isso que eu disse.

– Ai, que interessante – exclamou o estrangeiro. “Mas que diabo quer ele?”, pensou Bezdomni, franzindo as sobrancelhas.

– E o senhor concordou com o seu interlocutor? – inquiriu o desconhecido, voltando-se para a direita, para Bezdomni.

– Cem por cento! – confirmou este, que gostava de expressões rebuscadas e alegóricas.

– Admirável! – exclamou o interlocutor e, lançando olhadelas furtivas e baixando ainda mais a voz, disse: – Desculpem-me a impertinência, mas, ao que percebi, os senhores, para além do mais, também não acreditam em Deus? – Teve um olhar de espanto e acrescentou: – Juro que não digo a ninguém.

– É verdade, não acreditamos em Deus – respondeu Berlioz, sorrindo levemente do receio do turista estrangeiro -, mas podemos falar disso com toda a liberdade.

O estrangeiro recostou-se no banco e perguntou, numa voz meio esganiçada de curiosidade:

– Os senhores são ateus?

– Sim, somos ateus – respondeu Berlioz, e Bezdomni pensou irritado: “Está grudado, este pato estrangeiro!”.

– Oh, que coisa fascinante! – exclamou o atônito estrangeiro, e virava a cabeça olhando ora para um, ora para outro dos literatos.

– No nosso país, o ateísmo não surpreende ninguém – disse Berlioz diplomaticamente. – A maioria da nossa população deixou, conscientemente e há muito tempo, de acreditar em histórias sobre Deus.

Então o estrangeiro saiu-se com esta: pôs-se de pé e apertou a mão do assombrado editor, enquanto dizia estas palavras:

– Permita que lhe agradeça de todo o coração!

– Por que é que lhe agradece? – interrogou Bezdomni pestanejando.

– Por uma informação muito importante que, para mim, como viajante, é muito interessante – explicou o estrangeiro excêntrico, erguendo um dedo significativamente.

Pelo visto, a importante informação produzira de fato uma forte impressão no viajante, porque ele relanceou os olhos assustados pelos edifícios, como se receasse ver um ateu em cada janela.

“Não, não é inglês … “, pensou Berlioz, enquanto Bezdomni pensava: “Interessante, onde terá ele aprendido a falar assim russo!”, e de novo franziu as sobrancelhas.

– Mas permita que lhe pergunte – tornou o visitante estrangeiro depois de refletir ansiosamente. – E as provas da existência de Deus, as quais, como se sabe, são exatamente cinco?

– Infelizmente! – respondeu Berlioz com pesar -, nenhuma dessas provas vale nada, e a humanidade já as mandou há muito para o arquivo. Pois há-de concordar que no domínio da razão não pode haver nenhuma prova da existência de Deus.

– Bravo! – exclamou o estrangeiro. – Bravo! O senhor repete interiormente o pensamento do velho irrequieto Immanuel sobre esse assunto. E coisa curiosa: ele demoliu completamente as cinco provas, e depois, como que troçando de si mesmo, construiu a sua própria sexta prova!

– A prova de Kant – ripostou o culto editor com um leve sorriso – também não é convincente. E não era em vão que Schiller dizia que as considerações de Kant sobre esta questão só podem satisfazer os escravos, e Strauss limitou-se a rir dessa prova.

Enquanto falava, Berlioz ia pensando: “Mas afinal, quem será ele? E por que é que fala tão bem russo?”.

– Esse tal Kant, havia que agarrá-lo e mandá-lo para Solovki, por essas provas! – lançou inesperadamente Ivan Nikolaevitch.

– Ivan! – murmurou Berlioz, embaraçado. Mas a proposta de enviar Kant para Solovki não só não impressionou o estrangeiro como o deixou encantado.

– Exatamente, exatamente! – exclamou ele e o seu olho esquerdo, verde, voltado para Berlioz, cintilou. – Lá é que é o lugar dele! Pois na época eu lhe disse, ao pequeno-almoço: “Desculpe, professor, mas o senhor inventou uma coisa que não faz sentido! É talvez inteligente, mas demasiado incompreensível. Vão fazer troça de si”.

Berlioz arregalou os olhos. “Ao pequeno-almoço?… A Kant?… Que está ele aí a inventar?”, pensou.

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