Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Thomas Mann: o artista, a beleza e o abismo

Thomas Mann

« Lá estava sentado o mestre, o artista honrado, o autor do Miserável, que abdicara de maneira tão exemplarmente pura ao ciganismo e às profundezas turvas; que negara sua simpatia ao abismo e rechaçara o objeto, aquele que se elevara; dominador de toda a sua sabedoria e emancipado de toda ironia, habituado às obrigações que impunha a confiança em massa, ele, cuja fama oficialmente notabilizara seu nome e cujo estilo era dado como base para a educação dos rapazes – ali sentava, suas pálpebras estavam fechadas, só de vez em quando aparecia, por baixo e de lado para logo se esconder de novo, um irônico e desolado olhar, e seus lábios frouxos, avivados cosmeticamente, formavam palavras soltas daquilo que seu cérebro, meio dormente, produzia em estranha lógica de sonho.

« Porque a beleza, Fédon – tome bem nota disso – só a beleza é divina e visível ao mesmo tempo, e assim é também o caminho do sensual, é o caminho do artista para o espírito, pequeno Fédon. Mas crê você, meu querido, que aquele para quem o caminho ao espiritual passa pelos sentidos porventura possa alcançar a sabedoria e a dignidade? Ou acredita você (deixo-lhe a decisão) que este seja um caminho perigoso-encantador, na verdade um caminho errado e pecaminoso, que leva necessariamente à confusão? Pois deve saber que nós, artistas, não podemos seguir o caminho da beleza sem que Eros se associe e se arvore em guia; sim, sejamos heróis e honestos guerreiros a nosso modo, não obstante seremos como mulheres. A paixão é nossa elevação e nosso anseio deve continuar a ser o amor – isto é nosso prazer e nossa vergonha. Vê você, agora, que nós, poetas, não podemos ser sábios nem dignos? Que forçosamente nos perdemos, forçosamente continuamos devassos e aventureiros de emoções? A glorificação de nosso estilo é mentira e idiotice; nossa fama e posição de honra, uma farsa; a confiança do povo em nós, altamente ridícula; a educação do povo e da juventude pela arte é um arrojado e proibido empreendimento. Pois como poderia servir de educador aquele a quem é inata uma tendência incorrigível e natural para o abismo? Bem que gostaríamos de negá-lo e alcançar dignidade, mas para que lado quer que nos voltemos, ele nos atrai.

« Assim declinamos do reconhecimento solúvel, pois o reconhecimento, Fédon, não tem dignidade nem severidade; ele é sábio, compreensível, perdoa sem pose nem forma; ele tem simpatia para com o abismo, ele é o abismo. A este, pois, rejeitamos com determinação e daí em diante nossa aspiração é exclusivamente à beleza, isto quer dizer, à simplicidade, à grandeza e à nova severidade da segunda ingenuidade e da forma.

« Mas forma e ingenuidade, Fédon, levam à embriaguez e à cobiça, levam o nobre talvez à medonha injúria do sentimento, que sua própria bela severidade repudia como infame, levam ao abismo — também elas levam ao abismo. A nós, poetas, digo, levam para lá, pois nós não conseguimos elevar-nos, só conseguimos digressionar. E agora vou embora, Fédon, fique você aqui; e só quando não mais me vir, então vá também você.»

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A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

C. S. Lewis: Do ateísmo ao teísmo (documentário)

« Todos os livros estavam começando a se voltar contra mim. Na verdade, devo ter sido tão cego como um morcego por não ter visto, muito antes, a absurda contradição entre minha teoria de vida e minha verdadeira experiência enquanto leitor. Os mais religiosos eram claramente aqueles em que eu realmente podia me alimentar.»

Sêneca: Da Brevidade da Vida (excerto)

 Sêneca

« Todos os espíritos que alguma vez brilharam consentirão neste único ponto: jamais se cansarão de se espantar com a cegueira das mentes humanas. Não se suporta que as propriedades sejam invadidas por ninguém, e, se houver uma pequena discórdia quanto à medida de seus limites, os homens recorrem a pedras e armas; no entanto, permitem que outros se intrometam em suas vidas, a ponto de eles próprios induzirem seus futuros possessores; não se encontra ninguém que queira dividir seu dinheiro, mas a vida, entre quantos cada um a distribui! São avaros em preservar seu patrimônio, enquanto, quando se trata de desperdiçar o tempo, são muito pródigos com relação à única coisa em que a avareza é justificada.

« Por isso, agrada me interrogar um qualquer, dentre a multidão dos mais velhos: "Vemos que chegaste ao fim da vida, contas já cem ou mais anos. Vamos! Faz o cômputo de tua existência. Calcula quanto deste tempo credor, amante, superior ou cliente, te subtraiu e quanto ainda as querelas conjugais, as reprimendas aos escravos, as atarefadas perambulações pela cidade; acrescenta as doenças que nós próprios nos causamos e também todo o tempo perdido: verás que tens menos anos de vida do que contas. Faz um esforço de memória: quando tiveste uma resolução seguida? Quão poucas vezes um dia qualquer decorreu como planejaras! Quando empregaste teu tempo contigo mesmo? Quando mantiveste a aparência imperturbável, o ânimo intrépido? Quantas obras fizeste para ti próprio? Quantos não terão esbanjado tua vida, sem que percebesses o que estavas perdendo; o quanto de tua vida não subtraíram sofrimentos desnecessários, tolos contentamentos, ávidas paixões, inúteis conversações, e quão pouco não te restou do que era teu! Compreendes que morres prematuramente."

« Qual é pois o motivo? Vivestes como se fósseis viver para sempre, nunca vos ocorreu que sois frágeis, não notais quanto tempo já passou; vós o perdeis, como se ele fosse farto e abundante, ao passo que aquele mesmo dia que é dado ao serviço de outro homem ou outra coisa seja o último. Como mortais, vos aterrorizais de tudo, mas desejais tudo como se fôsseis imortais.

« Ouvirás muitos dizerem: "Aos cinqüenta anos me refugiarei no ócio, aos sessenta estarei livre de meus encargos." E que fiador tens de uma vida tão longa? E quem garantirá que tudo irá conforme planejas? Não te envergonhas de reservar para ti apenas as sobras da vida e destinar à meditação somente a idade que já não serve mais para nada? Quão tarde começas a viver, quando já é hora de deixar de fazê-lo. Que negligência tão louca a dos mortais, de adiar para o qüinquagésimo ou sexagésimo ano os prudentes juízos, e a partir deste ponto, ao qual poucos chegaram, querer começar a viver!»

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Da Brevidade da Vida, de Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C. — 65 d.C.).

C. S. Lewis e o divórcio entre o Céu e o Inferno

C.S. Lewis

« O Sr. William Blake escreveu o livro O Matrimônio do Céu e do Inferno. Se escrevi sobre o abismo entre os dois, isto não é porque me julgo um antagonista à altura de tão grande gênio, nem mesmo porque esteja absolutamente certo de ter entendido o que ele pretendia; mas, num sentido ou outro a tentativa de realizar essa união é perene. Essa tentativa tem como base a crença de que a realidade jamais se apresenta a nós num sentido absoluto, havendo sempre uma opção inevitável a ser feita; mas que, com habilidade e paciência e (acima de tudo) tempo suficiente, algum meio de abranger ambas as alternativa pode ser sempre encontrado. Que o simples desenvolvimento, ajuste ou refinamento, irá de alguma forma transformar o mal em bem, sem que sejamos chamados para uma rejeição final e total de qualquer coisa que desejemos reter.

« Acredito que esta crença represente um erro desastroso. Não é possível levar conosco toda a nossa bagagem em todas as jornadas. Em uma dessas viagens até mesmo a sua mão direita ou o seu olho direito podem estar entre as coisas que precisará deixar para trás. Não estamos vivendo em um mundo onde todas as estradas são raios de um círculo e onde todas, se seguidas suficientemente, acabarão por se aproximar gradualmente e terminar se encontrando no centro. Pelo contrário, estamos num mundo em que cada estrada, depois de alguns quilômetros, se divide em duas, e cada uma destas mais uma vez em duas, e em cada encruzilhada você tem de tomar uma decisão. Mesmo no nível biológico, a vida não é como um rio mas como uma árvore. Ela não se move na direção da unidade, mas se distancia dela e as criaturas se afastam cada vez mais das outras, à medida que se aperfeiçoam. O bem, quando amadurece, se mostra cada vez mais diferente, não só do mal, mas de qualquer outro bem.

« Não julgo que todos os que escolhem as estradas erradas perecem; mas o seu resgate consiste em serem colocados de volta na estrada certa. Uma soma errada pode ser corrigida, mas somente fazendo um retrospecto até achar o erro e continuando a partir desse ponto, e não apenas “avançando”. O mal pode ser desfeito, mas não pode “transformar-se” em bem. O tempo não pode curá-lo. O encanto precisa ser quebrado, pouco a pouco, “com murmúrios de trás para diante, a fim de obter a separação” — caso contrário não dá resultado. Continua prevalecendo a necessidade de alternativa. Se insistimos em conservar o Inferno (ou mesmo a terra) não veremos o Céu. Acredito que qualquer homem que chegue ao Céu descobrirá que aquilo que abandonou (mesmo arrancando o seu olho direito) não ficou perdido: que o âmago daquilo que estava realmente buscando, mesmo em seus mais depravados desejos, continua ali, além de qualquer expectativa, esperando por ele nos “Países Altos”. Nesse sentido, os que tiverem completado a jornada (e somente estes) poderão verdadeiramente dizer que o bem é tudo e que o Céu está em toda parte. Mas nós, deste lado da estrada, não devemos tentar antecipar essa visão retrospectiva. Se fizermos isso, é provável que adotemos o falso e desastroso conceito de que tudo é bom e qualquer lugar é o Céu.

« E a terra? você pode perguntar. A terra, penso eu, não irá ser considerada por ninguém, no final, como sendo um lugar muito definido. Penso que se for escolhida a terra em vez do Céu, ela irá mostrar ter sido, todo o tempo, apenas uma região no Inferno: e a terra, se colocada em sujeição ao Céu, terá sido desde o início uma parte do próprio Céu.

« Só quero dizer mais uma ou duas coisas sobre este livro. Primeiro, devo reconhecer minha dívida de gratidão a um escritor cujo nome esqueci. Li um artigo seu numa revista americana chamada Scientifiction (Ficção Científica). A qualidade do meu material celeste, que não se curva nem quebra, foi-me sugerida por ele, embora tivesse feito uso da fantasia para um propósito diferente e muito engenhoso. O seu herói viajou para o passado: e ali, muito adequadamente, encontrou pingos de chuva que o feriam como balas e sanduíches que não se podiam comer — porque, naturalmente, nada no passado pode ser alterado. Com menos originalidade, mas (espero) com igual propriedade, transferi esta idéia para a eternidade. Se o autor dessa história porventura ler estas linhas peço que aceite minha gratidão. A segunda coisa é esta. Peço aos leitores que se lembrem tratar-se de uma fantasia. Ela tem naturalmente, ou foi essa a minha intenção, uma moral. Mas as condições além da morte não passam de uma suposição imaginaria: não são sequer um palpite ou uma especulação quanto ao que pode realmente aguardar-nos. A última coisa que desejo seria despertar curiosidade fatual quanto aos detalhes da vida após-morte.»

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O Grande Abismo (prefácio), de C.S. Lewis.

Este foi o livro que o poeta Bruno Tolentino me indicou após conversarmos longamente sobre Swedenborg, O Livro de Urântia, vida após a morte, projeções astrais, Salvação e quejandos. O título em inglês soa ainda mais antagônico ao livro de William Blake: “The Great Divorce”.

Da “Filosofia Perene”: Aldous Huxley fala sobre fé

Aldous Huxley

« A palavra "fé" tem vários significados, que é impor­tante distinguir. Em certos casos é usada como sinônimo de "confiança", como quando dizemos que temos fé na habilidade diagnóstica do Dr. X ou na integridade do advogado Y. Análoga a esta é nossa "fé" na autoridade, a crença na probabilidade de que seja certo o que dizem certas pessoas sobre certas coisas, por causa de suas especiais condições. Outras vezes a "fé" significa crença em proposições que não tivemos ocasião de verificar por conta própria, mas que sabemos que poderíamos verificar, se tivéssemos o desejo e a oportunidade de fazê-lo, junto com a capacidade necessária para isso. Neste sentido da palavra, temos "fé", embora nunca estivemos na Austrália, na existência de uma criatura tal como o platypus; temos "fé" na teoria atômica, embora nunca fizemos os experi­mentos em que tal teoria se fundamenta e sejamos incapazes de compreender os cálculos matemáticos que a apóiam. E existe a "fé", que é uma crença em proposições que sabemos que não poderíamos verificar embora o quisésse­mos, tais como as do Credo de Atanasio ou as que constituem a doutrina da Imaculada Concepção. Esta classe de fé é definida pelos escolásticos como um ato do intelecto movido a assentir pela vontade.

« A fé nos três primeiros sentidos desempenha um papel muito importante, não só nas atividades da vida cotidiana, mas também até nas da ciência pura e aplicada. Credo ut intelligam — e também, deveríamos acrescentar, ut agam e ut uiuam. A fé é condição prévia de todo conhecimento sistemático, de todo obrar intencionado e de todo viver decente. As sociedades se mantêm, não principalmente pelo medo dos mais ao poder coativo dos menos, mas sim por uma difundida fé na decência de outros. Tal fé tende a criar seu próprio objeto, enquanto que uma difundida desconfiança mútua, devida, por exemplo, à guerra ou às dissensões domésticas, cria o objeto da desconfiança. Passando agora da esfera moral a intelectual, achamos a fé na raiz de todo pensamento organizado. A ciência e a tecnologia não poderiam existir se não tivéssemos fé na fidelidade do universo — se não acreditássemos implicitamente (para dizê-lo com as palavras de Clark Maxwell) que o livro da Natureza é realmente um livro e não uma revista, uma coerente obra de arte e não um tapete de retalhos. A esta fé geral na racionalidade e integridade do mundo, o buscador da verdade deve adicionar duas classes de fé especiais: fé na autoridade dos peritos qualificados, suficiente para lhe permitir aceitar sua palavra sobre afirmações que não comprovou pessoalmente; e fé em suas próprias hipóteses, suficiente para induzi-lo a comprovar suas crenças provisórias mediante a ação apropria­da. Esta ação pode confirmar a crença que o inspi­rou. Por outra parte, pode provar que a hipótese original estava mal fundada, e neste caso terá que ser modifica­da até que, conforme os fatos, e assim passe do reino da fé ao do conhecimento.

« A quarta classe de fé é o que usualmente se chama "fé religiosa". A qualificação é justa, não porque as outras classes de fé não sejam fundamentais em religião como o são nos assuntos seculares, mas sim porque este volitivo assentimento à proposições que se sabe que não são verificáveis ocorre em religião, e só em religião, como uma adição característica à fé como confiança, a fé na autoridade e a fé em proposições não verificadas, mas verificáveis. Esta é a classe de fé que, segundo os teólogos cristãos, justifica e salva. Em sua forma extrema e mais intransigente, tal doutrina pode ser muito perigosa. Eis aqui, por exemplo, uma passagem de uma das cartas de Lutero. Este peccator, etpecca fortiter; sedfortius crede et gaude in Christo, qui victor est peccati, mortis et mundi. Peccandum est quam diu sic sumus; vito haec non est habitatio justitiae. ("Sou pecador e peco fortemente; mas, mais fortemente, creio e alegro-me em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. Enquanto formos como somos, temos que ter pecados; esta vida não é a morada da retidão.") Ao perigo de que a fé na doutrina da justificação pela fé possa servir de desculpa ao pecado, e até de convite a pecar, deve acrescentar-se outro perigo, ou seja, o de que a fé que se supõe salvadora possa ser uma fé em proposições não meramente não comprovadas, mas sim repugnem à razão e ao sentido moral e estejam em completo desacordo com os resultados obtidos pelos quais cumpriram as condições de penetração espiritual na Natureza das Coisas. "Eis aqui o topo da fé — diz Lutero em De Servo Arbítrio —: acreditar que Deus, salva a tão poucos e condena a tantos, é misericordioso; é justo Quem, a seu prazer, fez-nos necessariamente destinados à condenação, de modo que parece deleitar-se na tortura dos miseráveis e ser mais merecedor de ódio que de amor. Se, por um esforço da razão, pudesse conceber como Deus, que mostra tanta ira e dureza, pode ser misericordioso e justo, não haveria necessidade de fé." A revelação (que, quando é genuína, é simplesmente o relato da experiência imediata dos que são bastante puros de coração e bastante pobres de espírito para poder ver Deus) não diz nada de todas estas doutrinas horríveis, às quais a vontade força o intelecto, que sente por isso uma relutância bastante natural e justa a dar assenti­mento. Tais noções não são produto da penetração dos santos, mas sim da atarefada fantasia de juristas, que estavam tão longe de transcenderem o eu e os prejuízos da educação, que tinham a louca presunção de interpretar o universo em termos da lei judia e Roma­na, com a que estavam familiarizados. "Ai de vós, os juristas!", disse Cristo. A acusação era profética e válida para todos os tempos.

« A medula e o coração espiritual de todas as religiões superiores é a Filosofia Perene; e se pode assentir às proposições da Filosofia Perene e obrar de acordo com elas sem ter que ir à classe de fé sobre a qual escrevia Lutero nas passagens precedentes. Deve, é óbvio, haver fé em sua condição de confiança — pois a confiança no próximo é o princípio da caridade para com os homens, e a confiança, não só na fidelidade material do universo, mas também em sua integridade moral e espiritual, é o princípio da caridade ou amor-conhecimento para com Deus. Deve haver também fé na autoridade — a autoridade daqueles cuja abnegação os pôs em condições de conhe­cer o Fundamento espiritual de todo ser, seja por contato direto ou por ouvi-la. E, finalmente, deve haver fé nas proposições a respeito da Realidade enunciadas por filó­sofos à luz de uma revelação — proposições que o crente sabe que pode comprovar por si mesmo, se estiver disposto a cumprir as condições necessárias. Mas, enquanto a Filosofia Perene seja aceita em sua simplicidade essencial, não há necessidade de volitivo assentimento à proposições das quais de antemão se sabe que não são comprováveis. Aqui é necessário observar que tais proposições podem chegar a ser verificáveis assim que uma intensa fé afete o substrato psíquico e assim crie uma existência cuja derivada objetividade po­de realmente descobrir-se "lá fora". Contudo, recordemos que uma existência que tira sua objetividade da atividade mental dos que acreditam intensamente nela não pode ser o Fundamento espiritual do mundo, e que uma mente atarefada na atividade volun­tária e intelectual que é a "fé religiosa" não pode achar-se no estado de renúncia ao eu e de atenta passividade que é a condição necessária ao conhecimento unitivo do Fundamento. Por isso afirmam os budistas que "a amorosa fé conduz ao céu; mas a obediência ao Dharma conduz ao Nirvana". A fé na existência e poder de qualquer entidade sobrenatural que seja menos que a Realidade espiritual última, e em qualquer forma de adoração que não alcance o abatimento de si mesmo, produzirá sem dúvida, se o objeto da fé é intrinsecamente bom, um melhoramento do caráter, e provavelmente a sobrevivência póstuma de melhorada personalidade em condições "celestiais". Mas esta sobrevivência pessoal dentro do que é ainda a ordem temporária não é a vida eterna da união atemporal com o Espírito. Esta vida eterna "está no conhecimento" da Divindade, não na fé em algo que seja menos que a Divindade.»

A imortalidade obtida pela aquisição de uma condição objetiva (por exemplo, a condição — alcan­çada pelas boas obras inspiradas pelo amor a algo inferior à Divindade suprema e pela crença nesse algo — de unir-se em ato ao adorado) está exposta a terminar; pois nas Escrituras se afirma distintamente que o Carma não é nunca causa de emancipação.

Shankara

« O Carma é a sucessão causal no tempo, da qual somos somente libertados "morrendo para" o eu tem­poral e nos unindo com o eterno, que está além do tempo e causa. Pois “quanto à noção de uma Primeira Causa, ou Causa Sui” (para citar as palavras do Dr. E R. Tennant, eminente teólogo e filósofo), “devemos, por um lado, ter presente que nos refutamos ao tentar estabelecê-la por extensão da aplicação da categoria causal, pois casualidade universalizada implica contradição; e, por outra parte, recordar que o Fundamento último sim­plesmente ‘É’." Só quando também o indivíduo "sim­plesmente é", em virtude de sua união, pelo amor-conhecimento, com o Fundamento, pode haver liberação completa e eterna.»
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A Filosofia Perene, de Aldous Huxley.

Atualizações semanais no Twitter em 2010-08-30

  • Lijia Zhang: “O conforto tira a vontade de lutar” (q o digam os brasileiros q venderam suas consciências em troca de emprego e estabilidade) #
  • Um país com o nome de um produto de exploração econômica: Brasil. Não podia ter dado noutra coisa. Aqui, preços valem mais que virtudes. #
  • A melhor saída para o jornal impresso é tornar-se revista. Tudo o que lemos nos jornais já vimos antes na internet. #
  • E o erotismo foi pro espaço… RT @p_paiva: Indianos praticando pole dance – incrível! http://ow.ly/2t9KK #
  • O problema de testemunhar o Kali Yuga ao nosso redor é saber que o único exílio possível seria fugir para outro planeta. #
  • A indigência dos aforismos de certos escritores tuiteiros só não é maior que o constrangimento causado por haver quem lhes retuíte./Tô chato #
  • Onde a alma pouco vale, o corpo é uma pechincha. RT @anamariabahiana: Pornô no Iraque! E uma das estrelas é brasileira. http://bit.ly/cqCdLm #
  • É legal cuidar da aparência, mas — como sublinhou Swedenborg — após a morte os interiores se manifestam. Tipo, "O amor é cego", saca? #
  • Para mim, a verdadeira Caixa Preta se chama Urna Eletrônica… #
  • "Testes de DNA revelam que 'Hitler era descendente de judeus e africanos'" http://bit.ly/aywDbG (via @lufvaz) #
  • "Pesquisador que encontrou vulnerabilidades em urnas eletrônicas é preso na Índia" http://bit.ly/bcwxAO (Ó o perigo!) #
  • "Os 10 escritores mais bem pagos de 2010" – The Highest-Paid Authors – Forbes.com http://bit.ly/8Z4wSb #
  • "Novo Fusca nacional (chama-se Fusca mesmo!)" http://bit.ly/9zRA2N #
  • "Rothbard certa vez descreveu o estado como uma gangue de ladrões em larga escala" http://bit.ly/bGms4j (via @mises_brasil) #
  • Gente, todos sabem que não há sistemas invioláveis. O foco da notícia é que o pesquisador foi preso, entende? http://bit.ly/bcwxAO #
  • "Imaginação" – http://bit.ly/bZDGNu (via @arilud) #
  • Antes que me esqueça: a peça que escrevi a quatro mãos com a @MiriamVirna irá estrear no Rio de Janeiro apenas em 2011. http://bit.ly/9lJutl #
  • Fora a música,o que havia de comum entre Elvis Presley, Jimi Hendrix, Jaco Pastorius, Stockhausen e Stevie Ray Vaughan? http://bit.ly/bQweIJ #
  • Elvis Presley, Jimi Hendrix, Jaco Pastorius, Stockhausen e Stevie Ray Vaughan: leitores do Livro de Urântia. #urantia http://bit.ly/bQweIJ #
  • "O Brasil chegará a esse futuro, dourado e glorioso, se acreditar mais em liberdade individual e menos no Estado." ~ Paul Johnson #
  • Os 10 escritores mais influentes do "BUNDO". (Adivinha quem é o número 1.) http://j.mp/aZTZ6A #
  • Agente aposentado do FBI diz que Oswald não matou Kennedy e que tem documentos do FBI para prová-lo http://j.mp/aVqGyt #
  • RT @oscarmundstock: @yurivs Eae! Tô ouvindo todos teus bate papos com o Olavo de Carvalho desde onteontem. Estou terminando o sétimo. Bo … #
  • Após a morte de Jimi Hendrix, a Pan Am encontrou uma mala perdida dele: dentro havia um Livro de Urântia! http://bit.ly/dlu9nD #
  • Notícias bem engraçadas. B^) "Diário de Barrelas – Trazendo Barrelas para Você" http://bit.ly/bFD5Sv #
  • A @nowhere_gal adorou. E vc, @melaudi , já tinha ouvido? Um singelo videoclipe: “Fuck Me, Ray Bradbury!” http://bit.ly/d10XSp B^) #
  • Ahahahaha! "Serra mediará primeiro debate entre Globo e Record | Diário de Barrelas" http://bit.ly/bJkHb5 #
  • Boa também: "Primeiro casamento entre pessoas que se amam é celebrado no Irã | Diário de Barrelas" http://bit.ly/cBR5Qj B^D #
  • Então a gritaria na rua era por causa do resultado do vestibular da UnB? Passei em 3 vestibulares da UnB, não sei qual é a graça… B^/ #
  • Aliás, sei sim qual é a graça da UnB, é este livrinho aqui (PDF), que a esculhamba totalmente: http://blogdo.yurivieira.com/download/1/ #UnB #
  • O negócio é aproveitar esses TTs, hehehe. Com licença, gente. #
  • Manual do Calouro da UnB – somente para aqueles com Senso de Humor – baixe agora o PDF – http://bit.ly/b0xMx8 #UnB #comediauniversitaria #
  • Alguns minutinhos de UnB nos TTs e meu ebook foi baixado mais 150 vezes. Tá de bom tamanho. http://bit.ly/bbmTWb #comediauniversitaria #UnB #
  • Eu só fico sabendo que existe propaganda eleitoral graças ao Twitter e ao Facebook. Com essa minha memória, amanhã será novidade de novo. #
  • Uma análise do planejamento centralizado da economia a partir do game Caesar III (via @libertyideals) http://bit.ly/bxywFl #
  • Um colega da minha irmã leu meu 2º livro e ficou deprê por não ter uma vida "emocionante" como a minha.E eu deprê por não ter o salário dele #

Cláudio Moreno: “Deixem nossa ortografia em paz!”

Cláudio Moreno

« Esta anunciada reforma é ineficaz, amadora e espantosamente prejudicial ao nosso sistema de ensino. Se o Brasil ainda guardar uma pequena reserva de sensatez, vai esquecer esta proposta para sempre e sepultá-la no cemitério das idéias malucas, de onde ela nunca deveria ter saído. Em primeiro lugar, é ineficaz porque não conseguiria alcançar o que pomposamente anuncia — unificar a grafia em todos os países que compartilham nosso idioma. O sistema ortográfico brasileiro e o português são muito parecidos; como dois navios paralelos, singram o oceano sempre na mesma direção, a vinte metros um do outro. A atual reforma conseguiria aproximá-los para dezessete metros — isto é, iria diminuir três metros da distância, a qual, no entanto, continuaria a existir. É muito custo e muito trabalho para muito pouco proveito. Daqui a uns trinta anos, tudo ia começar de novo.

« Em segundo lugar, é amadora porque pouco ou quase nada simplifica o trabalho de aprender e de ensinar a ortografia; elimina algumas regrinhas secundárias, embaralha ainda mais (se é que isso é possível!) o emprego do hífen e, ironia suprema, quer suprimir o acento de pára (verbo), usado para distingui-lo da preposição para — logo um dos raríssmos acentos diferenciais que teria toda a justificativa para continuar existindo.

« Em terceiro lugar, causaria um dano incalculável ao sistema de ensino. Hoje convivem brasileiros que foram alfabetizados (1) pelo modelo anterior a 1943, (2) pelo modelo definido pelo Acordo de 1943, (3) pelo modelo modificado pelo Acordo de 1971; já vivemos um quadro suficientemente complicado e não precisamos acrescentar mais uma camada nesse pandemônio. Ortografia precisa de tempo para sedimentação — e isso se conta em séculos, não em décadas. Uma nova reforma aumentaria ainda mais a insegurança que todo brasileiro tem na hora de escrever — insegurança essa, como podemos ver, absolutamente justificada. Parem de brincar com o que não entendem; deixem nossa ortografia em paz!»

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Arquivem esta reforma! E já!, de Cláudio Moreno.

Dentre todos os artigos e comentários que li a respeito da famigerada nova ortografia e do cinzento Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, os mais sãos, os mais lúcidos e relevantes foram escritos pelo professor Cláudio Moreno. Eu, que ainda não engoli essas mudanças, que no máximo arrisquei a grafar, com peso na consciência, uma que outra “idéia” sem acento, não podia ficar mais satisfeito ao encontrar tão preparado combatente: Cláudio Moreno não perdoa o desengonçado Acordo Ortográfico. A leitura de seus textos me traz alívio – suas ironias e metáforas são irresistíveis – e me deixa mais seguro de que resistir a essa arbitrariedade é o melhor caminho. Sugiro os artigos abaixo:

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