palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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São Bernardo de Claraval, Abade: “Em Louvor da Nova Milícia aos Cavaleiros do Templo” (Texto Completo)

ADVERTÊNCIA SOBRE O OPÚSCULO VI.

1. O livro apresentado nos códices antigos ostenta este título: “Inicia-se o prólogo de São Bernardo, abade, no livrinho aos Cavaleiros do Templo”; e após o prólogo: “Iniciam-se os capítulos sobre o louvor da nova Milícia”. Estes são ao todo treze, como em nossas edições, onde retivemos os títulos segundo a intenção do autor. Este livro é chamado por Geofredo, no oitavo capítulo do terceiro livro da Vida de Bernardo, de “Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Diz ele: “O quão fiel recomendador e ajudante foi de qualquer piedosa conversão, declara-o o Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Assim, portanto, o título deste livro pode ser estabelecido como: “Livro aos Cavaleiros do Templo, sobre o louvor da nova Milícia”.

2. O prólogo, contudo, é dedicado a “Hugo, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo”; mas dá no mesmo dedicar o livro ao Mestre da Milícia ou a todos os Cavaleiros. Foram chamados de Irmãos do Templo pelo fato de que, por concessão do rei Balduíno, estabeleceram-se primeiramente junto ao Templo do Senhor, conforme atesta Guilherme, arcebispo de Tiro, no capítulo sétimo do décimo segundo livro, onde descreve a origem deles por volta do ano 1118. Diz ele: “No mesmo ano, certos homens nobres de ordem eqüestre, devotos a Deus, religiosos e tementes a Deus, entregando-se ao serviço de Cristo nas mãos do senhor patriarca, professaram o desejo de viver perpetuamente ao modo dos cônegos regulares, em castidade, obediência e sem propriedade. Entre os quais, os primeiros e principais foram os veneráveis homens Hugo de Payns e Geofredo de Saint-Omer; como não possuíam igreja nem domicílio certo, o Rei concedeu-lhes temporariamente uma habitação no palácio que possui na parte sul, ao lado do Templo do Senhor. Sua primeira profissão, no entanto, e o que lhes foi imposto pelo senhor patriarca e outros bispos para a remissão dos pecados, foi que preservassem, segundo suas forças, os caminhos e estradas contra as ciladas de ladrões e assaltantes, especialmente para a segurança dos peregrinos”.

Isto sobre a origem dos Cavaleiros do Templo, aos quais o primeiro Mestre nomeado foi o supracitado Hugo de Payns, a quem o mesmo Guilherme de Tiro chama de primeiro mestre da milícia do Templo no vigésimo sexto capítulo do décimo terceiro livro. A segunda epístola de Guigo, prior da Cartuxa, é dirigida a “Hugo, Prior da santa milícia”. Este é o Hugo a quem Bernardo dedicou o livro seguinte, devendo ser distinguido, certamente, do outro Hugo que, de Conde de Champagne, tornou-se cavaleiro do Templo, conforme atesta a trigésima primeira epístola de Bernardo a ele dirigida. Além disso, a Hugo de Payns, primeiro Mestre da milícia, sucedeu o “exímio cavaleiro e vigoroso nas armas, nobre em linhagem e costumes, o senhor Roberto, de sobrenome Borguinhão, de nação aquitânia”, por volta do ano 1136, como se colhe de Guilherme de Tiro no sexto capítulo do décimo quinto livro, que também trata do mesmo no início do décimo sétimo livro. A Roberto parece ter sucedido Everardo, a quem Pedro, o Venerável, escreve uma epístola, que é a vigésima sexta do sexto livro.

3. Em que ano este livro foi escrito, não o diria facilmente. Consta que tal fato ocorreu quando a Ordem já havia crescido muito e o número de cavaleiros se multiplicado. As palavras de Bernardo no número 10 provam isso: “Estas coisas são praticadas em Jerusalém, e o mundo se desperta. As ilhas ouvem, e os povos de longe prestam atenção; fervilham do Oriente e do Ocidente… E o que se percebe como mais alegre e se realiza de forma mais oportuna é que, em tão grande multidão de homens, verás confluir para lá apenas uns poucos que não sejam criminosos”, etc. Ora, antes do Concílio de Troyes, isto é, antes do ano de 1127, havia apenas nove cavaleiros daquele instituto, como logo veremos por Guilherme. Portanto, dificilmente se pode dizer que este livro foi composto antes de 1132, mas certamente antes de 1136, ano em que, aproximadamente, o mestre Roberto sucedeu a Hugo.

4. Miraeus publicou a Regra dos Templários a partir de um códice vitorino e a inseriu na Crônica Cisterciense, afirmando ser ela “ditada pelo santo abade Bernardo de Claraval, como fica evidente pelo prólogo”. Esta Regra consta de tantos capítulos quanto a Regra de São Bento (da qual foi tomada em grande parte palavra por palavra), isto é, setenta e dois capítulos. Antes do prólogo, ela é assim intitulada: “Regra dos pobres comilotes de Cristo e do Templo de Salomão”. Manrique, no ano de 1128, capítulo 2, atribui esta Regra a Bernardo como autor, junto com Miraeus, e para provar isso aduziu duas passagens do prólogo. A primeira passagem diz assim: “Certamente, embora o número vastíssimo de Padres religiosos que se reuniram naquele concílio por advertência divina recomende a autoridade de nossa redação; não devemos passar em silêncio que, sob a vista deles e proferindo sentenças verdadeiras, eu, João de Michel, mereci ser pela graça divina o humilde escrivão da presente página, por ordem do concílio e do venerável abade de Claraval, a quem isto fora confiado e era devido”.

Contudo, estas palavras não significam que qualquer Regra tenha sido composta por Bernardo para os Templários: mas que ele transferira para João de Michel o ofício de escrivão que lhe fora imposto. 543 Nem se conclui nada além das palavras seguintes, que são relatadas desta maneira após a enumeração dos Padres do Concílio de Troyes: “O próprio mestre da milícia, de nome Hugo, de fato não faltou, e trouxe consigo alguns de seus irmãos, a saber, o Irmão Gofredo, o Irmão Roval, o Irmão Geofredo Bisol, o Irmão Pagano de Montdidier e Arcambaldo de Saint-Aignan. Este mestre Hugo, com estes discípulos, comunicou aos Padres acima nomeados, segundo o conhecimento de sua memória, o modo e a observância do início modesto de sua Ordem militar, que tomou seu exórdio daquele que diz: ‘Eu sou o princípio, eu que vos falo’. Aprouve, portanto, ao concílio que o conselho ali diligentemente examinado pelo crivo e consideração das Divinas Escrituras fosse recomendado por escrito e observado inabalavelmente, todavia com a providência do Papa Romano e do Patriarca de Jerusalém, bem como com o assentimento do capítulo dos pobres comilotes do Templo que está em Jerusalém”.

Por estas palavras, entendemos apenas que foi sancionado pelos Padres que uma Regra fosse prescrita aos Cavaleiros com o consenso deles, consultados o Pontífice Romano e o Patriarca Jerosolimitano; mas de modo algum Bernardo é afirmado como seu autor. Pelo contrário, Alberico, da Ordem Cisterciense, escreve que a Regra de Santo Agostinho foi imposta a esses mesmos Cavaleiros. Por isso, no Monasticon Anglicanum, eles são remetidos à Ordem de Santo Agostinho. Seria muito estranho se Alberico de Trois-Fontaines, monge cisterciense não distante de Claraval, ignorasse esta Regra de Bernardo e tivesse atribuído outra aos Cavaleiros que restavam em seu tempo.

Guilherme, bispo e arcebispo de Tiro, relata no já citado capítulo sétimo do livro décimo segundo que, para os mesmos Cavaleiros que antes do Concílio de Troyes “não eram senão nove, por mandato do senhor Papa Honório e do senhor Estêvão, patriarca de Jerusalém, foi instituída uma Regra e atribuído o hábito branco”, sendo que antes usavam vestes comuns. “Posteriormente, no tempo do senhor Papa Eugênio, conforme se diz, começaram a costurar cruzes de pano vermelho em seus mantos”, tanto os cavaleiros quanto seus irmãos chamados Sargentos. Cuja situação cresceu tanto imensamente que hoje, diz Guilherme, “têm no convento trezentos cavaleiros, mais ou menos, vestidos com mantos brancos, excetuando-se os Irmãos”.

Destas últimas palavras, deduzimos que aquela Regra que é atribuída a Bernardo como autor não foi escrita senão depois de Guilherme de Tiro; visto que no capítulo vigésimo primeiro são notados certos “pseudo-irmãos das partes de além-montanha, mentindo ser do Templo”; e certas coisas que cresceram entre os próprios Cavaleiros “sem discrição e conselho do capítulo comum” são argüidas como devendo ser totalmente amputadas, a saber, que “outrora os criados e escudeiros tinham vestes brancas, de onde vinham danos insuportáveis”. Ora, não houve nenhum capítulo geral dos Templários antes do Concílio de Troyes; nem antes havia um hábito peculiar dos Cavaleiros, mas o comum. O branco lhes foi concedido pelos Padres do concílio, exceto aos Sargentos. Claramente, apenas por estas palavras se entende que, ao menos este capítulo, foi acrescentado muito depois do tempo do concílio. O capítulo sétimo não só não louva o “ficar de pé para ouvir o ofício divino”, mas até o vitupera e estabelece que seja ouvido sentando: estatuto este que certamente não teria vindo à mente de Bernardo. No capítulo qüinquagésimo sexto estabelece-se “que não se tenham mais irmãs”: o que prova não ter sido uma instituição recente. Se João de Michel é o autor desta Regra, deixo para que outros julguem. Não é indigno de observação nela que o termo “colação” é usado para a pequena refeição dos jejuns no capítulo décimo sexto.

A HUGO, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo, BERNARDO, apenas de nome abade de Claraval: combater o bom combate.

Uma, duas e três vezes, se não me engano, pediste-me, caríssimo Hugo, que escrevesse um sermão de exortação para ti e teus comilotes; e que, já que não me era permitido vibrar a lança contra a tirania inimiga, vibrasse a pena, afirmando que vos seria de não pouco auxílio se eu animasse por letras aqueles a quem não posso animar por armas. Certamente adiei por algum tempo: não porque a petição parecesse desprezível, mas para que não fosse culpado de um assentimento leve e precipitado se, sendo eu inexperiente, presumisse realizar o que alguém melhor seria capaz de cumprir com mais perfeição, e uma coisa tão necessária acabasse por ser feita de modo menos conveniente por mim. Contudo, vendo-me frustrado por uma espera bastante longa desse tipo, para não parecer que agora mais me faltava a vontade do que a capacidade, finalmente fiz o que pude: que o leitor julgue se o satisfiz. E ainda que a alguém porventura nada agrade ou não seja suficiente, isso não me importa, pois não faltei à tua vontade conforme o meu entender.

Elvis & Nixon, o filme

Uma das melhores cenas do filme Elvis & Nixon — que retrata esse curioso encontro entre o “rei do rock” e o então presidente republicano — é aquela em que Presley, ao ser indagado por um agente secreto se está “portando armas ilegais”, responde de pronto que não, não está. Seguindo o protocolo — afinal, estão nos corredores da Casa Branca — o agente o submete a uma revista com detetor de metais, o qual logo emite zumbidos suspeitos. O sujeito então lhe pede para abrir o blazer, Elvis o obedece e vemos que carrega, sob o braço, num coldre branco, uma reluzente pistola dourada.

— Por que negou que estava portando uma arma? — torna o agente, com ar carrancudo.

— Não neguei — responde Elvis. — Você perguntou se eu estava portando alguma arma ‘ilegal’, e minhas armas são legalizadas. Nós — e ele também se referia a seus dois acompanhantes — temos autorização para portá-las.

O agente, pois, lhes pede para deixarem as armas sobre uma mesa. Elvis não apenas retira o coldre branco mas também, alçando a parte de trás do blazer, saca outra pistola das traseiras da cintura, arma que portava à socapa feito um gângster de filme policial. Seus dois acompanhantes também sacam suas próprias pistolas e as colocam sobre a mesa. Os olhares dos assessores do presidente Nixon e dos agentes secretos são impagáveis: um roqueiro pretendia entrar armado até os dentes no Salão Oval!

Em seguida, o agente quer saber que objeto é aquele que Elvis pretende entregar a Nixon.

— É apenas uma lembrancinha — diz, sacudindo uma caixa embalada em papel de presente.

Claro que o agente não se satisfaz e insiste que é sua obrigação averiguar o conteúdo daquele pacote. Resignado, Elvis lhe entrega a caixa, que é rapidamente aberta pelo agente: trata-se de uma caixa de madeira, com tampo de vidro, contendo uma bela pistola comemorativa da Segunda Guerra Mundial e dez balas de prata. O agente o encara como se estivesse observando um extraterrestre: “Esse cara é doido?”, deve ter pensado.

— Desculpe, mas eu mesmo entregarei seu presente ao presidente — diz o agente, categórico.

Elvis dá de ombros e, para alívio do assessor que o acompanha, finalmente se dirige para o Salão Oval. Antes de lá chegar, porém, o assessor lhe pede desculpas pela maçante eficiência do agente secreto que, obviamente, está apenas cumprindo seu dever.

— Não tão eficiente — retruca Elvis, levantando a barra da calça e mostrando um pequeno revólver escondido no cano da bota.

E o assessor, constrangido, não alertou ninguém, permitindo que Elvis se encontrasse com Nixon portando uma arma… sim, uma arma legalizada.

No mais, apesar de gostar do trabalho do Michael Shannon, não o achei uma boa escolha para interpretar o “rei do rock”: Elvis tinha um vozeirão, falava para fora, e Shannon parece o menino daquela piada, aquele que “foi lá fora chamar o pai para dentro”: quase não o ouvimos. (Sem falar que Elvis era um sujeito bonito e Shannon parece um vampiro anêmico.) Já Kevin Spacey, como sempre, faz um ótimo trabalho como Nixon. Não faço a menor idéia se os diálogos entre os dois foi reproduzido com fidelidade, mas o tom geral, da parte de Elvis, é: a juventude está perdida, os Estados Unidos se encaminham para um colapso moral e social e, claro, os Beatles têm culpa no cartório. Como resultado da visita, Elvis também é nomeado agente da narcóticos e, assim habilitado, pretendia infiltrar-se entre outros roqueiros para prender os drogados e comunistas. (Segundo um comentarista no YouTube, na verdade ele pretendia era apreender todas as drogas para usá-las ele mesmo. Sacanagem, claro.)

Memento mori

Os generais romanos, após uma vitória, desfilavam pela cidade numa biga acompanhados por um escravo a pé que, a cada tantos passos, lhes sussurrava: “Lembra-te de que és mortal!”. Hoje, ao menos aqui em casa, isso não é necessário: todo santo dia o telefone fixo toca e, quando o atendo, uma gravação diz: “Boa tarde! Aqui é da funerária blablablá e temos diversos planos, etc.”.

Calma. Um dia a gente chega lá.

Feliz #BitcoinPizzaDay!

Hoje, no Bitcoin Pizza Day, o valor da moeda chegou a 2.220 dólares. Dá até vertigem…

Por que #BitcoinPizzaDay? Porque hoje é o aniversário da primeira transação com bitcoins, na qual um sujeito, cansado de produzir a moeda em sua própria casa sem que ninguém a aceitasse como meio de troca, ofereceu num fórum 10.000 bitcoins para quem lhe arranjasse duas pizzas. As pizzas foram compradas por 24 dólares, mediante cartão de crédito, por um cara que, em troca, recebeu os 10.000 bitcoins. Esses 10.000 bitcoins valem hoje, sim, 22.200.000 dólares! A pizza mais cara do universo… (Bem, se não fosse essa transação, o Bitcoin jamais teria provado que vale como meio de troca, logo… feliz Pizza Day!)

Charles Dickens: sobre deputados e escarradeiras

Se há algum problema com os deputados federais brasileiros, esse problema não está em suas aparências, maneirismos, sotaques, costumes, conversas fiadas ou vontade de aparecer: mas simplesmente em sua falta de alta cultura. Na verdade, o problema do Brasil inteiro reside na falta de uma verdadeira alta cultura. Charles Dickens, quando esteve nos EUA em 1842, já havia feito uma observação superficial semelhante:

“Numa visita ao Capitólio, nos Estados Unidos, em 1842, Dickens ficou estarrecido com o comportamento desmazelado dos representantes eleitos da nação, especialmente com a incapacidade que demonstravam de acertar as escarradeiras com suas expectorações de tabaco mascado. ‘Eu recomendo firmemente a todos os estrangeiros que não olhem para o chão’, Dickens resmungou. ‘E, se por acaso derrubarem alguma coisa… não a apanhem de maneira alguma, a não ser que estejam usando luvas’.” (A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg, pág. 50.)

Contudo, o século XIX foi exatamente aquele que testemunhou o crescimento e o enriquecimento vertiginoso dos EUA. Alexis de Tocqueville, que havia estado por lá uns dez anos antes de Dickens, já havia vislumbrado as virtudes e o potencial daquele país. Mas precisamos lembrar sempre: um Capitólio no qual deputados caipiras cospem ao chão é infinitamente superior a um Congresso no qual deputados cospem uns nos outros. Se o Brasil quiser entrar nos eixos no correr dos próximos anos, que fique com os primeiros e se livre imediatamente dos segundos.
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10 anos: parece que foi ontem

Em 2006, publiquei cerca de dez horas de entrevista (em áudio) com Olavo de Carvalho, sua primeira aparição no YouTube. Eu procurava, procurava, procurava e não encontrava nada sobre ele ali. ¿Como era possível? ¿Depois de Olavo ter escrito todos aqueles livros?! Absurdo. Então lhe fiz a proposta e ele a aceitou. Nas gravações, a atualidade de tudo o que ele diz é espantosa. Desde então, graças ao movimento revolucionário, o Brasil permaneceu completamente atolado. Ou melhor: afundou mais.

Quem não ouviu essa conversa — que acabou dando origem ao programa True Outspeak — não sabe o que está perdendo…

Caso alguém queira baixar os arquivos MP3, clique aqui.

Ouça a entrevista completa abaixo:

O furor esquerdista

“Que pode querer e esperar o homem sem Deus senão o reino do homem? Eis o que explica o transe dos discípulos [de Karl Marx]. (…) Mas todo socialismo é utópico, o científico em primeiro lugar. A utopia substitui Deus pelo futuro. Identifica então o futuro com a moral; o único valor que subsiste é o que serve esse mesmo futuro. Daí o ser ele quase sempre constrangedor ou autoritário. (…) aqui o desespero vale mais do que toda esperança (…). a redução de todos os valores unicamente à história autorizava as conseqüências mais extremas. (…) A reivindicação de justiça acaba em injustiça se não for primeiramente baseada numa justificação ética da justiça. Sem isso, o próprio crime acaba por se transformar um dia em dever. (…) Quando o mal e o bem são reintegrados no tempo [tornando-se imanentes], confundidos com os acontecimentos, tudo deixa de ser bom ou mau, mas unicamente prematuro ou desatualizado. Mais tarde — dizem os discípulos — poderão fazer os seus juízos. Mas as vítimas é que já não se encontrarão no mundo para estabelecer tais juízos. (…) Marx profetiza a sociedade sem classes e a resolução do mistério histórico. (…) contudo, abstém-se de fixar uma data. Ora, (…) os acontecimentos e os fatos esqueceram-se de vir enfileirar-se em sua síntese. (…) a esperança viva de milhões de homens [marxistas] não pode manter-se impunemente sem um prazo de realização. E chega o dia em que a decepção [desses discípulos] se encarrega de converter a esperança em furor (…).”

Albert Camus, em O Homem Revoltado.

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