« Uma das paixões mais vazias do homem moderno é ler jornais para ficar a par das últimas notícias. As notícias são sempre ruins e envenenam sua vida, mas o homem moderno não pode viver sem este veneno. Ele precisa saber de todos os assassinatos, de todas as curras. Precisa saber de todas as loucuras e falsas teorias. O jornal não lhe basta. Ele busca notícias adicionais no rádio e na televisão. As revistas são publicadas com a soma de todas as notícias da semana e as pessoas relêem que crime este ou aquele malfeitor cometeu e o que cada idiota disse. A loucura da política apanhou até a nossa chamada ortodoxia. E quanto à paixão por dinheiro! Se você ler a imprensa ortodoxa, vai tomar conhecimento de uma única mensagem em todo artigo e reportagem: “Doe dinheiro!”. Eles precisam de intermináveis quantias de dinheiro para construir yeshivas [escola para formação de rabinos], para manter — como colocam eles — o judaísmo. É uma mentira completa. As grandes yeshivas, as brilhantes salas de aula, a boa comida, os exames — tudo isto é pantomima. Já existem colégios ortodoxos ou universidades na América que ensinam à juventude um pouco da Torá e muito goyishkeit [em iídiche, goy (não-judaico) e ishkeit (modo de ser)]. Os estudantes estão, supostamente, sendo treinados para se adaptar a ambos, mundanismo e Deus. O fato é que uma vez que você está ajustado ao mundo não pode mais estar ajustado a Deus. Aquelas crianças balbuciam em hebraico moderno, com sua pronúncia sefardita, e lerão, cedo ou tarde, todos os livros imundos que são traduzidos aqui. O hebraico deve permanecer uma língua sagrada, não uma linguagem usada em clubes noturnos.
« Eu dissera àquela devassa, Priscilla, que o Deus judeu era um “ídolo” para mim. Talvez quisesse dizer isso na época. A fé não é uma coisa fácil de conquistar. Bem depois que me tornei um judeu com barba e madeixas, ainda necessitava de fé. Mas a fé, gradualmente, cresceu dentro de mim. As ações devem vir primeiro. Bem antes de a criança saber que tem um estômago, quer comer. Bem antes de você alcançar a fé total, deve agir de um jeito judeu. O judaísmo leva à fé. Sei agora que existe um Deus. Creio em Sua Providência. Todas as vezes que me aflijo ou uma das minhas crianças fica doente, rezo ao Todo-Poderoso.
« Não quero me vangloriar de que minha fé seja absoluta. Talvez não exista esta coisa de fé total. Mas acredito mais hoje do que jamais acreditei antes. Darwin e Karl Marx não revelaram o segredo do mundo. De todas as teorias sobre a criação, a exposta no Gênesis é a mais inteligente. Tossa essa conversa sobre névoas primitivas ou a Grande Explosão é um violento disparate. Se alguém encontrasse um relógio numa ilha e dissesse que ele se fez por si mesmo ou que se desenvolveu através da evolução, seria considerado um lunático. Mas, conforme a ciência moderna, o universo evoluiu todo por sua conta. ¿O universo é menos complicado que um relógio?
« Sei o que você quer me perguntar — se ainda estou interessado em sexo. Creia-me, uma mulher pura, decente, pode proporcionar a um homem mais satisfação física do que todas as prostitutas refinadas do mundo. Quando um homem dorme com uma mulher moderna, ele realmente vai para a cama com todos os seus amantes. Eis por que há tantos homossexuais hoje, porque o homem moderno está dormindo espiritualmente com incontáveis outros homens. Ele constantemente quer se sobressair no sexo porque sabe que sua parceira o está comparando com os outros. Esta é também a causa da impotência, da qual tantos sofrem. Eles transformaram o sexo num mercado com competidores. O homem de hoje precisa se convencer de que ele é o maior amante e que, em comparação, Casanova era um garoto de escola. Ele também tenta convencer a mulher, mas ela sabe mais.
« A mulher está na mesma posição. Sabe que seu marido tem e teve muitas outras mulheres e quer competir com elas, ser mais esperta e mais bonita do que elas são. O homem moderno injetou competição em áreas a que ela não pertence. Toda vida moderna é uma série de provas para determinar quem é o mais alto, o maior, o mais forte; quem é capaz de atuar melhor que os outros. A mulher de hoje anseia ser a mais bela criatura sobre a Terra.
« Entre aqueles judeus com os quais vivo, não existe nenhuma pessoa grande ou pequena. Um homem passa mais tempo com a Torá; outro, recitando salmos. Um tem mais tempo para estudar, outro deve trabalhar para viver. Ninguém se compara, ninguém se mede em relação aos outros e o ponto principal é que não há nenhuma busca de lucro. Eles se libertam da pior paixão humana — a necessidade de ser rico.
« Eu seria mentiroso se lhe dissesse que tudo é suavidade e luz entre nós. Aqui também há pessoas más. O Espírito do Mal não foi liquidado. Mesmo quando sento e estudo o Gemara, tenho pensamentos fúteis que caberiam mais a um beduíno. Um momento não passa sem tentações. Satã está constantemente no ataque. Ele nunca fica cansado. Mas liguei-me ao judaísmo com laços que são difíceis de cortar. Estes laços são minha barba, minhas madeixas, minhas crianças e, agora, minha idade também.
« Às vezes o Mal me diz: “O que acontecerá, Joseph Shapiro, se você morrer e não houver nada depois daqui? Você será uma pilha de sujeira, cego, mudo, uma pedra, uma bolha de lama”. Eu o escuto e respondo: “Minha mortalidade não provaria que Deus está morto e que o universo é um acidente físico ou químico. Vejo um plano e uma intenção consciente em todo ser, no homem e nos animais, bem como nos objetos inanimados. A graça de Deus muitas vezes está escondida, mas sua ilimitada sabedoria é vista por todos, mesmo que o chamem de natureza, substância, absoluto ou qualquer outro nome. Creio em Deus, na Sua Providência e na livre determinação do homem. Aceitei a Torá e seus comentários porque tenho certeza de que não existe nenhuma escolha melhor. Esta fé continua crescendo o tempo todo dentro de mim”.»
O Penitente (1983), de Isaac Bashevis Singer, 143 páginas.
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« O esforço de escrever um conto curto é tão intenso como o de começar um romance. Pois no primeiro parágrafo de um romance é preciso definir tudo: estrutura, tom, estilo, longitude, e às vezes até o caráter de algum personagem. O resto é o prazer de escrever, o mais íntimo e solitário que se possa imaginar, e se a gente não fica corrigindo o livro pelo resto da vida é porque o mesmo rigor de ferro, que faz falta para começá-lo, se impõe na hora de terminá-lo. O conto, por sua vez, não tem princípio nem fim: anda ou desanda. E se desanda, a experiência própria e a alheia ensinam que, na maioria das vezes, é mais saudável começá-lo de novo por outro caminho, ou jogá-lo no lixo.»
(…)
« Sempre acreditei que toda versão de um conto é melhor que a anterior. ¿Como saber então qual deve ser a última? É um segredo do ofício que não obedece às leis da inteligência mas à magia dos instintos, como a cozinheira que sabe quando a sopa está no ponto.»
(…)
« Às vezes me sentia escrevendo pelo puro prazer de narrar, que é talvez o estado humano que mais se parece à levitação.»
Obs.: Trechos de uma entrevista retirados de um dos meus velhos blocos de anotações que, como já disse em outros posts, também nesse caso, infelizmente, não traz indicações de fonte.
Curiosidade: Bruno Tolentino, que conheceu García Márquez pessoalmente, me disse que foi praticamente impossível ter um diálogo sério com ele, haja vista os vários baseados que ele, Márquez, não parava de fumar…
« Um deles, por exemplo, que me perseguirá mais que qualquer outro, é o problema da comunicação. Quero dizer, comunicação entre duas pessoas. O fato de que somos não sei quantos milhões de pessoas, e de que, não obstante, a comunicação, comunicação completa, é inteiramente impossível entre duas dessas pessoas, é para mim um dos maiores e mais trágicos temas do mundo. Quando eu era menino, isso me causava medo. Eu quase chegava a gritar. Dava-me uma sensação de isolamento, de solidão. Eis aí um tema que abordei não sei quantas vezes. Mas sei que retornará. Retornará, certamente.»
(…)
« Mas não se trata apenas da questão de o artista perscrutar seu próprio íntimo, mas, também, o dos outros, com a experiência que tem de si próprio. Ele escreve com simpatia porque sente que o seu semelhante é como ele.»
Georges Simenon
Trecho de uma entrevista à Paris Review, que encontrei em um dos meus blocos de anotações.

« Sou um poeta fracassado. Talvez todo romancista deseje escrever antes poesia, verifique que não é capaz, e tente, então, o conto, que é a forma literária que mais exige depois da poesia. E, malogrando nisso, somente então se dedique a escrever romances.»
(…)
« [Como ser um romancista?] Noventa e cinco por cento, talento… Noventa e nove por cento, disciplina… Noventa e nove por cento, trabalho. Não deve jamais ficar satisfeito com o que faz. Jamais a coisa é tão boa como pode ser feita. Sempre sonhe e aspire a mais do que aquilo que sabe que pode fazer. Não se preocupe em ser melhor que seus contemporâneos ou antecessores. Procure ser melhor do que você mesmo. Um artista é uma criatura impelida por demônios. Não sabe por que razão eles o escolheram, e se acha habitualmente demasiado ocupado para perguntar a si próprio por que o fizeram.»
(…)
« A qualidade que um artista deve possuir é objetividade para julgar seu trabalho, além da honestidade e da coragem de não enganar a si próprio a respeito dele.»
(…)
« Um escritor precisa de três coisas — experiência, observação e imaginação — duas das quais e, às vezes, qualquer uma delas, podem suprir a falta das demais. Comigo, em geral, a história começa com uma simples idéia, uma lembrança ou uma imagem mental. A redação da história é simplesmente uma questão de prosseguir até esse momento, explicar por que o fato ocorreu e qual foi a causa que o motivou. Um escritor procura sempre criar criaturas verossímeis, em situações tocantes e críveis, da maneira mais viva que lhe seja possível. Evidentemente, deve ele usar, como uma de suas ferramentas, o ambiente que conhece. Eu diria que a música é o meio mais fácil de expressão, já que chegou primeiro à experiência e à história do homem. Como o meu talento consiste em palavras, devo procurar exprimir canhestramente por meio delas o que a pura música teria feito melhor. Isto é, a música tê-lo-ia exprimido melhor e da maneira mais simples, mas eu prefiro usar palavras, assim como prefiro antes ler que ouvir. Prefiro o silêncio ao som — e a imagem produzida por palavras ocorre em silêncio. Isto é, o trovejar e a música da prosa se processam em silêncio.»
(…)
« O escritor não necessita de liberdade econômica. Necessita apenas de lápis e papel. (…) Se ele não for de primeira classe, engana a si próprio dizendo que não dispõe de tempo ou liberdade econômica. A boa arte pode provir de ladrões, contrabandistas ou bookmakers. As pessoas temem, verdadeiramente, descobrir o quanto de adversidade e pobreza podem suportar. Têm medo de descobrir como são rijas. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode modificá-lo é a morte. Não tem tempo de se preocupar com o êxito ou a obtenção de riqueza. O êxito tem algo de feminino e assemelha-se a uma mulher: se a gente se curvar diante de uma mulher, ela monta na gente. De modo que a maneira de se tratar o êxito é mostrando-lhe o peso de nossa mão. Aí, então, talvez ele se lance a nossos pés.»
(…)
« Que o escritor se dedique à cirurgia ou à profissão de pedreiro, se se interessar pela técnica. Não existe meio mecânico algum para se escrever: nenhum atalho. O jovem escritor seria um tolo se seguisse alguma teoria. A gente aprende pelos seus próprios erros; as pessoas só aprendem errando. O bom artista crê que ninguém é suficientemente bom para dar-lhe conselhos. Possui a suprema vaidade. Não importa quanto admire o escritor antigo, quer suplantá-lo.»
(…)
« O objetivo de todo artista é deter o movimento, que é vida, por meios artificiais, e conservá-lo fixo, de modo que, cem anos depois, quando um estranho o fitar, ele se mova novamente, já que é vida. Como o homem é mortal, a única imortalidade possível para ele é deixar atrás de si algo, que seja imortal, já que sempre se moverá. Essa é a maneira de o artista escrever ‘fulano esteve aqui’ no muro final e irrevogável que ele, algum dia, terá de atravessar.»
Obs.: Retirei os trechos acima de um bloco de anotações meu datado dos anos noventa. É uma tradução, que encontrei na biblioteca da UnB, da entrevista concedida à Paris Review.

« És um rei. Vive só.
Escolhe um caminho livre
E segue por onde te levar tua mente livre;
Aperfeiçoa os frutos das idéias que te são caras,
Sem nada esperar por teus nobres feitos.Em ti estão as recompensas.
De ti és o juiz supremo.
Ninguém, com mais rigor,
Julgará tua obra.Judicioso artista, ¿isso te apraz? »
Quem vc considera o/a escritor(a) brasileiro(a) mais genial? (Esta pergunta ainda está aqui.)
Difícil responder a isso porque não li "todos os escritores brasileiros". Isso até me lembra as conversas com a Hilda Hilst e o Bruno Tolentino na casa dela. Ele adorava discutir sobre literatura e escritores. A Hilda achava um saco. Eu adorava ouvir as opiniões do Bruno, mas, como a Hilda, nunca senti essa ânsia de ler tudo o que faz parte da tradição literária e da produção contemporânea. Vou degustando aos poucos. Selecionando afins. Quando um texto me chateia, não vou até o fim apenas porque falam bem do autor. Não sou um crítico. Leio muito, mas nem tudo o que leio é uma obra literária. Como artista, busco impressões e intuições. E essas não vêm apenas pela literatura.
Mas… sim, tenho meus prediletos: Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Rubem Fonseca, Clarice Lispector, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Jorge de Lima, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Nelson Rodrigues… Só que você pergunta qual o mais "genial". Humm. Sigo o conceito de gênio definido por Oswald Spengler: "a força fecundante do varão que ilumina toda uma época". Ou seja, aquele autor cuja obra influencia toda uma época, que contamina gerações de outros autores. Dos citados, ¿quem teria realizado tal proeza? Com maior intensidade, embora não seja meu predileto, diria que apenas Machado de Assis… Com menor intensidade, todos os demais citados.
Obrigado pela pergunta.
Teria muita coisa para perguntar. Não sei se consigo resumir. Mas, Yuri, porque você não faz um filme inteiramente plástico, belo, lúdico/simbólico e reluzente, para a criança e para o velho? Você é a minha esperança de um cinema inteiramente li… by arilud2
Olha, bem que eu gostaria, mas cinema é um gênero artístico muito caro e, graças à situação político-econômica do Brasil, ninguém aqui consegue poupar dinheiro para investir no que quer que seja. Os impostos são tão escorchantes que todo o dinheiro que poderia ser investido por particulares está, na verdade, nas mãos do Estado. Numa entrevista, Woody Allen afirmou conhecer vários novos ricos, gente que investiu 50.000 dólares no filme dum cineasta iniciante e, no final, faturou 3 ou 4 milhões de dólares apenas em salas dos EUA. Isso não ocorre no Brasil, o pouco que há para investir acaba em setores de menor risco, imóveis ou fundos de renda fixa. Cinema? Mais arriscado que bolsa de valores. Daí esse monte de leis de incentivo que, de modo geral, não me interessam. Se os impostos fossem reduzidos, não haveria necessidade dessas leis. É o governo atrapalhando (tomando dinheiro) para ajudar (dar dinheiro), uma enorme contradição. Afinal, não é obrigação de empresas do ramo de alimentos, pneus, petróleo, etc. bancar o cinema. O negócio deles é outro, não entendem de arte ou entretenimento. Eu ainda pretendo rodar novos curtas e, se Deus quiser, algum longa-metragem — embora não seja mais uma prioridade. Infelizmente, porque é extremamente prazeroso dirigir um filme. Mas o que tenho a dizer pode ser dito através da literatura.
P.S.: Eu ainda pretendo escrever um "Manifesto Cinematográfico para Investidores e Possíveis Novos Empresários do Ramo". Com a distribuição digital, tudo pode mudar. 🙂
Yuri, quando vamos ver um longa-metragem teu? (Esta ainda está aqui.)
Bom, acho que já respondi a uma pergunta semelhante. Há informações relevantes nesses dois links:
http://www.formspring.me/yurivs/q/94893928
http://www.formspring.me/yurivs/q/22542126
No mais, não sei dizer. Os meandros do financiamento público são sujos demais para meu gosto. Fora os obscuros critérios de seleção de projetos, há também todo tipo de máfia. Há uma máfia de captadores (que fazem um verdadeiro loteamento das empresas, tipo "essa é minha, aquela é sua" e tal). Muitas vezes você encontra uma empresa, mas não consegue o dinheiro porque um captador se coloca entre vc e a administração da empresa, exigindo a porcentagem dele. E isso porque ele divide essa grana com gente de dentro da empresa… Entende? Gente escrota, a podridão da Terra. Há ainda uma burocracia estúpida que obriga os realizadores a comprar notas fiscais, uma coisa nojenta, porque, para provar que não estão mentindo, que estão fazendo o filme, são obrigados a mentir, a dizer que tais notas correspondem a esse ou àquele serviço, sendo que, na verdade, é tudo uma grande forçação de barra. E por que isso? Porque exigem prestação de contas antes mesmo de o filme ser rodado! Talvez essas coisas não se apliquem a todos os tipos de leis de incentivo. Mas já me enojei o bastante com as que encarei. Meu último curta-metragem foi feito com dinheiro da produtora onde trabalho.
Assim, minha resposta é: farei um longa-metragem quando tiver meu próprio dinheiro para isso. Ou quando algum louco quiser me bancar. E olha que meu filme não seria uma "artistice", seria entretenimento também. Ou seja: haveria, além da intenção estética, intenção lúdica e intenção de lucro… (Tenho alguns argumentos engavetados.)
(Sim, nessas condições é também possível que nenhum longa-metragem meu venha a ser rodado. Não me importo. A literatura é uma arte mais profunda, polissêmica e… barata. E eu gosto muito de escrever.)
Obrigado pela pergunta.
Qual seria, em tua opinião, a fase mais difícil na produção de um filme? by KosherX (Esta ainda está aqui.)
Sem dúvida, o casting. Encontrar os atores certos para cada personagem costuma demandar tempo e muita paciência. Quando vc sente que finalmente encontrou o ator perfeito para um papel, fica com a sensação de que avançou metade do caminho.
(Nem preciso tocar na questão "dinheiro", claro. Tente encontrar, sem a ajuda de leis de incentivo, alguém que queira investir no seu filme… Praticamente impossível! Graças ao Estado — que, com suas dívidas e a conseqüente maré de impostos, acaba impedindo a formação de poupança na sociedade — ninguém é louco o bastante a ponto de investir, com os riscos inerentes a qualquer empreendimento, num filme.)
Numa resposta aí vc falou que tem uma lista de filmes prediletos. Cadê a lista? (Esta ainda está aqui.)
É minha lista de "filmes prediletos" hospedada no The Internet Movie Database. Ainda preciso acrescentar muitos títulos, já que comecei a elaborá-la de uns dois ou três anos pra cá e, vale dizer, minha década realmente cinéfila foi a década de 1990. Já não tenho aquela fome de filmes, como se algum deles fosse me revelar o segredo da existência. Hoje assisto a filmes por prazer e apenas quando me dá na telha, não porque está todo mundo assistindo.
A lista:
http://www.imdb.com/mymovies/list?l=29341794
O que te deixa de mau humor? by KosherX (Esta pergunta ainda está aqui.)
Algumas observações de François Mauriac sobre a arte de escrever romances:

« Todo romancista deve inventar sua própria técnica, eis aí a verdade. Cada romance digno de tal nome é como outro planeta, quer seja grande ou pequeno, com suas próprias leis, assim como possui sua flora e sua fauna. Assim, a técnica de Faulkner é certamente a melhor para pintar o mundo de Faulkner, sendo que o pesadelo de Kafka criou seus próprios mitos, que o tornam comunicável. Benjamin Constant, Stendhal, Eugène Frometin, Jacques Rivière, Radiguet, todos usavam técnicas diferentes, tomavam liberdades diferentes e impunham a si próprios tarefas diferentes. A obra de arte, em si, quer seu título seja Adolphe, Lucien Leuwen, Dominique, Le Diable au Corps, ou À la Recherche du Temps Perdu, é a solução quanto ao problema da técnica.»
* * *
« Minha opinião não mudou. Creio que meus confrades romancistas mais jovens se acham grandemente preocupados com a técnica. Parecem pensar que um bom romance deve seguir certas normas impostas de fora. Na verdade, porém, tal preocupação os tolhe e embaraça em sua criação. O grande romancista não depende de ninguém, exceto de si próprio. Proust não se assemelhava a nenhum de seus antecessores, e não teve, não poderia ter, quaisquer sucessores. O grande romancista quebra o seu molde; só ele pode usá-lo. Balzac criou o romance “balzaquiano”; seu estilo se adaptava apenas a Balzac. Há um laço estreito entre a originalidade de um romancista em geral e a qualidade pessoal de seu estilo. Um estilo emprestado é um mau estilo. Romancistas americanos, de Faulkner a Hemingway, inventaram um estilo que não pode ser transferido a seus adeptos.»
* * *
«(…) A preocupação com tais questões (qual técnica?) constitui um obstáculo para o romance francês. A crise no romance francês, de que tanta gente fala, será solucionada tão pronto nossos jovens escritores consigam libertar-se da idéia ingênua de que Joyce, Kafka e Faulkner são os detentores das tábuas da lei da técnica da literatura de ficção. Estou convencido de que um homem dotado do temperamento real de romancista transcenderá tais tabus, tais normas imaginárias.»
* * *
« Escrevo sempre que me apraz. Durante um período criador, escrevo todos os dias. Um romance não deve ser interrompido. Quando deixo de ser transportado, quando já não sinto como se estivesse recebendo um ditado, paro.»
* * *
« Sinto que o primeiro dever do escritor é ser ele próprio, aceitar suas limitações. O esforço de auto-expressão deveria afetar sua maneira de expressão.»
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