palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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O Diabo — Valentin Tomberg fala sobre o 15º arcano do Tarô

Le Diable

(…) O “Diabo” da lâmina não evoca idéias que tenham relação com o drama cósmico da queda do “querubim protetor da montanha de Deus” nem do “Dragão antigo” que combate contra o arquiestratego Miguel e seu exército celeste. As idéias que o conjunto da lâmina e sua contextura evocam são, antes, as de escravidão, na qual se encontram as duas personalidades atadas ao pedestal de demônio monstruoso. A lâmina não sugere a metafísica do Mal, e sim a lição eminentemente prática, a saber, como pode ser que certos seres pervertam sua liberdade ao ponto de se tornarem escravos de um ser monstruoso, que os faz degenerar-se, tornando-os semelhantes a si mesmo.

O tema do décimo quinto arcano do Tarô é o da geração dos demônios e do poder que eles têm sobre seus geradores. É o Arcano da criação dos seres artificiais e da escravidão na qual o criador pode cair diante de sua criatura.

Para se compreender esse Arcano, é necessário, antes, considerar que o mundo do Mal é constituído não só dos seres das hierarquias celestes (com exceção dos Serafins) decaídas, mas também dos seres que, pela origem, não são hierárquicos, isto é, dos seres que, à semelhança dos bacilos, dos micróbios e dos vírus das doenças infecciosas, não devem sua origem, segundo os termos da filosofia escolástica, nem à Causa primeira, nem às causas segundas, mas às causas terceiras, as do arbítrio abusivo das criaturas autônomas. Há, pois, hierarquias “do lado esquerdo”, que estão e agem no quadro da Lei, executando funções de estrita justiça, na qualidade de acusadores, ou encarregadas de pôr o justo à prova, mas há, por outro lado, “micróbios do mal” ou seres criados artificialmente pela humanidade encarnada. Esses últimos são demônios cuja alma é paixão especial e cujo corpo é o conjunto das vibrações “eletromagnéticas” produzidas por essa paixão. Os demônios artificiais podem ser gerados por coletividades humanas como o foram muitos “deuses” monstruosos fenícios, mexicanos e até tibetanos de nossos dias. O Moloc cananeu, que exigia sacrifícios sangrentos de prisioneiros, mencionado muitas vezes na Bíblia, não é um ser hierárquico, do Bem ou do Mal, mas um egregório mau, isto é, um demônio criado artificial e coletivamente por comunidades humanas dominadas pelo arrepio do pavor. O mesmo vale para o Quatzacoatl do México.

Quanto ao Tibete, encontramos o fenômeno singular da prática — “quase científica” — da criação e destruição dos demônios. Parece que no Tibete o Arcano do qual nos ocupamos é conhecido e praticado como um dos métodos de treinamento oculto da vontade e da imaginação. Esse treinamento abrange três etapas: a criação das tulpas (criaturas mágicas) pela imaginação concentrada e dirigida, a sua evocação e a libertação de seu poder pelo ato de conhecimento, que as destrói, fazendo com que se tome consciência de que elas não são mais do que uma criação da imaginação e, portanto, uma ilusão. A finalidade desse treinamento é, pois, chegar à incredulidade a respeito dos demônios, depois de os ter criado pela força da imaginação e de ter enfrentado com intrepidez suas aparições terrificantes.

Eis o que diz sobre isso Alexandra David-Neel, que fala com conhecimento de causa:

“Interroguei vários lamas (a respeito da incredulidade). Às vezes, disse-me um deles — um gechê (filósofo) de Dirdi constata-se essa incredulidade. Ela pode ser considerada como uma das metas visadas pelos mestres místicos, mas, se o discípulo a atinge antes do tempo útil, priva-se dos frutos da parte do treinamento destinada a torná-lo intrépido.

Os mestres místicos, acrescentou ele, não aprovariam o noviço que professasse uma incredulidade simplista, porque ela é contrária à verdade.

O discípulo deve compreender que deuses e demônios existem realmente só para aqueles que crêem na sua existência, e que podem fazer bem ou mal somente àqueles que lhes prestam culto ou que os temem. Muito raros, aliás, são aqueles que chegam à incredulidade durante a primeira parte de seu treinamento espiritual. A maior parte dos noviços vêem realmente aparições terrificantes…

“Tive ocasião de conversar com um eremita de Gã (Tibete oriental), chamado Kuchog Wantchén, sobre casos de morte súbita durante as evocações de espíritos malfazejos. Esse lama não parecia propriamente inclinado à superstição, e pensei que fosse aprovar-me quando eu lhe disse:

“‘Aqueles que morreram, morreram de medo. As suas visões eram objetivações de seus pensamentos. Quem não acredita nos demônios jamais será morto por eles.’

“Para grande espanto meu, o anacoreta replicou num tom singular: ‘Em sua opinião, é suficiente também não crer na existência dos tigres para se estar certo de não ser devorado por um deles, quando se passa ao seu alcance’. E continuou: ‘Realize-se ela consciente ou inconscientemente, a objetivação das formações mentais é processo muito misterioso. Em que vão dar essas criações? Não será possível que, como os filhos nascidos de nossa carne, esses filhos de nosso espírito escapem ao nosso controle e venham, com o tempo ou imediatamente, a viver uma vida própria? Não devemos considerar ainda que, se podemos gerá-los, outros também o podem, e que, se tais tulpas (criaturas mágicas) existem, será extraordinário que entremos em contato com elas, seja pela vontade de seus criadores, seja porque nossos pensamentos e nossos atos produzem as condições requeridas para que esses seres manifestem sua presença e sua atividade?… É necessário que saibamos defender-nos dos tigres dos quais somos pais e também daqueles que foram gerados por outros’.” (Mystiques et magiciens du Thibet, Librarie Plon, pp.130-132).

Esse é o pensamento dos mestres tibetanos da magia criadora de demônios. Eliphas Levi, mestre magista francês, tem opinião semelhante:

A magia criadora do demônio, essa magia que ditou o Formulário de feitiçaria do papa Honório, o Enchiridion de Leão III, os exorcismos do Ritual, as sentenças dos inquisidores, os requisitórios de Laubardemont, os artigos dos Srs. Irmãos Veuillot, os livros dos Srs. de Faloux, de Montalembert, de Mirville, a magia dos feiticeiros e dos devotos que não o são, tudo isso é coisa verdadeiramente condenável em uns e infinitamente deplorável em outros. Foi principalmente para combater, revelando-as, essas tristes aberrações do espírito humano que publicamos esse livro. Possa ele servir ao sucesso dessa obra santa!” (Ritual, cap. XV).

O próprio homem é o criador de seu céu e de seu inferno, e não existem demônios, mas nossas loucuras. Os espíritos que a verdade castiga são corrigidos pelo castigo e não pensam mais em perturbar o mundo.” (Dogma, cap. XXII).

Apoiado em sua experiência, Eliphas Levi não via nos demônios tais como os íncubos e os súcubos, nos mestres Léonards presidindo os sábados e nos demônios possessos senão criações da imaginação e da vontade humanas, que projetam, individual ou coletivamente, seu conteúdo na substância plástica da “luz astral”; assim os demônios da Europa foram gerados exatamente do mesmo modo que as “tulpas” tibetanas!

A arte e o método de “fazer ídolos”, proibidos pelo primeiro mandamento do Decálogo, são antigos e universais. Parece que em todos os tempos e em toda parte foram gerados demônios.

Eliphas Levi e os mestres tibetanos estão de acordo não só no que concerne à origem subjetiva e psicológica dos demônios, mas também quanto à sua existência objetiva. Gerados subjetivamente, eles se tornam forças independentes da subjetividade que os gerou. Em outros termos, eles são criações mágicas, porque a magia é a objetivação  daquilo que se origina na subjetividade. Os demônios que não chegaram ao estádio de objetivação, isto é, da existência separada da vida psíquica de seu genitor, têm existência semi-autônoma, que a psicologia moderna chama “complexos” psicológicos, e que C. G. Jung considera como seres parasitas, que estão para o organismo psíquico como o câncer, por exemplo, está para o organismo físico. O “complexo” psicopatológico é, pois, um demônio em estado de gestação — não vindo de fora, mas gerado pelo próprio paciente —: ele ainda não nasceu, mas tem vida quase autônoma, alimentada pela vida psíquica de seu pai.

C. G. Jung diz a este respeito:

(O complexo) parece ser processo autônomo que se impõe à consciência. É como se o complexo fosse um ser autônomo capaz de interferir nas intenções do ego. Com efeito, os complexos se comportam como pessoas secundárias ou parciais que têm vida mental própria.” (Psychology and Religion, três conferências na Universidade de Yale, EUA, 1950, pp.13 e 14).

“Um ser autônomo capaz de interferir nas intenções do ego” e “que tem vida mental própria” não é senão o que entendemos por “demônio”.

O “demônio-complexo”, é verdade, não age ainda fora da vida psíquica do indivíduo, não tendo o direito de cidadania na comunidade variegada e fantástica das “tulpas” ou demônios objetivos, que podem, às vezes — como nos casos de santo Antão, o Grande, e do santo cura d’Ars — afligir com golpes bem reais as vítimas de seus assaltos. O ruído desses assaltos, que todos ouvem, e as marcas roxas nos corpos das vítimas, que todos vêem, não se incluem mais na psicologia pura e simples, mas já são fato objetivo.

Como, então, são gerados os demônios?

Como toda geração, também a dos demônios é resultado do concurso dos princípios masculino e feminino, isto é, no caso da geração pela vida psíquica de um indivíduo, é o resultado do concurso da vontade e da imaginação. Um desejo perverso ou contrário à natureza seguido da imaginação correspondente constituem juntos o ato de geração de um demônio.

As duas personagens, uma, masculina, a outra, feminina, atadas ao pedestal da personagem central da lâmina do décimo quinto Arcano, o demônio, não são, pois, filhos ou criaturas da personagem central, como seríamos tentados a pensar, dada sua pequena estatura em relação à do demônio. Ao contrário, elas é que são os pais do demônio, mas se tornaram escravos de sua criatura. Eles representam a vontade perversa e a imaginação contrária à natureza, as quais deram origem ao demônio andrógino, isto é, a um ser dotado do desejo e da imaginação que dominam as forças que o geraram.

No caso da geração efetuada coletivamente, o demônio — que então se chama “egregório” — é produto da vontade e da imaginação coletivas. O nascimento de tal “egregório” moderno nos é conhecido:

“Um espectro ronda a Europa — o espectro do comunismo” — é a primeira frase do “Manifesto Comunista” de Karl Marx e Friedrich Engels, de 1848. “Todos os poderes da velha Europa, o Papa, e o Czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os agentes da polícia alemã, se aliaram para uma santa caçada a esse espectro”, prossegue o “Manifesto”.

Entretanto — acrescentamos nós — o espectro crescia em estatura e poder, gerado pela vontade das massas, nascido do desespero da “revolução industrial” na Europa, alimentado pelo ressentimento acumulado nas massas durante gerações, munido de intelectualismo fictício, que é a dialética de Hegel tomada em sentido contrário; esse espectro crescia, continuando a rondar a Europa e, depois, outros continentes… Hoje um terço da humanidade tende a se inclinar diante desse deus e a obedecer a ele.

O que acabo de dizer sobre a geração do egregório moderno mais imponente está em perfeito acordo com o próprio ensinamento marxista. Porque, para o marxismo, não há Deus nem deuses; só há “demônios”, isto é, criaturas da vontade e da imaginação humanas. É a doutrina fundamental, chamada “superestrutura ideológica”. É o interesse econômico — isto é, a vontade — que cria — isto é, imagina — ideologias: religiosas, filosóficas, sociais e políticas. Para o marxismo, todas as religiões são, pois, “superestruturas”, isto é, formações produzidas pela vontade e pela imaginação humanas. O próprio marxismo-leninismo é superestrutura ideológica, produto da imaginação intelectual, baseado na vontade de ordenar ou de pôr em ordem as coisas sociais, políticas e culturais. Esse método de produção de superestruturas ideológicas sobre a base da vontade é precisamente o que entendemos por “geração coletiva de um demônio ou de um egregório”.

Ora, há o Verbo e há egregórios diante dos quais a humanidade se inclina: a revelação da verdade divina e a manifestação da vontade humana, o culto a Deus e o dos ídolos feitos pelo homem. Não é um diagnóstico e um prognóstico da história do gênero humano, se nos lembrarmos de que, enquanto Moisés recebia a revelação do Verbo no alto da montanha, embaixo o povo fez e adorou o Bezerro de ouro? O Verbo e os Ídolos, a verdade revelada e as “superestruturas ideológicas” da vontade humana agem simultaneamente na história do gênero humano. Houve um só século no qual os servos do Verbo não se tenham defrontado com os adoradores dos ídolos, dos egregórios?

A décima quinta lâmina do Tarô contém advertência importante para todos os que tomam a sério a magia: ela lhes ensina o arcano mágico da geração dos demônios e do poder que eles têm sobre aqueles que os geraram.

Nós, que tivemos a experiência de dois demônios gerados pela vontade coletiva, um por uma vontade coletiva movida pela ambição nacional e servindo-se de poderosas forças imaginativas, baseadas nos recursos biológicos, o demônio ou egregório nacional-socialista, e o outro demônio ou egregório do qual falamos acima, nós sabemos quão terrível é o poder que reside em nossa vontade e me nossa imaginação e quão grande é a responsabilidade que ela traz para aqueles que a desencadeiam no mundo! Quem semeia vento, colhe tempestade! E que tempestade!

Nós, do século XX, sabemos que as “grandes pestes” de nossos dias são os “egregórios” das “superestruturas ideológicas”, os quais custaram à humanidade mais vidas e mais sofrimentos do que as grandes epidemias da Idade Média.

Sabendo isso, não é tempo de dizermos a nós mesmos: Calemo-nos? Façamos calar-se nossa vontade e nossa imaginação arbitrárias e imponhamos-lhes a disciplina do silêncio. Não é esse um dos quatro mandamentos tradicionais do Hermetismo, a saber: ousar, querer, saber e calar-se? Calar-se é mais do que guardar segredo, mais mesmo do que não profanar as coisas sagradas, às quais é devido silêncio respeitoso. Calar-se é principalmente o grande mandamento mágico de não gerar demônios pela vontade e pela imaginação arbitrárias. O silêncio da vontade e da imaginação arbitrária é dever.

Contentemo-nos, pois, com o Trabalho, com as contribuições construtivas à tradição, seja ela espiritual, cristã, hermética ou científica. Aprofundemo-la, estudemo-la, pratiquemo-la, cultivemo-la, isto é, trabalhemos não para destruir, e sim para edificar. Coloquemo-nos entre os construtores da grande Catedral da Tradição espiritual da humanidade. Que as Sagradas Escrituras sejam santas para nós, que os sacramentos sejam sacramentos para nós, que a hierarquia da autoridade espiritual seja hierarquia da autoridade para nós e que a “filosofia perene” e a ciência verdadeiramente científica do passado e do presente encontrem em nós amigos e, sendo o caso, colaboradores respeitosos.

Eis o que comporta o mandamento de calar-se, de não gerar demônios.

É sempre o excesso devido à embriaguez da vontade e da imaginação que gera demônios.(…)

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Trecho de Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô, de Valentin Tomberg, com Apresentação de Hans Urs von Balthasar

Otto Maria Carpeaux: Literatura, a “expressão total da natureza humana”

Otto Maria Carpeaux

“O que, da parte do autor, entra na obra, não é a situação real, mas só a emoção, nascida da situação. Nasce uma obra de arte se o autor chega a transformar a emoção em símbolo; se não, ele só consegue uma alegoria. A alegoria é compreensível ao raciocínio do leitor, sem sugerir a emoção, essa emoção simbólica, a que Croce chama o ‘lirismo’ da obra. A forma desse lirismo é o símbolo. O símbolo fala-nos, não ao nosso intelecto, mas a toda a nossa personalidade. O símbolo exprime o que nós outros sentíamos também sem poder exprimir. A expressão simbólica é o privilégio do poeta. Tanto mais durável é a sua obra quanto mais universal é o símbolo. Há símbolos que refletem a situação humana inteira.”

(…)

“…como expressão total da natureza humana é que a literatura aparece no mundo e nessa função é que não pode ser substituída por coisa alguma.”

Otto Maria Carpeaux, citado por Ronaldo Costa Fernandes na apresentação ao ebook “História da Literatura Ocidental” (Carpeaux).

Milton Friedman fala sobre o governo e a liberdade

miltonfriedman

« Há uma frase muito citada do discurso de posse do Presidente Kennedy: "Não pergunte o que sua pátria pode fazer por você – pergunte o que você pode fazer por sua pátria". Constitui uma clara indicação da atitude dos tempos que correm, que a controvérsia sobre esta frase se tenha focalizado sobre sua origem, e não sobre seu conteúdo. Nenhuma das duas metades da declaração expressa uma relação entre cidadãos e seu governo que seja digna dos ideais de homens livres numa sociedade livre. A frase paternalista "o que sua pátria pode fazer por você" implica que o governo é o protetor, e o cidadão, o tutelado – uma visão que contraria a crença do homem livre em sua própria responsabilidade com relação a seu próprio destino. A frase organicista "o que você pode fazer por sua pátria" implica que o governo é o senhor ou a deidade, e o cidadão, o servo ou o adorador. Para o homem livre, a pátria é o conjunto de indivíduos que a compõem, e não algo acima e além deles. O indivíduo tem orgulho de sua herança comum e mantém lealdade a uma tradição comum. Mas considera o governo como um meio, um instrumento – nem um distribuidor de favores e doações nem um senhor ou um deus para ser cegamente servido e idolatrado. Não reconhece qualquer objetivo nacional senão o conjunto de objetivos a que os cidadãos servem separadamente. Não reconhece nenhum propósito nacional a não ser o conjunto de propósitos pêlos quais os cidadãos lutam separadamente.

« O homem livre não perguntará o que sua pátria pode fazer por ele ou o que pode ele fazer por sua pátria. Perguntará de preferência: "o que eu e meus compatriotas podemos fazer por meio do governo" para ajudar cada um de nós a tomar suas responsabilidades, a alcançar nossos propósitos e objetivos diversos e, acima de tudo, a proteger nossa liberdade? E acrescentará outra pergunta a esta: "o que devemos fazer para impedir que o governo, que criamos, se torne um Frankenstein e venha a destruir justamente a liberdade para cuja proteção nós o estabelecemos?" A liberdade é uma planta rara e delicada. Nossas próprias observações indicam, e a história confirma, que a grande ameaça à liberdade está constituída pela concentração do poder. O governo é necessário para preservar nossa liberdade, é um instrumento por meio do qual podemos exercer nossa liberdade; entretanto, pelo fato de concentrar poder em mãos políticas, ele é também uma ameaça à liberdade. Mesmo se os homens que controlam esse poder estejam, inicialmente, repletos de boa vontade e mesmo que não venham a ser corrompidos pelo poder, este formará e atrairá homens de tipos diferentes. Como nos podemos beneficiar das vantagens de ter um governo e, ao mesmo tempo, evitar a ameaça à liberdade? Dois grandes princípios apresentados em nossa Constituição nos dão a resposta que foi capaz de preservar nossa liberdade até agora – embora tenham sido violados, repetidamente na prática, enquanto proclamados como preceitos.

« Primeiro, o objetivo do governo deve ser limitado. Sua principal função deve ser a de proteger nossa liberdade contra os inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas; preservar a lei e a ordem; reforçar os contratos privados; promover mercados competitivos. Além desta função principal, o governo pode, algumas vezes, nos levar a fazer em conjunto o que seria mais difícil ou dispendioso fazer separadamente. Entretanto, qualquer ação do governo nesse sentido representa um perigo. Nós não devemos nem podemos evitar usar o governo nesse sentido. Mas é preciso que exista uma boa e clara quantidade de vantagens, antes que o façamos. E contando principalmente com a cooperação voluntária e a empresa privada, tanto nas atividades econômicas quanto em outras, que podemos constituir o setor privado em limite para o poder do governo e uma proteção efetiva à nossa liberdade de palavra, de religião e de pensamento.

« O segundo grande princípio reza que o poder do governo deve ser distribuído. Se o governo deve exercer poder, é melhor que seja no condado do que no estado; e melhor no estado do que em Washington. Se eu não gostar do que a minha comunidade faz em termos de organização escolar ou habitacional, posso mudar para outra e, embora muito poucos possam tomar esta iniciativa, a possibilidade como tal já constitui um controle. Se não gostar do que faz o meu estado, posso mudar-me para outro. Se não gostar do que Washington impõe, tenho muito poucas alternativas neste mundo de nações ciumentas.

« A grande dificuldade de evitar o fortalecimento do Governo Federal é, sem dúvida alguma, a atração da centralização para muitos de seus proponentes. Isto lhes permitirá, acham eles, legislar de modo mais efetivo determinados programas que – é assim que imaginam – são do interesse do público, quer se trate de transferência da renda do rico para o pobre ou de objetivos privados para os governamentais. Eles têm razão num sentido. Mas a moeda tem duas faces. O poder para fazer coisas certas é também poder para fazer coisas erradas; os que controlam o poder hoje podem não ser os mesmos de amanhã; e, ainda mais importante, o que um indivíduo considera bom pode ser considerado mau por outro. A grande tragédia do entusiasmo pela centralização, bem como do entusiasmo pela expansão dos objetivos do governo em geral, é que envolve homens de boa vontade que serão os primeiros a sofrer suas conseqüências negativas.

« A preservação da liberdade é a principal razão para a limitação e descentralização do poder do governo. Mas há também uma razão construtiva. Os grandes avanços da civilização – quer na arquitetura ou na pintura, quer na ciência ou na literatura, quer na indústria ou na agricultura – nunca vieram de governos centralizados. Colombo não resolveu tentar uma nova rota para a China em conseqüência de uma resolução da maioria de um parlamento, embora tenha sido financiado em parte por um monarca absoluto. Newton e Leibniz; Einstein e Bohr; Shakespeare, Milton e Pasternak; Whitney, McCornick, Edison e Ford; Jane Adams, Florence Nightingale e Albert Schweitzer; nenhum deles abriu novas fronteiras para o conhecimento ou a compreensão humana, na literatura, na técnica, no cuidado com o sofrimento humano, em resposta a diretivas governamentais. Seus feitos constituíram o produto de seu gênio individual, de um ponto de vista minoritário corajosamente mantido, de um clima social que permitia a variedade e a diversidade.

« O governo não poderá jamais imitar a variedade e a diversidade da ação humana. A qualquer momento, por meio da imposição de padrões uniformes de habitação, nutrição ou vestuário, o governo poderá sem dúvida alguma melhorar o nível de vida de muitos indivíduos; por meio da imposição de padrões uniformes de organização escolar, construção de estradas ou assistência sanitária, o governo central poderá sem dúvida alguma melhorar o nível de desempenho em inúmeras áreas locais, e, talvez, na maior parte das comunidades. Mas, durante o processo, o governo substituirá progresso por estagnação e colocará a mediocridade uniforme em lugar da variedade essencial para a experimentação que pode trazer os atrasados do amanhã por cima da média de hoje.

« Este livro discute algumas dessas importantes questões. Seu tema principal é o papel do capitalismo competitivo – a organização da maior parte da atividade econômica por meio da empresa privada operando num mercado livre – como um sistema de liberdade econômica e condição necessária à liberdade política. Seu tema secundário é o papel que o governo deve desempenhar numa sociedade dedicada à liberdade e contando principal mente com o mercado para organizar sua atividade econômica.»

Trecho da introdução ao livro Capitalismo e Liberdade, de Milton Friedman

Por que Jesus ensinava através de parábolas?

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(1688.3) 151:1.1 Naquela época, e pela primeira vez, Jesus começara a utilizar o método da parábola, para ensinar às multidões que tão freqüentemente se ajuntavam em volta dele. Posto que Jesus havia conversado com os apóstolos, e com outros, até tarde da noite, nesse domingo pela manhã pouquíssimos do grupo estavam de pé para o desjejum; assim, ele foi para a beira-mar e assentou-se a sós no barco, o velho barco de pesca de André e Pedro, que permanecia sempre à disposição dele; e então Jesus pôde meditar sobre o próximo passo a ser dado na obra de expandir o Reino. Todavia, o Mestre não ficou só por muito tempo. Logo, o povo de Cafarnaum e das aldeias próximas começou a chegar e, às dez horas, naquela manhã, quase mil pessoas se viram reunidas, na praia, perto do barco de Jesus, e clamavam pela atenção dele. Pedro, que agora já estava de pé, chegando ao barco, disse a Jesus: “Mestre, devo falar a eles?” E Jesus respondeu: “Não, Pedro, eu vou contar-lhes uma história”. E Jesus então começou a contar a parábola do semeador, uma das primeiras de uma longa série de parábolas com as quais ele ensinou às multidões que o seguiam. Esse barco tinha um assento elevado, no qual ele assentou-se (pois era costume ficar assentado, enquanto se ensinava) para falar às pessoas reunidas ao longo da praia. Pedro falou umas poucas palavras e em seguida Jesus disse:

(1688.4) 151:1.2 “Um semeador saiu para semear, e aconteceu que, ao semear, algumas sementes caíram à beira do caminho, onde seriam pisadas ou devoradas pelos pássaros do céu. Outras sementes caíram em locais rochosos, onde havia pouca terra, e brotaram imediatamente, dada a pouca profundidade no solo; todavia o sol veio logo e elas murcharam, pois não possuíam raízes com as quais absorver a umidade. Outras sementes caíram entre os espinhos e, quando os espinhos cresceram, ficaram estranguladas, de modo a nada produzirem. Outras sementes, ainda, caíram em solo bom e, crescendo, produziram trinta grãos, algumas outras, sessenta, e outras, cem grãos”. E, quando Jesus terminou de contar essa parábola, disse à multidão: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça”.

(1689.1) 151:1.3 Os apóstolos e aqueles que estavam junto, quando ouviram Jesus ensinando ao povo daquele modo, ficaram bastante perplexos; e, depois de muito conversarem, entre si, naquela noite, no jardim de Zebedeu, Mateus disse a Jesus: “Mestre, qual é o significado das palavras obscuras que tu apresentaste à multidão? Por que falas por meio de parábolas àqueles que buscam a verdade?” E Jesus respondeu:

(1689.2) 151:1.4 “Eu vos tenho instruído com paciência durante todo esse tempo. A vós vos é dado conhecer os mistérios do Reino do céu, mas, para a multidão, que não sabe discernir, e, para aqueles que buscam a nossa destruição, de agora em diante, os mistérios do Reino serão apresentados em parábolas. Assim nós faremos para que aqueles que realmente desejem entrar no Reino possam discernir o significado do ensinamento e dessa forma encontrar a salvação; ao passo que aqueles que nos estiverem escutando, apenas para nos pegar de surpresa, acabarão ficando mais confundidos, pois verão sem nada ver e ouvirão sem nada ouvir. Meus filhos, não conheceis a lei do espírito a qual decreta que, àquele que tem, será dado, de um tal modo que ele terá em abundância; mas, àquele que não tem, será tomado até mesmo o que ele tem. Por isso, de agora em diante, eu falarei muita coisa ao povo, por meio de parábolas, para que os nossos amigos e aqueles que desejarem saber a verdade possam encontrar o que procuram, enquanto os nossos inimigos e aqueles que não amam a verdade possam ouvir sem entender. Muitos, dessa gente, não estão no caminho da verdade. O profeta de fato descreveu todas essas almas sem discernimento, quando ele disse: ‘Pois o coração desse povo tornou-se fechado e duro, e os seus ouvidos, embotados, e não escutam, e os seus olhos, eles os fecharam para não ver a verdade e para não a compreender nos seus corações”.

(1689.3) 151:1.5 Os apóstolos não entenderam totalmente o significado das palavras do Mestre. Enquanto André e Tomé conversavam mais com Jesus, Pedro e os outros apóstolos retiraram-se para uma outra parte do jardim, onde iniciaram uma discussão verdadeira e prolongada.

2. A Interpretação da Parábola

(1689.4) 151:2.1 Pedro e o grupo à sua volta chegaram à conclusão de que a parábola do semeador era uma alegoria, e que cada aspecto possuía um sentido oculto e, sendo assim, decidiram ir a Jesus e pedir uma explicação. E, desse modo, Pedro aproximou-se do Mestre, dizendo: “Nós não somos capazes de penetrar no significado dessa parábola, e, estamos desejando que tu a expliques para nós, já que disseste que a nós nos é dado conhecer os mistérios do Reino”. E, depois de ter ouvido isso, Jesus disse a Pedro: “Meu filho, não desejo esconder nada de ti, mas, primeiro, que tal se disseres a mim sobre o que acabastes de conversar; qual a tua interpretação da parábola?”

(1689.5) 151:2.2 Após um momento de silêncio, Pedro disse: “Mestre, nós falamos muito a respeito da parábola, e a interpretação pela qual eu optei é a seguinte: O semeador é o pregador do evangelho; a semente é a palavra de Deus. A semente, que cai à beira do caminho, representa aqueles que não compreendem o ensinamento do evangelho. Os pássaros, apanhando as sementes que caem no chão endurecido, representam Satã, ou o maligno, que rouba aquilo que foi semeado nos corações dos ignorantes. A semente que caiu nos locais rochosos e que brotam muito subitamente representam aquelas pessoas superficiais e irreflexivas que, ao ouvirem as boas-novas, recebem a mensagem com júbilo mas, como a verdade não tem nenhuma raiz real no seu entendimento mais profundo, a sua devoção tem vida curta diante da atribulação e da perseguição. Quando chegam as dificuldades, esses crentes tropeçam, e sucumbem quando tentados. A semente que caiu entre os espinhos representa todos aqueles que ouvem a palavra com boa vontade, mas permitem que as preocupações do mundo e a natureza enganadora das riquezas asfixiem o mundo da verdade, de tal modo que as verdades se tornam infrutíferas. Agora, as sementes que caíram no bom solo, e que cresceram, até darem, algumas trinta, outras sessenta e outras até cem grãos, representam aqueles que, após haverem ouvido a verdade, recebem-na em vários níveis de entendimento — devido aos seus dons intelectuais diferentes — e, por isso, manifestam esses vários graus de experiência religiosa”.

(1690.1) 151:2.3 Após haver ouvido a interpretação de Pedro, para a parábola, Jesus perguntou aos outros apóstolos se eles também possuíam sugestões a oferecer. A esse convite apenas Natanael respondeu. Disse ele: “Mestre, ainda que eu reconheça muitas coisas boas na interpretação que Simão Pedro dá à parábola, não concordo totalmente com ele. A minha idéia sobre essa parábola seria: A semente representando o evangelho do Reino, enquanto o semeador significando os mensageiros do Reino. A semente que caiu à margem do caminho, na parte endurecida do solo, representa aqueles que não ouviram senão pouco do evangelho e, também, aqueles que são indiferentes à mensagem e endureceram os seus corações. Os pássaros do céu, que levam as sementes caídas. à beira do caminho, representam os hábitos da nossa vida, a tentação do mal e os desejos da carne. A semente caída na rocha representa aquelas almas emocionais que são rápidas para receber os ensinamentos novos, mas também são igualmente rápidas para desistir da verdade, quando enfrentam as dificuldades e realidades para viver de acordo com essa verdade, a elas faltando a percepção espiritual. A semente, que caiu entre os espinhos, representa os que são atraídos para as verdades do evangelho; eles têm a intenção de seguir os ensinamentos, mas são impedidos pelo orgulho da vida, o ciúme, a inveja e as ansiedades da existência humana. A semente que caiu em bom solo, e cresceu até dar, algumas trinta, algumas sessenta e outras até cem grãos, representa os graus de capacidade natural e variável para compreender a verdade e responder aos seus ensinamentos espirituais, que têm os homens e as mulheres, pois possuem dons diferentes de iluminação de espírito”.

(1690.2) 151:2.4 Quando Natanael terminou de falar, os apóstolos e os seus companheiros entraram em uma discussão séria e mesmo em um debate profundo, alguns sustentando a correção da interpretação de Pedro; e um número quase igual deles tentava defender a explicação de Natanael para a parábola. Nesse ínterim, Pedro e Natanael haviam-se retirado para a casa, onde se envolveram em um esforço vigoroso e determinado para convencer e mudar a idéia, um ao outro.

(1690.3) 151:2.5 O Mestre permitiu que essa confusão ultrapassasse o limite da sua expressão mais intensa; após o que ele bateu com as palmas das mãos a fim de chamá- los para perto de si. Quando eles estavam todos reunidos à sua volta, uma vez mais, disse: “Antes de falar-vos sobre essa parábola, algum de vós tem qualquer coisa a dizer?” Depois de um momento de silêncio, Tomé falou: “Sim, Mestre, gostaria de dizer umas poucas palavras. Lembro-me de que tu nos aconselhaste, certa vez, para tomarmos cuidado exatamente com isso. Ensinaste-nos que, quando usássemos exemplos nas nossas pregações, deveríamos empregar histórias verdadeiras, não fábulas, e que deveríamos escolher a história que melhor se adequasse como exemplo da verdade central e vital, a qual gostaríamos de ensinar ao povo; e que, havendo usado a história, não deveríamos tentar dar um emprego espiritual a todos os detalhes menores envolvidos na narrativa da história. Eu sustento que Pedro e Natanael estão ambos errados nas suas tentativas de interpretar essa parábola. Admiro a capacidade deles para essas coisas, mas estou igualmente seguro de que todas as tentativas, como essas, de fazer uma parábola natural produzir analogias espirituais, em todos os seus aspectos, pode apenas resultar em confusão e em erros sérios de concepção, sobre o verdadeiro propósito da parábola. E, plenamente provado que eu devo estar certo, está, pelo fato de que, se há uma hora atrás comungávamos de um só pensamento, agora estamos divididos em dois grupos separados que sustentam opiniões diferentes a respeito dessa parábola e que mantêm tais opiniões tão sinceramente a ponto de até interferir, na minha opinião, com a capacidade de compreender plenamente a grande verdade que tu tinhas em mente, quando apresentaste essa parábola à multidão e quando posteriormente nos pediste para tecer comentários sobre ela”.

(1691.1) 151:2.6 As palavras ditas por Tomé tiveram o efeito de acalmar a todos. Ele levou-os a lembrarem-se do que Jesus lhes tinha ensinado em ocasiões anteriores e, antes que Jesus continuasse a falar, André ergueu-se e disse: “Estou persuadido de que Tomé está certo; e gostaria que ele nos contasse qual significado ele atribui à parábola do semeador”. Depois que Jesus acenou para Tomé falar, ele disse: “Meus irmãos, eu não gostaria de prolongar essa discussão, mas, se assim o desejardes, direi que penso que essa parábola foi contada para ensinar-nos uma grande verdade. E esta é a de que nossos ensinamentos sobre o evangelho do Reino, não importa quão fiel e eficientemente executemos as nossas missões divinas, serão acompanhados por vários níveis de êxito; e que todas essas diferenças, nos resultados, são devidas diretamente às condições inerentes às circunstâncias da nossa ministração, condições sobre as quais temos pouco ou nenhum controle”.

(1691.2) 151:2.7 Quando Tomé acabou de falar, a maioria dos seus companheiros pregadores estava pronta para concordar com ele e, Pedro e Natanael estavam mesmo, por sua vez, prontos a dirigir-se a ele, quando Jesus levantou-se e disse: “Muito bem, Tomé; tu discerniste bem o verdadeiro significado das parábolas; mas Pedro e Natanael, ambos, fizeram a vós todos um bem igual, pois eles mostraram plenamente o perigo de se tentar fazer uma alegoria das minhas parábolas. Nos vossos próprios corações, podeis muitas vezes, com proveito, fazer tais vôos de conjectura imaginativa, mas vós cometereis um erro sempre que buscardes oferecer conclusões como uma parte do vosso ensinamento público”.

(1691.3) 151:2.8 Agora, uma vez passada a tensão, Pedro e Natanael congratulavam-se um com o outro pelas suas interpretações e, à exceção dos gêmeos Alfeus, cada um dos apóstolos aventurava-se a fazer uma interpretação da parábola do semeador antes de retirar-se para dormir. Até mesmo Judas Iscariotes ofereceu uma interpretação bastante plausível. Freqüentemente, entre si próprios, os doze iriam tentar imaginar as parábolas do Mestre, como haviam feito, por meio de uma alegoria, mas, nunca mais, eles levariam essas especulações a sério. Essa foi uma sessão bastante proveitosa para os apóstolos e para seus colaboradores, especialmente porque, desde então, e cada vez mais, Jesus empregou parábolas no seu ensinamento público.

3. Mais a Respeito das Parábolas

(1691.4) 151:3.1 A mente dos apóstolos adaptava-se bem às parábolas; tanto assim, que toda a noite seguinte foi dedicada a mais uma discussão sobre as parábolas. Jesus iniciou a conferência da noite dizendo: “Meus amados, vós deveis sempre amoldar os vossos modos de ensinar, adequando assim a vossa apresentação da verdade às mentes e aos corações que estão diante de vós. Quando estiverdes diante de uma multidão de intelectos e de temperamentos vários, vós não podereis falar palavras diferentes para cada tipo de ouvinte, mas podeis contar uma história que passe o vosso ensinamento; e cada grupo, cada indivíduo mesmo, será capaz de dar a sua própria interpretação à vossa parábola, de acordo com os próprios dons intelectuais e espirituais. Deveis deixar a vossa luz brilhar, mas o façais com sabedoria e discrição. Nenhum homem, quando acende uma lâmpada, cobre-a com um vaso ou põe-na debaixo da cama; ele põe a sua lâmpada sobre um pedestal, onde todos possam ver a luz. No Reino do céu, permiti que eu vos diga, nada que, estando escondido, deixará de tornar-se manifestado; nem há segredo algum que não se fará afinal conhecido. Finalmente, todas as coisas virão à luz. Não penseis apenas nas multidões, e em como elas ouvem a verdade; prestai atenção também em vós próprios, em como escutais. Lembrai-vos do que eu vos disse muitas vezes: Para aquele que tem, será dado mais; enquanto daquele que não tem, será tomado até mesmo aquilo que ele pensa que tem”.

(1692.1) 151:3.2 A discussão contínua sobre as parábolas; e as outras instruções para a sua interpretação podem ser resumidas e expressas, em forma moderna, do modo seguinte:

(1692.2) 151:3.3 1. Jesus preveniu contra o uso, fosse de fábulas, fosse de alegorias, para o ensino das verdades do evangelho. Ele recomendava o uso livre de parábolas, especialmente parábolas naturalistas. Ele enfatizava o valor de utilizar-se das analogias existentes entre o mundo natural e o mundo espiritual, como um meio para ensinar-se a verdade. Freqüentemente fazia alusão ao natural, como sendo “a sombra irreal e fugaz das realidades do espírito”.

(1692.3) 151:3.4 2. Jesus narrou três ou quatro parábolas das escrituras dos hebreus, chamando a atenção para o fato de que esse método de ensinar não era totalmente novo. Contudo, tornou-se quase um método novo de ensinar, do modo como ele o empregou, desse momento em diante.

(1692.4) 151:3.5 3. Ao ensinar aos apóstolos o valor das parábolas, Jesus chamou a atenção para os pontos seguintes:

(1692.5) 151:3.6 A parábola tem apelo para vários níveis diferentes, simultaneamente, da mente e do espírito. A parábola estimula a imaginação, desafia o senso do discernimento e provoca o pensamento crítico; ela promove a simpatia, sem despertar antagonismos.

(1692.6) 151:3.7 A parábola parte das coisas conhecidas e chega ao discernimento do desconhecido. A parábola utiliza o material e o natural, como um meio de apresentar o espiritual e o supramaterial.

(1692.7) 151:3.8 As parábolas favorecem a tomada de decisões morais imparciais. A parábola escapa de muitos preconceitos e joga na mente uma nova verdade, de um modo encantador; e a tudo isso ela faz despertando um mínimo de autodefesa, de ressentimento pessoal.

(1692.8) 151:3.9 Rejeitar a verdade contida na analogia parabólica requer uma ação intelectual consciente, que despreza diretamente o vosso próprio julgamento honesto e a vossa decisão equânime. A parábola conduz ao esforço do pensamento por meio do sentido da audição.

(1692.9) 151:3.10 O ensino, sob a forma de parábola, capacita aquele que ensina a apresentar verdades novas e até surpreendentes, e ao mesmo tempo evita amplamente qualquer controvérsia e choque externo com a tradição e com a autoridade estabelecida.

(1693.1) 151:3.11 A parábola também possui a vantagem de estimular a lembrança da verdade ensinada, quando as mesmas cenas conhecidas forem encontradas posteriormente.

(1693.2) 151:3.12 Desse modo, Jesus buscava deixar os seus seguidores inteirados das muitas razões que motivavam a sua prática de usar cada vez mais as parábolas nos seus ensinamentos públicos.

Antonin Sertillanges fala sobre a vocação intelectual

sertillanges

« Falar de vocação equivale a designar os que pretendem fazer do trabalho intelectual a sua vida, ou porque dispõem de vagar para se entregarem ao estudo, ou porque, no meio de ocupações profissionais, reservam para si, como feliz suplemento e recompensa, o profundo desenvolvimento do espírito. Digo profundo, para descartar a idéia de tintura superficial. Uma vocação não se satisfaz com leituras vagas nem com pequenos trabalhos dispersos. Requer penetração continuidade e esforço metódico, no intuito duma plenitude que responda ao apelo do Espírito e aos recursos que lhe aprouve comunicar-nos.

« Este apelo não se deve conjecturar. Quem se aventura a um caminho, que não pode trilhar, com pé firme, conte de antemão com decepções. O trabalho pesa sobre todos e, após a primeira formação sempre custosa, seria loucura deixar descambar o espírito na primitiva indigência. Uma coisa é a conservação pacífica do que se adquiriu, e outra coisa é retomar pela base uma instrução puramente provisória e que se considera simples ponto de partida.

« Este último estado de espírito é o de um chamado. Implica uma resolução grave, porque a vida de estudo, sendo austera, impõe duros encargos. Paga, e abundantemente; mas exige uma entrada de capital de que poucos são capazes. Os atletas da inteligência, Como os atletas do desporto, têm de prever privações, longos treinos e tenacidade por vezes sobre-humana. Precisam de se dar de alma e coração à conquista da verdade, visto que a verdade só presta serviços a quem a serve.

« Tal orientação deve ser precedida de maduro e longo exame. A vocação intelectual é como as demais vocações: está inscrita nos nossos instintos, nas nossas capacidades, em um não sei que entusiasmo interior sujeito ao exame da razão. As nossas disposições são como as propriedades químicas que determinam, para cada corpo, as combinações em que pode entrar. Não é coisa que se dê. Vem do céu e da natureza primeira. O ponto está em ser dócil a Deus e a si próprio, depois de ter escutado estas duas vozes.

« Assim compreendida, a máxima de Disraeli: “Fazei o que vos agrada, contanto que isso verdadeiramente vos agrade”, encerra profundo sentido. O gosto, que se encontra cm correlação com as tendências íntimas e com as aptidões, é esplêndido juiz. S. Tomás, afirmando que o prazer qualifica as funções e pode servir para classificar os homens, deve naturalmente concluir que o prazer também pode trair as nossas vocações. Mas é mister esquadrinhar até às profundidades em que o gosto e o ardor espontâneo se encontram com os dons e a providência de Deus.

« O estudo duma vocação intelectual comporta, além da vantagem incalculável de o homem se realizar plenamente a si próprio, um interesse geral a que ninguém pode renunciar.

« A humanidade cristã compõe-se de personalidades diversas, e nenhuma destas pode abdicar daquela sem empobrecer o grupo e privar o eterno Cristo de parte do seu reino. Jesus Cristo reina pelo seu desdobramento. A vida de qualquer dos seus “membros” é um instante qualificado da sua duração; qualquer caso humano e cristão é um caso incomunicável, único e, por conseguinte, necessário, da extensão do “corpo espiritual”. Se sois porta-luz, não escondais, debaixo do alqueire, o brilho pequeno ou grande que de vós se espera na casa do Pai de família. Amai a verdade e os seus frutos de vida, para bem vosso e dos outros; consagrai ao estudo e à sua utilização o principal do vosso tempo e do vosso coração.

« Todos os caminhos, exceto um, são maus para vós, visto que todos se apartam da direção onde se espera e se requer a vossa ação. Não sejais infiel a Deus, nem a vossos irmãos, nem a vós próprios, rejeitando um apelo sagrado.

« Isto supõe que se abraça a vida intelectual com intenções desinteresseiras e não por ambição ou vã gloríola. Os guizos da publicidade só tentam os espíritos fúteis. A ambição, que quisesse subordinar a si a verdade eterna, ofendê-la-ia. Brincar com as questões que dominam a vida e a morte, com a natureza misteriosa, talhar-se um destino literário e filosófico à custa da verdade ou fora da dependência da verdade, constitui um sacrilégio. Tais intentos, sobretudo o primeiro, não conseguiriam manter o investigador; depressa o esforço esmoreceria e a vaidade haveria de entreter-se com bagatelas, sem curar das realidades.

« Mas isto supõe igualmente que se junta, à aceitação do fim, a aceitação dos meios, sem o que não se deve tomar a sério a obediência à vocação. Quantos há que desejariam saber! Uma vaga aspiração impele as multidões para horizontes que a maior parte admira de longe, como o doente de gota admira, desde a planície, as neves eternas que cobrem o cimo das montanhas. Obter sem gastar, eis o desejo universal; mas desejo de corações cobardes e de cérebros enfermos. O universo não acorre ao primeiro sussurro e para que a luz de Deus baixe a vossas lâmpadas, é necessário que as vossas almas a peçam instantemente.

« Sois um consagrado: tendes de querer o que a verdade quer; consenti, por causa dela, em vos mobilizardes, em vos fixardes nos seus domínios, em vos organizardes e, porque vos falta a experiência, em vos firmardes na experiência alheia.

« “Ah, se a juventude soubesse!…” Mais do que ninguém, precisam os jovens deste aviso. A ciência é conhecimento pelas causas; mas ativamente, quanto à sua produção, é criação pelas causas. É preciso conhecer e adotar as causas do saber, depois coaduná-las e não adiar o cuidado de lançar os alicerces até ao momento de assentar o telhado.

« Que belas culturas se podiam empreender nos primeiros anos de liberdade após os estudos, revolvida ainda de fresco a gleba intelectual com as sementes confiadas ao solo! É esse um tempo que não volta mais, o tempo de que se há-de viver mais tarde. Qual ele tiver sido, tal será o homem, porque não há maneira de arrepiar o caminho andado.

« Se viverdes superficialmente, sofrereis o castigo de ter descurado, em seu tempo, o porvir que vive sempre de esperança. Pense cada qual nisto na hora em que o pensar pode servir.

« Quantos jovens, que nutrem a pretensão de vir a ser trabalhadores, malbaratam miseravelmente os dias, as forças, a seiva intelectual! ou não trabalham, quando lhes sobra tempo de o fazer, ou trabalham mal, caprichosamente, sem saberem o que são, nem para onde querem ir, nem como se anda. Cursos, leituras, freqüentações, dosagem do trabalho e do descanso, da solidão e da ação, arte de extrair e de utilizar os elementos adquiridos, realizações provisórias que anunciam o trabalho próximo, virtudes a alcançar e a desenvolver, nada se prevê, nada será satisfeito.

« No entanto, em igualdade de recursos, que diferença entre o que sabe e prevê e o que corre à aventura! “O gênio é longa paciência”, mas paciência organizada, inteligente. Não se requerem faculdades extraordinárias para realizar uma obra; basta uma média superior; o resto, fornece-o a energia e a arte de a aplicar. Sucede aqui o que sucede a um operário honrado, poupado e fiel ao trabalho: chega ao termo, quando muitas vezes o inventor fracassa por causa de irritações e pressas.

« O que digo aplica-se a todos, dum modo especial aos que só sabem dispor duma parte da vida, da mais fraca, para se entregarem aos trabalhos da inteligência. Mais do que os outros, devem estes ser consagrados. Terão de amontoar, em reduzido espaço, o que lhes não é dado distribuir em vasta extensão. O ascetismo especial e a virtude heróica do trabalhador intelectual deverão ser, para eles, o pão de cada dia. Se, porém, consentirem nesta dupla oferta de si próprios, não desanimem.

« Se para produzir não faz falta o gênio, menos falta ainda faz a plena liberdade, tanto mais que esta tem armadilhas, e para as vencer pode concorrer imenso o estar adstrito a rigorosas obrigações. Uma corrente apertada entre margens estreitas irromperá mais longe. A disciplina do ofício é forte escola que aproveita aos lazeres estudiosos. O homem, quando constrangido, concentra-se mais, aprende a avaliar o tempo, refugia-se com ardor nas horas raras em que, satisfeito o dever, se torna a encontrar o ideal e se goza da calma da ação escolhida, após a ação imposta pela dura existência.

« O trabalhador que no esforço novo encontra a recompensa do esforço antigo, que dele faz o seu tesouro, é de ordinário um apaixonado; não há meio de o desapegar do que assim é consagrado pelo sacrifício. O seu andar, na aparência mais lento, dispõe de recursos para ir por diante. Pobre tartaruga laboriosa, não perde o tempo em ninharias, porfia, e ao fim de poucos anos, ultrapassa a lebre indolente, cuja marcha desimpedida lhe causava inveja, enquanto se arrastava lentamente.

« Pensai o mesmo do trabalhador isolado, sem dotes intelectuais, nem facilidade de freqüentações que o estimulem, enterrado nalgum canto de província onde parece condenado a estagnar-se, longe das ricas bibliotecas, dos cursos brilhantes, do público vibrante, possuindo-se unicamente a si e obrigado a tudo haurir deste fundo inalienável.

« Não desanime. Se tem tudo contra si, guarde-se a si próprio, e que isso lhe baste. Um coração ardente dispõe de maiores probabilidades de vencer, embora em pleno deserto, do que um estúrdio do Bairro latino que não sabe aproveitar as facilidades que tem à mão. Também aqui, da dificuldade pode brotar a força. Sobre a montanha, só nos especamos nas passagens difíceis; nos caminhos planos avançamos folgados, e a folga, não vigiada, depressa se toma funesta.

« O querer vale mais do que tudo: querer ser alguém; chegar a ser alguma coisa; ser já, pelo desejo, esse alguém qualificado pelo ideal. O resto sempre se alcança. Livros, há-os em toda a parte; além disso, poucos bastam. Freqüentações, estímulos, encontramo-los em espírito na solidão: as grandes seres estão lá, presentes a quem os invoca, e por detrás do pensador ardente erguem-se os grandes séculos. Os que têm a facilidade de assistir a cursos, ou os não seguem ou os seguem mal, se, em caso de necessidade, não tiverem em si recursos para deles prescindirem. Quanto ao público, por vezes anima-vos, ordinariamente perturba-vos e dispersa-vos. Não vos arrisqueis a perder uma fortuna por uma colher de mel coado. Mais vale a solidão apaixonada, onde qualquer semente rende cem por um e um simples raio de sol doura os frutos do outono.

« Quando S. Tomás de Aquino se dirigia a Paris e descobriu ao longo a cidade, disse ao irmão que o acompanhava: “Irmão, de bom grado trocaria tudo isto pelo comentário de S. João Crisóstomo sobre S. Mateus”. A quem vive destes sentimentos pouco importa o lugar onde está ou os meios de que dispõe; esse é um eleito do espírito e, como tal, só lhe resta perseverar e entregar-se à vida consoante o Plano divino.

« Escuta-me, ó jovem que compreendes esta linguagem e a quem os heróis da inteligência parece chamarem misteriosamente, mas que receias encontrar-te desprovido.

« Tens duas horas por dia? Podes obrigar-te a reservá-las ciosamente, a empregá-las com ardor e, depois, destinado também de antemão ao Reino de Deus, podes beber o cálice de sabor esquisito e amargo, que estas páginas quereriam dar-te a prova? Se a tua resposta é afirmativa, tem confiança, mais do que isso repousa na certeza.

« Obrigado a ganhar a vida, ganhá-la-ás sem lhe sacrificar, como tantas vezes acontece, a liberdade da alma. Entregue a ti, sentir-te-ás atirado com maior violência para os teus nobres fins. A maior parte dos grandes homens exerceu um ofício. Na opinião de muitos, as duas horas, que peço, bastam para talhar um destino intelectual. Aprende a administrar esse pouco tempo; mergulha todos os dias no manancial que, dessedentando, aumenta a sede.

« Queres contribuir com a tua quota para perpetuar a sabedoria entre os homens, para recolher a herança dos séculos, para fornecer ao presente as regras do espírito, para descobrir os fatos e as causas, para orientar os olhos inconstantes na direção das causas primeiras e os corações na dos fins supremos, para reavivar a chama que se apaga e organizar a propaganda da verdade e do bem? É esse um quinhão que vale, sem dúvida, sacrifícios suplementares e o cultivo duma paixão absorvente.

« O estudo e a prática daquilo que o P. Gratry chama a Lógica viva, isto é, o desenvolvimento do nosso espírito, ou verbo humano, pelo contato direto ou indireto com o Espírito e o Verbo divino, este estudo grave e esta prática perseverante franquear-te-ão a entrada no santuário admirável. Hás-de pertencer ao número dos que crescem, adquirem e se preparam para os dons magníficos. Se Deus quiser, também tu encontrarás lugar, um dia, na assembléia dos espíritos nobres.»

Trecho inicial do livro A Vida Intelectual, de Antonin Sertillanges.

Ludwig von Mises: O indivíduo e o mercado

Ludwig von Mises

« Costuma-se falar, num sentido metafórico, das forças automáticas e anônimas que influenciam o “mecanismo” do mercado. Ao empregar tais metáforas, as pessoas estão propensas a desconsiderar o fato de que os únicos fatores que dirigem o mercado e influenciam a formação de preços são as ações intencionais dos homens. Não há nenhum automatismo; existem apenas homens conscientes e que, deliberadamente, visam a atingir os objetivos que escolheram. Não existem misteriosas forças mecânicas; existe apenas a vontade humana de diminuir o desconforto. Não existe anonimato; existe eu e você e Paulo e Ana e todos os outros. E cada um de nós é tanto produtor como consumidor.

« O mercado é um corpo social; é o corpo social por excelência. Os fenômenos do mercado são fenômenos sociais. São resultantes da contribuição ativa de cada indivíduo. Mas os fenômenos de mercado são diferentes da contribuição individual que os engendram. O indivíduo os tem na conta de algo dado, permanente, que ele não teria condições de alterar. Nem sempre percebe que ele mesmo é uma parte, embora pequena, do conjunto de elementos que a cada momento determina o estado do mercado. Por não perceber esta realidade, sente-se à vontade para criticar os fenômenos de mercado, para condenar, em seus concidadãos, uma conduta que consideraria inteiramente correta se ele mesmo a tivesse. Condena o mercado por sua insensibilidade e por seu descaso em relação às pessoas; reclama por um controle social que pudesse “humanizá-lo”. Por um lado, pede medidas que protejam o consumidor do produtor. Por outro, na qualidade de produtor, insiste, com maior veemência ainda, em que o protejam dos consumidores. O resultado destas atitudes contraditórias são os modernos métodos de intervenção do Estado, cujos exemplos mais significativos são a Sozialpolitik da Alemanha imperial e o New Deal americano.

« É uma falácia antiga a que diz ser uma tarefa legítima do governo civil proteger o produtor menos eficiente contra a competição do mais eficiente. Reclama-se por uma “política dos produtores” como algo distinto da “política dos consumidores”. As pessoas, ao mesmo tempo em que repetem bombasticamente o truísmo segundo o qual o único objetivo da produção consiste em fornecer amplas provisões para o consumo, enfatizam, com maior eloqüência ainda, a necessidade de proteger o produtor “industrioso” contra o consumidor “ocioso”.

« Ora, produtores e consumidores são a mesma pessoa. A produção e o consumo são fases diferentes da ação. Quando fala de produtores e consumidores, a cataláxia corporifica essas diferenças. Mas, na realidade, são a mesma pessoa. É certamente possível proteger um produto menos eficiente contra a competição de outros mais eficientes. Um tal privilégio concede ao privilegiado os benefícios que o mercado livre só concede a alguém que consiga atender melhor aos desejos dos consumidores. Assim sendo, o privilégio é concedido às custas de uma diminuição da satisfação dos consumidores. Se apenas um produtor, ou um pequeno grupo, é privilegiado, seus benefícios são obtidos em detrimento das demais pessoas. Mas se todos os produtores forem privilegiados na mesma medida, todos perdem como consumidores o que ganham como produtores. Além disso, todos são prejudicados porque, se os homens mais eficientes forem impedidos de empregar seu talento naqueles setores onde possam prestar o melhor serviço ao consumidor, a produção diminui.

« Se um consumidor acredita ser mais conveniente ou mais justo pagar um preço maior por cereais produzidos no seu país do que por cereais importados, ou pagar um preço maior por artigos produzidos por empresas pequenas ou que empreguem trabalhadores sindicalizados do que por artigos de outra procedência, ele deve ser livre para fazê-lo. Teria apenas de estar convencido de que as mercadorias oferecidas à venda atendem àquelas condições que justificam o pagamento de um preço maior. Leis que proibissem a falsificação de etiquetas e de marcas registradas seriam suficientes para alcançar os mesmos objetivos visados pelas tarifas, pela legislação trabalhista ou pelos privilégios concedidos às pequenas empresas. Mas é fora de dúvida que os consumidores não agem desta maneira. O fato de uma mercadoria ser etiquetada como importada não diminui a sua comerciabilidade se ela for melhor, ou mais barata, ou ambas as coisas. Como regra, os compradores querem comprar o mais barato possível, independentemente da origem do artigo ou de algumas características particulares dos produtores.

« A raiz psicológica das políticas em favor dos produtores, tal como são adotadas hoje em dia em todas as partes do mundo, pode ser identificada em doutrinas econômicas espúrias. Essas doutrinas negam terminantemente que o fato de conceder privilégios a produtores menos eficientes possa ser prejudicial aos consumidores. Seus defensores alegam que tal medida prejudica apenas àqueles por ela discriminados. Quando pressionados, embora admitindo que os consumidores também são prejudicados, alegam que as perdas dos consumidores são mais do que compensadas pelo aumento de renda que fatalmente ocorrerá em conseqüência das medidas em questão.

« Assim, nos países industrializados da Europa, os protecionistas se apressam em proclamar que as tarifas sobre produtos agrícolas prejudicam exclusivamente os interesses dos agricultores dos países onde a agricultura é a atividade predominante e os interesses dos comerciantes de cereais. Sem dúvida, esses interesses são prejudicados. Mas também é certo que os consumidores do país que adota as tarifas também são prejudicados, pois terão de pagar maiores preços por sua comida. O protecionista retruca dizendo que isso, evidentemente, não é um ônus. E acrescenta: a quantia adicional paga pelo consumidor doméstico aumenta a renda dos agricultores e o seu poder de compra; estes gastarão todo o excedente comprando mais produtos fabricados pelos setores não agrícolas da população. Tal paralogismo pode ser facilmente refutado, se recorrermos à conhecida anedota do homem que pede ao taberneiro que lhe dê uma determinada quantia de dinheiro, sob a alegação de que isto não lhe custará nada, uma vez que gastará todo este dinheiro na própria taberna. Mas, de qualquer forma, a falácia protecionista conquistou a opinião pública e isso, por si só, explica a popularidade das medidas nela inspiradas. Muitas pessoas simplesmente não percebem que o único efeito da proteção é desviar a produção dos setores em que se poderia produzir mais por unidade de capital e de trabalho dispendidos, para aqueles setores onde se produz menos, tornando as pessoas mais pobres e não mais prósperas.

« O argumento final em favor do protecionismo moderno e do empenho de cada país em tornar-se economicamente autárquico pode ser localizado na crença equivocada de que estes são os melhores meios de fazer com que cada cidadão, ou pelo menos a grande maioria dos cidadãos, fique mais rico. O termo riqueza, neste contexto, significa um aumento na renda real individual e uma melhoria no padrão de vida. Não há dúvida de que a política de isolamento econômico é, necessariamente, um corolário da intervenção na vida econômica, e que é o produto de tendências beligerantes, tanto quanto um dos fatores que fomentam essas tendências. Mas persiste o fato de que não teria sido possível vender aos eleitores a idéia do protecionismo, se não tivesse sido possível convencê-los de que a proteção não só não prejudica o seu padrão de vida mas aumenta-o consideravelmente.

« É importante enfatizar este fato porque ele desnuda inteiramente mitos propagados por muitos livros populares. Segundo esses mitos, o homem contemporâneo já não estaria mais motivado pelo desejo de melhorar seu bem-estar material e de elevar o seu padrão de vida. Os economistas que afirmassem o contrário estariam equivocados. O homem moderno daria prioridade a coisas “não econômicas” ou “não racionais” e estaria disposto a renunciar ao bem-estar material em favor de aspirações “ideais”. Seria um grave erro, no qual incidem freqüentemente os economistas e empresários, interpretar os eventos do nosso tempo a partir de um ponto de vista “econômico” e criticar as ideologias em voga, apontando seus equívocos econômicos. As pessoas aspirariam mais por outras coisas do que simplesmente por uma boa vida.

« Seria difícil equivocar-se mais grosseiramente ao interpretar a história de nossa época. Nossos contemporâneos são impelidos por um zelo fanático quando se trata de obter maiores vantagens, e por um apetite ilimitado para aproveitar a vida. Um dos fenômenos sociais mais característicos de nossos dias é o grupo de pressão, onde as pessoas se aliam no afã de promover o seu próprio bem-estar, empregando quaisquer meios, legais ou ilegais, pacíficos ou violentos. Para o grupo de pressão, nada importa mais do que o aumento da renda real de seus membros. Nada mais o preocupa. Pouco lhe importa se a realização de seu programa prejudique os interesses vitais de outras pessoas, de sua própria região ou país, ou de toda a humanidade. Mas, evidentemente, todo grupo de pressão procura justificar suas reivindicações como benéficas ao bem-estar do público em geral, e estigmatizar seus críticos como canalhas desprezíveis, idiotas e traidores. Na luta por seus objetivos, o grupo de pressão emprega um ardor quase religioso.

« Sem exceção, todos os partidos políticos prometem a seus seguidores uma renda real maior. Neste particular, não há diferença entre nacionalistas e internacionalistas, ou entre os adeptos da economia de mercado e os defensores do socialismo e do intervencionismo. Quando um partido pede a seus seguidores que façam sacrifícios pela sua causa, invariavelmente explica que esses sacrifícios são temporariamente necessários para que se atinja o objetivo maior, qual seja, a melhoria do bem-estar material de seus membros. Cada partido considera um complô insidioso contra seu prestígio e sua sobrevivência o fato de alguém questionar a eficácia dos seus planos como o meio de tornar mais prósperos os membros do grupo. Cada partido nutre um ódio mortal pelos economistas que ousam formular tais críticas.

« Todas as variedades de políticas que favorecem os produtores amparam-se na alegada capacidade que teriam essas políticas de aumentar o padrão de vida dos seus seguidores. O protecionismo e a auto-suficiência econômica, a pressão e a compulsão sindical, a legislação trabalhista, os salários mínimos, as despesas públicas, a expansão do crédito, os subsídios e outros artifícios são sempre recomendados por seus apologistas como o melhor ou o único meio de aumentar a renda real dos eleitores cujos votos pretendem angariar. Todo homem de Estado ou político, invariavelmente, diz aos seus eleitores: meu programa vos trará tanta abundância quanto as circunstâncias permitirem, enquanto que o programa de meus adversários vos trará a pobreza e a miséria.

« É verdade que alguns intelectuais, segregados em seus círculos esotéricos, falam de forma diferente. Proclamam a prioridade do que denominam de valores absolutos eternos e aparentam, nas suas perorações – mas não em sua conduta pessoal –, um desdém pelas coisas terrenas e transitórias. Mas o público ignora tais manifestações. O objetivo principal da ação política em nossos dias é assegurar aos membros do grupo de pressão o maior bem-estar material possível. A única maneira de um líder ser bem-sucedido é instilar nas pessoas a convicção de que o seu programa é a melhor forma de atingir esse objetivo.

« O equívoco das políticas em favor dos produtores consiste no fato de que se baseiam numa concepção errada da economia.

« Quem estiver disposto a ceder à tendência, muito em voga, de explicar as coisas humanas pelo recurso à terminologia da psicopatologia pode ser tentado a dizer que o homem moderno – ao confrontar uma política em favor dos produtores com uma política em favor dos consumidores – está sendo vítima de uma espécie de esquizofrenia. Não chega a perceber que é uma pessoa única e indivisível, isto é, um indivíduo, e, como tal, é tanto um produtor como um consumidor. A unidade de sua consciência se separa em duas partes; sua mente se divide, numa luta interna contra si mesmo. Mas pouco importa se adotamos ou não esta maneira de descrever o fato de que a doutrina econômica que resulta nestas políticas é errada. Não estamos interessados na fonte patológica de onde o erro pode brotar, mas no erro em si e nas suas raízes lógicas. A questão essencial é desmascarar o erro por meio de um raciocínio. Se uma afirmação não puder ser demonstrada como logicamente errada, a psicopatologia não tem condições de qualificar como patológico o estado da mente de onde deriva essa afirmação. Se um homem imagina ser o rei do Sião, a primeira coisa que o psiquiatra deve verificar é se ele é ou não, realmente, aquilo que ele pensa ser. Somente se esta pergunta for respondida negativamente, o homem pode ser considerado louco.

« É fora de dúvida que a maior parte dos nossos contemporâneos está comprometida com uma interpretação errônea do vínculo produtor-consumidor. Ao comprar, os indivíduos se comportam como se só estivessem ligados ao mercado como compradores, e vice-versa ao vender. Como compradores, preconizam medidas severas para se protegerem dos vendedores; e, como vendedores, preconizam medidas não menos severas contra os compradores. Mas essa conduta anti-social que abala as próprias fundações da cooperação social não é uma conseqüência de um estado mental patológico. É o produto de uma mentalidade estreita que não chega a perceber como a economia de mercado funciona e nem consegue antecipar os efeitos finais que suas próprias ações haverão de provocar.

« É admissível sustentar que a imensa maioria dos nossos contemporâneos não está, mental e intelectualmente, ajustada à vida numa sociedade de mercado, embora tenham, eles mesmos e seus pais, inconscientemente, contribuído, com suas ações, para criar essa sociedade. Mas este desajuste é fruto, exclusivamente, do fato de não serem reconhecidas como falsas doutrinas que o são.»

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Trecho do livro Ação Humana, de Ludwig von Mises.

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