palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Paul Johnson fala sobre criatividade e literatura

 Paul Johnson

« …o papel desempenhado pelas atividades. O castelo de cartas de Einstein era mais um exemplo de treinamento de caráter do que uma ajuda real ao pensamento criativo. Mas a maioria dos cientistas e muitos escritores têm sobre a mesa de trabalho apetrechos, bugigangas, jogos, quebra-cabeças, provavelmente por considerá-los úteis para o raciocínio. Não tenho dificuldade de concentração, e começo a escrever logo que sento à minha mesa (no cavalete ou na mesa de desenho), por isso não entendo com facilidade o raciocínio por trás desses apetrechos. Porém, em inúmeros casos, é evidente que a atividade espasmódica ou periódica ajuda o pensamento imaginativo. Assim, o fato de Dickens se levantar da mesa onde escrevia para fazer caretas diante de um espelho grande em seu estúdio não é, de forma alguma, algo incomum entre os escritores. Alguns deles desenvolvem tal resistência a escrever ou a continuar a escrever que é necessário recorrer a meios físicos para forçá-los a se concentrar. Certa ocasião, quando era editor, tive de trancar dois colaboradores em um sala vazia com uma máquina de escrever para que escrevessem ou terminassem um artigo, só permitindo que saíssem depois de concluído o trabalho. Mas muitos escritores não conseguem ter pensamentos criativos em uma sala de trabalho. Todos sabem que Wordsworth costumava compor seus versos enquanto caminhava ao ar livre, em torno do lago em Grasmere ou Rydal Water, ou descendo e subindo uma montanha. Ele memorizava as linhas que imaginava e só as colocava no papel quando voltava para casa. Às vezes, passavam-se vários dias, até semanas, para que ele colocasse no papel as palavras que tinha na cabeça. Não está claro se Wordsworth precisava caminhar para fazer poesia porque via coisas lá fora que poderia transformar em verso ou porque o simples movimento de caminhar estimulava seus pensamentos. Acredito na última opção, pois Wordsworth era, de alguma maneira, um homem distraído. Foi sua irmã Dorothy quem observou os trabalhos da natureza em detalhes surpreendentes e os anotou. Quando ambos estavam em Gowbarrow Bay, em Ullswater, quando os narcisos dançavam ao vento, foi Dorothy quem os observou e anotou em seu diário, transmitindo sua experiência visual ao irmão, que, algumas semanas mais tarde, compôs seu famoso poema. Sem Dorothy, o poema não existiria.

« No entanto, a experiência é a mãe, ou pelo menos uma das mães, da criatividade, e o que chamo de experiência é a combinação de observação e sentimento que leva a um momento criativo. Emily Dickinson não apenas observava as coisas na natureza (como Dorothy Wordsworth fazia); ela também se sentia forte, profunda ou perceptivelmente ligada a elas – e é isso que transforma seus pequenos poemas em algo de grande força e emoção. Os fortes sentimentos de Charlotte Brontë sobre sua vida, combinados a olhos e ouvidos perspicazes, a tornaram capaz de transformar a experiência, na primeira metade de Jane Eyre, em algo tão surpreendente em arte – um ato de criação raro, por sua beleza apaixonante, nos anais da literatura. Os escritores, em especial os romancistas, são extremamente criativos quando registram, embora transformados em ficção, suas experiências profundamente sentidas. Dickens sempre considerou David Copperfield seu melhor livro por esse motivo. Poder-se-ia dizer o mesmo sobre The Mill on the Floss, pois Maggie Tulliver é a jovem Mary Ann Evans, e tudo o que ela viveu e sentiu. Nesse romance maravilhoso, nas histórias de Scenes from Clerical Life, em Adam Bede e, até certo ponto, em Middlemarch, George Eliot escreve sobre coisas e pessoas que conheceu por intermédio da própria experiência direta e de seus sentimentos. Mais tarde, embora mais experiente como escritora, foi menos convincente. Para Daniel Deronda, seu romance sobre o problema judeu, e para Romola, passado na Florença renascentista, ela fez leituras cuidadosas, digeridas pela inteligência. Mas essas histórias não ganham vida do mesmo modo. Para o romancista, os livros não compensam a ausência do conhecimento direto e dos sentimentos. Flaubert escreveu Madame Bovary com emoção, a partir de suas últimas experiências com livros, e a diferença é clara. Bouvard et Pécuchet surgiu de uma biblioteca completa – natimorta. Quando vejo alguma romancista que conheço, sentada atrás de uma pilha de livros na sala de leitura da London Library, e tomando notas sem parar para seu próximo trabalho de ficção, digo com meus botões: “Ai, meu Deus!”

Reflexões sobre Arte e Literatura no romance O Doutor Jivago, de Boris Pasternak

 Boris Pasternak

« Ao lado de meu serviço, do trabalho da terra ou da prática da Medicina, gostaria de tirar a lume uma obra duradoura, essencial, quer seja uma obra científica, quer uma obra de arte!

« Ao nascer todo homem é um Fausto que deve tudo abraçar, tudo experimentar, tudo exprimir. Foram os erros de seus predecessores e de seus contemporâneos que fizeram de Fausto um sábio. Os progressos das Ciências obedecem à lei da repulsão: para dar um passo adiante, é preciso começar por derrubar o domínio do terror e das falsas teorias.

« Mas foi o exemplo contagioso de seus mestres que fez de Fausto um artista. Os progressos da Arte se fazem segundo a lei da atração: para dar um passo adiante, é preciso começar por seguir e por imitar seus precursores e inclinar-se diante deles.

« Que é que me impede de fazer meu trabalho de médico e escrever? Penso que não são nem as privações, nem nossa vida errante, nem o sentimento de instabilidade que me causam todas essas mudanças, mas antes o espírito do tempo, esse espírito de ênfase agora tão difundido: o gênero “aurora do futuro”; “edificação dum novo mundo”; “archotes da humanidade”. Quando ouvimos tais frases, dizemos em primeiro lugar: que imaginação grandiosa, que riqueza! Mas vendo-se de perto, a ênfase só está ali por causa da ausência de talento.

« Só as coisas comuns são mágicas, desde que as aflore a mão do gênio. A melhor lição é-nos dada por Puchkin. Que hino à glória do trabalho consciencioso, dos hábitos quotidianos! Em nossos dias, o termo pequeno-burguês, homem da rua, tomou entre nós o valor duma censura. Os versos da Genealogia vão ao encontro dessa censura:

“Eu sou burguês, eu sou burguês”

E na Viagem de Onieguin:

“Tenho agora como ideal
“Uma bem boa dona de casa.
“Como desejo, um canto calmo,
“Sopa de couve — um terrinão!”

« Em tudo quanto é russo, o que prefiro agora é o espírito de infância de um Puchkin, dum Tchekhov, e a indiferença pudica deles a respeito de coisas tão barulhentas como os fins derradeiros da humanidade ou sua própria salvação. Tinham também suas idéias a esse respeito, mas não tinham a vontade de abordar tais assuntos tão pouco discretos; não era de seu gosto, nem de sua competência. Gogol, Tolstói, Dostoiévski preparavam-se para a morte, inquietavam-se, buscavam o sentido da vida, tiravam conclusões, mas, até o fim, estiveram absorvidos pelos miúdos cuidados com sua profissão de artistas e nesse encadeamento de pormenores sua vida passou imperceptivelmente, como se ela não fosse também senão um pormenor íntimo e que nada tinha que ver com os outros; e agora, esse pormenor pertence a todo mundo, e, como maçãs colhidas ainda verdes, amadurece sozinho, na posteridade, ganhando sempre em sabor e significação.»

(…)

« Em resposta à devastação que a morte deixara no grupo que o seguia a passos lentos, um movimento imperioso como o da água que se afunda a cavar seus turbilhões levava-o a sonhar e a pensar, a obstinar-se nas formas, a criar beleza. Mais claramente do que nunca, via agora que a Arte, sempre e sem trégua, tem duas preocupações. Medita incansavelmente na morte e, por esse meio, incansavelmente cria a vida. A grande Arte, a Arte verdadeira, aquela que se chama Apocalipse e que o completa.»

(…)

« Três anos de mudanças, de imprevistos, de viagens; a guerra, a revolução, todos os seus transtornos, as fuzilarias, as cenas de ruína, as cenas de morte, as destruições, os incêndios, tudo isso se transformou num vácuo, nu de qualquer sentido. Após longo intervalo, o primeiro acontecimento de importância era aquela corrida vertiginosa do trem para uma casa ainda intacta, da qual a menor pedra era preciosa. Era isto a vida, era isto a experiência, era este o alvo dos buscadores de aventuras, era esta a meta final da Arte: reencontrar os seus, retornar à casa, recomeçar a existência.»

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O Doutor Jivago, de Boris Pasternak (1890-1960)

Søren Kierkegaard y la búsqueda del caballero de la fe

Kierkegaard

« Lo confieso con sinceridad: no he podido encontrar, a lo largo de mis experiencias, un solo ejemplar de caballero de la fe digno de confianza, sin que con esta afirmación quiera negar que quizás una de cada dos personas lo sea. Pero se da la circunstancia de que llevo muchos años buscando en vano. Generalmente viajamos por el mundo con el fin de ver ríos y montañas, estrellas de otras latitudes, pájaros variopintos, peces deformes y razas humanas grotescas; nos abandonamos a un estupor animal, que nos deja con la boca abierta ante lo existente, y concluimos por creer que hemos visto algo. Nada de eso me interesa. Pero si yo viniera a saber dónde habita un verdadero caballero de la fe, me pondría en el acto en camino hacia aquel lugar, pues esa es la clase de maravilla que me interesa. Una vez encontrado no lo perdería de vista un solo momento, observando constantemente todos y cada uno de sus movimientos. Me sentiría como quien ha encontrado un sustento en esta existencia y dividiría mi tiempo dedicando una parte de él a observarlo y otra a ejercitarme yo mismo, de modo que todo mi tiempo sería empleado en admirar-lo.»

Temor y Temblor, de Søren Kierkegaard.

Do Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Episódio do Inimigo

« Tantos anos fugindo e esperando, e agora o inimigo estava em minha casa. Da janela eu o vi subir penosamente pelo áspero caminho da montanha. Ajudava-se com um bastão, um bastão rústico que em velhas mãos jamais poderia ser uma arma, mas tão-somente um báculo. Custei a dar-me conta do que esperava: a fraca batida em minha porta. Olhei, não sem nostalgia, meus manuscritos, o rascunho não terminado e o tratado de Artemidoro sobre os sonhos, um livro um tanto anômalo neste conjunto, já que não sei grego. Outro dia perdido, pensei. Tive que fazer força com a chave. Receei que o homem despencasse dali; porém, deu alguns passos incertos, soltou o bastão (que não voltei a ver) e caiu vencido em minha cama. Minha ansiedade o havia imaginado muitas vezes, mas só então notei que se parecia, de um modo quase fraternal, com o último retrato de Lincoln. Deveriam ser quatro horas da tarde.

Inclinei-me sobre ele para que me ouvisse:

— A gente pensa que os anos passam somente para nós mesmos — disse —, porém eles passam também para os outros. Aqui nos encontramos, afinal, e o que aconteceu antes não tem sentido.

Enquanto eu falava, ele havia desabotoado o sobretudo. Sua mão direita estava no bolso do paletó. Apontava-me algo, e senti que era um revólver.

Disse-me, então, com voz firme:

— Para entrar em sua casa, recorri à compaixão. Tenho-o agora à minha mercê e não sou misericordioso.

Ensaiei algumas palavras. Não sou um homem forte, e somente as palavras poderiam salvar-me. Consegui dizer:

— É verdade que há tempos maltratei uma criança, mas você já não é aquela criança nem eu sou aquele insensato. Além disso, a vingança não é menos vaidosa e ridícula do que o perdão.

— Precisamente porque já não sou aquela criança — replicou — é que tenho que matá-lo. Não se trata de uma vingança, mas sim de um ato de justiça. Seus argumentos, Borges, são meros estratagemas de seu terror para que eu não o mate. Você já não pode fazer nada.

— Posso fazer uma coisa — respondi.

— Qual?

— Acordar.

E assim o fiz. »

Jorge Luis Borges

 

Teologia

« Como vocês não ignoram, viajei muito. Isso me permitiu corroborar a afirmação de que a viagem é sempre mais ou menos ilusória, de que não há nada de novo sob o Sol, de que tudo é uma única e mesma coisa, etcétera, mas também, paradoxalmente, de que é infundada qualquer desesperança de encontrar surpresas e coisas novas: em verdade o mundo é inesgotável. Como prova disso, basta lembrar a crendice peregrina que encontrei na Ásia Menor, entre um povo de pastores, que se cobrem com peles de ovelha e que são herdeiros do antigo reino dos Magos. Essa gente crê nos sonhos. “No instante em que dormes”, explicaram-me, “conforme tenham sido teus atos durante o dia, irás ao céu ou ao inferno.” Se alguém argumentasse: “Nunca vi partir um homem adormecido; de acordo com minha experiência, permanecem deitados até que os despertem”, responderiam: “O afã de não acreditar em nada te leva a esquecer tuas próprias noites (quem não terá conhecido sonhos agradáveis e sonhos aterrorizantes?) e a confundir o sono com a morte. Cada um é testemunha de que há outra vida para o sonhador. Para os mortos é diferente o testemunho: eles permanecem, convertendo-se em pó”. »

H. Garro, Todo o mundo (1919)

Os dois textos acima são excertos do Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges.

A Negação da Morte: Ernest Becker fala de Otto Rank e Kierkegaard

 Ernest Becker

« …nossa missão capital neste planeta é a heróica.»

(…)

« O instinto comum da natureza humana para com a realidade… sempre sustentou ser o mundo essencialmente um teatro para o heroísmo.» [William James, citado por Ernest Becker]

(…)

« É natural que o homem seja um animal maluco; deve viver uma vida maluca devido ao seu conhecimento da morte.»

(…)

« A aspiração por heroísmo é natural e admiti-lo é honesto. Se todos o admitissem, provavelmente se liberaria tamanha força represada que devastaria as sociedades tais como agora existem…»

(…)

« Não há [na cultura atual] um centro vital pulsante.»

(…)

« […] a religião não é mais eficaz como um sistema de heroísmo, e por isso os jovens menosprezam-na. Se a cultura tradicional é desacreditada como manifestação de heroísmo, então a igreja que a apóia automaticamente se desacredita. Se a igreja, pelo contrário, decide insistir em seu heroísmo característico, talvez constate que, de maneiras cruciais, terá de agir contra a cultura, recrutar jovens para serem anti-heróis face aos estilos de vida da sociedade em que vivem. Este é o dilema da religião em nossa época

(…)

« Todo ser humano é… igualmente preso, isto é, nós… criamos uma prisão com a liberdade…» [Otto Rank, citado por Ernest Becker]

(…)

« A pergunta […] mais importante que o homem pode fazer a si mesmo é simplesmente esta: até onde tem ele consciência do que está fazendo para alcançar um senso de heroísmo?»

(…)

« E esta é a singela verdade: viver é sentir-se perdido — aquele que aceita isso já começou a encontrar-se, a colocar-se em terreno firme.»

(…)

« A Tragédia da vida a que Searles se refere é aquela que estivemos examinando: a finitude do homem, seu pavor da morte e da enormidade esmagadora da vida. O esquizofrênico sente essas coisas mais do que outro qualquer por não ter sido capaz de formar as defesas seguras que uma pessoa normalmente emprega para negá-las.»

(…)

« […] o caráter de uma pessoa é uma defesa contra o desespero, uma tentativa de evitar a insanidade por causa da verdadeira natureza do mundo.»

(…)

« Neurótico é alguém que não consegue rodear sua animalidade com uma ilusão convincente.»

(…)

« …a essência da normalidade é a recusa da realidade.»

(…)

« Isto é neurose em poucas palavras: o insucesso de mentiras desajeitadas no tocante à realidade.»

(…)

« …normalidade é neurose e vice-versa. Chamamos a um homem de “neurótico” quando sua mentira começa a demonstrar efeitos nocivos nele ou em pessoas que o cercam e ele procura ajuda clínica para isso — ou outros procuram por ele. Sob outros aspectos, chamamos a rejeição da realidade de “normal” por não ocasionar qualquer problema perceptível.»

(…)

« O que está em jogo em toda repressão humana: o medo da vida e da morte

(…)

« Uma das circunstâncias que percebemos quando estudamos a história é que a consciência de animalidade é sempre absorvida pela cultura. Esta opõe-se à natureza e transcende-a. A cultura, em sua mais recôndita intenção, é uma negação heróica da animalidade.»

(…)

« A própria salvação não mais é atribuída a uma abstração como Deus, mas pode ser procurada “na beatificação do outro”. Poderíamos chamar esta de “beatificação transferencial”. O homem agora vive em uma “cosmologia de dois”. […] O homem moderno realiza seu impulso de auto-expansão no objeto amoroso tal como outrora foi realizado em Deus. […] Como diz uma canção hindu: “Meu amor é meu Deus; se ele me aceita minha existência é utilizada”. Não é de espantar que Rank pudesse concluir que o relacionamento amoroso do homem moderno é um problema religioso.»

(…)

« As pessoas precisam de um “além”, mas elas pegam primeiro o mais próximo; isto lhes dá a satisfação de que precisam, mas, ao mesmo tempo, limita-as e escraviza-as. Você pode considerar o problema todo de uma vida humana desta maneira. Pode perguntar: em que tipo de além esta pessoa tenta expandir-se e quanto de individualização obtém nele?»

(…)

« O limite entre a rendição natural, ao querer ser parte de algo superior, e a rendição masoquista ou autonegadora é deveras tênue, como Rank assinalou. O problema é ainda mais complicado por algo que as mulheres, como todos os mais, detestam admitir: sua própria incapacidade natural para se manterem sozinhas em liberdade

(…)

« O que Kierkegaard está dizendo, em outras palavras, é que a escola da angústia leva à possibilidade só pelo fato de destruir a mentira vital do caráter.»

(…)

« E assim se chega à nova possibilidade, à nova realidade, pela destruição do eu ao se fazer face à angústia do terror da existência. O self tem de ser destruído, reduzido a nada, a fim de ter início a transcendência de si próprio. Então, o self pode começar a relacionar-se com poderes além de si mesmo. Ele tem de debater-se em sua finitude, tem de “morrer” para interrogar essa finitude e poder ver para além dela. Para onde? Responde Kierkegaard: para a infinitude, para a transcendência absoluta, para o Poder Final da Criação que fez as criaturas finitas. Nossa moderna interpretação da psicodinâmica confirma ser essa progressão bastante lógica — se você admite ser um animal, conseguiu uma coisa fundamental: demoliu todos os seus elos ou apoios de força inconscientes. Como vimos no último capítulo — e vale a pena repetir aqui —, cada criança firma-se em algum poder que a transcende. Geralmente é uma combinação de seus pais, seu grupo social e os símbolos de sua sociedade e nação. Essa é a trama irracional de apoio que lhe permite acreditar em si própria, enquanto funciona na segurança automática de poderes delegados. Ela, está claro, não admite para si mesma que vive com forças tomadas de empréstimo, pois isso a levaria a duvidar de sua própria ação segura, daquela mesma confiança de que necessita. Ela negou sua animalidade exatamente por imaginar que dispõe de poder seguro, e esse poder seguro foi obtido apoiando-se inconscientemente nas pessoas e coisas de sua sociedade. Uma vez que você revele essa fraqueza e vacuidade básicas da pessoa, sua incapacidade, então é obrigado a reexaminar todo o problema das ligações de poder. Você tem de pensar em refazê-las em uma fonte real de poder criativo e gerador. É nesta altura que uma pessoa pode começar a posicionar sua condição de criatura vis-à-vis um Criador que é a Causa Primeira de todas as coisas criadas, não meramente os criadores de segunda mão, intermediários, da sociedade, os pais e a panóplia de heróis culturais. Esses são os pais sociais e culturais, que, por sua vez, foram causados, que, por sua vez, estão enleados em uma teia de poderes de outrem.

« Uma vez que a pessoa se ponha a examinar seu relacionamento com o Poder Final, com a infinitude, e a reformular seus vínculos desligando-os dos que a rodeiam para ligá-los a esse Poder Final, ela se franqueia o horizonte da possibilidade ilimitada, da verdadeira liberdade. Essa é a mensagem de Kierkegaard, a culminação de todo o seu raciocínio a respeito dos becos sem saída do caráter, o ideal de saúde, a escola da angústia, a natureza da verdadeira possibilidade e liberdade. Passa-se por tudo isso para chegar-se à fé de que a própria condição de criatura tem certo significado para um Criador; que, a despeito da verdadeira insignificância, fraqueza, morte de cada um, sua existência tem um certo sentido definitivo porque existe dentro de um projeto eterno e infinito das coisas produzidas e mantidas dentro de determinado modelo por uma força criadora. Repetidamente, em seus trabalhos, Kierkegaard volta à fórmula básica da fé: a gente é uma criatura que nada pode fazer, mas existe diante de um Deus vivo para quem “tudo é possível”.

« Toda a sua argumentação agora torna-se clara como água, segundo a qual a chave de abóbada da fé coroa a estrutura. Podemos entender por que a angústia “é a possibilidade de liberdade”, por que a angústia derruba “todas as metas finitas”, e assim “o homem que é educado pela possibilidade é educado de acordo com sua infinitude”. A possibilidade a nada conduz se não conduzir à fé. Ela é uma etapa intermediária entre o condicionamento cultural, a mentira do caráter e a abertura da infinitude com a qual a pessoa pode relacionar-se por meio da fé. Mas sem o salto para a fé o novo sentimento de desamparo por ter abandonado a armadura do próprio caráter infunde puro terror. Isso significa que se vive desprotegido pela couraça, exposto à sua solidão e desamparo, à angústia constante. Nas palavras de Kierkegaard:

« “Agora o pavor da possibilidade conserva-o como sua presa, até poder entregá-lo a salvo nas mãos da fé. Em nenhum outro lugar encontrará ele repouso… ele, que atravessou o currículo do infortúnio oferecido pela possibilidade, perdeu tudo, absolutamente tudo, de forma que ninguém o perdeu na realidade. Se nessa situação ele não se comporta falsamente face à possibilidade, se não tenta falar desviando-se do pavor que o salvaria, então receberá tudo de volta novamente, como na realidade ninguém jamais conseguiu mesmo que tenha recebido dez vezes mais, pois o aluno da possibilidade recebeu a infinitude…”

« Se colocarmos toda essa progressão em função de nosso exame das possibilidades de heroísmo, o resultado será o seguinte: o homem irrompe através dos limites do heroísmo meramente cultural; destrói a mentira do caráter que o fazia portar-se como herói no plano social cotidiano das coisas; e, ao fazê-lo, ele se abre para o infinito, para a possibilidade de heroísmo cósmico, para o próprio serviço de Deus. Sua vida, portanto, adquire valor definitivo em vez de valor simplesmente social e cultural, histórico. Ele liga seu eu interior secreto, seu talento autêntico, seus mais profundos sentimentos de originalidade, seu anelo íntimo por um significado absoluto ao próprio substrato da criação. Nas ruínas do eu cultural demolido permanece o mistério do eu particular, invisível, interior, que anelava por significado definitivo, por heroísmo cósmico. Esse mistério invisível no coração de toda criatura agora alcança significado cósmico ao afirmar sua conexão com o mistério invisível do âmago da criação. Esse é o significado da fé. Ao mesmo tempo, é o significado da fusão da psicologia e da religião no pensamento de Kierkegaard. A pessoa verdadeiramente aberta, aquela que se desfez de sua couraça de caráter, da mentira vital do seu condicionamento cultural, está além do auxílio de qualquer mera “ciência”, de qualquer padrão meramente social de saúde. Ela está absolutamente só e tremendo à beira do esquecimento, que é, ao mesmo tempo, o umbral da infinitude. Dar-lhe o novo apoio de que carece, a “coragem para renunciar ao pavor sem qualquer pavor… disso só a fé é capaz”, afirma Kierkegaard. Não que essa seja uma saída fácil para o homem, ou uma panacéia universal para a condição humana — Kierkegaard nunca é fácil. Ele fornece uma idéia extraordinariamente bela:

« “Não que a fé aniquile o pavor, mas, permanecendo sempre jovem, ela está continuamente se formando da convulsão mortal do pavor”.

« Por outras palavras, desde que o homem é um animal ambíguo nunca poderá abolir a angústia; o que pode fazer, em vez disso, é usar a angústia como eterna mola para crescer em novas dimensões de pensamento e confiança. A fé apresenta uma nova missão para a vida, a aventura da abertura para uma realidade multidimensional.

« Podemos entender por que Kierkegaard só tinha de concluir seu grande estudo da angústia com as seguintes palavras que possuem o peso de um argumento evidente:

« “O verdadeiro autodidata [isto é, aquele que por si só transpõe a escola da angústia até a fé] é, exatamente no mesmo grau, um teodidata… Tão logo a psicologia tenha acabado com o pavor, nada mais tem a fazer senão entregá-lo à dogmática”.

« Em Kierkegaard, psicologia e religião, filosofia e ciência, poesia e verdade fundem-se indistintamente reunidas nas aspirações da criatura.»

(…)

« A dinâmica do mal é devida fundamentalmente à negação da condição de criatura

(…)

« Segundo Otto Rank, a dinâmica do mal é a tentativa de fazer o mundo ser diferente do que é, de fazer dele o que ele não pode ser, um lugar livre de acidentes, um lugar livre de impurezas, um lugar livre da morte.»

(…)

« No ponto mais alto da fé existe júbilo porque se compreende que este mundo é de Deus e, uma vez que tudo está nas mãos d’Ele, que direito temos nós de ficarmos tristes — o pecado da tristeza?»

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A Negação da Morte, de Ernest Becker (1924-1974).

G.K. Chesterton fala sobre insanidade e criação literária

G.K. Chesterton

« É verdade que alguns falam, de modo superficial e leviano, da insanidade como sendo em si mesma atraente. Mas um momento de reflexão mostrará que, se uma enfermidade é atraente, trata-se em regra da enfermidade dos outros. Um cego pode ser um quadro pitoresco; mas exige-se um par de olhos para ver o quadro. De modo semelhante até mesmo a poesia mais louca da insanidade só pode ser apreciada por quem é sensato. Para o insano a insanidade é totalmente prosaica, porque é totalmente verdadeira.

« Um homem que imagina ser uma galinha é para si mesmo tão comum como uma galinha. Um homem que imagina ser um caco de vidro é para si mesmo tão sem graça como um caco de vidro. A homogeneidade de sua mente é o que o torna sem graça, e o que o torna louco. E somente pelo fato de percebermos a ironia de sua idéia que nós o achamos até engraçado; é somente pelo fato de ele não ver a ironia de sua idéia que ele é internado em Hanwell, não por outro motivo.

« Em resumo, as esquisitices chocam apenas as pessoas comuns. É por isso que as pessoas comuns têm uma vida muito mais instigante; enquanto as pessoas esquisitas sempre estão se queixando da chatice da vida. É por isso também que os novos romances desaparecem tão rapidamente, ao passo que os velhos contos de fada duram para sempre. Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.

« Comecemos, então, com um manicômio. Dessa estalagem fantástica e perversa vamos partir para a nossa jornada intelectual. Ora, se devemos examinar rapidamente a filosofia da sanidade, a primeira coisa a fazer no caso é apagar um enorme erro comum. Por toda parte existe a noção de que a imaginação, especialmente a imaginação mística, é perigosa para o equilíbrio mental do homem. Geralmente se diz que os poetas não são confiáveis do ponto de vista psicológico, e geralmente faz-se uma vaga associação entre cingir a cabeça com uma coroa de louros e fazer loucuras. Os fatos e a história contradizem totalmente essa visão. A maioria dos poetas realmente grandes não só foi de gente sensata, mas também extremamente prática. Se Shakespeare um dia dominou cavalos, isso se deu por ser ele o homem mais indicado para fazêlo. A imaginação não gera a insanidade. O que gera a insanidade é exatamente a razão. Os poetas não enlouquecem; mas os jogadores de xadrez sim. Os matemáticos enlouquecem, e os caixas; mas isso raramente acontece com artistas criadores. Como se verá, não estou aqui, em nenhum sentido, atacando a lógica: só afirmo que esse perigo está na lógica, não na imaginação. A paternidade artística é tão sadia quanto a paternidade física. Além disso, vale a pena observar que, quando um poeta foi realmente mórbido, o fato geralmente se deu porque ele tinha um ponto fraco de racionalidade no cérebro. Poe, por exemplo, foi realmente mórbido; não porque era poético, mas porque era especialmente analítico. Para ele até o jogo de xadrez era poético demais; ele não gostava de xadrez porque era um jogo cheio de peões e castelos, como um poema. Declaradamente, preferia as casas brancas do jogo de damas, por se parecerem mais com os meros pontos pretos num gráfico.

« Talvez o caso mais convincente seja este: apenas um grande poeta inglês enlouqueceu, Cowper. E ele foi definitivamente levado à loucura pela lógica, pela repulsiva e estranha lógica da predestinação. A poesia não foi seu mal, foi seu remédio. A poesia preservou-lhe em parte a saúde. Às vezes ele podia esquecer-se do rubro e sequioso interno, para o qual seu hediondo determinismo o arrastava em meio às águas caudalosas e as grandes e achatadas flores aquáticas do rio Ouse. Ele foi condenado por João Calvino; e quase foi salvo por John Gilpin.

« Em todas as partes vemos que os homens não enlouquecem sonhando. Os críticos são muito mais loucos que os poetas. Homero é completo e bastante calmo; os críticos é que o rasgam em trapos extravagantes. Shakespeare é exatamente Shakespeare; apenas alguns de seus críticos é que descobriram que ele era alguma outra pessoa. E embora João, o evangelista, tenha visto monstros estranhos em sua visão, ele não viu nenhuma criatura tão louca como um de seus comentadores. O fato geral é simples. A poesia mantém a sanidade porque flutua facilmente num mar infinito; a razão procura atravessar o mar infinito, e assim torná-lo finito. O resultado é a exaustão mental, como a exaustão física do sr. Holbein.

« Aceitar tudo é um exercício, entender tudo é uma tensão. O poeta apenas deseja a exaltação e a expansão, um mundo em que ele possa se expandir. O poeta apenas pede para pôr a cabeça nos céus. O lógico é que procura pôr os céus dentro de sua cabeça. E é a cabeça que se estilhaça.»

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Ortodoxia, de G.K. Chesterton (1874-1936)

Bernardo Soares e aqueles que dominam o Diabo

Fernando Pessoa

« Tive sempre uma repugnância quase física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os cavoucos do mundo.

« Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações coletivas.

« O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal. Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa. Por que há o comércio com os demônios de ser mais fácil que o comércio com a gramática? Quem, através de longos exercícios de atenção e de vontade, consegue, conforme diz, ter visões astrais, por que não pode, com menor dispêndio de uma coisa e de outra, ter a visão da sintaxe? Que há no dogma e ritual da Alta Magia que impeça alguém de escrever — já não digo com clareza, pois pode ser que a obscuridade seja da lei oculta —, mas ao menos com elegância e fluidez, pois no próprio abstruso as pode haver[?] Porque há de gastar-se toda a energia da alma no estudo da linguagem dos Deuses, e não há de sobrar um reles bocado, com que se estude a cor e o ritmo da linguagem dos homens?

« Desconfio dos mestres que o não podem ser primários. São para mim como aqueles poetas estranhos que são incapazes de escrever como os outros. Aceito que sejam estranhos; gostara, porém, que me provassem que o são por superioridade ao normal e não por impotência dele.

« Dizem que há grandes matemáticos que erram adições simples; mas aqui a comparação não é com errar, mas com desconhecer. Aceito que um grande matemático some dois e dois para dar cinco: é um ato de distração, e a todos nós pode suceder. O que não aceito é que não saiba o que é somar ou como se soma. E é este o caso dos mestres do oculto, na sua formidável maioria.»

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Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa).

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