palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Tag: livros Page 9 of 31

Schopenhauer fala sobre a honra

Arthur Schopenhauer

Agora que nós, brasileiros, temos um “deputado presidiário” — o execrando senhor Natan Donadon (ex-PMDB-RO) — vale a pena reler Schopenhauer e entender em que grau esse criminoso, com o auxílio de seus pares (nos dois sentidos), e com o pretexto absurdo de defender a própria honra, afronta a honra do cargo que ocupa.

_____

[…] O assunto deste capítulo, que é aquilo que representamos no mundo, isto é, o que somos aos olhos dos demais, pode ser dividido, como temos dito, em honra, posição e glória.

Para nossos propósitos, a posição pode ser lançada por terra em poucas palavras, por importante que pareça aos olhos da multidão e dos filisteus, e por grande que possa ser sua utilidade como engrenagem da máquina do Estado. É um valor convencionado ou, mais precisamente, um valor fingido; sua ação tem por resultado uma consideração dissimulada, e a coisa toda é uma farsa para a multidão. As condecorações são letras de câmbio tiradas da opinião pública; seu valor se funda no crédito do girador. Entretanto, e sem falar de todo o dinheiro que poupam ao Estado como um substituto para as recompensas pecuniárias, não deixam de ser uma instituição das mais felizes, supondo que sua distribuição seja feita com discernimento e justiça. Com efeito, a multidão tem olhos e ouvidos, mas pouco além disso, muito pouco juízo, e sua própria memória é limitada. Muitos méritos estão fora da esfera de sua compreensão; outros são compreendidos e aclama-se a sua aparição, mas são prontamente esquecidos. Sendo assim, julgo muito conveniente que uma cruz ou uma estrela proclamem à multidão, em qualquer lugar e sempre: Este homem não é vosso semelhante; tem méritos! Entretanto, as condecorações perdem seu valor quando são distribuídas de forma injusta, irracional ou excessiva. Assim, um príncipe deveria ter tanta cautela em concedê-las como um comerciante em firmar letras de câmbio. A inscrição pour le mérite [pelo mérito] em uma condecoração é um pleonasmo; toda condecoração deveria ser pour le mérite, ça va sans dire [pelo mérito, supõe-se].

A questão da honra é muito mais difícil e ampla que a da posição. Primeiramente temos de defini-la. Se a esse propósito dissesse que a honra é a consciência exterior e a consciência é a honra interior, talvez essa definição pudesse agradar alguns; mas seria uma explicação mais pomposa que clara e fundamentada. Portanto, afirmo que, objetivamente, a honra é a opinião que os demais têm sobre nosso valor e, subjetivamente, o respeito que temos por essa opinião. Segundo essa visão, ser um homem de honra exerce uma influência muito salutar sobre o indivíduo, mas de modo algum puramente moral.

A raiz e a origem do sentimento de honra e de vergonha, inerente a todo homem que não esteja completamente corrompido, e o grande valor atribuído ao primeiro, serão expostas nas considerações seguintes. O homem, por si só, pode muito pouco, como um Robinson Crusoé numa ilha deserta; unicamente em sociedade com os outros é e pode muito. Torna-se ciente dessa condição assim que sua consciência, ainda que pouco, começa a desenvolver-se e desperta nele o desejo de ser considerado como um membro útil da sociedade, capaz de exercer seu papel como homem, pro parte virili, e que tem direito assim a participar das vantagens da sociedade humana. Consegue ser um membro útil da sociedade executando, primeiro, aquilo que se exige e espera de qualquer homem em qualquer posição, e depois aquilo que se exige e espera dele na posição particular que ocupa. Entretanto, percebe rapidamente que o importante não é ser um homem útil em sua própria opinião, mas na dos demais. Essa é a origem do ardor com que mendiga a opinião favorável dos outros e do valor elevado que lhe atribui. Ambas as tendências se manifestam com a espontaneidade de um sentimento inato, que se denomina o sentimento de honra e, em certas circunstâncias, o sentimento de pudor (verecundia). Esse é o sentimento que faz o indivíduo corar ante o pensamento de perder na opinião dos demais, ainda que seja inocente, e ainda quando a falta revelada não seja mais que uma infração relativa, isto é, assumida arbitrariamente. Por outro lado, nada fortalece mais sua coragem e sua determinação que a certeza adquirida ou renovada da boa opinião dos homens, porque lhe assegura a proteção e o socorro das forças reunidas do conjunto, que constitui um baluarte infinitamente mais poderoso contra os males da vida que suas forças sozinhas.

A variedade de relações nas quais um homem pode se situar ante os demais de modo a obter sua confiança, isto é, uma boa opinião, origina muitas espécies de honra. Essas relações são principalmente o meum e o tuum, depois o cumprimento das obrigações e, por último, a relação sexual. A essas correspondem a honra burguesa, a honra do cargo e a honra sexual, cada uma das quais apresentando ainda subdivisões.

A honra burguesa possui a esfera mais extensa; consiste na pressuposição de que respeitaremos absolutamente os direitos de cada um, e que, por conseguinte, nunca empregaremos em nosso proveito meios injustos ou ilícitos. É a condição para a nossa participação em todas as relações pacíficas com os homens. Basta, para perdê-la, uma só ação que seja enérgica e manifestamente contrária a essas relações pacíficas, algo que acarrete punições legais, com a condição de que o castigo tenha sido justo. Entretanto, em última análise, a honra repousa sempre sobre a convicção da imutabilidade do caráter moral, em virtude do qual uma só má ação é um indicador seguro da mesma natureza moral de todas as ações subsequentes, desde que se apresentem circunstâncias semelhantes. É o que indica também a expressão inglesa character, que significa renome, reputação, honra. Por isso, a perda da honra é irreparável, a menos que se deva a uma calúnia ou a falsas aparências. Assim, pois, há leis contra a calúnia, contra a difamação e contra as injúrias; porque a injúria, o simples insulto, é uma calúnia sumária, sem indicação de motivos. Em grego, se poderia muito bem reproduzir desta forma: ἔστι ἡ λοιδορία διαβολὴ σύντομος [a injúria é uma calúnia abreviada], máxima que não se encontra, todavia, expressa em nenhuma outra parte. É evidente que aquele que insulta não tem nada de real nem verdadeiro a produzir contra o outro, do contrário o enunciaria na forma de premissas e deixaria tranquilamente aos que lhe escutam o cuidado de tirar a conclusão; em vez disso, apresenta a conclusão e omite as premissas. Conta com a suposição de que procede assim somente em favor da brevidade. A honra burguesa toma seu nome, é verdade, da classe burguesa, porém sua autoridade se estende a todas as classes indistintamente, sem excetuar sequer as mais elevadas. Ninguém pode prescindir dela, sendo uma questão das mais sérias que merece a precaução de não ser considerada superficialmente. Todo aquele que viola a fé e a lei será, para sempre, um homem sem fé e sem lei, haja o que houver, seja o que for, os frutos amargos que essa perda traz consigo não tardarão em produzir-se.

A honra tem, em certo sentido, um caráter negativo, por oposição à glória, cujo caráter é positivo. Porque a honra não é a opinião que se enuncia sobre certas qualidades especiais, pertencentes a um só indivíduo, mas a que se enuncia sobre qualidades comumente pressupostas, que esse indivíduo se vê obrigado a possuir igualmente. A honra afirma apenas que esse sujeito não é uma exceção, enquanto que a glória afirma que é uma. A glória deve, pois, ser adquirida; a honra, pelo contrário, só necessita não ser perdida. Por conseguinte, ausência de glória é obscuridade, algo negativo; ausência de honra é vergonha, algo positivo. Porém, não devemos confundir essa condição negativa com a passividade; pelo contrário, a honra tem um caráter puramente ativo. Com efeito, procede unicamente de seu sujeito; está fundada em suas ações, e não em ações de outros ou em fatos exteriores; é, portanto, parte daquilo que depende de nós. Essa é, como veremos a seguir, a marca distintiva entre a verdadeira honra e a honra cavalheiresca ou falsa honra. A honra não pode ser atacada exteriormente senão pela calúnia, e o único meio de defesa é uma refutação acompanhada da publicidade necessária para desmascarar o caluniador.

O respeito que se atribui à idade parece fundamentar-se em que a honra dos jovens, ainda que admitida por suposição, não tenha sido posta à prova; por conseguinte, não existe, propriamente falando, mais que o crédito. Porém, homens de mais idade puderam comprová-la no curso da vida, se por sua conduta souberam conservar sua honra. Porque nem os anos em si, visto que os animais chegam também a uma idade avançada e às vezes mais avançada que a do homem, nem tampouco a experiência como simples conhecimento mais íntimo da marcha do mundo, justificam o respeito dos mais jovens pelos mais velhos, algo que se exige universalmente. A simples debilidade senil daria mais direito ao desdém que à consideração. É notável, todavia, que haja no homem certo respeito inato, realmente instintivo, pelos cabelos brancos. As rugas, sinal muito mais infalível da velhice, não inspiram esse respeito. Nunca se fez menção às rugas respeitáveis, mas sempre aos veneráveis cabelos brancos.

O valor da honra é apenas indireto; porque, como se explicou no começo deste capítulo, a opinião dos demais a nosso respeito não pode ter valor para nós senão na medida em que determina, ou pode eventualmente determinar, sua conduta para conosco. Ainda assim, isso se aplica apenas enquanto estivermos entre os homens. Isso porque, como no estado de civilização devemos inteiramente à sociedade nossa segurança e nossa propriedade, como ademais necessitamos dos outros em qualquer empreendimento, e como devemos conquistar sua confiança para que entrem em relação conosco, sua opinião será de grande valor aos nossos olhos, mesmo que esse valor seja sempre indireto – e não vejo como poderia ser direto. Nesse sentido, disse também Cícero: De bona autem fama Chrysippus quiden et Diogenes, detracta utilitate, ne digitum quidem, ejus causa, porrigendum esse dicebant. Quibus ego vehementer assentior [Crisipo e Diógenes diziam que uma boa reputação, fora sua utilidade, não merecia que se levantasse um dedo por ela. Concordo inteiramente com eles. (De finibus, III, 17.)]. Do mesmo modo, Helvécio desenvolve extensamente essa idéia em sua obra capital De l’esprit (discurso III, capítulo XIII) e chega a esta conclusão: Nous n’aimons pas l’estime pour l’estime, mais uniquement pour les avantages qu’elle procure [não amamos o apreço pelo apreço, senão unicamente pelas vantagens que proporciona]. Como os meios não podem ter mais valor que o fim, a máxima a honra é mais importante que a vida, como temos dito, é um exagero.

Isso no que diz respeito à honra burguesa. A honra do cargo é a opinião geral de que um homem incumbido de um emprego possui efetivamente todas as qualidades exigidas e cumpre estritamente as obrigações de seu cargo. Quanto mais importante e ampla é a esfera de influência de um homem no Estado, mais elevado e influente é o posto que ocupa e mais elevada deve ser também a opinião que se tem das qualidades intelectuais e morais que o fazem digno desse posto. Por conseguinte, possui um grau de honra correspondentemente superior, como evidenciado pelos seus títulos, condecorações etc., e também pelo comportamento diferenciado dos demais para com ele. Em mesma escala, a posição de um homem é a que determina o grau particular de honra que se lhe deve, mesmo que esse grau possa modificar-se em função da capacidade das massas em compreender a importância dessa posição. Mas sempre se atribuirá mais honra ao que tem obrigações especiais a cumprir que ao simples burguês, cuja honra se funda principalmente em qualidades negativas.

A honra do cargo exige, ademais, que aquele que ocupa um posto faça respeito à causa de seus colegas e de seus sucessores. Isso é realizado através do rígido cumprimento de seus deveres e também pelo fato de nunca deixar impune nenhum ataque contra o posto ou contra si mesmo, enquanto funcionário; em outras palavras, não permitindo que se chegue a dizer que não cumpre meticulosamente os deveres de seu cargo ou que esse não tem qualquer utilidade para o país. Pelo contrário, deve provar através de punições legais que tais ataques eram injustos.

Como subdivisões dessa honra, encontraremos a do empregado, do médico, do advogado, de todo professor público, de todo graduado, em suma, de todo aquele que foi publicamente declarado capaz de realizar algum trabalho intelectual, tendo, desse modo, se comprometido a executá-lo; em uma palavra, a honra de todos os que se comprometeram publicamente com alguma tarefa. Nesta categoria deve incluir- se também a verdadeira honra militar; esta consiste no fato de que todo homem que se comprometeu a defender sua pátria possui realmente as qualidades necessárias para tal, principalmente o valor, a bravura e a força, e que está realmente disposto a defendê-la até a morte e a não abandonar a bandeira, à qual prestou juramento. É dada aqui à honra do cargo uma significação muito mais ampla que a normal, em que designa o respeito devido pelos cidadãos ao próprio cargo.[…]

Fonte: Aforismos para a Sabedoria de Vida, por Arthur Schopenhauer.

Um pouco de Maio, Junho e Julho…

Algumas pessoas não conseguem compreender certos fatos, não porque sejam burras, pois são até inteligentes, mas simplesmente porque lhes falta imaginação. A imaginação é a base da inteligência: o que não é imaginado torna-se impossível e, por isso, impensável. Quando uma pessoa recebe uma informação ou um dado da realidade que não tem eco em sua imaginação, ela não consegue alcançar senão uma “compreensão” verbal dos mesmos. De fato, essa “compreensão verbal” não é compreensão em absoluto. É estar preso a jogos de palavras, é encarar a linguagem como puro flatus vocis: vento sonoro. Para aquele que é incapaz de uma imaginação aprofundada, os conceitos utilizados não possuem substância. O reino do possível (do imaginável) é o primeiro passo em direção aos reinos consecutivos do verossímil, do provável e do verdadeiro. Sem imaginação é impossível escalar a montanha do Entendimento, essa que leva ao cume da verdade. A imaginação é o acampamento base: a fonte de recursos e provisões para a aventura filosófica.

É papel da literatura de imaginação tornar a realidade pensável.

* * *

Engraçado, a Marcha para Jesus foi provavelmente a única manifestação sem a presença de Judas: segundo consta, apesar dos milhares e milhares de participantes, ninguém ali explodiu sequer um estalo de salão.

* * *

Ei, broto, leia com a voz do Roberto Carlos: “São tantas manifestações”.

* * *

Revoltou-se porque não aguentava mais ouvir promessas — então ouviu mais promessas e ficou satisfeito.

* * *

Foi à rua protestar com o coração sincera e legitimamente indignado — mas a cabeça, após uma lavagem cerebral de anos, permanecia dominada.

* * *

Saiu à rua porque não aguentava mais ser enganado — então a resposta do governo o enganou e ele ficou quietinho em casa.

* * *

Sugestão de leitura para esses dias turbulentos: Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, na tradução de Paulo Bezerra.

* * *

Terá lido Tolstói Os Demônios? Irônico como Dostoiévski previu, na figura de Stiepan Trofímovitch, a morte do colega durante uma fuga das mais ingênuas. A única grande diferença é que, enquanto agonizava, e ao contrário de Tolstói, o coitado do professor Vierkhoviénski finalmente compreendeu o sentido do verdadeiro Cristianismo.

* * *

Essas críticas à polícia lembram as críticas ao “bombardeio cirúrgico” dos americanos na guerra do Iraque — o bom-mocismo quer 100% de precisão robocópica em meio ao caos.

Ora, Shit happens

* * *

Mordido por um vampiro, o gigante levanta-se e sofre convulsões — tarde demais, seu sangue já está contaminado…

* * *

Sugestão para cartaz de passeata: “Queremos álcool no Biotônico!”.

* * *

Achávamos que os estádios não estariam de pé a tempo, mas, em vista do vandalismo, parece que serão as únicas construções de pé em 2014.

* * *

Dr Jekyll vai protestar na passeata mas, coitado, não entende por que o vândalo do Mr Hyde tem sempre de quebrar tudo no final…

* * *

A [pontinhos, pontinhos, pontinhos] foi um movimento espontâneo, antigovernamental, que se espalhou por todo o [pontinhos, pontinhos, pontinhos] , aparentemente sem liderança, direção, controle ou objetivos muito precisos. Geralmente é considerada como o marco inicial das mudanças sociais que culminaram com a [pontinhos, pontinhos, pontinhos]. → http://bit.ly/1923VmX

* * *

Não sei por que os gays gayzistas (os gays normais não são melindrosos) estão reclamando da tal “cura gay” — parece que o remédio é um supositório deste tamanho.

* * *

Redes sociais, esse Maelstrom do século XXI.

* * *

Matéria fueda na revista Alfa: “O Cabra Sensível”. Fala sobre como o Bolsa Família retirou o poder dos homens, tornando-os submissos às “patroas”. Como só a mulher recebe a grana (ou em pelo menos 90% dos casos), e como o desemprego está sempre batendo à porta dos homens (graças, é claro, ao próprio governo), nego baixa a cabeça. Ou seja, o Bolsa Família é uma arma contra o “patriarcado” e contra o “machismo”.

Essa gente à sinistra é muito esperta mesmo…

* * *

Faça amigos até os trinta e tantos anos de vida; depois, após longo afastamento, aguarde a morte para revê-los no Céu ou no Inferno.

* * *

Em espanhol, “heder’ significa “feder”, e “hediondo”, “fedido”. Ou seja: todo mundo já sabia que um corrupto é hediondo, os senadores não precisavam colocar isso no papel. (Alguém imagina que Lula seja cheiroso? Ou Sarney? Ou Collor?)

Aliás, segundo Swedenborg, quando um corrupto é levado do Inferno para o Céu como visitante, ele, assim que lá chega, começa a implorar que o levem de volta, pois,no Céu, a verdade se manifesta e ele não consegue suportar o próprio cheiro, acreditando que o Céu é que está fedendo — e então, devido à ignorância, perpetua sua estada nas sociedades infernais, onde as verdades se escondem.

Nós outros, sabedores do problema, tomaremos um banho no Purgatório antes de seguir viagem…

* * *

Estamos em 2013 e você ainda não adquiriu um Kindle, um Kobo ou sequer um Sony Reader — os inventores do papiro e do pergaminho estão lá no Céu de queixo caído, mal podendo crer em tal notícia.

* * *

Quando finalmente ocorreu a Revolução de 1917, a parcela esclarecida da população russa foi pega de surpresa, afinal, esse tal de socialismo era apenas uma conversa fiada dos anos 1840 e 1850. (Sabe, né? Coisa velha em que ninguém mais acredita…)

Se os russos, que respeitavam a literatura, não ouviram Dostoiévski, quantos brasileiros, que desprezam o verdadeiro conhecimento, irão ouvir um filósofo?

* * *

Meu coração, cujo ritmo não é alterado pela seleção brasileira desde 1990, é tão futebolisticamente neutro que eu poderia ser árbitro de um jogo do Brasil. Seria divertido, nego me xingando de traidor para baixo e me ameaçando por causa de uma arbitragem super correta. B^)

* * *

— Gostou do meu batom vinho?
— Hmm, sua maquiadavélica…

* * *

Tarantino, quanto você cobraria para ser DJ numa festa lá em casa?
— Fuck you, you motherfucker!!

* * *

Na verdade — quem poderá negá-lo? — o fígado do Lou Reed foi extremamente tolerante.

* * *

Dominique Venner, que se suicidou ontem na catedral de Notre-Dame, deve ter morrido em vão: somente os islâmicos admiram mártires suicidas.

* * *

A maioria das discussões filosóficas, religiosas e políticas da internet não passa de logomaquia.

_____
No Houaiss:

logomaquia Datação: 1858

n substantivo feminino
1 discussão gerada por interpretações diferentes do sentido de uma palavra; querela em torno de palavras
2 Derivação: por extensão de sentido.
emprego de termos não definidos num discurso, numa argumentação; palavreado vão
3 Uso: pejorativo.
querela em torno de coisas insignificantes

* * *

Somente um hacker poderia levar a cabo uma efetiva Desobediência Civil: meter um trojan no sistema da Receita Federal que devolvesse a grana dos impostos e tributos diretamente para as contas bancárias dos contribuintes — voilà!

* * *

Aquele cuja fé não repousa senão na imanência e que, mesmo assim, ainda não chegou ao solipsismo, sofre ou de falta de imaginação ou de preguiça de pensar — ou de ambas.

* * *

Esse negócio de acesso biométrico aos caixas eletrônicos significa duas coisas: mais seqüestros relâmpagos e (novidade) ladrões de dedo.

* * *

Verificar os caminhos sem blitz na volta para casa após a balada ainda é a razão mais convincente para se adquirir um smartphone.

* * *

Algumas etnias indígenas acreditavam que a fotografia poderia roubar a alma do fotografado e, com o Facebook, passaram a ter certeza disso.

* * *

Na CNN: nos EUA, ao longo de dez anos três irmãos de nome Castro mantiveram em cativeiro três mulheres — mais cinqüenta anos e teriam igualado o cativeiro imposto a toda uma população pelos irmãos Castro de Cuba.

* * *

Saudade, essa força de gravidade do amor.

* * *

Brazilian Wax → depilação completa dos pelos púbicos que deixa sua genitália lisinha;
Brazilian Tax → depenação completa por parte do poder público que deixa seu bolso lisinho.

* * *

Receita de pavê nerd: quebre ao meio rosquinhas Mabel e coloque-as numa tigela; cubra-as com iogurte do seu sabor predileto; deixe a tigela 1 hora no congelador. Sirva-a para si mesmo enquanto assiste ao The Big Bang Theory.

* * *

Sonhos lúcidos são dez mil vezes melhores que o melhor vídeo game.

* * *

Obviamente, a retirada de cruzes das repartições públicas faz parte do plano de dominação dos vampiros.

* * *

Devia rolar um corredor polonês para os mensaleiros. (Infelizmente, com tantos brasileiros comprados por esmolas oficiais, teríamos de importar os poloneses.)

* * *

— Sabe por que é ruim ser um solteirão? — pergunta ela.
— Por quê?
— Você morre mais cedo…
— Que ótimo! Então não precisarei me suicidar.

* * *

Dizem que Deus é para losers. “Ah, fulano sifu e aí virou crente.” Mas não fracassaremos todos no final? O que é a morte senão o fracasso do corpo?

* * *

Não sei qual ator conseguiu ser mais insuportável: se Cary Grant em His Girl Friday (1940), ou se Tom Ewell em The Seven Year Itch (1955).

* * *

Espero que Dante Alighieri esteja certo e o Inferno seja mesmo uma espécie de zoológico aberto à visitação: caso não lhes seja concedida a Graça, será legal ir dar pipoca para Lula & Cia. E também para esses meninos que matam gente como gente grande. E para pilotos remotos de drone. E para… Puts, a lista é muito grande. Deixa pra lá.

* * *

“De perto, ninguém é normal.” Certo, mas se permitirmos que a norma seja destruída, como saberemos o que é “perto”? Ninguém mais saberá qual é a distância segura e todos pisarão nos calos uns dos outros.

* * *

Segundo Edgar Allan Poe, as quatro condições elementares da felicidade são: a vida ao ar livre; o amor de uma mulher; o desapego a toda ambição; e a criação de uma nova beleza.

No entanto…

« A verdade parece ser que o gênio da mais alta categoria vive num estado de perpétua hesitação entre a ambição e o desprezo por ela.»
Edgar Allan Poe

* * *

O Brasil é um mindfuck.

* * *

Seja ou não um escritor, a vida é sempre você diante do papel em branco.

_____

Fonte: Meu FB.

Mário Ferreira dos Santos: A luta contra o espírito criador

«  Uma das outras terríveis características de nossa época é a luta contra o criador. Desconfia-se, nega-se, anatematiza-se o criador. O que vale é a falsa criação. E esta caracteriza-se apenas por tomar abstratamente um valor, que é integrante de uma totalidade, exagerá-lo de tal modo que se julgue que isso é criador. É o que se faz na arte. Salienta-se a composição, e acima de tudo a composição, salienta-se a construção, e acima de tudo a construção, salienta-se o geométrico, e acima de tudo o geométrico, etc. Desse modo, temos uma arte monstruosa, porque ela toma o que é natural e desmesura-o exageradamente. É o que se faz hoje, pensando-se “descobrir um novo veio”, “realizar uma obra autêntica”, “trazer uma mensagem”, e expressões semelhantes. Na verdade, tudo isso realiza a frustração da criação. E os pobres ingênuos artistas que seguem esse caminho, insatisfeitos e derrotados, terminam apavorados por verificar que nada fizeram, que foram apenas iludidos por promessas vãs. E muitos valores são destruídos, assim, caindo, desesperançados numa repetição cansativa e monótona, quando não na esterilidade mais completa. Tudo isso ainda é barbarismo.

«  Diz-se que, certa ocasião, Beethoven, quando jovem, procurou Mozart para que lhe ministrasse aulas de piano. Este o recebeu e executou ao piano, uma frase musical, e disse-lhe: “Improvise!” E Beethoven pôs-se a improvisar. Mozart retirou-se para uma sala ao lado, onde estavam alguns amigos, e chamando-lhes a atenção para os sons que saíam do piano, disse-lhes: “A música deste menino ainda revolucionará o mundo!” Citamos isso de memória, porque a validez histórica não é o que importa aqui, mas a significação do fato. Hoje, um aluno que pretendesse procurar um mestre, este lhe diria: “Vá ao piano e execute um estudo de Chopin!” Para ele o que importa não é o criador, mas o repetidor, e repetir, repetir ritmos, repetir sempre é próprio do bárbaro, é a satisfação mais completa do bárbaro. Hoje não se desejam mais os criadores, mas os repetidores. O papel do mestre é corrigir, ensinar, apoiar, estimular a criar e não frustrar, criar obstáculos à criação, fomentar a desconfiança nas próprias forças, promover a incapacidade. Não é, sem dúvida, a sua verdadeira missão culta; mas a missão bárbara é impedir a criação. Entre os bárbaros, os inovadores são olhados como criminosos, são castigados e expulsos até da tribo. Quem proponha um pensamento novo, estranho ao aceito pela tribo, através das gerações, é um perigoso inovador, um perturbador, um corruptor, porque a coerência da tribo está ameaçada. Mas a cultura é uma conquista constante de estágios cada vez mais altos. O que esta deseja é erguer o homem aos degraus mais elevados e não fazêlo estacionar em patamares.

«  Pois observe-se hoje o que se faz nas universidades. Não é o que dizemos? Não se coage com energia o aluno para que não tente provar alguma coisa nova, expor criticamente um pensamento, ensaiar uma nova maneira de ver as coisas? Quão distante estamos nós daquela Idade Média (que os tolos querem chamar de época de trevas), em que se exigia, para o estudante de Filosofia, que comentasse as Sentenças de Pedro Lombardo com argumentos próprios, e só se dava valor ao trabalho que apresentasse alguma originalidade, novos argumentos, e respondesse com mais firmeza aos argumentos falsos, trouxesse novas demonstrações; em suma, que fosse criador! Hoje, um aluno que tente fazer isso, peca contra a pureza do barbarismo, ofende a essa nova e falsa sacralidade que se prega.

«  A luta contra a criação é uma das mais lamentáveis práticas empregadas hoje para estancar a capacidade criadora. O que o bárbaro quer é a horizontalidade tribal, a homogeneidade plana, o vale, o pântano, onde há lugar para todos os sapos e vermes.

«  A luta contra a criação não vem de hoje. Já se instaurou há mais de dois séculos. E tem dado seus frutos: a esterilidade de nossa época. Vejamos por partes. O medo de criar levou à seguinte situação: nestes dois séculos, os autodidatas criaram mais que os homens de escolaridade. Não é de admirar que, numa pesquisa realizada por um grande jornal americano, se chegasse à conclusão que a humanidade mais deve aos autodidatas que aos homens de escolaridade rígida. E isso se deve ao simples fato de aquele não ter à sua frente o “mestre”, que constantemente o está alertando contra a temeridade de criar. Como na matéria a que se dedica é senhor da sua vontade, é senhor da sua criação, não há óbices à sua atividade. Não lhe custa experimentar, tentar, errar e até acertar.

«  Quando um autor escreve uma centena de livros de Filosofia, isso causa espanto, apesar de ter havido, em outras épocas, autores que escreveram matéria que ocuparia, não centenas, mas até milhares de volumes nas dimensões dos que costumamos publicar hoje. A esterilidade é espantosa, e quando há alguma multiplicação é repetição, como se vê em certos pintores modernos. Ora, o bárbaro é estéril. O barbarismo é o contrário da criação. Temos, pois, uma semelhança espantosa hoje: o homem, cada dia que passa, diminui em sua capacidade de criar. As exceções, quase todos autodidatas, já não são suficientes para levar avante a criação cultural. Não é, pois, de admirar que haja autores que falem na nossa esterilidade como constitutiva do período cultural que vivemos, como decorrente da própria cultura, que esgotou as suas veias. Não é verdade, porém. Nossa cultura não esgotou ainda todas as suas possibilidades. Podem homens de prestígio afirmarem que secaram todas as fontes, mas eles se enganam. Podem afirmar que nada mais temos que fazer do que viver a civilização, porque a cultura está anquilosada e morta; que só nos resta aproveitar a técnica e usufruir dos bens criados. Não é verdade. Há ainda muitos mananciais e há muitas promessas. É natural que aqueles que só têm os olhos voltados para o que é degenerescência, abandono, esterilidade, aqueles que só dirigem os seus olhos para os espécimes, que representam o deserto cultural, pensem assim. Mas se eles quisessem procurar no campo da Filosofia, da própria Ciência, os que estão abrindo novos horizontes, apesar da resistência tremenda que lhes fazem os despeitados e estéreis, compreenderão que há ainda muitas auroras para luzir. É este, realmente, um tema de máxima importância e serviu para maiores análises em obras nossas, onde estudamos a possibilidade de criação em nosso ciclo cultural, opondo-nos à visão pessimista de Spengler, Toynbee e muitos outros, que nos julgam estéreis, sem esperanças, senão vagas, e muito condicionais, sobre novos veios de criação, por estarem envoltos pela barbárie que nos ameaça.»

_____

Trecho de Invasão Vertical dos Bárbaros (1967), de Mário Ferreira dos Santos.

Isaac Bashevis Singer: o tédio, a alegria e a compatibilidade amorosa

Isaac Bashevis Singer

« Olhando para trás, para a minha vida, vejo que todas as minhas qualidades, boas e más, já estavam comigo naquele tempo. Até minhas idéias sobre literatura. Muitas vezes ouvira minha mãe e Joshua dizerem que boa parte das desgraças do mundo vinham do tédio humano. O tédio é tão doloroso, as pessoas arriscariam sua vida para escapar dele. Nações se cansam de longos períodos de paz, e tentam criar uma crise, um conflito, a fim de iniciar uma guerra. Alguns homens se cansam de sua vida familiar, e começam brigas que levam ao divórcio. Jovens de casas ricas deixam seus pais e procuram aventuras que os prejudicam. Na sala de meu pai eu escutava constantemente relatos de ferocidade e loucura humana. Alguns homens corriam para a América com outras mulheres, deixando suas famílias sem pão. Ouvia falar de moças que começavam uma vida de opróbio (eu não sabia exatamente o que era isso) porque seus dias e noites lhes pareciam tão tristes. Quando comecei a ler, vi que bons escritores sempre tinham algumas surpresas e mudanças imprevisíveis ao leitor. Meu irmão dissera que o casuísmo talmúdico fora desenvolvido entre judeus poloneses como meio de tornar a Torá mais divertida, de aguçar as mentes dos estudantes, de introduzir alegria no estudo e fomentar a competição dos eruditos. A Cabala de Isaac Luria, a crença em falsos messias como Sabbatai Zvi e Jacob Frank, bem como o chassidismo, eram todos criados para avivar o judaísmo, que estagnava sob regras rígidas dos rabinos e o rigorismo da lei. Ouvi meu irmão dizer que o Baal Shem, nascido no começo do século XVIII, tinha receio de que o Iluminismo seduzisse os judeus poloneses. O chassidismo pregava que a maneira de servir a Deus era através da alegria. Melancolia e tédio afastavam os homens de Deus.

« Quando comecei a fantasiar sobre me tornar um escritor, eu já entendera que os mestres sempre entretêm o leitor. Também podia ver que nada seduz tanto o leitor quanto uma história de amor. Eu lera na Guemará que para homens e mulheres encontrarem seus companheiros certos era um milagre tão grande quanto o Mar vermelho abrir-se em dois. Um bom casamento nem sempre acontece, e cada união é diferente. Os vários encontros de amor nunca se exauriam. Cada personalidade humana aparece só uma vez na história dos seres humanos. Assim, cada evento amoroso. A sala de reuniões de meu pai era como uma sala de aula para mim, onde eu podia estudar a alma humana, seus caprichos e anseios, suas barreiras. Ficava espantado ouvindo as intensas lamentações dos adultos, casais que pediam divórcio ou fim de noivado ou simplesmente vinham abrir seus corações para meus pais. Homens e mulheres ansiavam por serem felizes juntos, mas em vez disso acabavam em brigas tolas, acusações odiosas, várias mentiras e atos de traição. Cada um queria ser mais forte do que o outro, e muitas vezes rebaixar e denegrir o mais fraco. Às vezes sentia desejos de lhes dar conselhos eu mesmo, especialmente quando os casais eram jovens e bonitos. Muitas vezes me apaixonava pela moça e sua maneira de falar a respeito de seus problemas. Certa vez, um casal inusitadamente elegante veio procurar meu pai para pôr fim a um noivado. O rapaz acusava a moça de excessiva familiaridade com os amigos dele, e ela disse que o rapaz fazia o mesmo com as amigas dela. De repente, o rapaz deu uma bofetada na moça. Ela tentou devolver o tapa, e por algum tempo brigaram como duas crianças. Mais tarde, depois que meus pais os tinham acalmado, e os dois iam embora, o rapaz pegou-a pelo braço e beijaram-se. Lembro de ter pensado: “É disso que deve tratar a literatura”. Ouvi minha mãe dizer:

« — Tão bonitos e tão doidos. Seria um pecado se separarem.

« Lembro um caso em que um homem idoso acusava sua esposa — era a segunda esposa dele — de salgar demais sua comida. Os médicos o tinham proibido de comer muito sal, pimenta e outros temperos fortes. Mas não importava o quanto ele suplicava à mulher que usasse menos sal e pimenta, ela sempre punha um monte na comida. Meu pai perguntou à mulher por que ela não fazia o que seu marido lhe pedia. E citou o Guemará dizendo que “uma esposa Kosher cumpre os desejos do esposo”. A mulher disse que não podia cozinhar sem sal e temperos porque a comida ficava sem gosto. Minha mãe disse: “Você pode colocar o sal depois. Sal tem o mesmo gosto se a gente o coloca na panela ou no prato”. Mas a mulher disse que não era assim. Nos olhos dela eu podia ver a teimosia de uma camponesa que meteu uma coisa na cabeça e jamais se libertará dela. Ela disse à minha mãe que, se Deus quisesse, encontraria um homem que não metesse a cara nas panelas. Seu sorriso revelava más intenções. Talvez ela quisesse que seu marido ficasse doente e morresse.»
____

Trecho de Amor e Exílio, de Isaac Bashevis Singer. (Tradução de Lya Luft.)

Compre meus ebooks no Google Play

google play

Por alguma razão irônica — afinal a Google é a empresa que criou a melhor ferramenta de buscas da internet –, meus ebooks podem ser encontrados facilmente na Amazon, na Kobo Books, na Livraria Cultura, na Agbook e no Clube de Autores, contudo, caso você pesquise meu nome no Google Play, não encontrará livro algum! Mas eles estão lá! Enquanto esse problema bizarro não é resolvido, publico abaixo os links para os livros já disponíveis na referida loja online. (Os ebooks adquiridos no Google Play estão no formato EPUB, logo, podem ser lidos em smartphones e tablets com Android, no iPhone, no iPad e em ereaders que aceitem EPUB, tais como o Sony Reader, o Nook e o Kobo.)

Os ebooks:

A Tragicomédia Acadêmica — Contos Imediatos do Terceiro Grau;

A Bacante da Boca do Lixo;

Mestre de um Universo;

Tlön, Urântia, Borges, Deus;

A Visitante do Planeta X.

Para conhecer meus outros livros (impressos) e ebooks, clique aqui.

______
Atualização do dia 6 de Junho de 2013: meus ebooks começaram finalmente a aparecer na busca do Google Play.

G.K. Chesterton: Sobre a leitura

G.K. Chesterton

A maior utilidade dos grandes mestres da literatura não é a literária; ela está além de seu estilo grandioso e até mesmo de sua inspiração emocional. A maior utilidade da boa literatura reside em impedir que um homem seja puramente moderno. Ser puramente moderno é condenar-se à limitação; assim como gastar o último centavo que há na terra no mais novo lançamento de chapéus é condenar-se a ficar fora de moda. A estrada dos séculos passados está repleta de homens que morreram, mas que de certa forma continuam vivos. A literatura clássica e permanente cumpre sua melhor missão quando nos lembra continuamente o vigor da verdade e quando equilibra idéias mais antigas com idéias atuais, às quais, por um momento, podemos estar inclinados. O modo como ela o faz, no entanto, é suficientemente curioso para valer a pena que o compreendamos perfeitamente.

Na história da humanidade, aparecem de tempos em tempos, de maneira especial em épocas agitadas como a nossa, certas coisas que no mundo antigo se chamavam heresias, mas que no mundo moderno chamam-se modas. Às vezes, são úteis durante certo tempo; outras vezes são completamente nocivas. Porém, sempre são aceitas, graças a uma convergência indevida em torno de uma verdade, ou de uma meia verdade. Assim, é verdade insistir no conhecimento de Deus, porém é herético insistir nele como o fez Calvino, a custo do amor de Deus; dessa maneira, é verdade desejar uma vida simples, porém é uma heresia desejá-la às custas dos bons sentimentos e das boas condutas.

O herege (que também é o fanático) não é um homem que ama demasiadamente a verdade; ninguém ama a verdade demasiadamente. O herege é um homem que ama sua verdade mais que a verdade mesma. Prefere as meias verdades que descobriu à verdade completa que a humanidade tem encontrado. Não lhe agrada ver seu pequeno e precioso paradoxo amarrado com vinte banalidades da sabedoria do mundo.

Às vezes, tais inovações têm uma sombria sinceridade, como Tolstói, outras, uma sensitiva e feminina eloqüência, como Nietzsche, e, às vezes, um admirável humor, ânimo e simpatia pública, como Bernard Shaw. Em todos os casos, provocam uma pequena comoção e talvez criam alguma escola. Porém, sempre se comete o mesmo erro fundamental: supõe-se que o homem em questão descobriu uma nova idéia. Porém, na realidade, o novo não é uma idéia, senão a divisão de uma idéia.

É muito provável que a idéia mesma se encontre distribuída por todos os grandes livros de caráter mais clássico e sensato, desde Homero e Virgílio até Fielding e Dickens. Podem-se encontrar todas as novas idéias em livros antigos, só que ali as encontraremos equilibradas, no lugar que lhes corresponde e, às vezes, com outras idéias melhores que as contradizem e as superam. Os grandes escritores não deixavam de lado uma moda porque não haviam pensado nela, mas porque haviam pensado também nas outras alternativas.

No caso de não ter ficado claro, tomarei dois exemplos, ambos referentes à idéia de ‘moda’ entre alguns dos teorizadores mais imaginativos e jovens. Nietzsche, como todos sabem, pregou uma doutrina que ele e seus seguidores aparentemente consideravam muito revolucionária; sustentaram que a moral altruísta simplesmente havia sido uma invenção de uma classe escrava para evitar que, em tempos posteriores, alguém surgisse para combatê-la e dominá-la. Os modernos, concordando ou não com Nietzsche, sempre se referem a essa idéia como algo novo e jamais visto. Com tranqüilidade e insistência, se supõe que os grandes escritores, digamos Shakespeare, por exemplo, não sustentou essa idéia porque jamais havia pensado nela. Recorramos ao último ato de Ricardo III de Shakespeare e encontraremos não só tudo o que Nietzsche tinha a dizer, resumido em duas linhas, mas também as mesmas palavras de Nietzsche. Ricardo o corcunda, disse:

Consciência é só uma palavra que usam os covardes,

Criada, a princípio, para infundir terror aos fortes.

Como já falei, o fato é evidente. Shakespeare havia pensado na idéia de Nietzsche e na Moralidade Suprema; porém deu-lhe seu próprio valor e a pôs no lugar que lhe corresponde. Este lugar é a boca de um corcunda meio louco nas vésperas da derrota. Essa raiva contra os debilitados só é possível em um homem morbidamente admirável, mas profundamente enfermo; um homem como Ricardo; um homem como Nietzsche. Este caso deveria destruir a fantasia absurda de que estas filosofias modernas são modernas no sentido de que os grandes homens do passado não pensaram nelas. Não é que Shakespeare não tenha visto a idéia de Nietzsche; ele a viu, porém viu além dela.

Tomarei um outro exemplo: o Sr. Bernard Shaw em sua peça marcante e sincera chamada Major Barbara, lança um dos mais violentos dos seus desafios verbais à moralidade proverbial. As pessoas dizem: “A pobreza não é nenhum crime”. “Sim,” diz o Sr. Bernard Shaw, “a pobreza é um crime e é mãe de crimes. É um crime ser pobre se você tem a possibilidade de se rebelar ou de enriquecer. Ser pobre significa ser covarde, servil ou idiota”. O Sr. Shaw mostra sinais de uma intenção de concentrar-se nesta doutrina, e muitos de seus seguidores fazem o mesmo. Agora, é apenas a concentração que é nova, não a doutrina.

Thackeray fez sair da boca de sua personagem, Becky Sharp, que é fácil ser moral com mil libras por ano, difícil é ser com cem. Porém, como no caso de Shakespeare que antes mencionei, o importante não é apenas que Thackeray conhecia esta doutrina, senão que sabia também seu valor. Ela não só lhe ocorreu, mas também ele sabia onde deveria colocá-la. Deveria ocorrer na conversa de Becky Sharp; uma mulher sagaz e mentirosa, porém que desconhecia completamente todas as emoções mais profundas que fazem a vida valer a pena. O cinismo de Becky, com Lady Jane e Dobbin para equilibrar, tem um certo ar de verdade. O cinismo do Undershaft do Sr. Shaw, apresentado com a austeridade de um discurso de campanha, simplesmente não é verdadeiro. Simplesmente não é verdade, em absoluto, dizer que os pobres são menos sinceros e mais covardes do que os ricos. A meia verdade de Becky se tornou primeiro em uma loucura e depois em um credo e, finalmente, em uma mentira. No caso de William Makepeace Thackeray, como no de Shakespeare, a conclusão a que chegamos é a mesma. O que chamamos de idéias novas são, geralmente, fragmentos das antigas idéias. Não é que uma idéia particular não tenha ocorrido a Shakespeare. É que, simplesmente, ele encontrou muitas outras boas idéias para livrá-lo da tolice.

G. K. Chesterton

Tradução: Agnon Fabiano

Fonte: Sociedade Chesterton Brasil.

Marshall McLuhan e a contracultura

Marshall McLuhan

« O campus universitário estende-se por toda a Terra, mas a universidade já não existe.»

« A educação converteu-se numa caçada permanente. (…) os locais das escolas e para as escolas já não existem. Agora há apenas terrenos de caça.»

« O homem atual, o homem da era da eletricidade, é o mais primitivo que jamais existiu. Somos, constituímos a sociedade primitiva de todos os tempos.»

« O programador [de computadores] terá de ser um homem de talento excepcional.»

« Todas as nossas velhas coisas se tornarão automaticamente valiosas, embora inúteis.»

« Todos os fascistas eram oitocentistas, pessoas tribais que utilizavam o século XX como arma de ataque. (…) É o caso de Hitler, um oriental, um budista, um amante da paz, de começo. Subitamente, porém, descobriu os tanques pesados e apaixonou-se por eles. Quando um homem tribal adota a mentalidade do século XX, arma-se logo algazarra. Atualmente, os jovens poderiam fazer o mesmo. Refiro-me aos hippies. Poderiam facilmente transformar-se em hitleres, aferrarem-se ao trabalho e utilizarem-no para nos destruir. E é muito possível que o façam. Poderiam facilmente tomar conta da sociedade inteira, ou melhor, daquilo a que chamamos sociedade.»
____
Trechos de uma entrevista com Marshall McLuhan (1911-1980), autor de O Meio é a Mensagem (1967), incluída no livro Viagem aos centros da Terra, de Vintilă Horia (1915-1992).

Page 9 of 31

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén