Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Tag: mitologia

Robert A. Johnson fala sobre o amor romântico e o amor divino

Tristão e Isolda

« A tragédia é que Tristão, com todas as possibilidades de vir a ter uma vida de relacionamentos, cercado de calor humano, nega-se o direito de vivê-los. Curiosamente, não há nada que ele precise fazer: só precisa abrir os olhos, despertar para as riquezas que o cercam e vivê-las. Mas essas brumas do idealismo romântico, essa mácula do mundo humano, impedem que ele alcance justamente esse amor que tanto deseja. Ao rejeitar Isolda das Mãos Brancas, ele renova seu pacto com a morte.

« Esse padrão de amor romântico repete-se constantemente na vida das pessoas de hoje. Ao viver um relacionamento ou um casamento, o homem sente-se vagamente insatisfeito: ou a vida não tem suficiente significado, ou ele sente falta da empolgação e do enlevo que sentia antes. Ao invés de compreender que está sentindo a falta do amor divino – a experiência interior da anima, que é de sua própria responsabilidade – ele põe a culpa na mulher. Ela não o está fazendo feliz; ela não é suficientemente boa; ela não realiza os seus sonhos. Apesar de ela lhe dar tudo o que está ao alcance de uma mulher mortal, ele a rejeita e continua procurando Isolda a Bela. Ele sempre pressupõe que em algum lugar, em alguma mulher ou em alguma aventura, irá encontrar Isolda a Bela, e será, então, capaz de possuí-la fisicamente e encontrar nela o significado de sua vida e sua realização. E assim denegrimos o amor humano, assim rejeitamos Isolda das Mãos Brancas, assim renovamos nosso juramento coletivo de "servir a um só amor".

« O amor humano, simbolizado por Isolda das Mãos Brancas, é totalmente diferente daquilo que chamamos de "apaixonar-se". Para o homem, amar segundo a maneira humana do feminino terrestre, significa que ele terá de direcionar seu amor para um ser humano mortal, não para a imagem idealizada que projeta. Significa relacionar-se com uma pessoa de verdade, identificar-se com ela, reconhecer o seu valor e os seus elementos sagrados, tal como ela é, na sua totalidade – com seu lado sombrio, suas imperfeições e tudo aquilo que a torna um ser mortal comum. "Estar apaixonado" é diferente: não é algo direcionado para uma mulher; é algo dirigido para a anima, o ideal do homem: seu sonho, sua fantasia, sua esperança, suas expectativas, sua paixão por um ser interior que ele sobrepõe à mulher exterior.

« Isso explica porque uma parte tão grande deste "amor" entre Tristão e Isolda a Bela é tão inequivocamente egocêntrico. Tristão quer que Isolda sofra, que se junte a ele na sua infelicidade, porque seu amor não está realmente dirigido para Isolda como mulher mortal, mas para si mesmo! Ele está preocupado com as suas próprias projeções, com a sua própria paixão – esta paixão cuja culpa ele joga na poção do amor, mas que ele faz questão de alimentar com sucessivas viagens até Isolda.

« Isolda, de maneira similar, não parece preocupar-se com a felicidade ou com o bem-estar de Tristão. Ela se preocupa em saber se ele a coloca em primeiro lugar, se sua aliança é somente com ela, se ele continuará a representar com ela o drama que a transporta para o "bosque encantado". Eles não estão preocupados com a felicidade ou o bem-estar ou a sobrevivência do outro, mas apenas em renovar a própria paixão, em serem transportados para um lugar mágico, em usar o outro para manter o drama passional em andamento. No final de suas vidas, sua única preocupação é usarem-se mutuamente para se libertarem completamente da terra mesquinha e alçarem vôo para aquele mundo imaginário e mágico, onde "maravilhosos trovadores cantam suas canções eternamente". Na verdade, eles não se amam, usam-se mutuamente para viverem as experiências ardentes e passionais que desejam ter.

« Isto, independentemente de o admitirmos ou não, é o amor romântico. Em Tristão e em Isolda, o egoísmo, o uso do outro para criar a paixão pela paixão, é tão evidente, tão ingênuo, tão infantil, que se torna inequívoco. Mas as nossas próprias versões do amor romântico, dificilmente chegam a ser mais sutis. Simplesmente nunca entra em nossa cabeça romântica que possa existir algo de estranho em procurar um assim chamado "amor" para conseguir a minha realização, para dar vazão às minhas emoções, para tornar realidade os meus sonhos, as minhas fantasias, a minha "necessidade de ser amado", o meu ideal do amor perfeito, a minha segurança, o meu entretenimento.

« Quando genuinamente amamos outra pessoa, trata-se de um ato espontâneo do ser, uma identificação com a outra pessoa que leva a reconhecê-la, a valorizá-la e a honrá-la, que nos leva a desejar a felicidade e o bem-estar dessa pessoa. Nesses raros momentos em que estamos amando, e não concentrados no nosso próprio ego, paramos de perguntar que sonhos vamos realizar através dessa pessoa, que vibrantes e extraordinárias aventuras ela nos irá proporcionar.

« Existem dois casamentos que Tristão precisa fazer. O primeiro é interno, com sua própria alma, com Isolda a Bela. Esse casamento ele precisa fazer indo ao seu mundo interior, praticando sua religião, fazendo seu trabalho interior, vivendo com os deuses desse mundo interior. O segundo é com Isolda das Mãos Brancas, e esse casamento significa uma união com outro ser humano, significa aceitá-la como tal. Significa também fazer outros relacionamentos – fazer amigos por exemplo, e assumi-los como seres humanos.

« Podemos compreender esses dois casamentos como o reflexo das duas naturezas que se misturam dentro do homem: a humana e a divina. Para nós ocidentais, o grande símbolo dessas duas naturezas em integração é Cristo, e as dimensões dessa realidade são expressas de forma perfeita no simbolismo da doutrina cristã da Encarnação. Nela é dito que Deus veio habitar o mundo físico e o redimiu; Deus torna-se humano! As conseqüências dessa crença, tomadas como símbolo, são enormes. Significam que este mundo físico, este corpo físico e esta vida mundana que levamos na terra também são sagrados. Significam que os demais seres humanos têm o seu próprio valor intrínseco: eles não estão aqui meramente para que possamos ver refletida neles nossa fantasia de um mundo mais perfeito ou para que transportem nossas projeções de anima, ou ainda que se juntem a nós na representação de uma alegoria de um outro mundo. O mundo físico, mundano, comum, tem sua própria beleza, sua validade própria e sua próprias leis para serem observadas.

« Existe uma asserção no Zen: "Esta terra – eis o Caminho! "O Caminho para a iluminação, para a alma, não é pelas nuvens, não é pela negação da terra: ele é encontrado dentro desta vida mortal, dentro da simplicidade das nossas tarefas mundanas e dos nossos relacionamentos com pessoas comuns. Tudo isso está expresso na realidade simbólica da Encarnação.

« A Encarnação nos fala do paradoxo de duas naturezas: o amor divino e o amor humano, ambos misturados num único cálice, ambos contidos num mesmo ser humano. A Encarnação nos diz que Deus se fez carne, e o Deus encarnado, Cristo, era ao mesmo tempo humano e divino. Nesta imagem está refletida a natureza dupla do ser humano, os dois amores que, legitimamente, exigem nossa lealdade e a integração que devemos fazer de ambos. Portanto, a Encarnação nos mostra que o mundo divino e o mundo pessoal coexistem dentro de cada ser humano, e é quando as duas naturezas vivem juntas numa integração consciente que uma pessoa se torna um self consciente.

« Independentemente de quais possam ser nossas idéias sobre a Encarnação histórica real, precisamos reconhecer as impressionantes conseqüências do Deus-feito-homem como um símbolo, como um modelo arquetípico arraigado no inconsciente ocidental. É uma realidade psicológica, um princípio unificador que atua em nós de dentro para fora, pouco importando se temos ou não consciência disso. Vamos viver essa natureza dual de uma forma ou de outra, consciente ou inconscientemente.

« A Encarnação simboliza a integração; a poção do amor simboliza a mistura desordenada. Se admitirmos conscientemente nossa natureza dual, conseguiremos a integração transcendental; se a tomarmos ao acaso, sem consciência, teremos a poção do amor. A história psicológica do Ocidente é esta: na medida em que deixamos de aceitar seriamente a Encarnação, mesmo como realidade simbólica, a verdade da nossa natureza dual é relegada ao underground. Inconscientemente, o amor divino, e todo o paradoxo do amor divino e do amor humano, infiltram-se na poção do amor. É lá que ambos se encontram atualmente, borbulhando num caldeirão de projeções, misturados na sopa do amor romântico.»

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We – A Chave da Psicologia do Amor Romântico, Robert A. Johnson

Eça de Queiroz e as razões de Ulisses ao abandonar a mulher perfeita

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« Era, com efeito, a hora em que homens mortais e deuses imortais se acercam das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundância, o repouso, o esquecimento dos cuidados, e as amoráveis conversas que contentam a alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda conservava o aroma do corpo de Mercúrio, e diante dele as ninfas, servas da deusa, colocaram os bolos, os frutos, as tenras carnes fumegando, os peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num trono de ouro puro, a deusa recebeu da intendenta venerável o prato de ambrosia e a taça de néctar. Ambos estenderam as mãos para as comidas perfeitas da Terra e do Céu. E logo que deram a oferenda abundante à Fome e à Sede, a ilustre Calipso, encostando a face aos dedos róseos, e considerando pensativamente o herói, soltou estas palavras aladas:

« – Oh! Ulisses muito subtil, tu queres voltar à tua morada mortal e à terra da pátria… Ah!, se conhecesses, como eu, quantos duros males tens de sofrer antes de avistar as rochas de Ítaca, ficarias entre os meus braços, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem nunca perder a querida força, nem a agudeza do entendimento, nem o calor da facúndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!… Mas desejas voltar à esposa mortal, que habita na ilha áspera onde as matas são tenebrosas. E todavia eu não lhe sou inferior, nem pela beleza, nem pela inteligência, porque as mortais brilham ante as imortais como lâmpadas fumarentas diante de estrelas puras…

« O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o braço, como costumava na Assembléia dos Reis, à sombra das altas popas, diante dos muros de Tróia, disse:

« – Oh deusa venerável, não te escandalizes! Perfeitamente sei que Penélope te está muito inferior em formosura, sapiência e majestade. Tu serás eternamente bela e moça, enquanto os deuses durarem: e ela, em poucos anos, conhecerá a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das dores de decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que treme. O seu espírito mortal erra através da escuridão e da dúvida; tu, sob essa fronte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas oh deusa, justamente pelo que ela tem de incompleto, de frágil, de grosseiro e de mortal, eu a amo, e apeteço a sua companhia congênere! Considera como é penoso que, nesta mesa, cada dia, eu coma vorazmente o anho das pastagens e a fruta dos vergéis, enquanto tu ao meu lado, pela inefável superioridade da tua natureza, levas aos lábios, com lentidão soberana, a ambrosia divinal. Em oito anos, oh deusa, nunca a tua face rebrilhou com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lágrima; nem bateste o pé, com irada impaciência; nem, gemendo com uma dor, te estendeste no leito macio… E assim trazes inutilizadas todas as virtudes do meu coração, pois que a tua divindade não permite que eu te congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido com o suco das ervas benéficas. Considera ainda que a tua inteligência de deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade; e, durante o longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar, de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a força do meu entendimento! Oh deusa, tu és aquele ser terrífico que tem sempre razão! Considera ainda que, como deusa, conheces todo o passado e todo o futuro dos homens: e eu não pude saborear a incomparável delícia de te contar à noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres façanhas e as minhas viagens sublimes! Oh deusa, tu és impecável: e quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia de sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais:

« "Foi culpa tua, mulher!", erguendo, em frente à lareira, uma alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame de um amor que constantemente se alimenta destes modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários!

« Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taça de ouro vazia e serenamente a deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mãos imóveis sobre o regaço, enrodilhadas na ponta do véu.

« No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e já das ancas dos seus quatro cavalos suados subia e se espalhava por sobre o mar um vapor rúbido e dourado. Em breve os caminhos da ilha se cobriram de sombras. E sobre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta, Ulisses sem o desejo, e a deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e depois o doce sono.»

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Trecho do conto A Perfeição, de Eça de Queiroz.

Tudo indica que o salário de Calipso também era maior que o de Ulisses. Sem falar que, ao contrário dele, ela tinha curso superior. Sim, o novo sexo frágil não é tão novo assim…

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