Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Mundo (Página 2 de 6)

Nosso homem em Curitiba

Aleksandr Dugin

O agente G. Greene segue o grupo até um bar de Curitiba e senta-se numa mesa próxima. Percebendo que a reunião poderá ocorrer ali mesmo, entra em contato com Langley, a sede da CIA, mediante um excelente software utilizado por todos os espiões do mundo: o WhatsApp.

— Controle, segui Dugin até um bar próximo ao hotel em que ele se hospedou. Ele está bebendo com um grupo de jovens e com outras duas pessoas de meia-idade, um homem e uma mulher.

— ¿Algum deles é ligado ao governo? ¿O agente cubano José Dirceu está com eles?

— Não, Controle. Nenhum dos presentes está em nossa lista.

— Estranho. ¿Mas estão falando sobre uma aproximação entre o Kremlin e Brasília?

— Bom, por enquanto Dugin apenas reclamou de ser o único a pedir uma vodka, enquanto os demais, segundo seu intérprete, “como menininhas, tomam apenas suquinhos de fruta”.

Resposta de Langley: :-))

— Começaram a falar mais baixo, Controle. Devem ter chegado ao assunto principal. Aguarde um momento.

— OK.

Em Langley, o Controle da missão espera por novas informações, enquanto joga Candy Crush Saga. Os minutos passam rapidamente. Por um instante, o Controle pensa que talvez fosse melhor utilizar aquele tempo para ler a pilha de documentos em sua mesa, todos relativos a Dugin, mas está tenso demais para se concentrar na leitura do que quer que seja. Melhor prosseguir com o jogo.

— Controle — chama novamente o agente Greene, ao cabo de uns vinte minutos. — Eles estão falando sobre um certo “Inimigo Número 1 do Eurasianismo”, alguém que divulgou para o resto do mundo os planos secretos de Dugin e de Putin.

— Quem é ele, Greene? Você obviamente já sabe por que isso nos interessa tanto.

— Sim, Controle: “o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo”.

— Exato. E, quando o descobrir, relate apenas a mim, você sabe que também temos inimigos aqui em Langley.

— Claro, senhor. Um momento, ainda estou tentando entender o nome.

O Controle volta ao Candy Crush. A cada cinco minutos de vida desperdiçada, ele xinga mentalmente o criador de tão viciante praga digital.

— Controle, eles o chamam apenas de “O Astrólogo”.

— Astrólogo? Que codinome interessante.

— Não sei se é apenas um codinome. Dugin está a lhes dizer para que insistam nessa alcunha em todas as redes sociais. Por enquanto, segundo ele, seria a melhor maneira de desmoralizar esse inimigo.

— Esquisito, ¿não?

— Controle! Agora Dugin o chamou de Olaf e, em seguida, de Olev. Também o chamou de O Colecionador de Rifles da Virgínia. Deve ser nosso conterrâneo.

— Isso é muito esquisito, Greene. O único Olaf colecionador de rifles daqui da Virgínia, que conheço, é meu próprio pai, um veterano da Guerra da Coréia.

— Sim, eu me lembro do seu pai. Eu o conheci no seu aniversário, ¿lembra-se? Por isso estou espantado.

— Bem… Vou perguntar a ele se está sabendo de algo que não sabemos.

— OK, Controle.

— Mais alguma…

— Eles estão saindo, Langley! Tentarei segui-los.

— OK. Mantenha-me informado.

Por alguma razão, o grupo sai sem pagar a conta. Greene não notou se alguém já havia se encarregado disso. Infelizmente, o dono do bar o encara com uma expressão de maus bofes quando o vê se aproximar da saída, e ele então entra na fila do caixa para pagar sua própria conta. Em Langley, o Controle põe de lado o Candy Crush e volta a organizar a pilha de documentos sobre Dugin. Deixa por baixo de todos um calhamaço contendo um debate entre Dugin e um filósofo brasileiro. ¿O que um filósofo brasileiro poderia acrescentar ao que já sabem? Ele nem sabia que havia filósofos no Brasil. Enquanto isso, em Curitiba, Greene é atendido pela simpática caixa, cuja camiseta traz uma inscrição que lhe passa desapercebida: “Olavo tem razão”.

No Paiz dos Yankees

Adolfo Caminha

Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das mais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manoel…, o apellido de familia não nos interessa. O joven official de marinha, moço de bella apparencia e excellente coração, apaixonara-se por uma Eva Smith muito conhecida nos cafés-concertos de Nova-Orleans. Até aqui nada mais natural. Ella vira-o uma vez diante de um bock, seus olhos se encontraram, e, desde logo, Manoel ficou sendo a menina dos olhos de Eva. Amaram-se por muitos dias, gosaram todas as delicias imaginaveis, elle prohibiu-a de andar nos cafés, ella prohibiu-o de olhar para outras raparigas, e assim corresponderam-se de commum accordo, sem que nunca houvesse entre elles a menor desavença.

―Leva-me para o Brazil, Manoel… (ella só o tratava por Manoel).

―Sim, filha, depois havemos de ver isso…

―I love you very much…

―Oh! yess… I think so…

Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, n’um quarto d’hotel, onde havia do melhor vinho e da melhor sôpa.

Um bello dia:

Elle―Olha, sabes? O Barroso suspende ferro amanhã.?.

Ella (surprehendida)―What do you say?!

Elle (trincando um rabanete)―É o que estou lhe dizendo. Amanhã, por estas horas, o Manoel vai sulcando o golfo do Mexico.

Ella (cruzando o talher)―Impossivel! Por que já não me disseste?

―Para te poupar o desgosto…

―Oh! não, meu querido Manoel, é historia, tu não vás amanhã…

―Assim é preciso. São cousas da vida…

―Não, não, meu amor (my love) tu não vás, porque eu não quero, do contrario faço escandalo, estás ouvindo?

E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cahir uma lagrima…

Silencio. Manoel continuou a jantar sem interrupção, muito calmo, com uma fleugma verdadeiramente britannica. Eva, coitada, abriu a soluçar baixinho, fungando a mais não poder, sem se aperceber de que estava fazendo de um guardanapo um lenço.

Ultimo acto, e aqui é que está o aproposito.

Scenario: O Mississipe pardo e murmurejante sob a luz moribunda do crepusculo.

Almirante Barroso, immovel sobre o rio, com a sua mastreação muito alta, fuméga. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras cahindo no convéz. Tremúla a bandeira brazileira na carangueija da mezena… Ultimos preparos.

No cáes agita-se uma multidão compacta.

De repente surge á tona d’agua o cepo da ancora enlameada, pingando um lodo cinzento, e o navio começa a andar vagarosamente.

A guarnição sóbe ás vergas, alastrando-se de um bordo e d’outro, e acena para terra ao som de―vivas!

Agitam-se lenços na praia, correspondendo ás saudações de bordo. Um fremito percorre os que estão no cruzador…

É o momento decisivo.

Um grande rebocador, The Warriaro, vistoso e arquejante, acompanha as manobras do Barroso, á distancia de uma amarra, solitario e sombrio, envolto n’uma nuvem de fumaça, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada de uma mulher.

O cruzador segue á vante, magestoso e lento, descrevendo uma bella curva no espelho da agua, e torna a passar defronte da cidade, apressando a marcha.

As religiosas das Ursulinas lá cima, nas janellinhas do convento, acenam tambem com os seus lenços brancos.

E, no silencio da tarde que a nevoa melancolisa, repercutem estas palavras tocadas de saudade:

Good bye!

Good bye! repete a mesma voz avelludada como um carinho…

Olhámos uns para os outros commovidos.

Quem seria que se lembrara de levar tão perto sua despedida aos brazileiros?

A voz era de mulher, não restava duvida…

Com effeito, reconhecemos na figura desgrenhada que viamos a bordo do rebocador Eva Smith, a amante de Manoel…, a apaixonada rapariga muito conhecida nos cafés cantantes de Nova-Orleans, cujo enthusiasmo pelo nosso companheiro tinha chegado a seu auge.

E quando o Barroso desappareceu na primeira curva do rio, ainda ouviamos, tomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada pela distancia, soluçada e plangente:

Good bye, Manoel! Good bye!

E dizer que a Dama das Camelias é uma excepção na vida sentimental das filhas de Eva!…

O nosso Armando, que aliás nunca pretendeu regenerar ninguem, deixou se cahir n’uma saudade profunda, n’um longo adormecimento d’alma, de que só accordou no alto mar, quando já não se avistava um ponto siquer da costa americana.

[…]

No fim de oito dias o Barroso deixava de uma vez o paiz dos yankees, fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse bello e prodigioso paiz. O regresso á patria, depois de uma ausencia de quasi um anno, enchia-nos o coração de alegria.

Não fôra a perda de um companheiro em Nova-Orleans e voltariamos todos, sem faltar ninguem, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.

Voltavamos, sim, mas tinhamos deixado atraz, em terra extrangeira, n’um cemiterio de Nova-Orleans, um dos nossos camaradas.

Traziamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe comprehender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados-Unidos. A idéa da morte não os preoccupa: um yankee triste é cousa rara e toma proporções de phenomeno.

Elles, os americanos, são geralmente alegres, bem dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua patria mais do que qualquer outro povo.

A patria e a familia são os seus principaes objectivos. Menos egoistas que os inglezes, energicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.

Esse povo verdadeiramente democratico não pede licções a paiz nenhum: engrandeceu a custa de seus proprios esforços e dia a dia prospéra, assombrando o mundo com as suas emprezas colossaes.

Si a Allemanha representa no seculo XIX a patria das sciencias moraes, aos Estados-Unidos compete o primeiro logar na ordem dos paizes que tem concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem estar humanos.

Emquanto as nações da Europa degladiam-se n’uma lucta continua, perdendo na guerra o que difficilmente accumularam em poucos annos de paz, a grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exercito e sem marinha, confiada no seu proprio valor, no patriotismo de seus filhos, certa de que, n’um dado momento, cada cidadão, cada americano saberá cumprir com heroismo o seu dever e honrar as suas tradições de povo independente e forte.

Go ahead! never mind; help yourself!―eis a maxima de todo yankee. Elles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como quem tem absoluta confiança no proprio valor.

ceará―1890.
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Trechos de No Paiz dos Yankees, de Adolpho Caminha.

Ngozi Okonjo-Iweala: “Quer ajudar a África? Faça negócios aqui”.

Trecho: « (…) As pessoas na Africa não estão mais dispostas a tolerar líderes corruptos. (…) Iniciamos um programa que retirava o estado das empresas nas quais não tinham função alguma — que não eram de sua competência. O estado não deve se envolver com os negócios de produção de bens e serviços porque é ineficiente e incompetente. Assim decidimos privatizar várias de nossas empresas. (…) Os africanos, depois — estão cansados, estamos cansados de ser objeto de caridade e ajuda de todo mundo. Somos gratos, mas sabemos que podemos tomar conta de nosso próprio destino se tivermos a determinação de reformar. O que está acontecendo em muitos países africanos é que entendem que ninguém pode fazer nada por nós. Somos nós que temos que agir. Podemos convidar sócios que nos apoiem, mas nós temos que começar. (…) A melhor maneira de ajudar os africanos nos dias de hoje é os ajudar a se tornarem independentes. E a melhor maneira de fazer isso é ajudar a criar empregos. Não vejo problema em querer combater a malária e doar dinheiro para salvar vidas de crianças. Não é isso que estou dizendo. Isso é bom. Mas imaginem o impacto em uma família, se os pais puderem trabalhar e assegurar que seus filhos irão para a escola, que eles mesmos podem comprar remédios para combater as doenças. Se pudermos investir em lugares onde pode-se ganhar dinheiro enquanto criamos empregos e ajudamos as pessoas a serem independentes, não é isso uma oportunidade maravilhosa? Não é essa a trilha a percorrer? E gostaria de dizer que algumas das melhores pessoas para se investir no continente são as mulheres. (…) Porém, muitos deles estão sem capital para expandir, porque ninguém tem fé em outros países que podemos fazer o que for preciso. Ninguém pensa em termos de mercado. Ninguém pensa que as oportunidades existem. Mas aqui estou eu, alertando a todos, se perderem a barca agora, perderão para sempre.(…)»
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Ngozi Okonjo-Iweala é uma economista nigeriana que serviu como Ministra de Finanças da Nigéria por dois mandatos.

Outro post no mesmo espírito: James Shikwati: “Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África!”.

Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo

Comunismo = Nazismo

Como colaborador da Wikipédia, fiz uma tradução meia-boca do artigo sobre a “Declaração de Praga sobre Consciência Europeia e Comunismo” e da própria declaração, cujo texto propriamente dito é este:

A declaração clama:

1– “levar a toda Europa o entendimento de que os regimes totalitários nazista e comunista precisam ser julgados por seus próprios e terríveis méritos, isto é, por suas políticas destrutivas impostas mediante a aplicação sistemática de formas extremas de terror e a supressão de todas as liberdades civis e humanas, pela eclosão de guerras agressivas e — como parte inseparável de suas ideologias — pelo extermínio e deportação de nações inteiras e de grandes grupos populacionais; e por tudo isso tais regimes devem ser considerados os principais desastres que macularam o século 20”

2– “o reconhecimento de que muitos crimes cometidos em nome do comunismo devem ser considerados crimes contra a humanidade, servindo portanto como um aviso para as gerações futuras, tal como os crimes nazistas foram considerados pelo Tribunal de Nuremberg”

3– “a formulação de uma abordagem comum sobre os crimes dos regimes totalitários, nomeadamente dos Regimes Comunistas, e a ampliação em toda a Europa da consciência relativa a esses crimes comunistas, definindo claramente uma atitude comum para com eles”

4– “a introdução de legislação que dê permissão aos tribunais para julgar e punir os perpetradores dos crimes comunistas e compensar suas vítimas”

5– “garantir o princípio da igualdade de tratamento e não discriminação das vítimas de todos os regimes totalitários”

6– “a pressão europeia e internacional para a condenação efetiva dos crimes comunistas do passado e para a luta eficaz contra os crimes comunistas em curso”

7– “o reconhecimento do comunismo como parte integrante e terrível da história comum da Europa”

8– “a aceitação da responsabilidade pan-europeia nos crimes cometidos pelo comunismo”

9– “o estabelecimento do dia 23 de Agosto, o dia da assinatura do pacto Hitler-Stalin, conhecido como o Pacto Molotov-Ribbentrop, como o dia de recordação das vítimas de ambos os regimes totalitários, os regimes nazista e comunista, tal como a Europa recorda as vítimas do Holocausto em 27 de janeiro ”

10– “atitudes responsáveis dos Parlamentos Nacionais no que se refere ao reconhecimento dos crimes comunistas como crimes contra a humanidade, levando a uma legislação apropriada, e ao monitoramento parlamentar dessa legislação”

11– “o debate público eficaz sobre o uso comercial e político indevido dos símbolos comunistas”

12– “a continuação das audiências da Comissão Europeia sobre as vítimas de regimes totalitários, com vista à elaboração de uma comunicação da Comissão”

13– “o estabelecimento em países europeus, que tenham sido governados por regimes comunistas totalitários, de comitês compostos por peritos independentes, com a tarefa de recolher e avaliar informações sobre as violações dos direitos humanos a nível nacional sob o regime comunista totalitário, com vistas a colaborar estreitamente com um comitê de especialistas do Conselho da Europa”

14– “assegurar um quadro jurídico internacional claro visando um acesso livre e irrestrito aos arquivos que contêm informações sobre os crimes do comunismo”

15– “a criação de um Instituto da Memória e Consciência Europeias”

16– “a organização de uma conferência internacional sobre os crimes cometidos pelos regimes comunistas totalitários, com a participação de representantes de governos, parlamentares, acadêmicos, especialistas e ONGs, com resultados a serem amplamente divulgados em todo o mundo”

17– “o ajuste e revisão de livros de história da Europa para que as crianças possam aprender e ser alertadas sobre o comunismo e seus crimes, tal como são ensinadas a avaliar os crimes nazistas”

18– “o debate amplo e minucioso em toda a Europa da história e do legado comunista”

19– “a comemoração conjunta no próximo ano do 20º aniversário da queda do Muro de Berlim, do massacre da Praça Tiananmen e das mortes na Romênia”

A declaração cita a Resolução 1481 do Conselho da Europa, bem como “resoluções sobre os crimes comunistas adotadas por vários Parlamentos nacionais”. A Declaração foi precedida pela Audiência Pública Europeia sobre Crimes Cometidos por Regimes Totalitários.

James Shikwati: “Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África!”

A entrevista abaixo foi publicada na revista Der Spiegel em 2005, mas, como os equívocos de que trata ainda resistem, volto a postá-la aqui.

Shikwati

Especialista explica que a ajuda internacional alimenta a corrupção e impede que a economia se desenvolva, o que destrói a produção agrícola e causa desemprego, mais miséria e mais dependência

O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, diz que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África, sobre governantes corruptos e a tendência a exagerar o problema da Aids.

DER SPIEGEL – Senhor Shikwati, a cúpula do G8 em Gleneagles deverá aumentar a ajuda ao desenvolvimento da África…

James Shikwati – Pelo amor de Deus, parem com isso!

DS – Parar? Os países industrializados do Ocidente querem eliminar a fome e a pobreza.

Shikwati – Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.

DS – O senhor tem uma explicação para esse paradoxo?

Shikwati – Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos. E é por isso que eles afirmam que o mundo pararia de girar sem essa ajuda ao desenvolvimento.

DS – Mesmo em um país como o Quênia pessoas morrem de fome todos os anos. Alguém precisa ajudá-las.

Shikwati – Mas são os próprios quenianos quem deveria ajudar essas pessoas. Quando há uma seca em uma região do Quênia, nossos políticos corruptos imediatamente pedem mais ajuda. O pedido chega ao Programa Mundial de Alimentação da ONU –que é uma agência maciça de “apparatchiks” que estão na situação absurda de, por um lado, dedicar-se à luta contra a fome, e por outro enfrentar o desemprego onde a fome é eliminada. É muito natural que eles aceitem de bom grado o pedido de mais ajuda. E não é raro que peçam um pouco mais de dinheiro do que o governo africano solicitou originalmente. Então eles enviam esse pedido a seu quartel-general, e em pouco tempo milhares de toneladas de milho são embarcadas para a África…

DS – Milho que vem predominantemente de agricultores europeus e americanos altamente subsidiados…

Shikwati – … e em algum momento esse milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho em geral vai diretamente para as mãos de políticos inescrupulosos, que então o distribuem em sua própria tribo para ajudar sua próxima campanha eleitoral. Outra parte da carga termina no mercado negro, onde o milho é vendido a preços extremamente baixos. Os agricultores locais também podem guardar seus arados; ninguém consegue concorrer com o programa de alimentação da ONU. E como os agricultores cedem diante dessa pressão o Quênia não terá reservas a que recorrer se houver uma fome no próximo ano. É um ciclo simples mas fatal.

DS – Se o Programa Mundial de Alimentação não fizesse nada, as pessoas morreriam de fome.

Shikwati – Eu não acredito nisso. Nesse caso, os quenianos, para variar, seriam obrigados a iniciar relações comerciais com Uganda ou Tanzânia, e comprar alimento deles. Esse tipo de comércio é vital para a África. Ele nos obrigaria a melhorar nossa infra-estrutura, enquanto tornaria mais permeáveis as fronteiras nacionais –traçadas pelos europeus, aliás. Também nos obrigaria a estabelecer leis favorecendo a economia de mercado.

DS – A África seria realmente capaz de solucionar esses problemas por conta própria?

Shikwati – É claro. A fome não deveria ser um problema na maioria dos países ao sul do Saara. Além disso, existem vastos recursos naturais: petróleo, ouro, diamantes. A África é sempre retratada como um continente de sofrimento, mas a maior parte dos números é enormemente exagerada. Nos países industrializados existe a sensação de que a África naufragaria sem a ajuda ao desenvolvimento. Mas, acredite-me, a África já existia antes de vocês europeus aparecerem. E não fizemos tudo isso com pobreza.

DS – Mas naquela época não existia a Aids.

Shikwati – Se acreditássemos em todos os relatórios horripilantes, todos os quenianos deveriam estar mortos hoje. Mas agora os testes estão sendo realizados em toda parte, e acontece que os números foram enormemente exagerados. Não são 3 milhões de quenianos que estão infectados. De repente eram apenas cerca de um milhão. A malária é um problema equivalente, mas as pessoas raramente falam disso.

DS – E por quê?

Shikwati – A Aids é um grande negócio, talvez o maior negócio da África. Não há nada capaz de gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. A Aids é uma doença política aqui, e deveríamos ser muito céticos.

DS – Os americanos e europeus têm fundos congelados já prometidos para o Quênia. O país é corrupto demais, segundo eles.

Shikwati – Temo, porém, que esse dinheiro ainda será transferido em breve. Afinal, ele tem de ir para algum lugar. Infelizmente, a necessidade devastadora dos europeus de fazer o bem não pode mais ser contida pela razão. Não faz qualquer sentido que logo depois da eleição do novo governo queniano –uma mudança de liderança que pôs fim à ditadura de Daniel Arap Mois–, de repente as torneiras se abriram e o dinheiro verteu para o país.

DS – Mas essa ajuda geralmente se destina a objetivos específicos.

Shikwati – Isso não muda nada. Milhões de dólares destinados ao combate à Aids ainda estão guardados em contas bancárias no Quênia e não foram gastos. Nossos políticos ficaram repletos de dinheiro, e tentam desviar o máximo possível. O falecido tirano da República Centro Africana, Jean Bedel Bokassa, resumiu cinicamente tudo isso dizendo: “O governo francês paga por tudo em nosso país. Nós pedimos dinheiro aos franceses, o recebemos e então o gastamos”.

DS – No Ocidente há muitos cidadãos compassivos que querem ajudar a África. Todo ano eles doam dinheiro e mandam roupas usadas em sacolas…

Shikwati – … e então inundam nossos mercados com essas coisas. Nós podemos comprar barato essas roupas doadas nos chamados mercados Mitumba. Há alemães que gastam alguns dólares para comprar agasalhos usados do Bayern Munich ou do Werder Bremen. Em outras palavras, roupas que algum garoto alemão mandou para a África por uma boa causa. Depois de comprar esses agasalhos, eles os leiloam na eBay e os mandam de volta à Alemanha — pelo triplo do preço. Isso é loucura!

DS – … e esperamos que seja uma exceção.

Shikwati – Por que recebemos essas montanhas de roupas? Ninguém passa frio aqui. Em vez disso, nossos costureiros perdem seu ganha-pão. Eles estão na mesma situação que nossos agricultores. Ninguém no mundo de baixos salários da África pode ser eficiente o bastante para acompanhar o ritmo de produtos doados. Em 1997 havia 137 mil trabalhadores empregados na indústria têxtil da Nigéria. Em 2003 o número tinha caído para 57 mil. Os resultados são iguais em todas as outras regiões onde o excesso de ajuda e os frágeis mercados africanos entram em colisão.

DS – Depois da Segunda Guerra Mundial a Alemanha só conseguiu se reerguer porque os americanos despejaram dinheiro no país através do Plano Marshall. Isso não se qualificaria como uma ajuda ao desenvolvimento bem-sucedida?

Shikwati – No caso da Alemanha, somente a infra-estrutura destruída tinha de ser reparada. Apesar da crise econômica da República de Weimar, a Alemanha era um país altamente industrializado antes da guerra. Os prejuízos criados pelo tsunami na Tailândia também podem ser consertados com um pouco de dinheiro e alguma ajuda à reconstrução. A África, porém, precisa dar os primeiros passos na modernidade por conta própria. Deve haver uma mudança de mentalidade. Temos de parar de nos considerar mendigos. Hoje em dia os africanos só se vêem como vítimas. Por outro lado, ninguém pode realmente imaginar um africano como um homem de negócios. Para mudar a situação atual, seria útil se as organizações de ajuda saíssem.

DS – Se fizessem isso, muitos empregos seriam perdidos imediatamente.

Shikwati – Empregos que foram criados artificialmente, para começar, e que distorcem a realidade. Os empregos nas organizações estrangeiras de ajuda são muito apreciados, é claro, e elas podem ser muito seletivas na escolha das melhores pessoas. Quando uma organização de ajuda precisa de um motorista, dezenas de pessoas se candidatam. E como é inaceitável que o motorista só fale sua língua tribal, o candidato também deve falar inglês fluentemente –e, de preferência, ter boas maneiras. Então você acaba com um bioquímico africano dirigindo o carro de um funcionário da ajuda, distribuindo comida européia e forçando os agricultores locais a deixar seu trabalho. É simplesmente loucura!

DS – O governo alemão se orgulha exatamente de monitorar os receptores de suas verbas.

Shikwati – E qual é o resultado? Um desastre. O governo alemão jogou dinheiro diretamente para o presidente de Ruanda, Paul Kagame, um homem que tem na consciência a morte de um milhão de pessoas –que seu exército matou no país vizinho, o Congo.

DS – O que os alemães deveriam fazer?

Shikwati – Se eles realmente querem combater a pobreza, deveriam parar totalmente a ajuda ao desenvolvimento e dar à África a oportunidade de garantir sua sobrevivência. Atualmente a África é como uma criança que chora imediatamente para que a babá venha quando há algo errado. A África deveria se erguer sobre os próprios pés.

Der Spiegel ,Thilo Thielke
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Fonte:  SPIEGEL Interview with African Economics Expert

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Outro post no mesmo espírito: Ngozi Okonjo-Iweala: “Quer ajudar a África? Faça negócios aqui”.

A “pílula vermelha” de Yuri Bezmenov: subversão, desmoralização, desestabilização, crise, normalização

Yuri Bezmenov

Abaixo, no primeiro vídeo, Yuri Bezmenov fala longamente sobre sua própria vida antes de abordar mais a fundo o tema que realmente importa: como destruir e dominar uma nação (ou várias nações) sem disparar um único tiro mediante a “subversão”. (Você se lembra quantas vezes ouviu a respeito de “subversivos” sem saber exatamente o que o termo queria dizer? No máximo, você imaginava Fernando Gabeira usando tanga de crochê em Ipanema — mas a coisa vai muito mais longe!) No segundo vídeo, que também já postei várias vezes tanto no Twitter quanto no Facebook — como diz Julie Terres, uma amiga, este é um vídeo de cabeceira –, Bezmenov vai direto ao assunto: explica detalhadamente as diversas fases da subversão, isto é, discorre sobre a desmoralização, a desestabilização, a crise e a normalização. Quem acredita que suas próprias concepções sobre religião, educação, sexualidade, cultura, “justiça social”, etc. são muito avançadas, espertas, esclarecidas e puras devia assistir a esta palestra para meditar sobre o quão “idiota útil” talvez esteja sendo…

Claro, a luta pelo poder no mundo já não possui exatamente os mesmos “protagonistas” citados, mas as técnicas descritas — que remontam a Sun Tzu (vide A Arte da Guerra) — continuam sendo utilizadas a torto e a direito, principalmente por aqueles que objetivam o estabelecimento de um governo mundial. (Na melhor das hipóteses, de uma hegemonia mundial.) Enfim, deixe de frescura, deixe de rotular quem entende do assunto de “teórico da conspiração” — como se conspirações não pudessem ocorrer até mesmo em sua cama (vide “amantes” e “largue sua mulher/marido para ficar comigo!”) — e assista à exposição de um especialista no assunto, um sujeito que passou metade da vida trabalhando para a KGB como um “enganador profissional”.

Bezmenov fala de sua vida e da fuga para o Ocidente:

Bezmenov descreve as quatro fases da subversão:

O Messias, oratório de Georg Friedrich Händel

Completo.

Vale a pena ver e ouvir de novo: Hallelujah, o 42º movimento apresentado como flashmob num shopping center do Canadá.

Para saber mais sobre o oratório O Messias clique aqui e aqui.

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