Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Categoria: Televisão (Página 1 de 3)

Breaking Chiquititas

Depois de anos a fio sugerindo-lhe a série Breaking Bad, minha irmã finalmente deu o braço a torcer — e, claro, Melissa ficou viciada na tortuosa história do senhor White. Ontem, ela esteve aqui com minha sobrinha, Bárbara, e me perguntou se eu voltaria a assistir a um ou dois episódios com ela. Claro que eu quis. Enquanto acompanhávamos as sangrentas enrascadas em que se metiam os protagonistas, Bárbara ia e vinha pela casa, ou então ficava noutro canto jogando vídeo game. Concluídos os episódios, Bárbara veio até nós e perguntou:

— Mãe, por que você fica reclamando sempre que termina de ver essa série?

— É porque não é igual às séries que você vê, meu amor. Sempre acontece alguma coisa no fim que deixa a gente com vontade de ver mais. Não é como a iCarly, que tem uma historinha com começo, meio e fim a cada episódio.

— Então como é?

— Uê. É como se fosse um filme enorme dividido em várias partes. E o filme sempre continua, não termina nunca.

— Ah, então é igual às Chiquititas! A história sempre continua.

Nesse momento eu me virei para as duas com o ar mais impassível do mundo.

— Isso — tornou minha irmã, em sincera concordância. — É igualzinho às Chiquititas. A mesma coisa.

Então eu intervim, no tom mais sério possível: — Sim, Breaking Bad é EXATAMENTE igual às Chiquititas.

Melissa virou-se para mim e só então, pensando melhor no que dissera, caiu na gargalhada.

Eu teria me esquecido dessa história caso, hoje, a Bárbara não tivesse me provado que as séries realmente se parecem.

— Tio Yuri, por que você acha que Breaking Bad é diferente das Chiquititas?

— Porque tem um monte de bandidos na série, gente má.

— Então são iguais mesmo — respondeu. — Nas Chiquititas tem três meninas más: a Carmen, a Matilde e a Cíntia.

— Sério?

— Sério. Elas ficam tentando roubar o tesouro. E uma delas até vai presa.

Conclusão: há mais Breaking Bad no mundo infantil do que julga nossa vã adultice.

O pinto do elefante: uma novela para a Globo

Estou pensando em escrever uma novela para a Globo. Irá se chamar O Pinto do Elefante e as ações serão centradas num circo, o Circo Brasil. O dono do circo terá um caso com o palhaço que o trairá com o leão. O leão comerá qualquer um que entrar na sua jaula: quem entrar de frente será comido gastronomicamente. (O palhaço só entrará de costas.) A única heterossexual da novela será a mulher barbada, cujo relacionamento romântico com o anão atirador de facas estará no centro da trama. O anão terá no seu trailer vários posters do Tyrion Lannister, seu herói de Game of Thrones, o anão que papa várias mulheres lindas e imberbes. (Não precisa ir ao dicionário: imberbe significa “sem barba”.) Também haverá um triângulo amoroso entre o malabarista, o leão e o elefante. (A cena inicial da novela, que será do horário das seis — para as crianças assistirem — será um boquete do malabarista com o elefante.) No final da novela, sobrarão apenas o palhaço (que se chamará Lula), o leão (que, em homenagem ao conto Uma paixão no deserto, se chamará Balzac) e o elefante, que se casarão a três numa paródia de igreja dentro do próprio circo. Os demais personagens serão comidos pelo leão ao longo da trama. (Afinal, apesar de a maioria entrar de costas na jaula, se esquecerá de sair também de costas…) Tudo indica que o folhetim será um sucesso.

Tchau, Kid!

Kid Vinil morreu e o que me vem primeiro à memória é o Boca Livre, na TV Cultura, um programa no qual se apresentavam as mais diversas bandas de rock, e do qual ele foi apresentador. Acompanhado por amigos, fui a três desses programas, no auditório da Avenida Tiradentes. Creio que descíamos do metrô na Estação da Luz e, em seguida, formávamos uma longa fila sob aquela passarela coberta de vidro ou talvez de acrílico, sei lá, num frio de entortar os ossos, e aguardávamos pela abertura dos portões. Vi apresentações d’Os Inocentes, d’As Mercenárias, d’Os Replicantes (salvo engano) e assim por diante. Quando havia bandas punks, a platéia mantinha-se à beira da conflagração: os caras pogavam por todos os cantos e se atiravam sobre as cabeças de quem permanecia sentado num nível inferior do auditório. O programa era ao vivo e, durante cada intervalo comercial, Kid Vinil tentava conter os ânimos — inutilmente, claro, pois, se uma manada de adolescentes já é uma coisa intratável, imagine uma de adolescentes punks… Enfim, chegava sempre o momento em que Kid Vinil perdia a paciência, mas não perdia a compostura — ao menos não na imagem da TV. Quando anunciavam o final do intervalo, e o programa voltava a ser transmitido, começava a gritaria: “Kid viaaaaado!”. Kid Vinil então fazia um gesto com as duas mãos — uma acima da cabeça, outra na altura do plexo — solicitando ao câmera para fechar o plano nesses pontos. Com a imagem em close e os punks xingando-o com todos os palavrões possíveis, Kid permanecia impassível, falando e sorrindo para o público de casa, enquanto, fora do quadro, mostrava o dedo médio em riste para a platéia de punks, que, claro, se rejubilava com aquilo.

Uma noite, cerca de uma década mais tarde, eu o encontrei na Torre do Dr. Zero, na Vila Madalena, e lhe contei essa história. Ele riu e me disse:

— Meu! Era muito foda!

Suas músicas eram ingênuas e engraçadas, Kid, e nós, adolescentes bem-humorados daquela época, nos divertimos com você. (Não fui “boy”, mas fui auxiliar de escritório: quase a mesma coisa.) Boa viagem, hombre.

Uma loira e um anão

Já estou naquela época do ano em que, ao pensar em Game of Thrones, só me lembro que na série há um anão beberrão e uma loira baixinha que cria lagartos voadores. Ainda bem que só assisti a Breaking Bad depois que todas as temporadas estavam disponíveis no Netflix. Esses intervalos… É como ler um quinto de Guerra e Paz ao longo de seis meses, outro quinto um ano depois (ao longo de mais seis meses) e assim por diante. Os meses em branco, longe da narrativa, eliminam da memória todos os personagens secundários, assim como muitos outros detalhes.

Já assistiu à série The Affair? Não? Então veja!

Talvez eu já tenha sugerido aqui a série The Affair. Talvez não. Durante as duas primeiras temporadas, eu temia que a trama desandasse e a narrativa inteira redundasse num melodrama mexicano ou, o que seria ainda pior, num dramalhão de novela brasileira. Após a terceira temporada, já posso afirmar: nem uma coisa nem outra, trata-se de um drama adulto, envolvente, bem escrito. E me refiro a todas as temporadas. Como o próprio título indica, a série poderia se chamar: “Não cometerás adultério”. Mas tampouco se trata de uma obra moralista, isto é, ao menos não no sentido mais mesquinho do termo. O que ela faz, na verdade, é seguir, enquanto texto dramático, aquilo que William Faulkner declarou em seu discurso de recepção do Prêmio Nobel de Literatura:

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.”

A série The Affair, claro, não é perfeita. Mas é melhor do que a maioria das que tenho visto. E ainda resgata a mesma técnica narrativa utilizada por Ryūnosuke Akutagawa no conto “Dentro do Bosque”, na qual o assassinato de um samurai é narrado através de sete diferentes testemunhas, cada qual apresentando sua própria versão do crime. (Akira Kurosawa adaptou o conto para o cinema sob o título de “Rashomon”.) Na série, cada “capítulo” — em geral, dois por episódio — apresenta a mesma seqüência de eventos, mas alterando o ponto de vista da narrativa: os personagens envolvidos têm suas próprias versões dos fatos. Se no início isso nos causa certa aflição — do tipo “quem estará dizendo a verdade?” —, mais adiante percebemos que, não havendo um narrador neutro, todas essas versões são igualmente válidas, afinal, quantos casais, por exemplo, poderiam narrar seu primeiro encontro exatamente da mesma maneira? Justapostos, os capítulos têm um efeito impressionista. Ora, notamos aspectos distintos dos acontecimentos e somos impactados segundo nossos próprios interesses, valores, afetividades. Daí, na série, tudo se passar como se cada capítulo fosse a exploração da memória mesma do personagem enfocado, encontrando registros que, se diferem dos demais nos detalhes, não diferem na essência dos acontecimentos. O resultado pode ser perturbador em alguns momentos — roupas diferentes, lugares diferentes, atitudes diferentes, diálogos diferentes, etc., tudo para representar uma mesma situação — mas, ao mesmo tempo, sugere o quanto cada um dos personagens contamina a memória de suas experiências com suas próprias intenções, preconceitos, desconfianças, sentimentos, receios, temperamento e assim por diante. Há momentos em que a narrativa leva nossa afetividade para passear numa tremenda montanha russa de emoções: há conflitos, dores, sofrimentos, e até lirismo, para todos os gostos. A série, enfim, expressa de maneira pungente o quão frágeis e problemáticos se tornaram os relacionamentos nessa nossa época caótica, na qual “tudo o que é sólido desmancha no ar”. E com um detalhe importante: há alguma luz no fim do túnel — embora, no final da viagem, nada mais seja como antes…

A mortadela dos nazistas

Há um documentário interessantíssimo no Netflix dividido em episódios: Nazi Secret Files. Por enquanto assisti a dois episódios: um sobre o uso de drogas pelos nazistas e outro sobre o messianismo hitlerista. (Eu já estava a par de muitos detalhes desse messianismo graças ao livro “O despertar dos mágicos”, de Pauwels e Bergier. Mas, sim, o documentário acrescenta novas descobertas.)

Ao final da Primeira Guerra, Hitler estava entre os milhares de soldados traumatizados. (Imagine: lutar com táticas do século XIX contra armas do século XX! Isso não podia acabar bem… Marchar contra metralhadoras e armas químicas não é o mesmo que marchar contra rifles carregados pela boca que disparam uma única carga por vez… E ainda não havia tanques de guerra para proteger o avanço das tropas… Enfim…) Seu trauma se manifestou como cegueira psicológica e, por isso, após exames, Hitler foi diagnosticado como “psicopata histérico”, que é uma forma da psicopatia na qual o doente, além do comportamento patológico, também somatiza sua afecção psíquica. (Antes da Segunda Guerra, Hitler “suicidou” o médico responsável pelo diagnóstico e deu fim aos arquivos referentes à sua doença.)

Durante o governo nazista, outro fato estranho se deu: boa parte da população alemã se viciou em Pervitin — parece Pervertidim, mas é Pervitin mesmo — uma droga cuja fórmula viera do Japão e que podia ser encontrada em qualquer farmácia, sendo consumida como uma espécie de… Red Bull. Sabe como é… melhora o ânimo, torna a pessoa mais concentrada, focada, sem qualquer cansaço e, por fim — o Red Bull não chega a tanto —, psicótica! Mas era vendida em pílulas. E não era outra coisa senão o produto que Walter White (Breaking Bad) tornou famoso: Crystal Meth, a metanfetamina. Quando a Segunda Guerra começou, todos os soldados recebiam, juntamente com sua ração diária, um tubo de comprimidos de metanfetamina. O próprio Hitler, que sempre acordava deprimido, só saía da cama após receber de seu médico particular uma injeção de metanfetamina. Agora me diga: ¿o que resulta da mistura de um psicopata histérico com crystal meth? Resposta: Hitler.

Os europeus não conseguiam entender o Blitzkrieg, a “guerra relâmpago”: ¿como aqueles milhões de soldados nazistas podiam marchar incansavelmente horas a fio, quase sem dormir, e ainda atacar seus inimigos de modo tão feroz e implacável? Resposta: messianismo turbinado com metanfetamina. Foi a mais louca das guerras, uma bad trip… afinal, após o uso prolongado, a metanfetamina cobra seu preço: os viciados se convertem em zumbis paranóicos! Eis outro fator que, unido a tantos outros, explica o fracasso alemão…

No final desse episódio (Nazis On Drugs), eu só pensava numa coisa: temos de agradecer ao PT que, em vez de metanfetamina ou cocaína das FARC, provê seus sequazes apenas de pão com mortadela…

P.S.: Agora já dá para entender de onde saiu isto.
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Jericho X Jerichoacoara

Jericho

Não sei se vocês já viram no Netflix uma série chamada JERICHO. São as aventuras e desventuras de uma cidade do interior dos EUA após a explosão de umas vinte bombas nucleares em solo americano. De repente, o povo vê aquele cogumelo no horizonte e apenas semanas depois — já sem energia elétrica, comunicação e combustíveis, e com pouco alimento — descobre a gravidade da situação: o país já foi até mesmo dividido em três e está à beira de nova guerra civil. (Os culpados pelo Armagedom, claro, foram escolhidos pelos roteiristas a dedo esquerdo…) Enfim… imaginei uma versão brasileira da série: JERICHOACOARA. Um sujeito se manda para umas férias em Jericoacoara, fica deslumbrado com o lugar e decide largar tudo para viver ali. Casa-se com uma linda hippie, ex-modelo, compra uma pousadinha, tem uns quatro filhos e, apenas após vinte anos, descobre que o mundo, três dias depois de sua mudança para lá, havia sido completamente devastado por uma guerra nuclear. Em Jericoacoara ninguém ficou sabendo…

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