Kid Vinil morreu e o que me vem primeiro à memória é o Boca Livre, na TV Cultura, um programa no qual se apresentavam as mais diversas bandas de rock, e do qual ele foi apresentador. Acompanhado por amigos, fui a três desses programas, no auditório da Avenida Tiradentes. Creio que descíamos do metrô na Estação da Luz e, em seguida, formávamos uma longa fila sob aquela passarela coberta de vidro ou talvez de acrílico, sei lá, num frio de entortar os ossos, e aguardávamos pela abertura dos portões. Vi apresentações d’Os Inocentes, d’As Mercenárias, d’Os Replicantes (salvo engano) e assim por diante. Quando havia bandas punks, a platéia mantinha-se à beira da conflagração: os caras pogavam por todos os cantos e se atiravam sobre as cabeças de quem permanecia sentado num nível inferior do auditório. O programa era ao vivo e, durante cada intervalo comercial, Kid Vinil tentava conter os ânimos — inutilmente, claro, pois, se uma manada de adolescentes já é uma coisa intratável, imagine uma de adolescentes punks… Enfim, chegava sempre o momento em que Kid Vinil perdia a paciência, mas não perdia a compostura — ao menos não na imagem da TV. Quando anunciavam o final do intervalo, e o programa voltava a ser transmitido, começava a gritaria: “Kid viaaaaado!”. Kid Vinil então fazia um gesto com as duas mãos — uma acima da cabeça, outra na altura do plexo — solicitando ao câmera para fechar o plano nesses pontos. Com a imagem em close e os punks xingando-o com todos os palavrões possíveis, Kid permanecia impassível, falando e sorrindo para o público de casa, enquanto, fora do quadro, mostrava o dedo médio em riste para a platéia de punks, que, claro, se rejubilava com aquilo.

Uma noite, cerca de uma década mais tarde, eu o encontrei na Torre do Dr. Zero, na Vila Madalena, e lhe contei essa história. Ele riu e me disse:

— Meu! Era muito foda!

Suas músicas eram ingênuas e engraçadas, Kid, e nós, adolescentes bem-humorados daquela época, nos divertimos com você. (Não fui “boy”, mas fui auxiliar de escritório: quase a mesma coisa.) Boa viagem, hombre.

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