Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Louis Lavelle: a Arte como Revelação

Louis Lavelle

“Dentre todas as criações do espírito humano, a arte goza duma situação excepcional. Se aceitarmos considerá-la em suas culminâncias, elas nos dá à consciência uma satisfação gratuita e perfeita que supera as expectativas e mesmo as esperanças. Põe em movimento todas as potências interiores: mas estas, em vez de se oporem umas às outras, se correspondem, se sustentam e se unificam. Toma a dianteira de nossos desejos: ela despertará este desejo do fundo de nós mesmos, descobrindo-o e suscitando-o. Mas, ao mesmo tempo, o apazigua e preenche. Na emoção estética, o desejo e o objeto do desejo são dados de uma só vez, não cessando de se corresponderem, numa oscilação ininterrupta; contudo, enquanto que, na vida cotidiana, eu não encontro nenhum objeto que possa se igualar em face de minha potência desejante, aqui as relações encontram-se repentinamente invertidas. O desejável é anterior ao desejo. Temo que em mim nunca haja desejo suficiente para atualizar e possuir tudo o que é desejável. Mais ainda, é típico do desejo sempre exibir-me a insuficiência do real e transportar-me para além dele. Mas aqui, ao contrário, é o real que temos sob nossos olhos que não cessa de alimentar o desejo, sem que este sinta-se capaz de esgotá-lo. Daí fazer-se mister apenas deste leve contato da atividade humana que, ao transportar o real para uma obra de arte, dá-lhe de chofre uma luz extraordinária, um imenso plano de fundo, uma afinidade misteriosa conosco. A arte é criada no momento em que o hiato que separa o real de nosso espírito se encontra abolido, em que a contradição entre o sujeito e o objeto, entre a aspiração e o dado é ultrapassado, em que uma comunicação incessante produz-se entre a consciência e a natureza, sendo de tal natureza que cada uma se entrega a outra sem parar, ambas parecendo por sua vez dar e receber.

“O mundo que para mim era um obstáculo agora torna-se um caminho aberto para meu espírito. As coisas param de se me opor: descubro entre mim e elas uma afinidade que é objeto duma possessão atual, mas que sempre conserva-se como uma promessa e uma esperança. O sinal da emoção estética é a alegria que renovo ao ver que as coisas são, com efeito, o que elas são. Não mais temo que elas me escapem, porque é próprio da arte captá-las e dá-las em sua disposição, digamos; mas eu nunca termino de tomá-las à disposição: temo também que sua posse se esgote e me feche o caminho para o futuro. Mais ainda, não basta apenas que a emoção estética renove-se e regenere-se sem parar, à medida que estende-se e aprofunda-se: é preciso que ela multiplique as razões que temos de querer que as coisas sejam precisamente como são. Permite-nos dar ao tempo seu significado verdadeiro, pois ela não nos retira nada do que já tenhamos e, se nos compromete com o vir-a-ser, é só para mostrar-nos a plenitude infinita dum valor que temos, todavia, sob os olhos.”

Louis Lavelle

De quando fui expulso da Casa do Sol

Em fins de 1999, numa tarde, Hilda Hilst me chamou ao seu escritório e, lá, sem meias palavras, com ar sombrio, me expulsou de sua casa. Disse que eu deveria arrumar minhas coisas e sair na manhã seguinte. Eu quis saber por que, já que sempre nos déramos tão bem, sem esquecer de acrescentar que meu trabalho no site dela ainda permanecia inconcluso. Não quis me esclarecer nada, nem ouvir qualquer argumento, disse apenas que eu já não era bem-vindo.

— Tudo bem, Hilda — respondi, calmo na superfície mas sentindo a adrenalina no sangue. — Vou apenas telefonar a São Paulo e ver se posso voltar a morar com meus amigos.

— Faça isso.

Voltei ao meu quarto, que também era a biblioteca, e comecei a empacotar as coisas. Havia sido um ano e tanto.

À noite, apesar de manter-se cortês, ela mal me dirigiu a palavra. Chico, o caseiro, foi solícito comigo e externou sua decepção.

— Vamo sentir sua falta. Isso é armação desses cabra.

— Agora já não interessa, Chico. ¿Fazer o quê?

Às seis da manhã do dia seguinte, eu ainda ressonava quando o ramal do meu quarto tocou. Acordei e o atendi: era Hilda.

— Yuri, querido — disse, a voz embargada. — Me encontra lá no escritório. Aconteceu uma coisa incrível!

Eu me vesti rapidamente, coloquei meu robe alemão — eu adorava meu robe de chambre alemão — e corri para o escritório. “O que será agora?”, pensava enquanto atravessava o átrio.

— Yuri! — disse ela, ainda descabelada, assim que entrei. — Você não vai embora. Você vai ficar aqui.

— Ué, Hilda. ¿Por que mudou de idéia?

Ela arregalou os olhos, comovida: — Eu acabo de ter um sonho vivíssimo! Uma coisa deslumbrante! Eu estava sentada na sala e alguém, um homem lindíssimo, me dizia que eu estava cometendo uma injustiça, um erro horrível. E eu perguntava “¿que erro? ¿que erro?”. E ele então me disse que você devia ficar na casa, que você é de confiança. E disse outras coisas que agora não consigo me lembrar, mas que me deixaram besta na hora.

Fiquei encarando-a, mudo, meio desconfiado, sem saber se aquilo não seria apenas uma maneira de — sem a necessidade de justificativas concretas — voltar atrás na decisão. Mas então acrescentou, sôfrega:

— ¿Você está com aquele seu livro sobre escritores e experiências extra-sensoriais?

— ¿Escritores e Fantasmas? Não, deixei em São Paulo.

Ela começou a olhar em torno, procurando por outros livros relevantes:

— Fazia muito tempo que eu não sonhava assim. ¿Cadê aquele livro do Cowper Powys? Ele fala muito de sonhos. Bossa louco mesmo… Parece que até se masturbava para ter sonhos e sair do corpo — e Hilda deu uma risada. — Eu não fiz nada disso ontem…

Eu a interrompi: — Hilda, ¿por que você queria que eu fosse embora?

Ela caiu das nuvens e me encarou, um olhar dolorido: — Desculpa, Yuri. Às vezes a gente se deixa levar pelas besteiras que dizem. Não pensa mais nisso.

E não pensei. Contudo, meses depois, a própria Hilda, sem dar por isso, e como se eu já estivesse inteirado do assunto, tratou do ocorrido. Um velho amigo dela, sabedor de que eu estava preparando seu site, lhe telefonara naquela mesma tarde e lhe dissera que eu era um hacker, que havia invadido a conta de email dele e deletado todas as mensagens referentes a ela, pois eu certamente pretendia ser seu único porta-voz na internet! Claro que Hilda, que desconhecia tudo de computadores, e ciente das várias vezes em que a apunhalaram pelas costas, preferiu acreditar num amigo de décadas a acreditar noutro que conhecia havia pouco mais de um ano. Ao ouvir o relato, ri comigo mesmo: eu — que estava apanhando da linguagem HTML enquanto fazia seu site — um hacker! E a verdade é que a descoberta do autor da intriga não me causou estranheza: ¿quantas vezes, num dia em que nos encontráramos meses antes, ele não insistira na mesma tecla? Dois amigos dele, jornalistas do Estadão, lhe tinham dito que Olavo de Carvalho representava o “mal absoluto” e que eu devia parar de ler o site dele. Como eu sempre comentava os artigos do Olavo com Hilda, ela certamente havia tocado no assunto com esse amigo. Hilda nada tinha contra essas leituras, afinal, anos antes, ela mesma havia conhecido Olavo numa livraria de propriedade dele em São Paulo, tendo-o convidado ao seu apartamento no qual, juntamente com outro amigo, passaram toda uma tarde rindo e conversando. Hilda, enfim, tinha uma boa lembrança do Olavo. Aliás, durante o aniversário de 70 anos dela, no ano 2000, ouvi a mesmíssima coisa dos tais jornalistas, petistas de carteirinha: “Olavo de Carvalho representa o mal absoluto”. Mal absoluto! Meu saquito… (Claro, para a doença o remédio é sempre um mal.)

Eu ainda me ria internamente da acusação quando Hilda, sem perceber, apresentou um argumento contrário àquela possível causa da intriga:

— Ele fuma maconha demais. Vai ver ele mesmo perdeu os emails.

Até hoje não sei qual das duas paranóias tinha relevância no caso: se a minha, ao associar esse “anti-olavismo” à intriga, ou a do tal amigo, a qual, ocasionada pelo uso crônico de maconha, poderia tê-lo levado a se confundir com seus emails e a imaginar que o webmaster de Hilda Hilst não era senão um hacker. Se a magia, tal como afirma o hermetista cristão Valentin Tomberg, é uma técnica de ação cujo veículo é a palavra, a fofoca e a maledicência serão sempre as formas mais difundidas de magia negra…

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Este relato constará do livro “O Exorcista na Casa do sol”, ainda em produção.

Esperando Gordô

— Ei, ¿o que você tá fazendo sentadão aí?
— Tô esperando o Godot.
— Esperando ¿quem? ¿O Gordo?
— Não, o Godot.
— ¿Gordô? ¿Ele é francês?
— Não faço a menor idéia. E não tem letra erre na palavra.

Dias depois, chega outro funcionário.
— Ué, ¿vocês não têm nada para fazer, não?
— A gente tá esperando um gordo fancês.
— ¿”Fancês”? ¿Não seria um “francês”?
— Não, ele disse que não tem erre na palavra.
— Deixe de ser burro! Eu não sei se é francês! E o nome é Godot.
— ¿E ele é gordo, é?
— Ai, meu saco.

Semanas depois, aproxima-se um gordo de paletó e gravata.
— Por favor, vocês sabem onde fica a Polícia Federal?
— Aqui é a PF. ¿Você é Godot?
— Se eu engordei?!… Olha aqui, meu caro, ¿isso é lá jeito de tratar desconhecidos? Ora, faça-me o favor!… — e o gordo, irritado, encaminha-se para o lobby.

Meses depois, a espera continua.
— É… Pelo jeito esse Godot não vai chegar nunca.
— ¿E o que afinal você está querendo com esse cara?
— Ué. ¿Não sabe?
— Se soubesse, não estaria perguntando…
— Verdade.
— ¿E…?
— ¿E o quê?
— ¿Não vai responder minha pergunta?
— ¿Qual delas?
— Ai, ai… ¿O que você quer com esse Gordô?
— Godot!
— Tá! Tá! Godot! — e suspira. — ¿O que você quer com ele, caramba?
— Ele vai trazer a papelada.
— ¿Que papelada?
— Bom, a verdade é que ninguém tem certeza. Mas tudo indica que ele vai trazer a ordem de prisão do Lula…
— Puts. Então vamos esperar.
— Vamos. É o jeito.

Dilma in the sky with diamonds

Eu acreditaria na suposta tortura sofrida por Dilma se ela apresentasse um áudio, gravado em sua juventude, no qual falasse coisa com coisa, e não esse monte de solecismos e disparates a que estamos acostumados. Na ausência de cicatrizes, membros extirpados ou ossos calcificados (resultantes de fratura), só me restaria crer que sua suposta tortura — já negada por uma de suas camaradas — teria sido muito LSD na cabeça ou a aplicação de eletrochoques. No primeiro caso, seria difícil afirmar se ela mesma, com muita alegria e in the sky with diamonds, não teria imposto semelhante “tortura” a si mesma. No segundo, isto é, no caso de eletrochoques, ainda necessitaríamos da gravação referida: vai que, depois dos eletrochoques, ela não tenha até melhorado seu funcionamento cerebral…

Charles Dickens: sobre deputados e escarradeiras

Se há algum problema com os deputados federais brasileiros, esse problema não está em suas aparências, maneirismos, sotaques, costumes, conversas fiadas ou vontade de aparecer: mas simplesmente em sua falta de alta cultura. Na verdade, o problema do Brasil inteiro reside na falta de uma verdadeira alta cultura. Charles Dickens, quando esteve nos EUA em 1842, já havia feito uma observação superficial semelhante:

“Numa visita ao Capitólio, nos Estados Unidos, em 1842, Dickens ficou estarrecido com o comportamento desmazelado dos representantes eleitos da nação, especialmente com a incapacidade que demonstravam de acertar as escarradeiras com suas expectorações de tabaco mascado. ‘Eu recomendo firmemente a todos os estrangeiros que não olhem para o chão’, Dickens resmungou. ‘E, se por acaso derrubarem alguma coisa… não a apanhem de maneira alguma, a não ser que estejam usando luvas’.” (A Vida Secreta dos Grandes Autores, de Robert Schnakenberg, pág. 50.)

Contudo, o século XIX foi exatamente aquele que testemunhou o crescimento e o enriquecimento vertiginoso dos EUA. Alexis de Tocqueville, que havia estado por lá uns dez anos antes de Dickens, já havia vislumbrado as virtudes e o potencial daquele país. Mas precisamos lembrar sempre: um Capitólio no qual deputados caipiras cospem ao chão é infinitamente superior a um Congresso no qual deputados cospem uns nos outros. Se o Brasil quiser entrar nos eixos no correr dos próximos anos, que fique com os primeiros e se livre imediatamente dos segundos.
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Feliz aniversário, Hilda Hilst! La Blanca!

Se ainda estivesse neste mundo, Hilda Hilst completaria hoje 86 anos de idade. Em sua homenagem, seguem abaixo alguns links de relatos sobre a época em que dividimos o mesmo teto. (¿Por que “La Blanca”? Porque, no inverno, graças a meu longo gorro de lã, Hilda me chamava de Dunga e eu, em retribuição, a chamava de Blancanieves.) Espero que você tenha razão, Hilda, e que a transcomunicação seja uma realidade onde você está: vai que você tem acesso ao que escrevemos aqui… (Sugestão para o Zuckerberg: curtidas do Além.)

PRECISA-SE DE EMPREGADA FEIA. BEM FEIA.

HILDA HILST, O IPTU E A CHAVE DA CIDADE

HOMEM TAMBÉM TEM PÊLO

O EXORCISTA NA CASA DO SOL

HILDA HILST E O FEMINISMO

HILDA HILST E SEU RADAR MENTAL

A MELHOR DAS CASAS POSSÍVEIS

O MARCENEIRO E O POETA

O IPTUZÃO DE HILDA HILST

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“Tolerância” (Assim, entre aspas)

Eu nunca curto páginas de políticos simplesmente porque não ponho a mão no fogo por nenhum deles. E tampouco saio patrulhando quem curte páginas de políticos criminosos, tais como Lula ou Dilma. Mas já estou sendo patrulhado por ter descrito, posts atrás, uma situação concreta: durante o voto do Bolsonaro no impeachment, não ouvi nada do que ele disse porque, em Brasília, a multidão gritava “mito! mito!”. Sim, eu já o elogiei — aqui e no Twitter — sempre que ouvi dele algo que considerei correto. E já o critiquei quando deu algum “bom dia a cavalo” que me pareceu fora de lugar ou meramente estúpido. Defender Ustra foi um “bom dia a cavalo”, não pelo conteúdo, mas pelo momento escolhido: ele, tomado por indignação, estava reagindo à apologia que deputados esquerdistas, minutos antes, haviam feito a Marighella, um notório assassino. (Para a mentalidade atual, nada mais comum e digna de respeito do que homenagear terroristas revolucionários.) ¿E Ustra? ¿Foi realmente um torturador? Nunca o saberemos. Ora, aqueles que afirmam isso, sem apresentar qualquer cicatriz, são os mesmos a também jurar que nunca houve um Mensalão, que Lula, José Dirceu, José Genoino e Dilma não são bandidos, e que o Foro de São Paulo nunca conspirou para a criação de uma Pátria Grande bolivariana — em que pesem todas as provas a esses fatos.
 
Em nossa época, a tolerância só é válida para quem pensa semelhantemente — claro, contanto que se coadune com o pensamento hegemônico. A guerra pelas mentalidades é apenas um extensão da “guerra assimétrica”, tática revolucionária mais que manjada: de um lado, há o direito de se falar qualquer coisa e de se fazer tudo, até mesmo “o diabo”; do outro, bem… do outro, o oponente tem de respeitar sozinho todas as regras, todas as convenções, principalmente, é claro, as maledettas regras do “politicamente correto” — do contrário será difamado pelos séculos dos séculos. Portanto, toda liberdade de expressão a quem defende Marighella; nenhuma a quem defende alguém que lutou contra o estabelecimento de uma ditadura comunista no Brasil. Sim, era nisto que Ustra estava metido: numa guerra contra a esquerda revolucionária. E, ao contrário daqueles que julgam por ouvir dizer, não tenho conhecimento suficiente para saber quais foram seus erros e excessos. (¿Já pesquisou? Não há provas concretas!) Por isso, não entrarei nesse mérito. Apenas me parece estranho dar total voz a quem defende criminosos patentes e, simultaneamente, impedir a liberdade de expressão de quem defende um mero suspeito — suspeito de algo de menor gravidade que o assassinato. (E tampouco entrarei no mérito de que houve uma certa Lei da Anistia, etc. etc.)
 
Enfim, antes de me escreverem para indagar “como um cara inteligente e culto como você diz essas coisas”, pensem que talvez seja exatamente por ler e estudar muito que as digo.
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