John Ford

« Operada a necessária distanciação, que pode motivar um julgamento mais profundo, creio que a obra de John Ford resiste e persiste. A pureza da sua encenação, sempre imediatamente visual, sempre simples – e portanto essencial – assenta sobretudo na sugestão dinâmica do enquadramento (“moving picture” em que tudo ocorre), na “montagem invisível” dos planos quase sempre fixos, sem efeitos nem piruetas técnicas, e na qualidade humana das personagens, levemente carregada no bem e no mal, que as torna fascinantes diante do espectador.

« Qualquer filme de Ford, nos últimos anos sem certos formalismos naturalistas ou expressionistas que prejudicavam a sua veia mais genuína, é um apelo à vida, à esperança, à possibilidade de os homens se encontrarem, mesmo que para tal encontro tenha de ser usada a força. É o sentido da comunidade, da família, do homem nascido da terra e da tradição, buscando as suas verdadeiras raízes, que preocupa o cineasta, que na pureza dos espaços livres do Oeste, do mundo dos pioneiros, ou nos raros refúgios de paz encontra as linhas depuradas de união.

« Os dois John Ford, de que falava Domingos Mascarenhas, acabam por ser um único, pois toda a sua obra é afinal uma obra visão, aparentemente contraditória, defendendo aqui a actualidade para logo ali lhe preferir a lenda, propondo numa altura certas figuras de chefe para sugerir mais adiante a rebeldia de uns quantos, esquecendo várias vezes a mulher para logo a valorizar, cantando os feitos da cavalaria americana para defender depois o povo índio contra essa mesma cavalaria.

« Essa duplicidade funciona sobretudo ao nível da visão dos filmes, quase sempre muito directos e muito fáceis de entender numa primeira apreciação, muito mais profundos e subtis para lá dessa visão inicial de superfície, ricos de pormenor, de observação humana, de original entendimento das coisas.

« Tal processo de aparências é sobretudo detectável de modo como constrói a vitória das suas personagens centrais, aparentemente derrotadas, mas glorificadas nessa mesma derrota, vencedoras no plano dos valores, símbolos de algo perene que ultrapassa o homem. Talvez por isso os seus “heróis” sejam personagens secundárias da história, mas ricas de humanidade e sabedoria, verdadeiros amigos, marcos evidentes da família humana.

« A sua ideia mais profunda é a do retorno às origens, uma espécie de renascer que, como católico, o leva a adoptar o pensamento essencial da Ressurreição. E, se me dessem a escolher, dentre as muitas frases-chave da sua obra, escolheria com certeza as palavras finais de “Homens para queimar” [no Brasil, “Fomos os sacrificados”], quando os sobreviventes caminham ao longo da praia abandonada, sem rumo certo, mas com a certeza de que os seus passos levam a melhores dias: “We shall return” – havemos de voltar.»
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Fonte: John Ford, de Luis de Pina.

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