ADVERTÊNCIA SOBRE O OPÚSCULO VI.

1. O livro apresentado nos códices antigos ostenta este título: “Inicia-se o prólogo de São Bernardo, abade, no livrinho aos Cavaleiros do Templo”; e após o prólogo: “Iniciam-se os capítulos sobre o louvor da nova Milícia”. Estes são ao todo treze, como em nossas edições, onde retivemos os títulos segundo a intenção do autor. Este livro é chamado por Geofredo, no oitavo capítulo do terceiro livro da Vida de Bernardo, de “Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Diz ele: “O quão fiel recomendador e ajudante foi de qualquer piedosa conversão, declara-o o Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Assim, portanto, o título deste livro pode ser estabelecido como: “Livro aos Cavaleiros do Templo, sobre o louvor da nova Milícia”.

2. O prólogo, contudo, é dedicado a “Hugo, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo”; mas dá no mesmo dedicar o livro ao Mestre da Milícia ou a todos os Cavaleiros. Foram chamados de Irmãos do Templo pelo fato de que, por concessão do rei Balduíno, estabeleceram-se primeiramente junto ao Templo do Senhor, conforme atesta Guilherme, arcebispo de Tiro, no capítulo sétimo do décimo segundo livro, onde descreve a origem deles por volta do ano 1118. Diz ele: “No mesmo ano, certos homens nobres de ordem eqüestre, devotos a Deus, religiosos e tementes a Deus, entregando-se ao serviço de Cristo nas mãos do senhor patriarca, professaram o desejo de viver perpetuamente ao modo dos cônegos regulares, em castidade, obediência e sem propriedade. Entre os quais, os primeiros e principais foram os veneráveis homens Hugo de Payns e Geofredo de Saint-Omer; como não possuíam igreja nem domicílio certo, o Rei concedeu-lhes temporariamente uma habitação no palácio que possui na parte sul, ao lado do Templo do Senhor. Sua primeira profissão, no entanto, e o que lhes foi imposto pelo senhor patriarca e outros bispos para a remissão dos pecados, foi que preservassem, segundo suas forças, os caminhos e estradas contra as ciladas de ladrões e assaltantes, especialmente para a segurança dos peregrinos”.

Isto sobre a origem dos Cavaleiros do Templo, aos quais o primeiro Mestre nomeado foi o supracitado Hugo de Payns, a quem o mesmo Guilherme de Tiro chama de primeiro mestre da milícia do Templo no vigésimo sexto capítulo do décimo terceiro livro. A segunda epístola de Guigo, prior da Cartuxa, é dirigida a “Hugo, Prior da santa milícia”. Este é o Hugo a quem Bernardo dedicou o livro seguinte, devendo ser distinguido, certamente, do outro Hugo que, de Conde de Champagne, tornou-se cavaleiro do Templo, conforme atesta a trigésima primeira epístola de Bernardo a ele dirigida. Além disso, a Hugo de Payns, primeiro Mestre da milícia, sucedeu o “exímio cavaleiro e vigoroso nas armas, nobre em linhagem e costumes, o senhor Roberto, de sobrenome Borguinhão, de nação aquitânia”, por volta do ano 1136, como se colhe de Guilherme de Tiro no sexto capítulo do décimo quinto livro, que também trata do mesmo no início do décimo sétimo livro. A Roberto parece ter sucedido Everardo, a quem Pedro, o Venerável, escreve uma epístola, que é a vigésima sexta do sexto livro.

3. Em que ano este livro foi escrito, não o diria facilmente. Consta que tal fato ocorreu quando a Ordem já havia crescido muito e o número de cavaleiros se multiplicado. As palavras de Bernardo no número 10 provam isso: “Estas coisas são praticadas em Jerusalém, e o mundo se desperta. As ilhas ouvem, e os povos de longe prestam atenção; fervilham do Oriente e do Ocidente… E o que se percebe como mais alegre e se realiza de forma mais oportuna é que, em tão grande multidão de homens, verás confluir para lá apenas uns poucos que não sejam criminosos”, etc. Ora, antes do Concílio de Troyes, isto é, antes do ano de 1127, havia apenas nove cavaleiros daquele instituto, como logo veremos por Guilherme. Portanto, dificilmente se pode dizer que este livro foi composto antes de 1132, mas certamente antes de 1136, ano em que, aproximadamente, o mestre Roberto sucedeu a Hugo.

4. Miraeus publicou a Regra dos Templários a partir de um códice vitorino e a inseriu na Crônica Cisterciense, afirmando ser ela “ditada pelo santo abade Bernardo de Claraval, como fica evidente pelo prólogo”. Esta Regra consta de tantos capítulos quanto a Regra de São Bento (da qual foi tomada em grande parte palavra por palavra), isto é, setenta e dois capítulos. Antes do prólogo, ela é assim intitulada: “Regra dos pobres comilotes de Cristo e do Templo de Salomão”. Manrique, no ano de 1128, capítulo 2, atribui esta Regra a Bernardo como autor, junto com Miraeus, e para provar isso aduziu duas passagens do prólogo. A primeira passagem diz assim: “Certamente, embora o número vastíssimo de Padres religiosos que se reuniram naquele concílio por advertência divina recomende a autoridade de nossa redação; não devemos passar em silêncio que, sob a vista deles e proferindo sentenças verdadeiras, eu, João de Michel, mereci ser pela graça divina o humilde escrivão da presente página, por ordem do concílio e do venerável abade de Claraval, a quem isto fora confiado e era devido”.

Contudo, estas palavras não significam que qualquer Regra tenha sido composta por Bernardo para os Templários: mas que ele transferira para João de Michel o ofício de escrivão que lhe fora imposto. 543 Nem se conclui nada além das palavras seguintes, que são relatadas desta maneira após a enumeração dos Padres do Concílio de Troyes: “O próprio mestre da milícia, de nome Hugo, de fato não faltou, e trouxe consigo alguns de seus irmãos, a saber, o Irmão Gofredo, o Irmão Roval, o Irmão Geofredo Bisol, o Irmão Pagano de Montdidier e Arcambaldo de Saint-Aignan. Este mestre Hugo, com estes discípulos, comunicou aos Padres acima nomeados, segundo o conhecimento de sua memória, o modo e a observância do início modesto de sua Ordem militar, que tomou seu exórdio daquele que diz: ‘Eu sou o princípio, eu que vos falo’. Aprouve, portanto, ao concílio que o conselho ali diligentemente examinado pelo crivo e consideração das Divinas Escrituras fosse recomendado por escrito e observado inabalavelmente, todavia com a providência do Papa Romano e do Patriarca de Jerusalém, bem como com o assentimento do capítulo dos pobres comilotes do Templo que está em Jerusalém”.

Por estas palavras, entendemos apenas que foi sancionado pelos Padres que uma Regra fosse prescrita aos Cavaleiros com o consenso deles, consultados o Pontífice Romano e o Patriarca Jerosolimitano; mas de modo algum Bernardo é afirmado como seu autor. Pelo contrário, Alberico, da Ordem Cisterciense, escreve que a Regra de Santo Agostinho foi imposta a esses mesmos Cavaleiros. Por isso, no Monasticon Anglicanum, eles são remetidos à Ordem de Santo Agostinho. Seria muito estranho se Alberico de Trois-Fontaines, monge cisterciense não distante de Claraval, ignorasse esta Regra de Bernardo e tivesse atribuído outra aos Cavaleiros que restavam em seu tempo.

Guilherme, bispo e arcebispo de Tiro, relata no já citado capítulo sétimo do livro décimo segundo que, para os mesmos Cavaleiros que antes do Concílio de Troyes “não eram senão nove, por mandato do senhor Papa Honório e do senhor Estêvão, patriarca de Jerusalém, foi instituída uma Regra e atribuído o hábito branco”, sendo que antes usavam vestes comuns. “Posteriormente, no tempo do senhor Papa Eugênio, conforme se diz, começaram a costurar cruzes de pano vermelho em seus mantos”, tanto os cavaleiros quanto seus irmãos chamados Sargentos. Cuja situação cresceu tanto imensamente que hoje, diz Guilherme, “têm no convento trezentos cavaleiros, mais ou menos, vestidos com mantos brancos, excetuando-se os Irmãos”.

Destas últimas palavras, deduzimos que aquela Regra que é atribuída a Bernardo como autor não foi escrita senão depois de Guilherme de Tiro; visto que no capítulo vigésimo primeiro são notados certos “pseudo-irmãos das partes de além-montanha, mentindo ser do Templo”; e certas coisas que cresceram entre os próprios Cavaleiros “sem discrição e conselho do capítulo comum” são argüidas como devendo ser totalmente amputadas, a saber, que “outrora os criados e escudeiros tinham vestes brancas, de onde vinham danos insuportáveis”. Ora, não houve nenhum capítulo geral dos Templários antes do Concílio de Troyes; nem antes havia um hábito peculiar dos Cavaleiros, mas o comum. O branco lhes foi concedido pelos Padres do concílio, exceto aos Sargentos. Claramente, apenas por estas palavras se entende que, ao menos este capítulo, foi acrescentado muito depois do tempo do concílio. O capítulo sétimo não só não louva o “ficar de pé para ouvir o ofício divino”, mas até o vitupera e estabelece que seja ouvido sentando: estatuto este que certamente não teria vindo à mente de Bernardo. No capítulo qüinquagésimo sexto estabelece-se “que não se tenham mais irmãs”: o que prova não ter sido uma instituição recente. Se João de Michel é o autor desta Regra, deixo para que outros julguem. Não é indigno de observação nela que o termo “colação” é usado para a pequena refeição dos jejuns no capítulo décimo sexto.

A HUGO, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo, BERNARDO, apenas de nome abade de Claraval: combater o bom combate.

Uma, duas e três vezes, se não me engano, pediste-me, caríssimo Hugo, que escrevesse um sermão de exortação para ti e teus comilotes; e que, já que não me era permitido vibrar a lança contra a tirania inimiga, vibrasse a pena, afirmando que vos seria de não pouco auxílio se eu animasse por letras aqueles a quem não posso animar por armas. Certamente adiei por algum tempo: não porque a petição parecesse desprezível, mas para que não fosse culpado de um assentimento leve e precipitado se, sendo eu inexperiente, presumisse realizar o que alguém melhor seria capaz de cumprir com mais perfeição, e uma coisa tão necessária acabasse por ser feita de modo menos conveniente por mim. Contudo, vendo-me frustrado por uma espera bastante longa desse tipo, para não parecer que agora mais me faltava a vontade do que a capacidade, finalmente fiz o que pude: que o leitor julgue se o satisfiz. E ainda que a alguém porventura nada agrade ou não seja suficiente, isso não me importa, pois não faltei à tua vontade conforme o meu entender.

CAPÍTULO PRIMEIRO: Sobre o louvor da nova milícia

1. Ouve-se que um novo gênero de milícia surgiu recentemente nas terras, e precisamente naquela região que outrora o Oriente do alto, estando presente em carne, visitou; para que, de onde outrora expulsou os príncipes das trevas na fortaleza de sua mão, de lá também agora extermine os seus satélites, os filhos da desconfiança, dissipados pela mão de seus fortes, realizando também agora a redenção de seu povo e novamente erguendo para nós o corno da salvação na casa de Davi, seu servo.

Um novo gênero de milícia, digo eu, e desconhecido pelos séculos, no qual se luta incansavelmente num duplo conflito: tanto contra a carne e o sangue, quanto contra os espíritos da malícia nos céus. E certamente, onde se resiste com as sós forças do corpo a um inimigo corpóreo, isso eu não julgo tão admirável quanto nem o estimo raro. E também quando se declara guerra aos vícios ou aos demônios pela virtude da alma, nem isso eu diria ser maravilhoso, embora seja louvável, visto que o mundo se vê cheio de monges.

Porém, quando ambos os homens [o exterior e o interior] são poderosamente cingidos, cada um com sua espada e cada um nobremente assinalado com seu cinto, quem não estimaria isto como digníssimo de toda admiração, sendo algo que transparece ser tão insólito? Impávido cavaleiro, por certo, e seguro sob todos os aspectos, aquele que veste a alma com a couraça da fé, assim como veste o corpo com a couraça de ferro. Guarnecido, sem dúvida, por ambas as armas, não teme o demônio nem o homem. Nem teme a morte, de fato, aquele que deseja morrer. Pois o que temeria, vivendo ou morrendo, aquele para quem viver é Cristo e morrer é lucro? Está, pois, confiante e de boa vontade por Cristo; mas deseja antes ser dissolvido e estar com Cristo: pois isto é melhor.

Procedei, portanto, seguros, cavaleiros, e com ânimo intrépido repeli os inimigos da cruz de Cristo, certos de que nem a morte nem a vida poderão separar-vos da caridade de Deus, que está em Cristo Jesus; repetindo convosco em todo perigo: Quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor (Rom XIV, 8). Quão gloriosos retornam os vencedores da batalha! Quão beatos morrem os mártires na batalha! Alegra-te, forte atleta, se vives e vences no Senhor; mas exulta e gloria-te ainda mais se morres e te junges ao Senhor. A vida, decerto, é frutuosa e a vitória é gloriosa; mas a morte sagrada é, com justiça, preferida a ambas. Pois, se são beatos os que morrem no Senhor, não o serão muito mais os que morrem pelo Senhor?

2. E, de fato, quer se morra no leito, quer na guerra, a morte dos seus santos será, sem dúvida, preciosa aos olhos do Senhor. Mas, na guerra, é certamente tanto mais preciosa quanto mais gloriosa. Ó vida segura, onde a consciência é pura! Ó, digo eu, vida segura, onde a morte é esperada sem temor, antes, é até desejada com doçura e recebida com devoção!

Ó milícia verdadeiramente santa e segura, e inteiramente livre daquele duplo perigo pelo qual aquele [outro] gênero de homens costuma freqüentemente perigar; ao menos onde Cristo não é a causa de militar. Pois, todas as vezes que tu, que militas na milícia secular, entras em combate, deves temer acima de tudo: ou que mates o inimigo no corpo e a ti mesmo na alma; ou que, porventura, sejas morto por ele, e morras tanto no corpo quanto na alma.

Com efeito, é pelo afeto do coração, e não pelo evento da guerra, que se pondera o perigo ou a vitória do cristão. Se a causa do combatente for boa, o êxito da luta não poderá ser um mau êxito; assim como o fim não será julgado bom onde uma causa não boa e uma intenção não reta tiverem precedido. Se, na vontade de matar o outro, acontecer de tu mesmo seres morto, morres como homicida. Se, porém, prevaleces e, pela vontade de vencer ou de te vingares, porventura matas o homem, vives como homicida. Ora, não convém ser homicida, nem morto nem vivo, nem vencedor nem vencido. Infeliz vitória aquela pela qual, superando um homem, sucumbes ao vício! E, dominando-te a ira ou a soberba, em vão te glorias pelo homem superado.

Há, contudo, quem mate um homem não pelo zelo da vingança nem pelo fasto da vitória, mas apenas como remédio para escapar [da morte]. Mas nem a esta eu diria ser uma boa vitória: pois, entre dois males, morrer no corpo é mais leve do que morrer na alma. Não é porque o corpo é morto que a alma também morre; mas a alma que pecar, essa morrerá.

CAPÍTULO II: Sobre a milícia secular

3. Qual é, portanto, o fim ou o fruto desta — não digo milícia, mas malícia — secular, se tanto o matador peca letalmente quanto o morto perece eternamente? Pois, para usar as palavras do Apóstolo: O que lavra deve lavrar com esperança; e o que debulha, deve fazê-lo com esperança de colher o fruto (I Cor IX, 10).

Que erro tão estupendo é este, ó cavaleiros, que furor é este tão insuportável: militar com tantos gastos e trabalhos, mas sem nenhum soldo, exceto o da morte ou o do crime? Cobris vossos cavalos com sedas e pendurais não sei quais paninhos sobre vossas couraças; pintais as lanças, os escudos e as selas; adornais freios e esporas com ouro, prata e gemas: e com tanta pompa, num furor pudendo e estupor impudente, correis para a morte.

São estes insígnias militares ou, antes, ornamentos femininos? Porventura a espada inimiga terá reverência pelo ouro, poupará as gemas ou não poderá penetrar a seda? Enfim, como vós mesmos experimentais com freqüência e certeza, três coisas são principalmente necessárias ao combatente: que o cavaleiro seja vigoroso e diligente, circunspecto para se proteger, expedito para percorrer o campo e pronto para ferir; vós, pelo contrário, para o gravame dos olhos, cultivais cabeleiras ao rito feminino, envolveis vossos próprios passos com camisas longas e profusas, e sepultais mãos delicadas e tenras em mangas amplas e esvoaçantes.

Acima de tudo isto, há algo que aterroriza ainda mais a consciência do homem armado: aquela causa, por certo bastante leve e frívola, pela qual se assume tal e tão perigosa milícia. Certamente, nada move as guerras entre vós, nem desperta as lides, senão ou um movimento de ira irracional, ou o apetite de vanglória, ou a cupidez de qualquer tipo de posse terrena. Por tais causas, certamente, não é seguro nem matar, nem morrer.

CAPÍTULO III: Sobre os Cavaleiros de Cristo

4. Mas, de fato, os cavaleiros de Cristo pelejam com segurança as batalhas de seu Senhor, de modo algum temendo ou o pecado pela matança dos inimigos, ou o perigo por sua própria morte; visto que a morte, seja para ser sofrida por Cristo, seja para ser infligida [ao inimigo], nada tem de crime e merece muitíssima glória. Por ela, certamente, ganha-se para Cristo de um lado, e do outro ganha-se o próprio Cristo: o qual, sem dúvida, tanto aceita de bom grado a morte do inimigo como vingança, quanto mais de bom grado ainda se oferece ao cavaleiro como consolação.

O cavaleiro de Cristo, digo eu, mata com segurança e morre com maior segurança ainda. Ele presta um serviço a si mesmo quando morre, e a Cristo quando mata. Pois não é sem causa que ele porta a espada. É, de fato, ministro de Deus para a vingança dos malfeitores e para o louvor dos bons. Certamente, quando mata um malfeitor, não é considerado um homicida, mas, por assim dizer, um malecida (malicida), e claramente é reputado como vingador de Cristo naqueles que agem mal e defensor dos cristãos.

Quando, porém, ele mesmo é morto, reconhece-se que não pereceu, mas que chegou ao destino. Portanto, a morte que ele inflige é lucro de Cristo; a que ele recebe, é o seu próprio lucro. Na morte do pagão, o cristão se gloria, porque Cristo é glorificado; na morte do cristão, a liberalidade do Rei se manifesta, quando o cavaleiro é retirado para ser remunerado. Além disso, sobre aquele [o ímpio] o justo se alegrará quando vir a vingança. Deste [o cavaleiro], dirá o homem: “Se há deveras fruto para o justo, certamente há um Deus que os julga na terra” (Salmo LVII, 12).

Não que os pagãos devessem ser mortos se pudessem, por qualquer outro modo, ser impedidos da excessiva infestação ou opressão dos fiéis. Mas agora é melhor que sejam mortos do que se permita que a vara dos pecadores permaneça sobre a sorte dos justos, para que os justos não estendam suas mãos à iniqüidade.

5. Pois o quê? Se ao cristão fosse absolutamente proibido ferir com a espada, por que então o arauto do Salvador [João Batista] ordenou aos soldados que se contentassem com seus soldos (Luc. III, 14), e não lhes proibiu, antes, toda a milícia? Se, contudo (o que é verdade), a todos é lícito, desde que para isso mesmo ordenados divinamente e não tendo professado nada de melhor; a quem, pergunto, é mais lícito do que àqueles por cujas mãos e forças a cidade de nossa fortaleza, Sião, é retida para a proteção de todos nós? Para que, expulsos os transgressores da lei divina, a nação justa, que guarda a verdade, entre segura.

Dissipem-se, pois, com segurança, as gentes que querem guerras; sejam decepados os que nos perturbam, e sejam dispersos da cidade do Senhor todos os que operam a iniqüidade, os quais desejam tirar as riquezas inestimáveis do povo cristão depositadas em Jerusalém, poluir as coisas santas e possuir por herança o santuário de Deus. Desembainhem-se ambas as espadas dos fiéis sobre as cervizes dos inimigos, para destruir toda a altivez que se levanta contra a ciência de Deus, que é a fé dos cristãos; para que as gentes nunca digam: “Onde está o Deus deles?” (Salmo CXIII, 2).

6. Expulsos estes [os inimigos], Ele mesmo retornará à sua herança e à sua casa, sobre a qual, irado no Evangelho, disse: “Eis que a vossa casa vos será deixada deserta” (Mat. XXIII, 38); e pelo profeta assim se lamenta: “Deixei a minha casa, abandonei a minha herança” (Jer. XII, 7). E cumprirá aquela profecia: “O Senhor remiu o seu povo e o libertou; e virão e exultarão no monte Sião, e se alegrarão pelos bens do Senhor” (Jer. XXXI, 11, 12).

Alegra-te, Jerusalém, e conhece agora o tempo da tua visitação! Regozijai-vos e louvai juntas, desertos de Jerusalém, porque o Senhor consolou o seu povo, remiu Jerusalém; o Senhor preparou o seu santo braço aos olhos de todas as nações. Virgem de Israel, tinhas caído e não havia quem te levantasse. Surge agora, sacode o pó, virgem, cativa filha de Sião! Surge, digo, e põe-te no alto, e vê a alegria que te vem do teu Deus. Não serás mais chamada “desamparada”, e a tua terra não se chamará mais “desolada”, porque o Senhor se comprouve em ti, e a tua terra será habitada. Levanta os olhos ao redor e vê: todos estes se congregaram, vieram a ti. Este auxílio te foi enviado do Santo.

Certamente, por meio destes [cavaleiros], cumpre-se para ti aquela antiga promessa: “Porei em ti o orgulho dos séculos, o gozo de geração em geração; e sugarás o leite das nações e serás amamentada ao peito dos reis” (Isa. LX, 15, 16); e ainda: “Como a mãe consola seus filhos, assim eu vos consolarei, e em Jerusalém sereis consolados” (Isa. LXVI, 13). Vês quão freqüente é a atestação dos antigos para aprovar a nova milícia, e que, assim como ouvimos, assim vemos na cidade do Senhor das virtudes? Desde que, decerto, a interpretação literal não prejudique os sentidos espirituais, para que não deixemos de esperar no eterno aquilo que usurpamos das vozes dos profetas para significar este tempo; para que, por aquilo que se vê, não desapareça aquilo que se crê; e a penúria da coisa [presente] não diminua as riquezas da esperança, e a atestação das coisas presentes não seja o esvaziamento das futuras. De outro modo, a glória temporal da cidade terrena não destrói os bens celestiais, mas os constrói; se, contudo, minimamente duvidamos que esta cidade sustenta a figura daquela que está nos céus e é nossa mãe.

CAPÍTULO IV: Sobre o modo de vida dos Cavaleiros de Cristo

7. Mas agora, para imitação ou para confusão de nossos cavaleiros [seculares] — que claramente servem não a Deus, mas ao diabo — digamos brevemente os costumes e a vida dos cavaleiros de Cristo; como se comportam na guerra ou em casa, para que fique claro o quanto diferem entre si a milícia de Deus e a do século.

Primeiramente, em ambos os casos [guerra ou casa], a disciplina não falta e a obediência de modo algum é desprezada, pois, como atesta a Escritura: “o filho indisciplinado perecerá” (Ecli. XXII, 3); e “resistir é como o pecado de adivinhação, e não querer aquiescer é como o crime de idolatria” (I Reis XV, 23). Vai-se e volta-se ao aceno daquele que preside; veste-se o que ele tiver dado; nem se presume buscar vestimenta ou alimento em outro lugar. Tanto no sustento quanto no vestuário evita-se todo supérfluo; atende-se apenas à necessidade.

Vive-se, claramente, em comum, numa convivência alegre e sóbria, sem esposas e sem filhos. E para que nada falte da perfeição evangélica, habitam sem propriedade alguma, de um só costume, em uma só casa, solícitos em preservar a unidade do espírito no vínculo da paz. Dirias que de toda a multidão há um só coração e uma só alma: de tal modo cada um se esforça por não seguir em nada a própria vontade, mas antes obedecer a quem comanda.

Em nenhum momento sentam-se ociosos ou vagam curiosos; mas sempre, enquanto não estão em marcha (o que raramente acontece), para que não comam o pão de graça, ou consertam as fendas de suas armas ou vestes, ou reparam as velhas, ou organizam as desordenadas e, enfim, fazem tudo o que a vontade do mestre e a necessidade comum indicam.

Entre eles não se faz acepção de pessoas: honra-se o melhor, não o de mais nobre linhagem. Previnem-se uns aos outros em honra; carregam os fardos uns dos outros para assim cumprir a lei de Cristo. Palavra insolente, obra inútil, riso imoderado, murmúrio ainda que leve ou sussurro, de modo algum, onde são detectados, ficam sem correção. Detestam os xadrezes e os dados; abominam a caça; nem se deleitam com aquela lúdica rapina de aves [falcoaria], como costuma ser feito. Rejeitam e abominam mimos, magos, contadores de fábulas, cantigas obscenas e espetáculos de jogos, como vaidades e falsas insânias. Cortam os cabelos, sabendo, conforme o Apóstolo, ser uma ignomínia para o homem se cultivar cabeleira. Nunca penteados, raramente lavados, mas antes hirsutos pelo cabelo negligenciado, sujos de poeira; escurecidos pela couraça e pelo calor.

8. Além disso, ao iminente combate, eles se munem por dentro com a fé e por fora com o ferro, e não com ouro; para que, armados e não adornados, incutam medo aos inimigos e não provoquem a sua avareza. Desejam ter cavalos fortes e velozes, mas não coloridos ou com ornamentos luxuosos: pois pensam na luta, não na pompa; na vitória, mas não na glória; esforçando-se mais para serem temidos do que para serem admirados.

Depois, não agem de modo turbulento ou impetuoso, nem são precipitados por leviandade, mas ordenam a si mesmos com consulta, com toda a cautela e providência, dispondo-se em linha de batalha conforme está escrito sobre os patriarcas. Como verdadeiros israelitas, procedem para a guerra pacificamente. Mas, de fato, quando chega o momento do certame, então, postergada a antiga brandura, como se dissessem: “Porventura não odiei, Senhor, os que te odeiam, e não me definhei por causa de teus inimigos?” (Salmo CXXXVIII, 21), arremetem contra os adversários, tratando os inimigos como se fossem ovelhas; de modo algum temendo, embora sejam pouquíssimos, ou a bárbara ferocidade, ou a numerosa multidão.

Pois aprenderam a não presumir de suas próprias forças, mas a esperar a vitória da virtude do Senhor dos Exércitos: para quem, confiam eles, é fácil (conforme a sentença de Macabeu) que muitos sejam entregues nas mãos de poucos, e não há diferença aos olhos do Deus do céu em libertar com muitos ou com poucos; porque não é na multidão do exército que reside a vitória da guerra, mas do céu vem a fortaleza (I Mac. III, 18, 19). O que freqüentemente experimentaram, de tal modo que, por vezes, um só perseguiu mil, e dois puseram em fuga dez mil.

Assim, por fim, de um modo admirável e singular, mostram-se mais mansos que cordeiros e mais ferozes que leões, de sorte que quase duvido como seria melhor chamá-los: se monges ou cavaleiros. Talvez eu devesse, com mais propriedade, nomeá-los com ambos os nomes, pois neles se reconhece que não falta nem a mansidão do monge, nem a fortaleza do cavaleiro. Sobre o que se diria, senão que isso foi feito pelo Senhor e é admirável aos nossos olhos? Tais ministros Deus escolheu para Si, e colheu dos confins da terra entre os mais fortes de Israel, para que guardem vigilante e fielmente o verdadeiro leito de Salomão, a saber, o Santo Sepulcro, todos empunhando espadas e sendo doutíssimos na guerra.

CAPÍTULO V: Sobre o Templo

9. Existe, de fato, um Templo em Jerusalém no qual habitam juntos, desigual em estrutura àquele antigo e famosíssimo de Salomão, mas não inferior em glória. Pois toda a magnificência daquele consistia em coisas corruptíveis, ouro e prata, na quadratura das pedras e na variedade das madeiras; todo o decoro deste, porém, e o ornato de sua grata beleza, é a piedosa religiosidade dos habitantes e sua conduta ordenadíssima. Aquele se mostrava para ser visto por várias cores; este deve ser venerado por diversas virtudes e atos santos. Pois a santidade convém à casa de Deus (Salmo XCII, 5), que não se deleita tanto com mármores polidos quanto com costumes adornados, e ama mentes puras acima de paredes douradas.

Todavia, a face deste Templo também é adornada, mas com armas, não com jóias; e em vez de antigas coroas de ouro, a parede é coberta por escudos pendurados ao redor; em vez de candelabros, turíbulos e jarros, a casa é por todos os lados guarnecida com freios, selas e lanças. Claramente, tudo isso demonstra que os cavaleiros fervem pelo mesmo zelo pela casa de Deus com que outrora o próprio Líder dos cavaleiros, veementemente inflamado, entrou no Templo com aquela mão santíssima armada não com ferro, mas com um chicote feito de cordas, expulsou os negociantes, espalhou o dinheiro dos cambistas e everteu as cadeiras dos que vendiam pombas (João II, 15); julgando indigníssimo que a casa de oração fosse maculada por tais mercadores.

Comovido por tal exemplo de seu Rei, o exército devoto, julgando ser muito mais indigno e intolerável que os lugares santos fossem poluídos pelos infiéis do que maculados pelos mercadores, permanece na casa santa com cavalos e armas; e, tendo expulso dela e de outros lugares sagrados toda a imunda e tirânica raiva da infidelidade, eles próprios se ocupam nela dia e noite com ofícios tão honestos quanto úteis. Honram a porfia o Templo de Deus com obséquios zelosos e sinceros, imolando nele com perene devoção não, segundo o rito antigo, carne de animais, mas verdadeiras hóstias pacíficas: o amor fraterno, a submissão devota e a pobreza voluntária.

10. Estas coisas são praticadas em Jerusalém, e o mundo se desperta. As ilhas ouvem, e os povos de longe prestam atenção; e fervilham do Oriente e do Ocidente como um torrente inundante da glória das nações, e como o ímpeto de um rio que alegra a cidade de Deus. E o que se percebe como mais alegre e se realiza de forma mais oportuna é que, em tão grande multidão de homens que para lá conflui, verás apenas uns poucos que não sejam criminosos e ímpios, raptores e sacrílegos, homicidas, perjuros e adúlteros.

De cuja conversão, por certo, consta provir um duplo bem e, por isso, a alegria é duplicada; visto que tanto alegram os seus [em casa] por sua partida, quanto alegram aqueles a quem se apressam a socorrer por sua chegada. Pois são úteis em ambos os lados: não apenas protegendo estes, mas também deixando de oprimir aqueles. Assim, o Egito se alegra com a partida deles, enquanto o monte Sião não menos se alegra com a proteção deles, e as filhas de Judá exultam. Aquele [o Egito/o mundo pecador] se gloria merecidamente por ser libertado das mãos deles; esta [Sião] por ser libertada pelas mãos deles. Aquele perde de bom grado os seus mais cruéis devastadores; esta recebe com alegria os seus mais fiéis defensores. E por onde esta é docemente consolada, por ali aquele é, de igual modo, salubremente desolado.

Assim Cristo, assim Ele sabe vingar-se de Seus inimigos, de modo que costuma triunfar não apenas sobre eles, mas freqüentemente através deles, tanto mais gloriosamente quanto mais poderosamente. Alegre e oportuno, por certo: que aqueles que por tanto tempo suportou como opugnadores, comece agora a ter como propugnadores; e faça do inimigo um cavaleiro, como outrora de Saulo, o perseguidor, fez Paulo, o pregador (Atos IX). Por isso, não me admiro se também aquela corte celeste, segundo o testemunho do Salvador, exulta mais por um só pecador que faz penitência do que por muitos justos que não necessitam de penitência; pois a conversão de um pecador e maligno aproveita, sem dúvida, a tantos quantos a sua conduta anterior havia prejudicado.

11. Salve, portanto, cidade santa, a qual o próprio Altíssimo santificou para Si como Seu tabernáculo, para que em ti e por ti uma geração tão grande fosse salva! Salve, cidade do Grande Rei, da qual, desde o princípio, quase em tempo algum faltaram milagres novos e alegres ao mundo! Salve, senhora das nações, princesa das províncias, possessão dos Patriarcas, mãe dos Profetas e dos Apóstolos, iniciadora da fé, glória do povo cristão!

A ti Deus sempre permitiu ser atacada desde o princípio para que, aos homens fortes, fosses tanto ocasião de virtude quanto de salvação. Salve, terra da promessa, que outrora manavas leite e mel apenas para os teus habitantes, e agora ofereces remédios de salvação e alimentos de vida a todo o mundo! Terra, digo eu, boa e excelente, que no teu seio fecundíssimo, recebendo o grão celeste do arco do coração paterno, produziste tão grandes colheitas de mártires da semente superna; e não menos, do restante gênero de todos os fiéis, tu, gleba fértil, procriaste multiplicadamente sobre toda a terra o fruto a trinta, a sessenta e a cem por um.

Por isso, saciados mui alegremente e opulentamente fartos da grande multidão de tua doçura, por toda parte eructam a memória da abundância de tua suavidade aqueles que te viram; e até o extremo da terra falam da magnificência da tua glória aos que não te viram, e narram as maravilhas que em ti se operam. Coisas gloriosas foram ditas de ti, cidade de Deus! Mas agora, dentre estas delícias em que afluas, apresentemos também nós algumas poucas, para o louvor e a glória do teu nome.

CAPÍTULO VI: Sobre Belém

12. Tens, antes de tudo, para a refeição das almas santas, Belém, a “casa do pão”, na qual primeiro apareceu como pão vivo aquele que descera do céu, por parto da Virgem. Ali, mostra-se aos animais piedosos o presépio, e no presépio o feno do prado virginal, para que assim o boi reconheça o seu possuidor e o jumento o presépio do seu Senhor. Pois toda carne é feno, e toda a sua glória é como a flor do feno (Isaías XL, 6).

Ora, como o homem não entendeu a honra na qual foi criado, foi comparado aos animais insensatos e tornou-se semelhante a eles (Salmo XLVIII, 13); por isso, o Verbo-Pão dos Anjos fez-se pasto dos animais, para que a carne tenha feno que ruminar, ela que se desabitou totalmente de comer o pão do Verbo: até que, pelo Homem-Deus restituído à dignidade anterior e convertido de animal novamente em homem, possa dizer com Paulo: “Ainda que conhecemos a Cristo segundo a carne, agora já não o conhecemos assim” (II Cor. V, 16).

Certamente não creio que alguém possa dizer isso verazmente, senão aquele que primeiro tiver ouvido de Pedro, da boca da Verdade, aquilo outro: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida; a carne, porém, de nada aproveita” (João VI, 64). De resto, quem encontra a vida nas palavras de Cristo, já não requer a carne, e pertence ao número dos bem-aventurados que não viram e creram (João XX, 29). Pois não há necessidade do copo de leite senão para o pequenino, nem do pasto de feno senão para o animal. Mas aquele que não tropeça na palavra, esse é um homem perfeito, idôneo para comer o alimento sólido: e, ainda que no suor do seu rosto, come o pão do Verbo sem tropeço. Seguro e sem escândalo, fala a sabedoria de Deus apenas entre os perfeitos, comparando coisas espirituais a espirituais; contudo, para os infantes ou animais, cuida de propor apenas Jesus Cristo, e este crucificado, conforme a capacidade deles. No entanto, um só e o mesmo alimento das pastagens celestiais é suavemente ruminado pelo animal e manducado pelo homem; e a este dá forças, e àquele pequenino atribui nutrimento.

CAPÍTULO VII: Sobre Nazaré

13. Vê-se também Nazaré, que se interpreta como “flor”, na qual aquele que nascera em Belém, como um fruto que se forma na flor, foi nutrido como Deus infante: para que o odor da flor precedesse o sabor do fruto, e das narinas dos Profetas o licor santo se infundisse na garganta dos Apóstolos; e enquanto os judeus se contentavam com o tênue odor, o gosto sólido refizesse os cristãos.

Sentira, contudo, esta flor Natanael, que exalava um perfume suave sobre todos os aromas. Por isso dizia: “De Nazaré pode vir algo de bom?”. Mas de modo algum contente apenas com a fragrância, seguiu Filipe que lhe respondia: “Vem e vê” (João I, 46). Antes, deleitado pela aspersão daquela admirável suavidade, e tornado mais ávido do sabor pelo hausto do bom odor, cuidou de chegar sem demora até o fruto, tendo o próprio odor por guia, desejando experimentar plenamente o que antes sentira de forma tênue, e degustar presente o que odorara ausente.

Vejamos também sobre o olfato de Isaac, para ver se porventura não pressagiou algo que pertença a estas mesmas coisas que temos em mãos. Assim fala a Escritura sobre ele: “E logo que sentiu a fragrância de suas vestes” (sem dúvida de Jacó), “disse: Eis que o odor de meu filho é como o odor de um campo cheio, ao qual o Senhor abençoou” (Gên. XXVII, 27). Sentiu a fragrância da veste, mas não reconheceu a presença de quem a vestia: e deleitado exteriormente apenas pelo odor da veste, como se fosse o da flor, não provou a doçura do fruto interior, permanecendo privado do conhecimento tanto do filho eleito quanto do sacramento.

Para onde olha isto? A veste do espírito, por certo, é a letra e a carne do Verbo. Mas nem agora o judeu conhece o Verbo na carne, nem a divindade no homem; nem sob a cobertura da letra enxerga o sentido espiritual: e apalpando por fora a pele do cabrito, que expressara a semelhança do maior (isto é, do primeiro e antigo pecador), não chega à verdade nua. Pois não na carne do pecado, mas na semelhança da carne do pecado apareceu aquele que vinha não para fazer o pecado, mas para tirá-lo, pela causa que Ele mesmo não calou: “para que os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos” (João IX, 39). Enganado, pois, por esta semelhança, o Profeta [o povo judeu], cego ainda hoje, abençoa a quem não conhece, pois ignora nos milagres aquele que lê nos livros: e aquele que toca com as próprias mãos, prendendo, flagelando e esbofeteando, de modo algum o entende, nem mesmo ao ressurgir. Pois se o tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória (I Cor. II, 8).

Percorramos em discurso sucinto também os outros lugares santos, ou se não todos, ao menos alguns: já que não somos capazes de admirar cada um em particular, apraz-nos recordar brevemente os mais insignes.

CAPÍTULO VIII: Sobre o monte das Oliveiras e o vale de Josafá

14. Sobe-se ao monte das Oliveiras e desce-se ao vale de Josafá: para que assim penses nas riquezas da divina misericórdia de tal modo que não dissimules de forma alguma o horror do julgamento; pois, embora em Suas muitas misericórdias Ele seja magnânimo em perdoar, Seus julgamentos são, no entanto, um abismo profundo, pelos quais se reconhece quão terrível Ele é sobre os filhos dos homens.

Davi, enfim, que aponta para o monte das Oliveiras dizendo: “Salvarás os homens e os animais, Senhor, segundo multiplicaste a Tua misericórdia, ó Deus”, também comemora o vale do julgamento no mesmo salmo, dizendo: “Não venha sobre mim o pé da soberba, e a mão do pecador não me abale” (Salmo XXXV, 7, 12). Ele confessa horrorizar-se inteiramente com esse precipício quando fala em outro salmo, orando: “Atravessa as minhas carnes com o Teu temor, pois temi os Teus julgamentos” (Salmo CXVIII, 120).

O soberbo cai neste vale e é despedaçado; o humilde desce e não periga. O soberbo escusa o seu pecado; o humilde o acusa, sabendo que Deus não julga duas vezes a mesma coisa, e que, se nos julgássemos a nós mesmos, certamente não seríamos julgados (I Cor. XI, 31).

15. Além disso, o soberbo, não atentando para quão horrendo é cair nas mãos do Deus vivo, prorrompe facilmente em palavras de malícia para inventar escusas em seus pecados. Grande malícia, na verdade, é não teres misericórdia de ti mesmo e repelires de ti o único remédio após o pecado, que é a confissão; e preferires envolver o fogo em teu seio a sacudi-lo, não seguindo o conselho do Sábio que diz: “Tem misericórdia da tua alma, agradando a Deus” (Ecli. XXX, 24).

Por conseguinte, quem é mau para si mesmo, para quem será bom? Agora é o julgamento do mundo, agora o príncipe deste mundo será lançado fora (João XII, 31), isto é, do teu coração, se te humilhares e te julgares a ti mesmo. Haverá o julgamento do céu, quando o próprio céu for chamado do alto e a terra para discernir o Seu povo (Salmo XLIX, 4); no qual, certamente, deve-se temer que sejas projetado com ele [o príncipe deste mundo] e seus anjos, se fores encontrado sem ter sido julgado. Por outro lado, o homem espiritual, que tudo julga, por ninguém será julgado (I Cor. II, 15). Por isso, o julgamento começa pela casa de Deus, para que o Juiz, ao chegar, encontre já julgados os Seus, a quem Ele conhece; e já nada tenha a julgar neles, enquanto serão julgados aqueles que não estão no labor dos homens e não são flagelados com os homens (Salmo LXXII, 5).

CAPÍTULO IX: Sobre o Jordão

16. Com quão alegre seio o Jordão recebe os cristãos, ele que se gloria de ter sido consagrado pelo batismo de Cristo! Mentiu claramente aquele sírio leproso [Naamã] que preferiu não sei quais águas de Damasco às águas de Israel (IV Reis V, 12), quando o devoto serviço do nosso Jordão a Deus tantas vezes se mostrou provado: seja quando deu passagem a Elias, seja a Eliseu (IV Reis II), seja ainda (para recordar algo mais antigo) quando a Josué e a todo o povo simultaneamente, inibindo admiravelmente o seu ímpeto, ofereceu em si uma travessia a seco (Josué III).

Enfim, o que há de mais eminente entre os rios do que este, que a própria Trindade dedicou a si mesma com uma presença evidente? O Pai foi ouvido, o Espírito Santo foi visto e o Filho foi batizado. Merecidamente, portanto, aquela mesma virtude que Naamã, por conselho do profeta, sentiu em seu corpo (IV Reis V, 14), por ordem de Cristo todo o povo fiel experimenta também em sua alma.

CAPÍTULO X: Sobre o lugar da Calvária

17. Sai-se também para o lugar da Calvária, onde o verdadeiro Eliseu, irrisório para os meninos insensatos, insinuou aos Seus o riso eterno, daqueles de quem diz: “Eis-me aqui, eu e os meninos que o Senhor me deu” (Isaías VIII, 18). Bons meninos, os quais o Salmista excita ao louvor, por contraste com aqueles malignos, dizendo: “Louvai, meninos, ao Senhor, louvai o nome do Senhor” (Salmo CXII, 1); para que na boca dos santos infantes e dos que amamentam se aperfeiçoasse o louvor que faltara na boca dos invejosos — daqueles, por certo, de quem se queixa assim: “Nutri e exaltei filhos, mas eles me desprezaram” (Isaías I, 2).

Assim, o nosso Calvo [referência a Eliseu e a Cristo na Calvária] subiu à cruz, exposto ao mundo pelo mundo; e com a face revelada e a fronte descoberta, operando a purgação dos pecados, não se envergonhou da ignomínia de uma morte vergonhosa e austera, nem exacerbou a pena, a fim de nos arrebatar do opróbrio sempiterno e nos restituir à glória. E não é de admirar. Pois de que se envergonharia Aquele que nos lavou dos pecados, não como a água que dilui e retém as sordes, mas como o raio de sol que dessecas e retém a pureza? Pois a sabedoria de Deus atinge tudo por causa da sua mundície.

CAPÍTULO XI: Sobre o Sepulcro

18. Entre os lugares santos e desejáveis, o Sepulcro detém, de certo modo, o principado; e sente-se algo de mais na devoção onde o Morto repousou do que onde o Vivo habitou; e a recordação da morte move mais à piedade do que a da vida. Creio que aquela pareça mais austera e esta mais doce; e que o repouso do sono agrade mais à enfermidade humana do que o labor da convivência; a segurança da morte mais do que a retidão da vida.

A vida de Cristo foi para mim regra de viver; a morte, redenção da morte. Aquela instruiu a vida, esta destruiu a morte. A vida foi laboriosa, mas a morte preciosa; ambas, porém, sumamente necessárias. Pois o que poderia aproveitar a morte de Cristo para quem vive iniquamente, ou a vida para quem morre de forma condenável? Porventura a morte de Cristo liberta da morte eterna aqueles que até agora vivem mal até a morte, ou a santidade da vida libertou os santos padres mortos antes de Cristo? Como está escrito: “Quem é o homem que viverá e não verá a morte, que livrará a sua alma da mão do inferno?” (Salmo LXXXVIII, 49).

Agora, portanto, como ambos nos eram igualmente necessários — viver piedosamente e morrer seguramente —, vivendo Ele ensinou a viver, e morrendo tornou a morte segura: visto que se deitou para ressurgir, e deu aos que morrem a esperança de ressuscitar. Mas acrescentou ainda um terceiro benefício, quando também perdoou os pecados, sem o qual, certamente, os outros não valiam. Pois o que (no que toca à verdadeira e suma beatitude) poderia aproveitar qualquer retidão ou longevidade de vida àquele que estivesse adstrito sequer ao só pecado original? Pois o pecado precedeu para que a morte seguisse; se o homem o tivesse evitado, certamente não teria provado a morte eternamente.

19. Pecando, portanto, [o homem] perdeu a vida e encontrou a morte; visto que Deus assim o predissera, e era certamente justo que, se o homem pecasse, morresse. Pois o que poderia ser mais justo do que receber a retaliação? Com efeito, Deus é a vida da alma, e esta é a vida do corpo. Pecando voluntariamente, o homem perdeu por vontade própria o viver: que perca, então, contra a sua vontade, o vivificar. Rejeitou espontaneamente a vida quando não quis viver [segundo Deus]; que não tenha poder de dá-la a quem ou enquanto quiser. A alma não quis ser regida por Deus: que não seja capaz de reger o corpo. Se ela não obedece ao superior, por que haveria de comandar o inferior? O Criador encontrou a sua criatura rebelde a Si: que a alma encontre a sua serva [o corpo] rebelde a si mesma. O homem foi encontrado transgressor da lei divina: que encontre ele também outra lei em seus membros, que lute contra a lei da sua mente e o prenda na lei do pecado (Rom VII, 23). Além disso, o pecado, como está escrito, faz separação entre nós e Deus (Isai. LIX, 2): que a morte, por conseguinte, separe também entre o nosso corpo e nós. A alma não pôde ser dividida de Deus senão pecando, nem o corpo pôde ser dividido dela senão morrendo. O que, portanto, ela sofreu de mais austero na vingança, sofrendo do súdito apenas aquilo que ela mesma presumira contra o Autor? Nada, decerto, é mais congruente do que uma morte ter operado outra morte: a espiritual operando a corporal, a culposa operando a penal, a voluntária operando a necessária.

20. Quando, pois, por esta dupla morte, o homem fora condenado segundo ambas as naturezas — uma morte espiritual e voluntária, a outra corporal e necessária —, o Deus-Homem, com uma só morte Sua, corporal e voluntária, ocorreu benigna e poderosamente a ambas, e com aquela Sua única morte condenou as nossas duas. E com mérito: pois das nossas duas mortes, sendo uma reputada como mérito da culpa e a outra como débito da pena, Ele, assumindo a pena e desconhecendo a culpa, ao morrer espontaneamente e apenas no corpo, granjeia para nós tanto a vida quanto a justiça. De outro modo, se não sofresse corporalmente, não teria pago o débito; se não morresse voluntariamente, aquela morte não teria tido mérito. Mas agora, se, como foi dito, o mérito da morte é o pecado, e o débito do pecado é a morte; tendo Cristo remitido o pecado e morrido pelos pecadores, certamente já não há mérito [de morte] e o débito está pago.

21. De resto, como sabemos que Cristo pode perdoar os pecados? Disto, sem dúvida: porque Ele é Deus, e tudo o que quer, Ele pode. E por que sabemos que Ele é Deus? Os milagres o provam. Pois Ele faz obras que ninguém mais pode fazer; para não falar dos oráculos dos Profetas, e também do testemunho da voz paterna descida do céu até Ele, vinda da magnífica glória. E se Deus é por nós, quem será contra nós? Se é Deus quem justifica, quem é o que condena? Se é Ele mesmo, e não outro, a quem diariamente confessamos dizendo: “Contra Ti só pequei” (Salmo L, 6), quem melhor, ou antes, quem outro pode remitir o que contra Ele foi pecado? Ou como não poderia Ele, que tudo pode? Enfim, se eu sou capaz de perdoar, se quero, aquilo que se delínqüe contra mim, não poderia Deus remitir o que se comete contra Si? Se, portanto, Ele pode remitir pecados como onipotente, e somente Ele pode, como Aquele contra quem só se peca, beato é, certamente, aquele a quem o próprio Deus não imputará o pecado. Assim, reconhecemos que Cristo, pelo poder de Sua divindade, foi capaz de relaxar os pecados.

22. Além disso, quem agora duvidaria da Sua vontade? Pois Aquele que tanto revestiu a nossa carne quanto submeteu-se à nossa morte, achas que nos negará a Sua justiça? Tendo encarnado voluntariamente, sofrido voluntariamente, sido crucificado voluntariamente, reteria de nós apenas a justiça? Portanto, o que pela divindade consta que Ele pôde fazer, pela humanidade tornou-se notório que Ele também quis. Mas por que, novamente, confiamos que Ele extinguiu a morte? Claramente por isto: porque Aquele que não a mereceu, a suportou. Pois por qual razão nos seria exigido novamente o que Ele já pagou por nós? Aquele que tirou o mérito do pecado, doando-nos a Sua justiça, Ele mesmo pagou o débito da morte e restituiu a vida. Pois assim, morta a morte, a vida retorna, do mesmo modo que, retirado o pecado, volta a justiça. Além disso, a morte é afugentada na morte de Cristo, e a justiça de Cristo nos é imputada. Mas como pôde morrer Aquele que era Deus? Porque, sem dúvida, também era homem. Mas de que modo a morte daquele homem valeu por outro? Porque Ele também era justo. Com efeito, sendo homem, pôde morrer; sendo justo, não devia morrer de graça [sem causa própria]. Certamente, um pecador não basta para pagar o débito da morte por outro pecador, visto que cada um morre por si. Mas Aquele que não tem por que morrer por si mesmo, morreria em vão por outro? Quanto mais indignamente morre Aquele que não mereceu a morte, tanto mais justamente vive aquele por quem Ele morre.

23. Mas qual justiça é esta, perguntas tu, para que o inocente morra pelo ímpio? Não é justiça, mas misericórdia. Se fosse justiça, já não morreria de graça, mas por débito. Se morresse por débito, Ele de fato morreria, mas aquele por quem morresse não viveria. Contudo, se não é justiça [no sentido de dívida própria], nem por isso é contra a justiça. De outro modo, Ele não poderia ser justo e misericordioso ao mesmo tempo. Mas, ainda que o justo possa, não injustamente, satisfazer pelo pecador, de que modo um só pode valer por muitos? Pois pareceria bastar à justiça que um, morrendo, restituísse a vida a um só. A isto responda agora o Apóstolo: “Assim como”, diz ele, “pelo delito de um só veio a condenação sobre todos os homens, assim também pela justiça de um só veio a justificação da vida sobre todos os homens. Pois assim como pela desobediência de um só homem muitos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só homem muitos serão constituídos justos” (Rom V, 18, 19). Mas talvez um só pudesse restituir a justiça a muitos, porém não a vida. “Por um só homem veio a morte”, diz ele, “e por um só homem a vida. Pois assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados” (I Cor XV, 21, 22). Pois o quê? Um só pecou, e todos são tidos por réus; e a inocência de um só será reputada a um só? O pecado de um operou a morte para todos, e a justiça de um restituirá a vida a apenas um? Valeria tanto a justiça de Deus para condenar e tão pouco para restaurar? Ou pôde mais Adão no mal do que Cristo no bom? O pecado de Adão me será imputado, e a justiça de Cristo não me pertencerá? A desobediência daquele me perdeu, e a obediência deste não me aproveitará?

24. Mas tu dizes: “Contraímos o delito de Adão com justiça, pois nele todos pecamos; visto que, quando ele pecou, estávamos nele, e de sua carne fomos gerados pela concupiscência da carne”. Ora, de Deus nascemos segundo o espírito de modo muito mais germano do que segundo a carne de Adão; segundo o qual espírito, aliás, estivemos em Cristo muito antes do que estivemos em Adão segundo a carne: se é que confiamos estar contados entre aqueles de quem diz o Apóstolo: “O qual nos elegeu n’Ele” (sem dúvida o Pai no Filho) “antes da constituição do mundo” (Efés. I, 4). Que também nasceram de Deus, o evangelista João o atesta onde diz: “Os quais não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus nasceram” (João I, 13); e ele mesmo em sua Epístola: “Todo aquele que é nascido de Deus não peca, porque a geração celeste o conserva” (I João III, 9).

Mas tu dirás: “A concupiscência carnal atesta a herança da carne; e o pecado que sentimos na carne prova manifestamente que descendemos da carne do pecador segundo a carne”. Mas, contudo, aquela geração espiritual não é sentida na carne, mas no coração, ao menos por aqueles que podem dizer com Paulo: “Nós, porém, temos o sentido de Cristo” (I Cor. II, 16); no qual sentem ter progredido a tal ponto que eles mesmos digam com toda confiança: “O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rom. VIII, 16); e ainda: “Nós não recebemos o espírito deste mundo, mas o Espírito que é de Deus, para que saibamos o que por Deus nos foi doado” (I Cor. II, 12). Pelo Espírito que é de Deus, portanto, a caridade foi difundida em nossos corações, assim como pela carne que é de Adão emana a concupiscência ínsita em nossos membros. E como esta [a concupiscência], que descende do progenitor dos corpos, nunca se retira da carne nesta vida mortal; assim aquela [a caridade], procedendo do Pai dos espíritos, nunca se afasta da intenção dos filhos, ao menos dos perfeitos.

25. Se, portanto, somos nascidos de Deus e eleitos em Cristo, que justiça é esta para que a geração humana e terrena prejudique mais do que a divina e celeste possa valer? Que a sucessão carnal vença a eleição de Deus, e a concupiscência transmitida temporalmente prescreva contra o Seu eterno propósito? Antes, se por um homem veio a morte, por que muito mais por um — e precisamente por Aquele Homem — não viria a vida? E se em Adão todos morremos, por que não muito mais potentemente em Cristo todos seremos vivificados? Enfim, “não é assim o dom como o delito. Pois o julgamento veio de um só para a condenação; mas a graça veio de muitos delitos para a justificação” (Rom. V, 15, 16).

Cristo, portanto, pôde tanto perdoar os pecados, por ser Deus; quanto morrer, por ser homem; e morrendo, pagar o débito da morte, por ser justo; e, sendo um só, bastar a todos para a justiça e a vida, visto que tanto o pecado quanto a morte procederam de um só para todos.

26. Mas isto também foi providenciado com total necessidade: que, adiada a morte, o Homem dignou-se a conviver entre os homens por algum tempo; para que, com freqüentes e verdadeiras preleções, nos despertasse para as coisas invisíveis, com obras admiráveis confirmasse a fé e com costumes retos nos instruísse. Assim, o Deus-Homem, tendo convivido diante dos olhos dos homens sóbria, justa e piedosamente, tendo falado a verdade, operado maravilhas e sofrido indignidades, o que mais nos faltaria para a salvação? Acrescente-se a graça da remissão dos pecados — isto é, que Ele perdoe os pecados gratuitamente — e a obra de nossa salvação estará certamente consumada. Ora, não se deve temer que falte a Deus o poder para perdoar pecados, ou a vontade a Quem sofreu, e sofreu tanto pelos pecadores; contanto que sejamos encontrados solícitos em imitar Seus exemplos como convém, venerar Seus milagres, não sejamos incrédulos à Sua doutrina nem ingratos às Suas paixões.

27. Portanto, tudo em Cristo nos valeu, tudo foi salutar e tudo nos foi necessário; e não menos nos aproveitou a Sua enfermidade do que a Sua majestade: pois, se pelo poder da divindade Ele removeu o jugo do pecado por comando, pela enfermidade da carne Ele abalou os direitos da morte ao morrer. Por isso belamente diz o Apóstolo: “O que é frágil em Deus é mais forte do que os homens”. Mas também aquela Sua “estultice”, pela qual Lhe aprouve salvar o mundo para refutar a sabedoria do mundo e confundir os sábios; a saber, o fato de que, estando na forma de Deus e sendo igual a Deus, esvaziou-se a Si mesmo assumindo a forma de servo; que, sendo rico, fez-se necessitado por nós, tornando-se pequeno sendo grande, humilde sendo excelso, enfermo sendo potente; que sentiu fome, que sentiu sede, que se fatigou no caminho e as demais coisas que sofreu por vontade, não por necessidade: esta Sua “estultice”, porventura não foi para nós via de prudência, forma de justiça e exemplo de santidade? Por este motivo diz o Apóstolo: “O que é estulto em Deus é mais sábio do que os homens” (I Cor. I, 25).

A Sua morte, portanto, livrou-nos da morte; Sua vida, do erro; Sua graça, do pecado. E, de fato, Sua morte obteve a vitória através de Sua justiça: pois o Justo, pagando o que não roubou, recebeu por pleno direito o que havia perdido. Já a Sua vida, no que Lhe competia, cumpriu tudo pela sabedoria, a qual se tornou para nós documento e espelho de vida e disciplina. Além disso, a graça perdoou os pecados por aquele poder pelo qual Ele fez tudo o que quis. Assim, a morte de Cristo é a morte da minha morte: porque Ele morreu para que eu vivesse. Pois de que modo não viveria aquele por quem a Vida morre? Ou quem temerá errar no caminho dos costumes ou no conhecimento das coisas, tendo a Sabedoria por guia? Ou por que será mantido réu aquele a quem a Justiça absolveu? Ele mesmo se apresenta como a Vida no Evangelho, dizendo: “Eu sou a vida” (João XIV, 6). E as outras duas coisas o Apóstolo as atesta, dizendo: “O qual nos foi feito por Deus Pai justiça e sabedoria” (I Cor. I, 30).

28. Se, portanto, a lei do espírito da vida em Cristo Jesus nos libertou da lei do pecado e da morte, por que ainda morremos e não somos imediatamente revestidos de imortalidade? Certamente para que a verdade de Deus se cumpra. Pois, como Deus ama a misericórdia e a verdade (Salmo LXXXIII, 12), é necessário que o homem morra, conforme Deus havia predito; mas que ressurja da morte, para que Deus não se esqueça de ter misericórdia. Assim, embora a morte não domine perpetuamente, ela permanece em nós por algum tempo por causa da verdade de Deus: do mesmo modo que o pecado, embora já não reine em nosso corpo mortal, não nos falta inteiramente. Por isso Paulo se gloria de estar, em parte, liberto da lei do pecado e da morte; mas, por outro lado, lamenta-se de estar ainda gravado, em parte, por ambas as leis, seja quando clama miseravelmente contra o pecado: “Encontro outra lei em meus membros” (Rom. VI, 23); seja quando geme sob o peso — sem dúvida da lei da morte —, esperando a redenção do seu corpo (Rom. VIII, 23).

29. Quer sejam estas, quer outras quaisquer reflexões deste modo — conforme cada um abunde em seu próprio sentido em tais questões —, que sejam sugeridas aos sentidos cristãos por ocasião do Sepulcro: creio que uma doçura de devoção não medíocre se infunde em quem o contempla de perto; e não pouco se aproveita ao discernir, também com os olhos corporais, o lugar corporal do repouso do Senhor. Embora já esteja vácuo dos sagrados membros, está contudo pleno de mistérios (sacramentis) nossos e sumamente agradáveis. Nossos, digo eu, se contudo abraçamos tão ardentemente quanto seguramos sem dúvida o que o Apóstolo diz: “Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na morte, para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida. Pois se fomos plantados juntos n’Ele à semelhança da Sua morte, do mesmo modo o seremos à da Sua ressurreição” (Rom. VI, 4, 5).

Quão doce é para os peregrinos, após a muita fadiga do longo itinerário, após tantos perigos por terra e mar, repousar finalmente ali onde reconhecem que o seu Senhor repousou! Creio que, pela alegria, já não sentem o labor da via, nem computam o peso das despesas; mas, como se tivessem alcançado o prêmio do trabalho ou o troféu da carreira, conforme a sentença da Escritura: “alegram-se veementemente quando encontram o sepulcro” (Jó III, 22). E não se pense que esse nome tão célebre do Sepulcro foi obtido por acaso ou subitamente, ou como que por uma opinião instável do favor popular, visto que Isaías, há tanto tempo, predisse isso tão abertamente: “E haverá”, diz ele, “naquele dia a raiz de Jessé, que está posta como sinal para os povos; as nações o suplicarão, e o seu sepulcro será glorioso” (Isa. XI, 10). Verdadeiramente vemos cumprido o que lemos profetizado, novo para quem contempla, mas antigo para quem lê: de modo que a novidade traga o deleite e a antiguidade não falte com a autoridade. E sobre o Sepulcro estas coisas bastem.

CAPÍTULO XII: Sobre Betfagé

30. Que direi de Betfagé, a aldeia dos sacerdotes, pela qual quase passei sem notar, onde se contém tanto o sacramento da confissão quanto o mistério do ministério sacerdotal? Betfagé, de fato, interpreta-se como “Casa da Boca”. Está escrito, porém: “Perto está a palavra em tua boca e em teu coração” (Deut. XXX, 14). Lembra-te de ter a palavra não em um só, mas em ambos simultaneamente.

Certamente, a palavra no coração do pecador opera a contrição salutar; a palavra na boca, por sua vez, remove a confusão nociva, para que não impeça a confissão necessária. Pois diz a Escritura: “Há uma vergonha que traz o pecado, e há uma vergonha que traz a glória” (Ecli. IV, 25). A boa vergonha é aquela pela qual te confundes por ter pecado, ou certamente por estares pecando; e, ainda que todo juiz humano porventura esteja ausente, reverencias com tanto mais temor o aspecto divino do que o humano, quanto mais puramente consideras a Deus do que ao homem. E tanto mais gravemente Ele é ofendido pelo pecador, quanto mais consta que todo pecado está longe d’Ele.

Tal tipo de vergonha, sem dúvida, afasta o opróbrio e prepara a glória, enquanto ou não admite o pecado de modo algum, ou certamente pune com a penitência o que foi admitido, e o expele pela confissão; se é que também a nossa glória é esta: o testemunho de nossa consciência. Mas se alguém se envergonha de confessar aquilo de que se arrepende, tal vergonha atrai o pecado e perde a glória da consciência, quando o mal que a compunção tenta expelir do profundo do coração, a vergonha inepta não permite sair pela porta obstruída dos lábios; quando, pelo exemplo de Davi, conviria antes dizer: “E não proibirei os meus lábios, Senhor, Tu o soubeste” (Salmo XXXIX, 10). O qual, redargüindo a si mesmo, creio que sobre tal estulta e irracional vergonha, disse: “Porque me calei, envelheceram os meus ossos” (Salmo XXXI, 3). Por isso ele opta por pôr uma porta de guarda aos seus lábios (Salmo CXL, 3), para que saiba tanto abrir a porta da boca para a confissão, quanto fechá-la para a autodefesa.

Enfim, e abertamente orando, pede isto ao Senhor, sabendo sem dúvida que “a confissão e a magnificência são obra d’Ele” (Salmo CX, 3). E o fato de que minimamente calamos tanto a nossa malícia quanto, igualmente, a magnificência da bondade e virtude divinas, é um grande bem de uma dupla confissão, mas é dom de Deus. Diz, portanto: “Não inclines o meu coração a palavras de malícia, para inventar escusas em meus pecados” (Salmo CXL, 4).

Por este motivo, é necessário que os sacerdotes, ministros da palavra, vigiem cautelosamente e solícitos para ambos os lados: a saber, para que infundam aos corações dos delinqüentes a palavra de temor e contrição com tal moderação, que de modo algum os aterrorizem a ponto de fugirem da palavra da confissão; que abram os corações de tal modo que não obstruam as bocas; mas que também não absolvam sequer o compungido, a menos que o vejam também confessado: visto que com o coração se crê para a justiça, mas com a boca se faz a confissão para a salvação. De outro modo, a confissão perece no morto, como naquele que já não existe (Ecli. XVII, 26). Quem quer que, portanto, tenha a palavra na boca e não a tenha no coração, ou é doloso ou é vão; quem quer que, porém, a tenha no coração e não na boca, ou é soberbo ou é tímido.

CAPÍTULO XIII: Sobre Betânia

31. Certamente, não devo passar em silêncio (ainda que tenha muita pressa) pela “casa da obediência”, a saber, Betânia, a aldeia de Maria e de Marta, na qual Lázaro foi ressuscitado; onde, sem dúvida, recomendam-se tanto a figura de ambas as vidas [ativa e contemplativa] quanto a admirável clemência de Deus para com os pecadores, e também a virtude da obediência juntamente com os frutos da penitência.

Que baste, portanto, o que foi brevemente indicado sobre este lugar: que nem o zelo da boa ação [Marta], nem o ócio da santa contemplação [Maria], nem as lágrimas do penitente [Lázaro] poderão ser aceitos fora de Betânia por Aquele que tanto prezou a obediência que preferiu perder a própria vida a perdê-la, feito obediente ao Pai até a morte.

Estas são, de fato, aquelas riquezas que a palavra profética promete da parte do Senhor, dizendo: “O Senhor consolará Sião, e consolará todas as suas ruínas; e tornará o seu deserto como delícias, e a sua solidão como o jardim do Senhor; gozo e alegria se acharão nela, ação de graças e voz de louvor” (Isa. LI, 3).

Estas delícias do mundo, este tesouro celeste, esta herança dos povos fiéis, foram creditados à vossa fé, caríssimos [Templários], e encomendados à vossa prudência e fortaleza. Contudo, só sereis capazes de guardar segura e fielmente o depósito celeste se de modo algum presumirdes de vossa própria prudência ou fortaleza, mas em tudo confiardes apenas no auxílio de Deus, sabendo que o homem não se fortalecerá por sua própria força, e por isso dizendo com o profeta: “O Senhor é o meu firmamento, o meu refúgio e o meu libertador” (Salmo XVII, 2); e ainda: “Minha fortaleza em Ti guardarei, porque Deus é o meu amparo; o meu Deus, a Sua misericórdia me prevenirá” (Salmo LVIII, 10, 11); e também: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Teu nome dá glória” (Salmo CXIII, 9); para que em tudo seja bendito Aquele que ensina as vossas mãos para o combate e os vossos dedos para a guerra (Salmo CXLIII, 1).

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Traduzido do original em latim com ajuda do Gemini. Revisado por mim.