palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Sam Jennings: A Influência da Ansiedade

Eis um ótimo artigo de Sam Jennings sobre o trabalho de Harold Bloom, autor de “A Ansiedade da Influência”, entre outras obras. (Aliás, li meu exemplar de “O Cânone Ocidental” em 2000, na casa da Hilda Hilst para quem em seguida o emprestei: ela o encheu de rabiscos e anotações. Mais tarde emprestei o mesmo livro para Bruno Tolentino, que conheceu Bloom pessoalmente na Inglaterra: embora tenha discordado em alguns pontos secundários, Bruno apreciou a leitura.)

A Influência da Ansiedade

Algo engraçado acontece quando você menciona o nome de Harold Bloom em um ambiente acadêmico. Eu já vi isso acontecer muitas vezes: os olhos revirados ou desviados, talvez até um pequeno escárnio, um olhar que diz Jesus, ele de novo?. “Escreva sobre as idéias dele”, um professor me disse uma vez, “e ninguém levará seu trabalho a sério”.

Se o nome de Bloom chega a surgir em sala de aula hoje em dia, geralmente é para zombar de sua hipérbole mais infame: a suposta “invenção do humano” por Shakespeare, tema do livro de Bloom de mesmo nome, best-seller em 1998. Essa obra, junto com os tomos Gênio: Um Mosaico de Cem Mentes Criativas Exemplares (2002) e Os Melhores Poemas da Língua Inglesa (2004), formou a apoteose da guinada final do velho acadêmico para longe da academia, em direção a uma escrita abertamente didática e explicativa para um público de massa — e havia públicos muito grandes para esses livros naquela época.

Desde seu autodenominado “divórcio” do restante do departamento de inglês de Yale na década de 1970, Bloom já vinha sendo torpedeado nessa direção. Quando lançou sua melhor e principal polêmica, O Cânone Ocidental, em 1994, ele havia se tornado a figura de proa do descontentamento para com os programas de inglês das universidades e com as muitas vertentes da teoria crítica e do historicismo em voga por lá (as quais ele se referia indiscriminadamente como a “escola do ressentimento“). No papel, em entrevistas de televisão, em palestras, o velho crítico pontifical de olhos tristes denunciava e deplorava o estado dos estudos literários nos Estados Unidos e no Reino Unido, nunca se cansando de atacar o sistema. Os acadêmicos nunca o perdoaram realmente por isso — nem, suspeito eu, o perdoaram por ter um público popular.

São Bernardo de Claraval, Abade: “Em Louvor da Nova Milícia aos Cavaleiros do Templo” (Texto Completo)

ADVERTÊNCIA SOBRE O OPÚSCULO VI.

1. O livro apresentado nos códices antigos ostenta este título: “Inicia-se o prólogo de São Bernardo, abade, no livrinho aos Cavaleiros do Templo”; e após o prólogo: “Iniciam-se os capítulos sobre o louvor da nova Milícia”. Estes são ao todo treze, como em nossas edições, onde retivemos os títulos segundo a intenção do autor. Este livro é chamado por Geofredo, no oitavo capítulo do terceiro livro da Vida de Bernardo, de “Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Diz ele: “O quão fiel recomendador e ajudante foi de qualquer piedosa conversão, declara-o o Sermão exortativo aos Cavaleiros do Templo”. Assim, portanto, o título deste livro pode ser estabelecido como: “Livro aos Cavaleiros do Templo, sobre o louvor da nova Milícia”.

2. O prólogo, contudo, é dedicado a “Hugo, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo”; mas dá no mesmo dedicar o livro ao Mestre da Milícia ou a todos os Cavaleiros. Foram chamados de Irmãos do Templo pelo fato de que, por concessão do rei Balduíno, estabeleceram-se primeiramente junto ao Templo do Senhor, conforme atesta Guilherme, arcebispo de Tiro, no capítulo sétimo do décimo segundo livro, onde descreve a origem deles por volta do ano 1118. Diz ele: “No mesmo ano, certos homens nobres de ordem eqüestre, devotos a Deus, religiosos e tementes a Deus, entregando-se ao serviço de Cristo nas mãos do senhor patriarca, professaram o desejo de viver perpetuamente ao modo dos cônegos regulares, em castidade, obediência e sem propriedade. Entre os quais, os primeiros e principais foram os veneráveis homens Hugo de Payns e Geofredo de Saint-Omer; como não possuíam igreja nem domicílio certo, o Rei concedeu-lhes temporariamente uma habitação no palácio que possui na parte sul, ao lado do Templo do Senhor. Sua primeira profissão, no entanto, e o que lhes foi imposto pelo senhor patriarca e outros bispos para a remissão dos pecados, foi que preservassem, segundo suas forças, os caminhos e estradas contra as ciladas de ladrões e assaltantes, especialmente para a segurança dos peregrinos”.

Isto sobre a origem dos Cavaleiros do Templo, aos quais o primeiro Mestre nomeado foi o supracitado Hugo de Payns, a quem o mesmo Guilherme de Tiro chama de primeiro mestre da milícia do Templo no vigésimo sexto capítulo do décimo terceiro livro. A segunda epístola de Guigo, prior da Cartuxa, é dirigida a “Hugo, Prior da santa milícia”. Este é o Hugo a quem Bernardo dedicou o livro seguinte, devendo ser distinguido, certamente, do outro Hugo que, de Conde de Champagne, tornou-se cavaleiro do Templo, conforme atesta a trigésima primeira epístola de Bernardo a ele dirigida. Além disso, a Hugo de Payns, primeiro Mestre da milícia, sucedeu o “exímio cavaleiro e vigoroso nas armas, nobre em linhagem e costumes, o senhor Roberto, de sobrenome Borguinhão, de nação aquitânia”, por volta do ano 1136, como se colhe de Guilherme de Tiro no sexto capítulo do décimo quinto livro, que também trata do mesmo no início do décimo sétimo livro. A Roberto parece ter sucedido Everardo, a quem Pedro, o Venerável, escreve uma epístola, que é a vigésima sexta do sexto livro.

3. Em que ano este livro foi escrito, não o diria facilmente. Consta que tal fato ocorreu quando a Ordem já havia crescido muito e o número de cavaleiros se multiplicado. As palavras de Bernardo no número 10 provam isso: “Estas coisas são praticadas em Jerusalém, e o mundo se desperta. As ilhas ouvem, e os povos de longe prestam atenção; fervilham do Oriente e do Ocidente… E o que se percebe como mais alegre e se realiza de forma mais oportuna é que, em tão grande multidão de homens, verás confluir para lá apenas uns poucos que não sejam criminosos”, etc. Ora, antes do Concílio de Troyes, isto é, antes do ano de 1127, havia apenas nove cavaleiros daquele instituto, como logo veremos por Guilherme. Portanto, dificilmente se pode dizer que este livro foi composto antes de 1132, mas certamente antes de 1136, ano em que, aproximadamente, o mestre Roberto sucedeu a Hugo.

4. Miraeus publicou a Regra dos Templários a partir de um códice vitorino e a inseriu na Crônica Cisterciense, afirmando ser ela “ditada pelo santo abade Bernardo de Claraval, como fica evidente pelo prólogo”. Esta Regra consta de tantos capítulos quanto a Regra de São Bento (da qual foi tomada em grande parte palavra por palavra), isto é, setenta e dois capítulos. Antes do prólogo, ela é assim intitulada: “Regra dos pobres comilotes de Cristo e do Templo de Salomão”. Manrique, no ano de 1128, capítulo 2, atribui esta Regra a Bernardo como autor, junto com Miraeus, e para provar isso aduziu duas passagens do prólogo. A primeira passagem diz assim: “Certamente, embora o número vastíssimo de Padres religiosos que se reuniram naquele concílio por advertência divina recomende a autoridade de nossa redação; não devemos passar em silêncio que, sob a vista deles e proferindo sentenças verdadeiras, eu, João de Michel, mereci ser pela graça divina o humilde escrivão da presente página, por ordem do concílio e do venerável abade de Claraval, a quem isto fora confiado e era devido”.

Contudo, estas palavras não significam que qualquer Regra tenha sido composta por Bernardo para os Templários: mas que ele transferira para João de Michel o ofício de escrivão que lhe fora imposto. 543 Nem se conclui nada além das palavras seguintes, que são relatadas desta maneira após a enumeração dos Padres do Concílio de Troyes: “O próprio mestre da milícia, de nome Hugo, de fato não faltou, e trouxe consigo alguns de seus irmãos, a saber, o Irmão Gofredo, o Irmão Roval, o Irmão Geofredo Bisol, o Irmão Pagano de Montdidier e Arcambaldo de Saint-Aignan. Este mestre Hugo, com estes discípulos, comunicou aos Padres acima nomeados, segundo o conhecimento de sua memória, o modo e a observância do início modesto de sua Ordem militar, que tomou seu exórdio daquele que diz: ‘Eu sou o princípio, eu que vos falo’. Aprouve, portanto, ao concílio que o conselho ali diligentemente examinado pelo crivo e consideração das Divinas Escrituras fosse recomendado por escrito e observado inabalavelmente, todavia com a providência do Papa Romano e do Patriarca de Jerusalém, bem como com o assentimento do capítulo dos pobres comilotes do Templo que está em Jerusalém”.

Por estas palavras, entendemos apenas que foi sancionado pelos Padres que uma Regra fosse prescrita aos Cavaleiros com o consenso deles, consultados o Pontífice Romano e o Patriarca Jerosolimitano; mas de modo algum Bernardo é afirmado como seu autor. Pelo contrário, Alberico, da Ordem Cisterciense, escreve que a Regra de Santo Agostinho foi imposta a esses mesmos Cavaleiros. Por isso, no Monasticon Anglicanum, eles são remetidos à Ordem de Santo Agostinho. Seria muito estranho se Alberico de Trois-Fontaines, monge cisterciense não distante de Claraval, ignorasse esta Regra de Bernardo e tivesse atribuído outra aos Cavaleiros que restavam em seu tempo.

Guilherme, bispo e arcebispo de Tiro, relata no já citado capítulo sétimo do livro décimo segundo que, para os mesmos Cavaleiros que antes do Concílio de Troyes “não eram senão nove, por mandato do senhor Papa Honório e do senhor Estêvão, patriarca de Jerusalém, foi instituída uma Regra e atribuído o hábito branco”, sendo que antes usavam vestes comuns. “Posteriormente, no tempo do senhor Papa Eugênio, conforme se diz, começaram a costurar cruzes de pano vermelho em seus mantos”, tanto os cavaleiros quanto seus irmãos chamados Sargentos. Cuja situação cresceu tanto imensamente que hoje, diz Guilherme, “têm no convento trezentos cavaleiros, mais ou menos, vestidos com mantos brancos, excetuando-se os Irmãos”.

Destas últimas palavras, deduzimos que aquela Regra que é atribuída a Bernardo como autor não foi escrita senão depois de Guilherme de Tiro; visto que no capítulo vigésimo primeiro são notados certos “pseudo-irmãos das partes de além-montanha, mentindo ser do Templo”; e certas coisas que cresceram entre os próprios Cavaleiros “sem discrição e conselho do capítulo comum” são argüidas como devendo ser totalmente amputadas, a saber, que “outrora os criados e escudeiros tinham vestes brancas, de onde vinham danos insuportáveis”. Ora, não houve nenhum capítulo geral dos Templários antes do Concílio de Troyes; nem antes havia um hábito peculiar dos Cavaleiros, mas o comum. O branco lhes foi concedido pelos Padres do concílio, exceto aos Sargentos. Claramente, apenas por estas palavras se entende que, ao menos este capítulo, foi acrescentado muito depois do tempo do concílio. O capítulo sétimo não só não louva o “ficar de pé para ouvir o ofício divino”, mas até o vitupera e estabelece que seja ouvido sentando: estatuto este que certamente não teria vindo à mente de Bernardo. No capítulo qüinquagésimo sexto estabelece-se “que não se tenham mais irmãs”: o que prova não ter sido uma instituição recente. Se João de Michel é o autor desta Regra, deixo para que outros julguem. Não é indigno de observação nela que o termo “colação” é usado para a pequena refeição dos jejuns no capítulo décimo sexto.

A HUGO, cavaleiro de Cristo e mestre da Milícia de Cristo, BERNARDO, apenas de nome abade de Claraval: combater o bom combate.

Uma, duas e três vezes, se não me engano, pediste-me, caríssimo Hugo, que escrevesse um sermão de exortação para ti e teus comilotes; e que, já que não me era permitido vibrar a lança contra a tirania inimiga, vibrasse a pena, afirmando que vos seria de não pouco auxílio se eu animasse por letras aqueles a quem não posso animar por armas. Certamente adiei por algum tempo: não porque a petição parecesse desprezível, mas para que não fosse culpado de um assentimento leve e precipitado se, sendo eu inexperiente, presumisse realizar o que alguém melhor seria capaz de cumprir com mais perfeição, e uma coisa tão necessária acabasse por ser feita de modo menos conveniente por mim. Contudo, vendo-me frustrado por uma espera bastante longa desse tipo, para não parecer que agora mais me faltava a vontade do que a capacidade, finalmente fiz o que pude: que o leitor julgue se o satisfiz. E ainda que a alguém porventura nada agrade ou não seja suficiente, isso não me importa, pois não faltei à tua vontade conforme o meu entender.

Rodrigo Gurgel: “Dr. João Pinto Grande — um herói para o nosso tempo”

Resenha crítica de Rodrigo Gurgel, crítico da Folha de S. Paulo  e do Jornal Rascunho:

O mais recente livro de Yuri Vieira, A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, esconde, sob o título atrevido, ao menos dois contos que merecem leitura cuidadosa.

“Amarás ao teu vizinho” é uma aventura da qual participa o personagem que dá nome à coletânea. O substantivo aventura, contudo, não expressa com acerto a índole e o tom da narrativa, composta, em grande parte, de longos diálogos, pois os riscos e peripécias enfrentados pelo protagonista extrapolam o campo das façanhas heroicas a que o senso comum está acostumado, avançando para camadas menos superficiais do comportamento humano.

No primeiro diálogo, o protagonista encontra-se, no portão de sua casa, com Francisco, morador do “único casebre miserável da rua”, sempre disposto, quando bêbado, a conversar com o Dr. João. O diálogo é sugestivo, bem construído, com leves tiradas humorísticas — a analogia entre o desenho do Pica-Pau e a ideia budista da vida como sofrimento, por exemplo, quebra o tom filosófico e paternalista que Pinto Grande concede às suas falas, tão longas que obrigam o paciente Francisco a isolar-se em sua curiosa busca do samádi. No final da narrativa, aliás, o próprio Dr. João, recordando esse diálogo, reconhecerá o erro de trocar “caridade por papo-cabeça sobre o amor”, trecho que demonstra o controle de Yuri Vieira sobre suas histórias: o que, no início, parecia hesitação ou descuido com os rumos da trama, revela-se introdução adequada ao tema que será aprofundado no segundo diálogo.

Na verdade, o conto esconde detalhado planejamento: desde o primeiro parágrafo, duas linhas narrativas se anunciam, ambas marcadas pelo tema da “vizinhança”: o diálogo com Francisco, vizinho pobre e desprezado por toda a rua, inclusive pela própria família, e a visita ao casal Josif e Draga, antigos vizinhos de Pinto Grande, quando era adolescente, com os quais jantará minutos depois.

Quanto mais avançamos nessa noite em que a relação com o próximo será triturada, exposta em suas contradições e levada a paroxismos, mais percebemos o intrincado enredo a que fomos conduzidos: o jantar transforma-se numa descida ao vale do Flegetonte, para conhecer não só a violência contra nossos semelhantes, mas também homens distintos: os que soçobram diante do apelo a diferentes gestos de agressão e aqueles que, dominando seus instintos, recusam o Mal.

Yuri Vieira constrói, assim, raro exemplo de conto filosófico — e não ideológico. Não se trata de uma peça de propaganda política ou religiosa, não há ideias a priori que o autor deseja propagandear. A interrogação a respeito de nossa relação com o Outro manifesta-se nas situações vividas durante o jantar, em longo e diversificado diálogo, quando os personagens se entrechocam num antagonismo crescente. Os extremos a que somos levados, do inocente diálogo com Chico ao terrível embate na casa dos iugoslavos, são representações realistas dos encontros e desencontros a que estamos fadados — e não meras abstrações de um ideólogo que desejou escrever ficção. O conto dá concretude às escolhas humanas, tantas vezes próximas do completo desatino. E dessa noche oscura, em que os personagens se debatem à procura de saídas para o desespero, emerge, no final perfeito, a límpida figura do Dr. João Pinto Grande, plenamente livre em seu repúdio ao Mal.

O gênero do conto é conduzido, assim, a regiões pouco visitadas em nossa literatura contemporânea: longe dos insignificantes quebra-cabeças linguísticos ou dos narradores ambíguos — que, na verdade, escondem escritores preguiçosos —, o leitor terá de respirar numa atmosfera espessa, hostil, de informações adversas, na qual pieguice e vitimismo são substituídos pela correta — e esquecida — consciência do que é uma virtude.

Verdugos hipócritas

“A menina branca” segue chave diversa. Nesse conto, o destino de Edgard, o protagonista, é o risco que todos correm neste país — todos que têm alguma consciência e desejam viver de forma honesta, trabalhando, pagando impostos e usufruindo de pequenas alegrias: o Brasil luta contra essas pessoas. E quando digo país, não me refiro a uma entidade onírica, mas a parcela do povo, a pessoas concretas que nos rodeiam. Edgard experimenta isso da pior forma, traído, de maneira abjeta, por Virgínia, sua noiva — que, entre ele e a ideologia, ou seja, entre a realidade e a ilusão, prefere a segunda, mesmo que isso signifique destruir a primeira por meio de um gesto leviano. Não se trata, portanto, de simples escolha, mas de condenação: Virgínia acredita, como todos os revolucionários e ideólogos, que sacrificar a realidade contribuirá para tornar sua ilusão real. Ela nos recorda a professora Delphine Roux — covarde, neurótica e arrivista —, personagem de Philip Roth em A marca humana.

A história, entretanto, é mais complexa — há várias camadas de trama, incluindo deliciosas referências ao conto “O gato preto”, de Edgard Allan Poe, e a outros de seus escritos: o sabiá do protagonista, por exemplo, chama-se Nevermore.

O narrador de “A menina branca” nos sequestra desde o início. Sua voz, irônica e sarcástica nos momentos certos; a maneira como elabora a introspecção de Edgard, principalmente quando precisa justificar seu desesperado gesto de violência; os diálogos que conduzem o leitor pelas emoções dos personagens, revelando o labirinto psicológico que se esconde por trás das aparências — tudo é perfeito.

Yuri também demonstra timing correto e constrói uma linha de crescente emoção: a cada cena queremos ir adiante, até o final macabro, cujo humor, com pinceladas de grand guignol e nonsense, aprofunda a tragédia de Edgard. Final, aliás, conduzido por um inesperado personagem, um “comissário do povo” no melhor estilo bolchevique — isto é, destituído de qualquer mínimo senso moral.

A narrativa, contudo, esconde, nas entrelinhas da derrocada de Edgard, crítica perturbadora: o personagem erra não por sua própria vontade, mas pressionado pelo que se costuma chamar, na falta de expressão menos demagógica, de opinião pública. É o paradoxo do nosso tempo: ser levado ao erro pela vontade cega do politicamente correto — e depois ver-se condenado por esses mesmos verdugos hipócritas.

Yuri Vieira não sofre, decididamente, de narratofobia. E agora sinto-me obrigado a ler todos os contos.

Rodrigo Constantino: “A imaginação moral de Yuri Vieira e A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Nunca tinha lido nada de Yuri Vieira. Que desperdício de tempo! O prejuízo foi meu, certamente. Li sobre seu livro A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau, em A corrupção da inteligência, de Flávio Gordon,  fiquei curioso e o comprei. E logo o devorei.

Lembrei, depois, que meu editor Carlos Andreazza tinha me mandado de presente seu novo livro, A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, cujo título já é uma comédia em si. Resultado: tive uma “overdose” de Yuri Vieira nos últimos dias, com a sensação de ter de recuperar o tempo perdido, de quando ainda não conhecia seus contos hilários, seu estilo envolvente.

Edmund Burke falou en passant do conceito de “imaginação moral”, que foi elaborado por Russell Kirk depois e se tornou uma ideia cara aos conservadores. G.K. Chesterton, T.S. Eliot, Tolkien e C.S. Lewis são exemplos claros de escritores que trabalharam bem com essa noção de “imaginação moral”, e transmitiram valores tradicionais por meio de suas histórias fantásticas e seus personagens encantadores.

Por acaso, terminei junto com os livros de Yuri a quinta e última temporada da série “Father Brown”, da BBC, inspirada no personagem criado por Chesterton, um dos meus favoritos (que delícia era ler seus contos antes de dormir!). Pois bem: o advogado de nome curioso, Dr. João Pinto Grande, remeteu-me ao Padre Brown, com sua postura cristã, seu desejo de realmente ajudar, fazer o bem, ser uma pessoa melhor, acreditar no outro, apostar no próximo, ter fé na humanidade, apesar de tudo.

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Yuri passa as mensagens que eu tento também transmitir em meus textos, mas com incrível leveza e contando uma história divertida, muitas vezes surreal, que prende o leitor do começo ao fim. Até mesmo uma aula de Bitcoin e de escola austríaca ele conseguiu encaixar num conto que ficou, acreditem, leve e divertido. Há críticas ao feminismo, ao esquerdismo em geral, ao vegetarianismo radical, e tudo isso navegando pelas questões religiosas profundas, com excelentes diálogos.

No livro anterior, tem umas histórias bizarras que se passam na UnB como cenário, contendo críticas ácidas ao nosso modelo de ensino, aos professores, reitores, artistas e também psicólogos. Numa das histórias, em que o “artista” se torna uma “estátua viva” por acidente e é considerado um gênio, eu chorei de rir, mas depois percebi que era legítimo só chorar mesmo, sem rir, pois chegamos a esse grau de maluquice com nosso relativismo estético:

Até que um dia, desmaiou de exaustão sobre uma de suas telas. Sua cara ficou estampada ali. “Fantástico!”, afirmaram os críticos. “Ele encontrou um estilo próprio. Sente-se sua marca, sua personalidade em cada uma de suas obras. Um gênio!”

[…]

Fazia esculturas com argila. Usava-as, quando ainda úmidas, como travesseiro. Sua casa tornara-se um processo de criação artística. Os críticos aplaudiam. O dinheiro e a fama entravam.

Não é à toa que se trata de uma tragicomédia! A história com a psicóloga também é extremamente engraçada, mas triste ao mesmo tempo, quando penso em tantos psicanalistas que conheço que são exatamente assim, super vaidosos, com um ego maior do que o mundo, tentando posar para a plateia em vez de realmente se conhecer a fundo, exatamente como a autoritária personagem que só se encontrou na academia, onde poderia exercer seu desejo de comando:

Quando se formou, Maria Eugênia foi trabalhar num sanatório. Não agüentou um mês. “Aqueles malucos! Nunca prestavam atenção no que EU dizia…” Depois tentou clinicar. Mas também não deu certo. “Os pacientes? Eles só queriam saber de si mesmos, não me deixavam falar…” Maria Eugênia teve, então, a feliz idéia de seguir a carreira acadêmica. “Mas Maria Eugênia…” “Cala a boca! Afinal quem que é a doutora aqui?” Havia encontrado o seu lugar. O lugar perfeito. Finalmente chegara onde ninguém seria louco o bastante a ponto de enfrentá-la. Os alunos a temiam e a admiravam. Nas reuniões e seminários era sempre sua a última palavra.

Se o leitor não conhece uma psi assim, é porque não conhece muitas psis. As taras moderninhas orientais, substitutas para uma religião mais exigente como o cristianismo, também são ironizadas nos contos, assim como o socialismo, a seita secular onipresente na academia. Um desses dinossauros viveu anos no esgoto e nem percebeu o tempo passar, exatamente como tantos militantes disfarçados de “professores” que pululam nossas salas de aula e não se deram conta da queda do Muro ainda:

Não acreditava que passara mais de vinte anos nos esgotos do Minhocão. Acabara o comunismo na União Soviética – acabara a União Soviética! – não havia mais o muro de Berlim e havia Mac Donald’s na China… Todos tinham um computador pessoal, internet e cartões magnéticos… Sim, ainda havia fome, miséria e injustiça… Mas, meu Deus, quantas transformações! E ele perdera vinte anos de vida! Tudo por causa dum relógio russo, comprado em Cuba, que usara todo aquele tempo e cujo ponteiro mal se movia. Triste, muito triste.

Nos contos novos, a criação do personagem Dr. Pinto Grande foi uma sacada e tanto, e em diferentes histórias lá está ele, o advogado humilde, que anda armado pois sabe que o mundo é uma selva, mas que está mais preocupado com os selvagens existentes em todos nós, que devem ser domados, domesticados, civilizados. Sua postura é elegante, contida, educada, e ele faz perguntas que levam o interlocutor a reflexões importantes sobre a essência da vida. E sempre com humor, claro, pois ele é fundamental para suportarmos melhor a vida:

Seu Roberto, antes de as pessoas perderem o bom senso, elas perdem o senso de humor. É sempre assim. Nós vivemos uma época complicada, revolucionária, cheia de gente que tenta negar, não os aspectos nocivos da nossa animalidade intrínseca, mas a própria natureza humana. Um dia, nosso corpo morrerá e não sobrará senão nossa humanidade. Nossa animalidade ficará na cova.

Tudo isso, repito, em histórias muito criativas, como as de Padre Brown, cuja pacata Kembleford seria o lugar mais perigoso do mundo, a julgar pela quantidade de assassinatos que o sagaz padre precisa desvendar. A influência de Chesterton parece evidente em Yuri, e não foi por acaso a escolha da epígrafe do livro, tirada de O que há de errado com o mundo, do escritor inglês: “Não apenas estamos todos no mesmo barco como também estamos todos mareados”.

Se essa mensagem for realmente absorvida, poderá haver mais tolerância de fato, mais humildade, mais boa vontade para com o próximo, mas sem romantismo bobo, sem falsas ilusões, sem a pretensão de que o amor seja suficiente para abandonarmos as nossas armas, necessárias para nossa defesa. Leiam Yuri Vieira! Estou certo de que não vão se arrepender, e terminarão a leitura pedindo mais Pinto Grande…

Fonte: Gazeta do Povo.

O crítico literário Rodrigo Gurgel fala sobre “A menina branca”

O crítico literário Rodrigo Gurgel (Folha de São Paulo e jornal Rascunho) comenta A menina branca, um dos contos do livro A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande:

Li, neste final de semana, “A menina branca”, do Yuri Vieira. Li esperando encontrar o afamado Dr. João Pinto Grande, que dá nome ao livro, mas ele não me concedeu a graça da sua presença.

Começo pelo fim: o destino de Edgard, protagonista da história, é o risco que todos correm neste país — todos que têm alguma consciência e desejam viver de forma honesta, trabalhando, pagando impostos e usufruindo de pequenas alegrias: o país luta contra essas pessoas. E quando digo país, não me refiro a uma entidade onírica, mas a parcela do povo, a pessoas concretas que nos rodeiam. Edgard experimenta isso da pior forma, traído, de maneira abjeta, por Virgínia, sua noiva — que, entre ele e a ideologia, ou seja, entre a realidade e a ilusão, prefere a segunda, mesmo que isso signifique destruir a primeira por meio de um gesto leviano. Não se trata, portanto, de simples escolha, mas de condenação: Virgínia acredita, como todos os revolucionários e ideólogos, que sacrificar a realidade contribuirá para tornar sua ilusão real. Ela me fez lembrar a professora Delphine Roux — covarde, neurótica e arrivista —, personagem de Philip Roth em “A marca humana”.

A história, entretanto, é mais complexa — há várias camadas de trama, incluindo deliciosas referências ao conto “O gato preto”, de Edgard Allan Poe, e a outros de seus escritos: o sabiá do protagonista, por exemplo, chama-se Nevermore.

Quem me conhece sabe que me aproximo de um texto esperando que ele me ofereça o melhor. Na maioria das vezes, contudo, tenho de me esforçar para que isso aconteça. Mas o narrador de “A menina branca” me sequestrou desde o início. Sua voz, irônica e sarcástica nos momentos certos; a maneira como elabora a introspecção de Edgard, principalmente quando precisa justificar seu desesperado gesto de violência; os diálogos que conduzem o leitor pelas emoções dos personagens, revelando o labirinto psicológico que se esconde por trás das aparências — tudo me agradou.

Yuri também demonstra timing perfeito e constrói uma linha de crescente emoção: a cada cena queremos ir adiante, até o final macabro, cujo humor, com pinceladas de grand guignol e nonsense, aprofunda a tragédia de Edgard. Final, aliás, conduzido por inesperado personagem, um “comissário do povo” no melhor estilo bolchevique — isto é, destituído de qualquer mínimo senso moral.

Só me resta, agora, prosseguir na leitura, para uma resenha completa, em que eu possa falar do famigerado Pinto Grande.

Postado no Facebook.

O cartunista João Spacca comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Já que o João Spacca deve estar ocupado, desenhando um de seus cartuns, e já que ele comentou meu livro comigo apenas mediante um longo email pessoal — com questões e com uma abordagem que, em sua totalidade, não dizem respeito ao público em geral (sem falar nos spoilers) — selecionei apenas uns trechinhos para postar aqui:

“Não pensei que fosse capaz de dizer isto ao fim da leitura, mas “A Sábia Ingenuidade do Dr. Pinto Grande” [Editora Record] é um livro extraordinário.”

[…]

“O conto do velho veterano de guerra nos conduz a um extremo dramático constrangedor e quase insuportável. Até onde vai aquilo? O sadismo do outro velho provocando, o dr. Pinto Grande com seu método blasé de dar corda, o velho… não queria abrir o livro, mas ei-lo, Josif, o sérvio.”

[…]

Reli o caso d’A Menina Branca, paródia de O Gato Preto, com o mesmo prazer – eu havia esquecido o […]. Muito bom, o mais brasileiro de todos (por que escrevi isto?).

[…]

“O último é uma excelente aula sobre os bitcoins. […] Interessantíssimo o personagem, muito engenhoso o desfecho. A lógica do bitcoin, sua especificidade, relativa ao lugar único que ocupa no grande quebra-cabeça virtual, e a negação do papel do Estado em controlá-la – apoiada na pergunta “para que uma moeda precisa de um Estado? – parece irrefutável. Anotei em certo momento que os bitcoins pareciam as mônadas de Leibnitz, pensando que iria surpreender você com a metáfora, mas logo adiante o dr. Pinto Grande foi muito mais longe. Pinto Grande é foda.”

[…]

“No meio desse último conto é que a arquitetura do livro se cristalizou na minha cabeça, e então que a constatação de que estava lendo um livro extraordinário se fez presente com grande naturalidade. Então lembrei dos demais contos.”

[…]

“Dr. João Pinto Grande é um escada, aquele ator não muito expressivo que serve de apoio para outros, personalidades mais fortes ou engraçadas, fazerem o seu show (pronto, acabo de escrever didaticamente para o “grande público”). ”

[…]

“O professor Olavo sempre diz que criou o COF para formar pessoas com quem pudesse conversar. Talvez você escreva com uma finalidade semelhante. Nos seus contos vivem pessoas que, no meio de circunstâncias insólitas ou banais, são capazes de interpretar a experiência presente evocando grandes quadros conceituais que alargam o horizonte e apaziguam nossas angústias. Sem essa capacidade, nosso cotidiano se enche de preocupações de saúde, compras e receitas veganas – já que política em casa virou tabu. Termino o livro lamentando a falta de oportunidade desse tipo de conversações no dia-a-dia, com uma espécie de saudade desses encontros insólitos, como se uma fome diferente tivesse sido despertada para um alimento desconhecido e raro.
Adorei ter lido, Yuri […]”

Daniel Gil comenta “A Sábia Ingenuidade do Dr. João Pinto Grande”

Resenha de Daniel Gil, poeta, ensaísta e secretário executivo da UFRJ, publicada pela Revista Amálgama:

A CONSCIÊNCIA DE YURI

É desconcertante solicitar ao funcionário da livraria um exemplar de A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande (Editora Record). A experiência faceciosa já se inicia desde então, quando o próprio leitor se vê de repente partícipe do humor de Yuri Vieira.

O escritor — que também é cineasta premiado — apresenta nesse volume de contos uma expressiva evolução desde a sua estreia com A Tragicomédia Acadêmica: Contos Imediatos do Terceiro Grau. Suas sentenças concertam mais concisão e sonoridade; o arcabouço complexo de recursos literários, que desde sempre engendrou suas narrativas, agora alcança homogeneidade; seu humor e suas intenções, quando não propositalmente explícitos, submergem de maneira acabada e segura nas entrelinhas.

Conquanto seja uma coleção de contos — e eles subsistam independentemente —, perpassa, em quase todos, o personagem de nome risível que lhe oferece unidade e título: o advogado João Pinto Grande. Sua presença contínua, porém, nem sempre faz dele um protagonista nas urdiduras. O advogado é em certa medida um herói discreto e bonachão, caso venhamos a utilizar o conceito de herói no sentido romântico: aquele que demonstra como um homem poderia ser; no caso específico, um homem que não separa a sua inteligência de um rigoroso idealismo moral. A unidade entre as diferentes estórias, logo, dá-se também pelo coincidente recorte no tempo — condição importantíssima, devido à atualidade das questões e dos elementos envolvidos (do feminismo aos bitcoins).

Uma característica especialmente distintiva de A sábia ingenuidade…, para além do humor cômico, é a presença de personagens que carregam opiniões robustas a respeito de polêmicas nada aconselháveis, o que exige, ao mesmo tempo, uma demonstração de domínio técnico-literário na composição — bem sucedido, é preciso dizer — e um profundo interesse intelectual pelos problemas contemporâneos, incluindo a variedade de posicionamentos. A respeito das supostas opiniões do próprio Yuri, poderíamos assinalar a fala do Dr. Pinto Grande no conto “O pedinte do metrô”, ao divagar sobre Deus: “Por que um artista ou escritor pode se colocar dentro de sua obra, representando-se mediante um personagem-avatar, e Deus não o poderia?”. Algo semelhante já havia sido observado pelo personagem Paulo César, no conto “A teologia da maconha”.

No entanto, Yuri Vieira abala de maneira intermitente as impressões mais cômodas do leitor. No conto “Amarás ao teu vizinho”, por exemplo, o advogado de nome jocoso pensa consigo mesmo, ao se lembrar de uma conversa sobre Herman Hesse: “Ora, escritores de ficção são artistas, não necessariamente bons intelectuais, filósofos ou guias espirituais”. Ainda sobre essa consciente confusão de perspectivas, concebida com zelo em todo o livro, é necessário notar que o próprio contista é personagem no conto de abertura — por consequência, o único deles a ser narrado em primeira pessoa. Os pontos de vista, a despeito, são expostos ali de modo a largar o leitor no campo das incertezas, tanto mais quando de súbito rebentam elementos fantásticos em cena — mecanismo já consolidado no estilo de Yuri.

A palavra consciência pode ser talvez a que melhor se associe à feitura de A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande, uma vez que seja preciso uma percepção muito clara das próprias faculdades para realizar com arte esse trabalho. Sobretudo no risco, todo gesto mais ingênuo seria fatalmente salientado. Yuri Vieira parece então herdar instrumentos importantes de uma tradição de comicidade da literatura brasileira, seja na descrição de detalhes falsamente dispensáveis — que o aproxima de Nelson Rodrigues —, seja no confronto heteróclito e burlesco de figuras morais — ao estilo machadiano. Quando emprega novidade nesses pertences, ganha lugar entre os mais talentosos (e engraçados) prosadores da atualidade.

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