Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Página 50 de 80

Stephen Hawking: como Deus escolheu o estado inicial do Universo?

Stephen Hawking

« A física parece ter descoberto um conjunto de leis que, dentro dos limites impostos pelo princípio da incerteza, nos dizem como o Universo vai evolver, se soubermos em que estado está em determinado momento. Estas leis podem ter sido decretadas por Deus, mas parece que Ele deixou depois o Universo evoluir segundo elas, sem intervir mais. Mas como é que Ele escolheu o estado ou configuração inicial do Universo? Quais foram as "condições-fronteira" no começo do tempo?

« Uma resposta possível é dizer que Deus escolheu a configuração inicial do Universo por razões que nunca compreenderemos. Isso estaria certamente dentro dos poderes de um ser omnipotente, mas se Ele o criou de uma maneira tão incompreensível, por que é que o deixou depois evoluir segundo leis que conseguimos compreender? Toda a história da ciência tem sido a compreensão gradual de que os acontecimentos não ocorrem de maneira arbitrária, mas que refletem certa ordem subjacente, que pode ou não ser de inspiração divina. Nada mais natural do que supor que essa ordem se aplica não apenas às leis, mas também às condições que, na fronteira do espaço-tempo, especificam o estado inicial do Universo. Pode haver grande número de modelos do Universo com diferentes condições iniciais que obedecem todos às leis. Devia haver algum princípio que determinasse um estado inicial e daí um modelo para representar o nosso Universo.

« Uma possibilidade é aquilo a que se chama condições-fronteira caóticas. Estas presumem implicitamente que o Universo é espacialmente infinito ou que há infinitamente muitos universos. Sob condições-fronteira caóticas, a probabilidade de descobrir uma região particular do espaço numa dada configuração logo após o big bang é a mesma, em certo sentido, que a probabilidade de a descobrir em qualquer outra configuração: o estado inicial do Universo é escolhido puramente ao acaso. Isto significa que o Universo, no princípio, era provavelmente muito irregular e caótico, por haver muito mais configurações caóticas e irregulares para o Universo do que regulares e ordenadas. (Se cada configuração é igualmente provável, é admissível que o Universo tenha tido início num estado desordenado e caótico, simplesmente por haver mais soluções destas). É difícil ver como é que tais condições iniciais caóticas podem ter dado origem a um Universo tão regular e sem acidentes, em macro-escala, como é o nosso atualmente. Também se esperaria que as flutuações de densidade em tal modelo tivessem levado à formação de mais buracos negros primevos do que o limite máximo imposto por observações da radiação gama de fundo.

« Se o Universo é mesmo espacialmente infinito, ou se há infinitamente muitos universos, haveria provavelmente muitas extensas regiões em algum local surgidas de uma maneira regular e uniforme. É um pouco como o bem conhecido bando de macacos a escrever à máquina; a maior parte do que escrevem não presta, mas ocasionalmente, por puro acaso, poderão escrever um soneto de Shakespeare. Igualmente, no caso do Universo, será que estamos a viver numa região que, por mero acaso, é regular e uniforme? À primeira vista, isto pode parecer muito pouco provável, porque regiões assim regulares seriam largamente ultrapassadas em número por regiões irregulares e caóticas. Porém, vamos supor que só nas regiões regulares é que se formaram galáxias e estrelas e que as condições eram adequadas ao desenvolvimento de complicados organismos auto-replicativos, como nós, que fossem capazes de fazer a pergunta: por que motivo o Universo é tão regular? Este é um exemplo da aplicação do chamado princípio antrópico, que pode ser parafraseado do seguinte modo: "Nós vemos o Universo da maneira que é porque existimos".

« Há duas versões do princípio antrópico, a fraca e a forte. O princípio antrópico fraco afirma que, num universo que é grande ou infinito no espaço e/ou no tempo, as condições necessárias para o desenvolvimento de vida inteligente só se encontram em certas regiões limitadas no espaço e no tempo. Os seres inteligentes dessas regiões não devem, portanto, admirar-se por observarem que a sua localização no Universo satisfaz as condições necessárias à sua existência. É um pouco como uma pessoa muito rica que vive numa área de pessoas ricas e nunca vê a pobreza.

« Um exemplo da utilização do princípio antrópico fraco é explicar por que motivo o big bang ocorreu há cerca de dez bilhões de anos: porque é esse o tempo necessário para a evolução de seres inteligentes. Como já expliquei, começou por se formar uma primeira geração de estrelas. Essas estrelas converteram algum do hidrogênio e do hélio originais em elementos como o carbono e o oxigênio, dos quais somos formados. As estrelas então explodiram como supernovas e os seus detritos formaram outras estrelas e os planetas, entre eles os do nossos sistema solar, que tem cerca de cinco bilhões de anos de idade. Os primeiros um ou dois bilhões de anos da existência da Terra foram demasiado quentes para que qualquer coisa complicada se pudesse desenvolver. Os restantes três bilhões de anos, ou coisa parecida, foram ocupados pelo processo lento da evolução biológica, que foi desde os organismos mais simples até seres capazes de medir o tempo para trás, até ao big bang.

« Poucas pessoas argumentariam contra a validade ou utilidade do princípio antrópico fraco. Algumas, no entanto, vão muito mais além e propõem uma versão forte do princípio. De acordo com esta teoria, ou existem muitos universos diferentes ou muitas regiões diferentes num único universo, cada uma com a sua configuração inicial e, talvez, com o seu conjunto próprio de leis físicas. Na maior parte destes universos, as condições não seriam adequadas ao desenvolvimento de organismos complicados; só nos poucos universos semelhantes ao nosso é que se desenvolveriam seres inteligentes que fariam a pergunta: "Por que é que o Universo é como o vemos?" A resposta então é simples: se fosse diferente, não estaríamos aqui!

« As leis da ciência, tal como as conhecemos atualmente, contêm muitos números fundamentais, como a magnitude da carga elétrica do elétron e a proporção das massas do próton e do elétron. Pelo menos de momento, não podemos prever os valores destes números a partir da teoria; temos de os medir por observação. Pode ser que um dia descubramos uma teoria unificada completa que preveja tudo isso, mas também é possível que alguns, ou todos eles, variem de universo para universo, ou dentro do mesmo universo. O que é notável é que os valores destes números parecem ter sido muito bem ajustados, para tornar possível o desenvolvimento da vida. Por exemplo, se a carga elétrica do elétron fosse apenas ligeiramente diferente, as estrelas ou seriam incapazes de queimar hidrogênio e hélio, ou então não teriam explodido. Claro que pode haver outras formas de vida inteligente, nem sequer sonhadas pelos escritores de ficção científica, que não precisem da luz de uma estrela como o Sol ou dos elementos químicos mais pesados que são sintetizados nas estrelas e devolvidos ao espaço quando as estrelas explodem. Todavia, parece claro que há relativamente poucas escalas de valores para os números que permitissem o desenvolvimento de qualquer forma de vida inteligente. A maioria dos conjuntos de valores daria origem a universos que, embora pudessem ser muito bonitos, não conteriam ninguém que se maravilhasse com essa beleza. Podemos tomar isto como prova de um propósito divino na Criação e na escolha das leis da natureza ou como suporte do princípio antrópico forte.

« Várias objeções se podem levantar contra o princípio antrópico forte como explicação do estado observável do Universo. Primeiro, em que sentido é que pode dizer-se que existem todos esses universos? Se estão realmente separados uns dos outros, o que acontece em outro universo não pode ter consequências observáveis no nosso Universo. Devemos, portanto, utilizar o princípio da economia e eliminá-los da teoria. Se, por outro lado, não são mais do que regiões diferentes de um único universo, as leis físicas seriam as mesmas em todas as regiões, porque, se assim não fosse, não se podia andar continuamente de uma região para outra. Neste caso, a única diferença entre as regiões seria a sua configuração inicial e, portanto, o princípio antrópico forte reduzir-se-ia ao fraco.

« Uma segunda objeção ao princípio antrópico forte é o fato de correr contra a maré da história da ciência. Desenvolvemo-lo a partir das cosmologias geocêntricas de Ptolomeu e dos seus antepassados, através da cosmologia heliocêntrica de Copérnico e de Galileu, até ao quadro moderno em que a Terra é um planeta de tamanho médio orbitando em redor de uma estrela média nos subúrbios de uma galáxia espiralada comum, que é apenas uma de cerca de um milhão de milhões de galáxias no Universo observável. Contudo, o princípio antrópico forte afirmaria que toda esta vasta construção existe simplesmente por nossa causa. O que é muito difícil de acreditar. O nosso sistema solar é certamente um pré-requisito para a nossa existência, e podemos abranger com isto toda a nossa Galáxia para justificar uma geração anterior de estrelas que criaram os elementos mais pesados. Mas não parece haver qualquer necessidade para todas as outras galáxias nem para o Universo ser tão uniforme e semelhante em todas as direções em macro-escala.

« Podíamos sentir-nos mais felizes quanto ao princípio antrópico, pelo menos na sua versão fraca, se pudéssemos mostrar que um vasto número de diferentes configurações iniciais para o Universo podiam ter evoluído para produzir um universo como o que observamos. Se for esse o caso, um universo que se desenvolveu ao acaso a partir de quaisquer condições iniciais devia conter um número de regiões regulares, uniformes e adequadas à evolução da vida inteligente. Por outro lado, se o estado inicial do Universo teve de ser escolhido com todo o cuidado para conduzir a qualquer coisa como o que vemos à nossa volta, seria improvável que o Universo contivesse qualquer região onde tivesse aparecido vida. No modelo quente (ou modelo padrão) do big bang já descrito, não houve tempo suficiente no estado inicial do Universo para o calor ir de uma região para outra.

« Isto significa que o estado inicial do Universo devia ter tido exatamente a mesma temperatura por toda a parte, para explicar o fato de a radiação de microondas de fundo ter a mesma temperatura, para onde quer que olhemos. A taxa inicial de expansão também devia ter sido escolhida com grande precisão para que se mantivesse tão próxima da razão crítica necessária para evitar o colapso. Isto significa que, se o modelo quente do big bang está certo até ao começo do tempo, o estado inicial do Universo deve ter sido realmente escolhido com grande cuidado. Seria muito difícil explicar o motivo pelo qual o Universo deve ter começado exatamente assim, exceto como ato de um deus que tencionava criar seres como nós

________

Uma Breve História do Tempo, de Stephen W. Hawking.

Como eram os pais terrenos de Jesus?

 A Sagrada Família

« José era um homem de maneiras suaves, extremamente consciente e, de todos os modos, fiel às convenções e práticas religiosas do seu povo. Falava pouco, mas pensava muito. A condição sofrida do povo judeu causava muita tristeza em José. Na sua juventude, entre os seus oito irmãos e irmãs, ele havia sido mais alegre, mas nos primeiros anos da sua vida de casado (durante a infância de Jesus) esteve sujeito a períodos de um desencorajamento espiritual leve. Essas manifestações do seu temperamento foram bastante atenuadas, um pouco antes da sua morte prematura, depois que a situação econômica da sua família melhorou, em conseqüência do seu progresso, quando passou, de carpinteiro, à posição de um próspero empreiteiro.

« O temperamento de Maria era completamente oposto ao do marido. Geralmente era alegre, muito raramente ficava abatida e possuía uma disposição sempre ensolarada. Maria permitia-se dar livre e freqüente vazão à expressão dos seus sentimentos e emoções e nunca se sentira afligida, até a súbita morte de José. E mal se recuperara desse choque quando teve de enfrentar as ansiedades e perplexidades que se lançaram sobre ela, por causa da carreira extraordinária do seu filho mais velho, que se desenrolou muito rapidamente diante do seu olhar atônito. Mas, durante toda essa experiência inusitada, Maria manteve-se calma, corajosa e bastante sábia no seu relacionamento com o seu estranho e pouco compreendido primogênito e com os irmãos e irmãs ainda vivos dele.

« Muito da doçura especial de Jesus e da sua compreensão compassiva da natureza humana, ele herdara do seu pai; o dom de ser um grande mestre e a sua imensa capacidade de indignar-se, por retidão, ele herdara da sua mãe. Nas reações emocionais ao meio ambiente, na sua vida de adulto, Jesus era também como o seu pai: meditativo e adorador; o que algumas vezes deixava transparecer tristeza, mas, mais freqüentemente, ele conduzia-se de maneira otimista e com a disposição determinada da sua mãe. No conjunto, a tendência era de que o temperamento de Maria dominasse a carreira do filho divino, durante o seu crescimento e nos passos decisivos da sua carreira adulta. Jesus era uma mistura dos traços dos seus pais, em algumas das suas atitudes; em outras ele demonstrava mais as características de um deles do que as do outro.

« De José, Jesus tinha a educação estrita nos usos dos cerimoniais judeus e o conhecimento excepcional das escrituras dos hebreus; de Maria, ele trazia um ponto de vista mais amplo da vida religiosa e um conceito mais liberal da liberdade espiritual pessoal.

« As famílias de ambos, José e Maria, eram bem instruídas para a sua época. José e Maria haviam sido educados muito acima da média da sua época, considerando a sua situação social. Ele, um homem de muito pensar e ela, uma mulher planejadora, dotada de adaptabilidade e prática na execução imediata das coisas. José era moreno, de olhos negros; e Maria era do tipo quase louro, de olhos castanhos.

« Tivesse José vivido mais e ter-se-ia tornado, indubitavelmente, um crente firme na missão do seu filho mais velho. Maria alternava-se, ora acreditando, ora duvidando, sendo grandemente influenciada pela posição tomada pelos seus outros filhos e pela dos seus amigos e parentes, mas sempre era fortalecida, na sua atitude final, pela memória da aparição de Gabriel imediatamente depois que a criança fora concebida.

« Maria era uma hábil tecelã e possuía uma habilidade acima da média na maioria das artes caseiras da época; era uma boa dona-de-casa e muito caprichosa no forno. Tanto José quanto Maria eram bons educadores e cuidaram para que os seus filhos se tornassem bem versados nos ensinamentos da época.

« Quando ainda rapaz, José tinha sido empregado do pai de Maria no trabalho de construir uma extensão da sua casa; e, quando Maria trouxe a José um copo de água, durante a refeição do meio-dia, foi que realmente aqueles dois, destinados a ser os pais de Jesus, começaram a fazer a corte um ao outro.

« José e Maria casaram-se de acordo com os costumes judeus, na casa de Maria, nas proximidades de Nazaré, quando José tinha vinte e um anos de idade. Esse casamento concluiu um noivado normal que durou quase dois anos. Pouco depois se mudaram para a casa em Nazaré, que havia sido construída por José com a ajuda de dois dos seus irmãos. A casa situava-se ao pé de uma elevação que dominava, de modo encantador, a paisagem do campo. Nessa casa, especialmente preparada, esses jovens pais, na expectativa de dar as boas-vindas ao menino prometido, não sabiam que aquele evento, memorável para todo um universo, estava para acontecer enquanto eles estivessem fora de casa, em Belém, na Judéia.

« A parte maior da família de José converteu-se aos ensinamentos de Jesus, mas pouquíssimos entre os da gente de Maria acreditaram nele, antes que ele deixasse este mundo. José inclinava-se mais para o conceito espiritual de um Messias esperado, mas Maria e a sua família, especialmente o seu pai, ativeram-se à idéia de que o Messias seria um libertador temporal e um governante político. Os ancestrais de Maria haviam-se identificado manifestamente com as atividades dos Macabeus ainda recentes naqueles tempos.

« José apegava-se vigorosamente ao ponto de vista oriental, ou Babilônico, da religião judaica; Maria inclinava-se fortemente para a interpretação ocidental, ou helenista, mais liberal e aberta, da lei e dos profetas.»

________

Documento 122: O Nascimento e a Infância de Jesus in O Livro de Urântia.

William Somerset Maugham e o casal incompatível de O Fio da Navalha

William Somerset Maugham

– É aqui que vives? – perguntou Isabel. Ele riu baixinho ao ver a expressão do seu rosto.

– Sim. Moro aqui desde que vim para Paris.

– Mas por quê?

– É cômodo. Fica perto da Bibliothèque Nationale e da Sorbonne. – Larry apontou para uma porta que ela não notara. – Tem quarto de banho. Tomo o café da manhã aqui e geralmente janto naquele restaurante onde almoçamos hoje.

– É horrivelmente sórdido.

– Oh, não; está muito bom. Não desejo mais do que isto.

– Mas que tipo de gente mora aqui?

– Não sei. No sótão, alguns estudantes. Dois ou três solteirões, funcionários públicos; uma atriz do Odéon, aposentada; no outro quarto com casa de banho, a amante de um sujeito que a vem visitar de quinze em quinze dias, às quintas-feiras; e mais alguns forasteiros. É um lugar muito sossegado e familiar.

Isabel ficou um tanto desconcertada e, vendo que Larry disso se apercebera e achava graça, quase se melindrou.

– Que livro é aquele, enorme, ali sobre a mesa? – perguntou ela.

– Aquele? É o meu dicionário grego.

– Quê? – exclamou Isabel.

– Calma. Ele não tem garras.

– Estás a estudar grego?

– Estou. Por quê? Porque me deu vontade. – Larry fitava-a com um sorriso nos olhos e Isabel correspondeu a esse sorriso.

– Não achas que devias contar-me o que andaste a fazer todo este tempo que estiveste em Paris?

– Tenho lido muito. Oito ou dez horas por dia. Tenho ido a conferências na Sorbonne. Creio que li tudo quanto há de importante na literatura francesa, e posso ler o latim, prosa, pelo menos, com a mesma facilidade com que leio o francês. Claro que o grego é mais difícil. Mas tenho um ótimo professor. Antes de chegares, ia três noites por semana a sua casa.

– E qual a finalidade de tudo isto?

– Adquirir cultura – respondeu ele, sorrindo.

– Não me parece muito prático.

– Talvez não seja e, por outro lado, talvez seja. Mas é divertidíssimo. Não podes imaginar como é emocionante ler a Odisséia no original. A gente tem a impressão de que bastaria ficar na ponta dos pés e estender as mãos para tocar as estrelas.

Larry levantou-se, como que impulsionado pela excitação que dele se apoderara, e pôs-se a andar de um lado para o outro do quartinho.

– Há um ou dois meses, estive a ler Spinoza. Creio que não o entendo ainda muito bem, mas que delícia!… É como a gente descer do seu próprio avião num grande planalto, nas montanhas. Solidão e ar tão puro que intoxica como um vinho e faz a gente sentir-se como um rei!

– Quando é que pretendes voltar para Chicago?

– Chicago? Não sei. Não pensei nisso.

– Disseste que, se ao cabo de dois anos não alcançasses o que buscavas, darias a experiência por mal sucedida.

– Não me seria possível voltar agora. Estou no limiar. Vejo vastas planícies do espírito à minha frente, acenando-me, e estou ansioso por explorá-las.

– Que esperas encontrar?

– Respostas às minhas perguntas. – Larry relanceou a Isabel um olhar quase brincalhão, de modo que, se o não conhecesse tão bem, poderia pensar que ele estava a troçar. – Quero ter a certeza da existência ou da não existência de Deus. Quero conhecer a origem do mal. Quero saber se tenho uma alma imortal, ou se a morte põe fim a tudo.

Isabel ficou de respiração suspensa. Não se sentia à vontade quando Larry se exprimia desta forma, e deu graças a Deus por ele ter falado tão despreocupadamente, no habitual tom de conversa, que lhe permitiu dominar o constrangimento.

– Mas, Larry, há milhares de anos que a Humanidade faz essas perguntas – replicou ela, sorrindo. – Se tivessem resposta, certamente há muito já teriam sido respondidas.

Larry riu-se.

– Não rias como se eu tivesse dito alguma tolice – replicou secamente Isabel.

– Pelo contrário, acho muito bem observado. Mas, por outro lado, a gente pode argumentar que o fato de os homens fazerem essas perguntas há milhares de anos prova que não podem deixar de perguntar, e continuarão a perguntar. Além do mais, não é verdade que ninguém encontrou resposta. Existem mais respostas do que perguntas, e a muitas pessoas elas satisfizeram plenamente. O velho Ruysbroeck, por exemplo.

– Quem é?

– Oh, apenas um tipo que não conheci no colégio – respondeu Larry petulantemente.

Isabel não entendeu o que ele quisera dizer, mas não insistiu.

– Acho isto muito infantil. São coisas que excitam a imaginação dos segundanistas, mas de que eles se esquecem por completo quando saem do colégio. Têm de ganhar a vida.

– Não os censuro. Mas, vês, tenho a vantagem de possuir o suficiente para viver. De contrário, teria de fazer como os outros e procurar ganhar dinheiro.

– Mas não dás valor ao dinheiro?

– Nenhum – respondeu sorrindo.

– Quanto tempo achas que isso levará?

– Não posso saber. Cinco anos. Dez.

– E depois? Que pretendes fazer com toda essa sabedoria?

– Se algum dia adquirir sabedoria, creio que serei então bastante sábio para saber o que fazer com ela.

Isabel apertou violentamente as mãos e inclinou-se para a frente.

– Estás tão deslocado, Larry. És americano. O teu lugar não é aqui, é na América.

– Voltarei quando estiver pronto.

– Mas estás a perder tanta coisa! Como é que consegues ficar aqui nesta pasmaceira, quando estamos a viver a mais maravilhosa aventura que o Mundo jamais conheceu? A Europa está pronta. Somos a maior, a mais poderosa nação do Mundo. Caminhamos aos saltos. Nada nos falta. É teu dever participar do progresso da tua pátria. Já te esqueceste, não sabes como é empolgante a vida na América, hoje em dia. Tens a certeza de que não estás a agir assim por não teres coragem de enfrentar o trabalho que aguarda todo o americano? Oh, sei que de certo modo trabalhas, mas não será isto apenas uma maneira de fugir às tuas responsabilidades? Será alguma coisa mais do que uma espécie de ociosidade laboriosa? Que fim levaria a América, se todos se esquivassem como tu?

– És muito severa, querida – replicou sorrindo. – A resposta a isso é que nem todos sentem o que eu sinto. Felizmente para eles, talvez, a maioria dos homens está pronta a seguir o curso normal; esqueces-te de que tenho tanta sede de saber como… Gray, por exemplo, tem de ganhar rios e rios de dinheiro. Serei, por acaso, traidor à minha pátria só pelo fato de querer passar alguns anos a educar-me? É possível que, ao terminar, possa dar à Humanidade alguma coisa que ela tenha prazer em receber. Não é certo, naturalmente; mas, se falhar, estarei na mesma posição do homem que entra num negócio e não consegue vencer.

– E quanto a mim? Não tenho valor algum para ti?

– Muitíssimo. Quero que te cases comigo.

– Quando? Daqui a dez anos?

– Não. Agora. O mais depressa possível.

– Como? Minha mãe não está em condições de me dar um dólar. Além do mais, mesmo que pudesse, não o faria. Acharia um erro ajudar-te a viver na ociosidade.

– Não quero nada de tua mãe – replicou Larry. – Tenho três mil dólares anuais. Isto é mais do que suficiente, aqui em Paris. Poderíamos ter uma casa pequena e uma bonne à tout faire. Seria tão divertido, querida!

– Mas, Larry, ninguém pode viver com três mil dólares anuais.

– Claro que pode. Inúmeras pessoas vivem com muito menos.

– Mas não quero viver assim. Não há razão para isso.

– Tenho vivido com metade.

– Mas como! – Ela olhou para o sujo quartinho com um estremecimento de repulsa.

– Isto significa que tenho algumas economias. Poderíamos ir a Capri na lua-de-mel e à Grécia no Outono. Tenho uma vontade louca de ir até lá. Não te lembras de que falávamos em viajar juntos pelo Mundo?

– Claro que desejo viajar. Mas não desta forma. Não quero ir em segunda classe, nos navios, nem me hospedar em hotéis de terceira categoria, sem casa de banho, nem comer em restaurantes baratos.

– Em Outubro passado, viajei assim por toda a Itália. Diverti-me imenso. Poderíamos percorrer o Mundo inteiro, com três mil dólares por ano.

– Mas quero ter filhos, Larry.

– Está bem. Irão conosco.

– És tão tolo! – disse ela, rindo. – Sabes quanto custa ter um filho? Violet Tomlinson teve um, no ano passado, e fez tudo com a maior economia possível, mas mesmo assim gastou mil e duzentos e cinqüenta dólares. E quanto pensas que ganha uma ama? – Isabel animava-se, à medida que as idéias lhe ocorriam. – És muito pouco prático. Não sabes o que me pedes. Sou nova, quero divertir-me. Quero fazer o que os outros fazem. Quero ir a festas, quero ir a bailes, quero jogar o golfe e andar a cavalo. Quero vestir-me bem. És capaz de imaginar o que significa para uma mulher não se sentir tão bem vestida como as outras do seu meio? Compreendes o que significa, Larry, ter de comprar os vestidos usados das amigas que se fartaram deles, e ficar agradecida quando, por piedade, alguém se lembra de lhe fazer presente de um que seja novo? Não poderia nem mesmo ir a um cabeleireiro decente! Não quero andar de ônibus quero o meu carro particular. E que pensas que iria fazer o dia inteiro enquanto estivesses a ler na biblioteca? Andar pelas ruas, namorando as vitrinas, ou sentar-me no jardim do Luxemburgo, a vigiar os meus filhos para que nada lhes acontecesse? Não poderíamos ter amigos…

– Oh, Isabel – interrompeu ele.

– Não do tipo a que estou habituada. Oh, sim, os amigos do tio Elliott de vez em quando nos convidariam, em consideração por ele, mas não poderíamos aceitar porque não teria vestido, nem estaríamos em posição de lhes retribuir as gentilezas. Não quero ter relações com uma porção de gente mal vestida e suja; nada teria a dizer-lhes, nem eles a mim. Quero viver, Larry. – De súbito, percebeu a expressão dos seus olhos, afetuosos como sempre, quando pousados nela, mas levemente irônicos. – Achas que sou tola, não é verdade? Achas que sou fútil e maldosa.

– Não, não acho. É muito natural que digas o que estás a dizer. – Larry estava de pé, de costas para a lareira. Isabel ergueu-se e aproximou-se; fitaram-se frente a frente.

– Larry, se não possuísses um dólar, mas tivesses um emprego que te rendesse três mil dólares por ano, não hesitaria em me casar contigo. Cozinharia, arrumaria as camas, pouco me importaria com vestidos, faria qualquer sacrifício e acharia tudo divertidíssimo, pois estaria certa de que seria apenas uma questão de tempo, até venceres. Mas isso que queres significa viver miseravelmente, sordidamente, a vida inteira, sem uma esperança pela frente. Não passaria de uma escrava até ao dia da minha morte. E para quê? Para que pudesses passar anos a procurar respostas a perguntas que tu próprio consideras insolúveis. Estás em erro. Um homem tem de trabalhar. E para isso que está no Mundo. É assim que contribui para o bem-estar da comunidade.

– Em resumo, é meu dever instalar-me em Chicago e entrar para o escritório de Henry Maturin. Achas que, pelo fato de convencer os meus amigos a adquirirem títulos em que Henry Maturin está interessado, contribuiria grandemente para o bem-estar da comunidade?

– É preciso que haja corretores no Mundo. É uma maneira muito decente e honrosa de ganhar a vida.

– Pintaste um quadro muito negro da vida em Paris com um rendimento módico. Sabes, não é bem assim. Uma mulher pode vestir-se muito bem sem procurar Chanel. Nem todas as pessoas interessantes vivem na vizinhança do Arc de Triomphe e da Avenue Foch. Para falar a verdade, são mesmo poucas, porque em geral as pessoas interessantes não têm grande fortuna. Conheço muita gente aqui, pintores, escritores e estudantes, franceses, americanos e de outras nacionalidades, que considero muito mais interessantes do que as definhadas marquesas e as narigudas duquesas de Elliá. Tens uma inteligência viva e bastante senso de humor. Garanto que acharias divertido vê-los trocar idéias à mesa, mesmo que o vinho fosse somente vin ordinaire e o jantar não fosse servido por um mordomo e dois lacaios.

– Não sejas tolo, Larry. Claro que acharia divertido. Sabes que não sou esnobe. Teria prazer em conhecer gente interessante.

– Sim, num vestido de Chanel. Pensas que eles perceberiam que consideravas aquilo como uma espécie de aventura? Não se sentiriam à vontade, nem tu tampouco; e não tirarias nenhum proveito, a não ser o de poderes depois contar a Emily de Montadour e a Gracie de Château-Gaillard como acharas divertido ficar conhecendo uma porção de boêmios excêntricos, no Quartier Latin.

Isabel encolheu levemente os ombros.

– Talvez tenhas razão. Eles não são do tipo de gente com quem estou habituada a conviver. Não são do tipo de gente com quem eu possa ter afinidade.

– Em que ficamos, então?

– Exatamente onde começamos. Moro em Chicago desde que me entendo por gente. Ali estão os meus amigos, todos os meus interesses. Ali me sinto em casa. É a minha terra, Larry, como é também a tua. Minha mãe está doente e não se restabelecerá. Mesmo que quisesse, não a poderia deixar.

– Isto significa que, a não ser que esteja disposto a voltar para Chicago, não te casarás comigo?

Isabel hesitou. Amava Larry. Queria casar-se com ele. Desejava-o com toda a força dos seus sentidos e sabia-se desejada por ele. Não achava possível que, chegado o momento decisivo, ele não fraquejasse. Teve medo, mas precisava de arriscar.

– Sim, Larry, significa isso.

Ele riscou um fósforo na lareira, um daqueles antigos fósforos franceses, de enxofre, que nos enchem as narinas de um odor acre, e acendeu o cachimbo. Depois, passando por Isabel, foi postar-se à janela e ficou a olhar para fora. Guardou silêncio por um espaço de tempo que pareceu interminável. Isabel continuou de pé, no mesmo lugar onde estivera em frente dele, e olhou para o espelho, mas com olhos que nada viam. O coração batia-lhe loucamente e estava morta de apreensão. Finalmente, Larry voltou-se:

– Gostaria de poder levar-te a compreender como a vida que te ofereço é mais cheia do que qualquer outra que possas ter imaginado. Gostaria que pudesses ver como a vida do espírito é mais emocionante e rica em experiência. É ilimitada. E tão feliz! Só uma coisa se lhe compara: quando se está sozinho num avião, alto, bem alto, circundado apenas pelo infinito. Aquela amplidão é intoxicante. A gente experimenta tão intensa sensação de júbilo que não a trocaria por todas as riquezas e glórias deste Mundo. Há poucos dias, estive a ler Descartes. Que desembaraço, que graça, que dez. Céus!

Isabel interrompeu-o, em tom de desespero:

– Mas, Larry, não vês que me pedes uma coisa para a qual não fui feita, pela qual não me interesso, e não me quero interessar? Quantas vezes terei de repetir que sou apenas uma rapariga medíocre, normal, que tenho vinte anos, que daqui a dez estarei velha, que me quero divertir enquanto posso? Oh, Larry, gosto tanto, tanto, de ti! Isso é uma fantasia; não te conduzirá a parte alguma. No teu próprio interesse, imploro-te que desistas. Sê homem, Larry, e cumpre o teu dever de homem. Estás a perder anos preciosos, de que outros estão a tirar o máximo proveito. Larry, se me tens amor, não me trocarás por um sonho. Já te divertiste bastante. Volta conosco para a América.

– Não posso, querida. Seria uma verdadeira morte para mim. Seria atraiçoar a minha alma.

– Oh, Larry, por que falas dessa forma? É assim que se exprimem as mulheres histéricas, metidas a intelectuais. Que significa? Nada. Nada. Nada.

– Significa exatamente o que sinto – respondeu ele com um estranho brilho nos olhos.

– Como é que podes brincar? Não vês que isto é muito sério? Chegamos à encruzilhada, e o que fizermos agora irá afetar toda a nossa vida.

– Sei isso. Crê-me, estou a falar sério.

Ela suspirou.

– Se não queres ser razoável, então não há mais nada a dizer.

– Mas não creio que não seja razoável. Acho que só disseste disparates.

– Eu? – exclamou Isabel. – Se não se sentisse tão infeliz, teria rido. – Meu pobre Larry, estás doido varrido.

Lentamente, tirou do dedo o anel de noivado, colocou-o na palma da mão e ficou a contemplá-lo. Era um rubi quadrado, incrustado num fino aro de platina, e Isabel apreciara-o muito.

– Se gostasses de mim, não me farias sofrer tanto.

– Gosto de ti. Infelizmente, às vezes, nós não podemos fazer o que nos bem parece sem causar sofrimento a alguém.

Ela estendeu a mão onde estava o rubi e obrigou-se a sorrir.

– Aqui está, Larry.

– De nada me serve. Não queres guardá-lo como lembrança da nossa amizade? Podes usá-lo no dedo. Isto não altera a nossa amizade, não é assim?

– Sempre hei-de gostar de ti, Larry.

– Guarda-o, então, que me darás prazer.

Ela hesitou. depois enfiou o anel no dedo da mão direita.

– É grande de mais.

– Podes mandá-lo apertar. Vamos ao bar do Ritz, tomar um drink.

– Está bem. – Isabel admirou-se de tudo se ter passado tão simplesmente. Não chorara. Nada parecia ter mudado; só já não se casaria com Larry. Mal podia acreditar que estava tudo acabado. Ficou um tanto mortificada pelo fato de não ter havido uma violentíssima cena. Tinham resolvido o caso quase tão friamente como se estivessem a discutir a escolha de uma casa de aluguel. Sentia-se como que lesada, mas, ao mesmo tempo, experimentou uma ligeira satisfação por se terem comportado de maneira tão civilizada. Daria muito para conhecer exatamente os sentimentos de Larry, na ocasião. Mas isso era sempre difícil de saber. O rosto suave, os olhos escuros, eram uma máscara que mesmo Isabel, que o conhecia há tantos anos, jamais poderia penetrar.

Ao entrar, tirara o chapéu e pusera-o sobre a cama; agora, em frente do espelho, colocava-o de novo e, arranjando o cabelo, perguntou:

– Apenas por curiosidade: querias desmanchar o nosso noivado?

– Não.

– Pensei que talvez fosse um alívio para ti. – Como Larry não respondesse, ela voltou-se com um sorriso alegre e acrescentou: – Estou pronta.

Ao sair, Larry fechou o quarto. Quando entregou a chave ao homem da portaria, este envolveu-os num olhar de insolente cumplicidade. Isabel não pôde deixar de perceber que idéia o homem fazia da ida deles ao quarto.

– Não creio que aquele tipo tenha muita fé na minha virgindade disse ela.

Foram de táxi ao Ritz e ali tomaram uma bebida. Falaram de coisas triviais, aparentemente sem constrangimento, como dois velhos amigos que se vêem todos os dias. Embora Larry fosse calado por natureza, Isabel era tagarela, com ampla reserva de conversa fiada, e estava decidida a não permitir que entre eles se estabelecesse um silêncio que seria depois difícil de romper. Não queria que Larry pensasse que lhe guardava ressentimento, e o orgulho obrigava-a a agir de forma a não lhe deixar suspeitas de que estava magoada e infeliz. Dali a pouco, sugeriu que Larry a levasse até casa. Quando chegaram à porta, Isabel disse alegremente:

– Não te esqueças de que vens almoçar conosco amanhã. Não há perigo! – Ela apresentou-lhe a face para ser beijada e passou pela porte-cochère.

_________

O Fio da Navalha, de William Somerset Maugham.

(Tradução de Lígia Junqueira Smith.)

Esse romance foi adaptado ao cinema em 1946 (com Tyrone Power) e em 1984 (com Bill Murray). São muito bons, mas, em ambos os casos, vem à tona aquele velho truísmo: o livro é muito melhor que o filme. (Aliás, vale lembrar que, enquanto o personagem Larry se recusava a retornar a Chicago, na mesma cidade, no 533 West Diversey Parkway, os maiores mistérios do mundo eram revelados…)

José Guilherme Merquior fala sobre as literaturas fantástica e visionária

José Guilherme Merquior

« Depois que a crítica moderna descobriu, pela experiência de Auschwitz e Dachau, o realismo premonitório de Kafka, depois que foi levada a revelar o visionário como origem mal disfarçada de muito realista tido por exemplar – Hoffmann como fonte de Balzac – já não parece haver dúvida sobre a legitimidade do imaginário enquanto realismo. Resta apenas distinguir entre as modalidades realistas do próprio imaginário. Por que, com efeito, entre a linha de Kafka e a poética muriliana existem tantas diferenças? Admitindo o fato de que não advêm do maior ou menor valor estético nem da condição de poeta [Murilo Mendes], por oposição à do prosador, qual o núcleo estilístico responsável por essa divergência de caminhos, dentro da esfera geral do realismo imaginário?

« Talvez seja preciso fundar uma distinção entre duas vias do realismo imaginário: entre a literatura do fantástico, e a literatura do visionário. Do fantástico foi Sartre quem nos deu uma penetrante fenomenologia. A descrição do mundo fantástico descobre-lhe as leis, a primeira das quais é a que exige, para a sua realização, que esse mundo seja completo. Se não obedecer a esse caráter de universo completo – universo totalmente fantástico -, nenhum extraordinário conseguirá assumir a condição fantástica. Sartre exemplifica com o caso das fábulas, nas quais o insólito, dado entre tantas outras coisas não insólitas, não chega nunca a virar fantástico. Na fábula, um cavalo põe-se a falar: é um acontecimento extraordinário. Mas ele fala em meio a árvores, a rios, a seres e coisas que permanecem, da maneira mais natural, obedecendo às leis do mundo em sua absoluta normalidade. Por causa disso, percebe-se logo que o cavalo é tão somente máscara; compreende-se que é um homem disfarçado – e reconduz-se o pseudo fantástico ao sistema das leis do mundo. A fábula finge o fantástico; não o cria verdadeiramente. Se o cavalo falante fosse realmente fantástico, o universo inteiro também o seria, e cada coisa, cada ser violaria, tanto quanto o cavalo, a legalidade da natureza. O fantástico só se realiza quando o extraordinário abrange um universo completo. Porém desse universo, que rompe a norma do natural, qual é a lei suprema, a lei que autoriza a inversão das regras ordinárias? É a revolta dos meios contra os fins, responde Sartre. No mundo do fantástico, os objetos-meios se esquivam ao nosso uso, rebelam-se contra os fins que lhes são normalmente assinalados. No romance de que Sartre partiu para teorizar sobre o fantástico, um personagem tem um encontro no primeiro andar de um café. Chegado a este, ele vê perfeitamente que o primeiro andar ,existe, vê as mesas dos fregueses lá em cima – só não vê, por mais que a procure, a escada, ou elevador, que possa fazê-lo chegar lá. A escada é um meio rebelde, cuja rebelião adquire a forma da pura ausência. A impotência do herói diante desse meio-fantasma nada tem a ver, observa Sartre, com a impotência humana diante do absurdo. Na literatura do absurdo (em seu modelo perfeito, L’Étranger de Camus), em lugar da rebelião dos meios, acontece a pura ausência de fim, de qualquer fim. "Les hommes aussi sécretent de l’inhumain", diz Camus em Le Mythe de Sisyphe, e o inumano segregado é a consciência passiva, mecânica, que renunciou a elaborar significações e portanto a designar finalidades. O homem que constata o absurdo renuncia a todos os projetos; não reconhece mais nenhuma finalidade. O herói do mundo fantástico, entretanto, continua perseguindo os fins num universo que a insolência dos meios torna hostil, torna cruel, torna indecifrável – mas não absurdo. O mesmo Sartre separa Kafka de Camus, sob a alegação de que, no primeiro, o mundo não é sem sentido; é, isso sim, um mundo de sentido angustiantemente oculto, universo de cifras intraduzíveis. A cifra indecifrável, o texto ilegível, são manifestações da rebeldia dos meios naquilo que é o meio por excelência: a mensagem. As mensagens, objeto cuja existência se resume em comunicar, em consumir-se como ponte, como contato entre pólos, emissor e receptor, estão sempre descumprindo sua função, no plano do fantástico. Nunca transmitem normalmente: ora desaparecem, ora transmitem em falso, ora transmitem à pessoa errada. Texto rebelde, as mensagens, comunicação essencial entre os homens, correspondem no fantástico à sociedade burocrata, onde os próprios homens, num universo de meios rebeldes, se fazem meios. Os burocratas de Kafka são simples utensílios. Como utensílios, são os representantes de um mundo invertido, onde o sujeito de todas as finalidades, o homem, degrada-se em instrumento puro, enquanto os instrumentos recusam-se a servir.

« Se o fantástico é um universo completo, vale dizer, onde tudo é homogeneamente extraordinário, no plano do visionário o mundo é, diversamente, um universo misto. Misto ou híbrido, no universo visionário convivem o insólito e o natural o maravilhoso e o vulgar. O plano do visionário é eminentemente transitivo: nele, o espantoso irrompe e desaparece com a mesma naturalidade. Seu ingresso abrupto, e sua não menos brusca reconversão ao natural, são fenômenos freqüentes numa esfera em permanente processo. Em oposição ao estático do fantástico, o mundo visionário é vivamente dinâmico. Heterogêneo, aí se chocam vários elementos contraditórios, num procedimento dialético jamais reduzido à imobilidade. Nenhuma situação é fixa; nenhuma se exime de ser envolvida pelo processo. Assim, se os meios às vezes se rebelam, se os utensílios ameaçam trair sua função, nunca se pode dizer, do homem desse universo, que tenha perdido sem apelação a liberdade de sua consciência. O habitante do visionário não é, como o do fantástico, um burocrata medular. Ele perde-e-recupera, perde-mas-recupera o seu status humano de detentor supremo de finalidades. Tampouco habita um mundo sem significação (absurdo), ou de significação irremediavelmente oculta (fantástico). Por mais que vacile, por mais que se contradiga, atribui sempre ao mundo um sentido inteligível, de leitura parcial e não raro difícil, mas nunca impossível. A concepção do mundo do visionário é, portanto, aberta ao entendimento de uma lógica do acontecer, de uma razão histórica e de uma ordem temporal – embora não seja esta simplesmente linear.

« Se é possível estabelecer uma distinção entre as técnicas de representação derivadas dessa diferença de visão global, deverá ser dito que a literatura do fantástico se funda no uso de um estilo alegórico, ao passo que a literatura do visionário se encarna num estilo de natureza preferencialmente simbólica. O uso poético da alegoria foi definido, em grande profundidade, no ensaio de Walter Benjamin sobre o drama barroco alemão (publicado em 1928; redigido, como tese universitária, alguns anos antes). Suas conclusões foram em parte aproveitadas por Lukács num ensaio do livro Die Gegenwartsbedeutung des kritischen Realismus. Benjamim, embora oficialmente estudando apenas a tragédia barroca, na realidade desenvolveu uma teoria do estilo alegórico como fundamento da literatura de vanguarda contemporânea, com especial aplicação a Kafka, autor a quem dedicou outro de seus ensaios. Para ele, a alegoria fixa o sentido da temporalidade como certeza da morte e da decadência. No estilo alegórico, a significação de todo fluir está ligada aos motivos do pessimismo e à revelação do vazio da existência. "As alegorias são no reino das idéias o que as ruínas são no reino das coisas". No estilo alegórico, toda a significação do real se encontra na caducidade, na "paixão do mundo" em que se transforma a História como pura vocação para o nada; e por isso mesmo, toda singularidade, toda coisa, pessoa ou relação pode vir a representar qualquer coisa: pois o mundo profano, mundo sem sentido, embaralha as significações em virtude da sua completa privação de valores. As relações da literatura do fantástico com o estilo alegórico são patentes. Benjamim cita as palavras do próprio Kafka: "A mais profunda das experiências vividas é a de um mundo rigorosamente sem sentido, que exc1ui toda esperança, e que é o nosso mundo, o mundo do homem, do homem burguês contemporâneo". Kafka concebe o universo como um sem-sentido. Benjamim insiste numa interpretação antibrodiana de Kafka. Segundo sua linha de análise, Kafka é um ateu, não do tipo progressista, que afasta Deus do mundo para liberar este último do controle transcendente, mas sim – como nota Lukács – do tipo niilista que imagina um mundo abandonado por Deus para figurá-lo inteiramente despojado de significação, e sem nenhum vislumbre consolador. O Deus de Kafka, os juízes supremos de O Processo, a administração de O Castelo, são "a transcendência das alegorias kafkianas: o nada" (Lukács). Esse nada transcendente é o fundamento único de todo existente; em conseqüência, mesmo sendo um observador, um narrador de extraordinária vividez no detalhe, na minúcia de cada cena, Kafka não nega com isso a constatação da ausência de sentido deste mundo, a que um transcendente aniquilado e aniquilador retirou para sempre qualquer significação. Tudo neste nosso mundo é, para Kafka, fantasmagórico. A realidade concreta não passa de espectro. Eis a razão porque mesmo a cena mais banal desperta tanta atenção de Kafka – precisamente por seu caráter de pesadelo, de sonho absurdo, de história do outro mundo, em suma: de episódio fantástico. A transcendência, sendo nada, aniquila o sentido deste mundo e dos projetos humanos. A consciência alegórica, que se representa esse universo, é prisioneira e passiva, consciência congelada e melancólica, privada de iniciativa e de liberdade. O surgimento do "mundo invertido" é o sintoma corrente da subtração da finalidade (subtração do projeto humano) a que a transcendência submeteu a terra. A consciência antropomórfica da angústia vê isso como "rebelião dos meios". O estilo fantástico ancora nessa visão, já descrita por Sartre. A literatura do absurdo ultrapassa a consciência do mundo sem sentido em sua forma antropológica, de modo que, em lugar de representar uma rebelião dos utensílios, simplesmente se representa esse universo na própria razão da aparente revolta dos meios, ou seja: na sua absoluta carência de sentido. Mas, a partir da apreensão, pela consciência, do sintoma da rebelião dos utensílios e da metamorfose do homem sem projeto em simples instrumento, tudo aparece como insólito, ainda o mais banal e mais vulgar, porque o universo em que essa "rebelião" se dá, o mundo em que irrompe essa inversão da legalidade natural, é um mundo fechado, completo, homogeneamente fantástico. Porque tudo parece estranho, cada cena e cada singularidade provoca intensamente a atenção do narrador. A vividez narrativa de Kafka – a lucidez minuciosa de seu estilo – não é portanto casual. Em relação à alegoria, base da literatura do fantástico, esse amor pelo detalhe não é uma contingência: também ele faz parte da essência da alegoria, e igualmente encontra razão no próprio núcleo do fantástico.

« A técnica da representação simbólica já pertence a uma outra visão. O símbolo é, goetheanamente, o universal no concreto. Em termos hegelianos e lukacsianos, confunde-se com a manifestação no estilo da categoria estética da particularidade, que é o ponto nodal do processo dialético e da passagem do singular ao universal (e vice-versa). Particular, típico ou simbólico será o personagem (ou a imagem lírica) que, sem deixar de oferecer características concretas e presença material, representa a concentração, num exemplo, das tendências gerais do dinamismo histórico e da temporalidade objetiva. E porque essas tendências raramente estão isentas de contradição, o típico simbólico não sustenta a figuração de um mundo homogêneo, mas sim de um universo heterogêneo, campo de contrários, área mista, terreno onde coexistem diversos pólos opostos em contínuo movimento e variadas posições.

« A distinção entre uma literatura do fantástico e uma literatura do visionário está potencialmente confirmada pelos modernos estudos a que, sob a influência do processo de revisão do maneirismo como estilo cultural, a crítica moderna submeteu o conceito de literatura (e de arte) do grotesco. Exponencial, entre esses estudos, é o livro de Wolfgang Kayser, Das Groteske, de 1957. Kayser propôs a arte grotesca como revelação de um mundo sem sentido, e da desorientação humana frente a ele. As deformações grotescas indicariam a insignificação do mundo. Por isso mesmo, as distorções que, por mais aberrantes, ainda possuam certa orientação satírica, derivada do desejo de censurar os desvios de conduta e os vícios da ação do homem, não seriam verdadeiramente grotescas. O universo infernal de Bosch, por exemplo – que encontra sentido numa interpretação cristã do ser – não configura o grotesco autêntico, exatamente porque Bosch, por mais que pinte aberrações, é ainda senhor de uma compreensão e de uma inteligência do mundo; ao passo que o universo de Brueghel, já liberado de coordenadas explicativas, denunciaria, não o infernal (que supõe o celestial), mas sim o puro sinistro (que só supõe o absurdo). Em nossos termos, Bosch, pintor do pecado, seria um visionário; quanto a Brueghel, deformador solitário, intérprete sem chave conhecida da existência, seria já um fantástico. Bosch, sobrevivência medieval, ainda detém a segurança da visão cristã; Brueghel, artista problemático do estilo problemático que foi o maneirismo, já não conserva nem mesmo o refúgio de uma tal certeza. Aproveitando o exame de Kayser, é possível distinguir de forma equivalente entre Hoffmann e Kafka, ou seja, entre as alucinações do romantismo e as fantasmagorias da literatura moderna.

« Seria fácil demonstrar que essa fronteira se dá também na arte contemporânea. Depois do cortante estudo de Sartre sobre Wols (em Situations IV, 1964, originalmente prefácio a um volume de desenhos e aquarelas do pintor), seria tranqüilo repetir, entre Wols e Klee, o mesmo jogo diferenciador que se armou entre Brueghel e Bosch. Com efeito: para Paul Klee, para além da aparência sensível dos objetos, o ato de criação artística estabelece um comércio vivo entre pintor e modelo, de modo que um revela o outro, ambos participantes de uma mesma totalidade dinâmica. "Le Voyant est chose vue, la Voyance s’enracine dans la visibilité", diz Sartre: o pintor supera a aparência sensível imediata percebendo uma união de essência entre ele próprio e seu modelo; e, simultaneamente, o mundo exterior lhe fornece essa visão, em que objeto e sujeito devolvem um ao outro o seu reflexo. As formas abstratas são para Klee o resultado de uma contínua observação da natureza; mas a grande revelação do cosmos ao artista é a de que todos os seres podem servir de símbolo de um processo, de signo do movimento do universo, que o pintor descobre em si e prolonga por sua obra. Desse ângulo, o ser se define pela praxis criadora. Parte de um tal todo, sua participação é funcionalmente ativada pelo artista. A arte de Klee, agudamente denominada "realismo operatório", é uma disciplina onde se impõe a consideração da função dinâmica sobre a da forma acabada, onde "se aprende a reconhecer as formas subjacentes, a pré-história do visível" (Jean-Louis Perrier). Para Klee, o mundo é um perpétuo a fazer: visão cristã e fáustica da realidade. A seu lado, Wols é um nirvanista oriental, um fugitivo de toda ação. Seus preceitos são a apologia da passividade: "a cada instante, em cada coisa, existe a Eternidade"; "quando se vê, não é preciso nos encarniçarmos sobre o que se poderia fazer com o que se vê, mas apenas ver o que é". O mundo de Wols não é uma totalidade que o artista contribui para unificar, é uma unidade incriada, "feita" de uma vez por todas. Klee age sobre o ser; Wols padece os objetos. A teoria do conhecimento de Wols, de colorido ético-oriental, é precisamente a atitude epistemológica de Schopenhauer, de quem Cassirer disse genialmente que foi a primeira a substituir a apreensão do real pelo padecimento do mundo. O indivíduo, o homem, a ordem reconhecida das coisas, tudo perde com Wols a sua identidade originária; tudo se dana e se aniquila. O visionário Klee pinta o universo do múltiplo e dinâmico; o fantástico Wols, tornando todo objeto incaracterístico, indefine tudo para a submersão final no Uno estático, imovelmente existindo sobre a nossa abdicação do gesto, do querer e do fazer. A diferença entre ambos sela a sorte do abstracionismo contemporâneo, que passou de fáustico a ascético, do construtivismo à renúncia "lírica".»

_______

MURILO MENDES: ou a poética do visionário, in Razão do poema, de José Guilherme Merquior.

Claude Lévi-Strauss habla de Goiânia y de otras ciudades brasileñas

Claude Lévi-Strauss

« En esas ciudades de síntesis del Brasil meridional, la voluntad secreta y testaruda que se revela en el emplazamiento de las casas, en la especialización de las arterias, en el estilo naciente de los barrios, parecía tanto más significativa cuanto que, contrariándolo, prolongaba el capricho que había dado origen a la empresa. Londrina, Nova-Dantzig, Rolandia y Arapongas — nacidas de la decisión de un equipo de ingenieros y financieros — volvían suavemente a la concreta diversidad de un orden verdadero, como un siglo antes lo había hecho Curitiba, y como quizás hoy lo hace Goiánia.

« Curitiba, capital del Estado de Paraná, apareció en el mapa el día en que el gobierno decidió hacer una ciudad: la tierra que se adquirió a un propietario fue cedida en lotes lo suficientemente baratos como para crear una afluencia de población. El mismo sistema se aplicó más tarde para dotar de una capital — Belo Horizonte — al Estado de Minas. Con Goiánia se arriesgaron aún más, pues el primer objetivo había sido el de fabricar la capital federal del Brasil a partir de la nada.

« Aproximadamente a un tercio de la distancia que separa, a vuelo de pájaro, la costa meridional del curso del Amazonas, se extienden vastas mesetas olvidadas por el hombre desde hace dos siglos. En la época de las caravanas y de la navegación fluvial podían atravesarse en unas semanas para remontarse desde las minas hacia el norte; así se llegaba a la ribera del Araguaia, y por él se bajaba en barca hasta Belém. Único testigo de esta antigua vida provinciana, la pequeña capital del Estado de Goiás, que le dio su nombre, dormía a 1000 kilómetros del litoral, del que se encontraba prácticamente incomunicada. En un paraje rozagante, dominado por la silueta caprichosa de los morros empenachados de palmas, calles de casas bajas descendían por las cuchillas, entre los jardines y las plazas donde los caballos transitaban ante las iglesias de ventanas adornadas, mitad hórreos, mitad casas con campanarios. Columnatas, estucos, frontones recién castigados por la brocha con un baño espumoso como clara de huevo y teñido de crema, de ocre, de azul o de rosa, evocaban el estilo barroco de las pastorales ibéricas. Un río se deslizaba entre malecones musgosos, a veces hundidos bajo el peso de las lianas, de los bananeros y de las palmeras que habían invadido las residencias abandonadas; éstas no parecían marcadas con el signo de la decrepitud; esa vegetación suntuosa agregaba una dignidad callada a sus fachadas deterioradas.

« No sé si hay que deplorar o regocijarse con lo absurdo: la administración había decidido olvidar Goiás, su campiña, sus cuestas y su gracia pasada de moda. Todo ello era demasiado pequeño, demasiado viejo. Se necesitaba una tabla rasa para fundar la gigantesca empresa con la que soñaban. Se la encontró a 100 kilómetros hacia el este, en la forma de una meseta abierta sólo por pasto duro y zarzales espinosos, como azotada por una plaga que hubiera destruido toda fauna y toda vegetación. Ningún ferrocarril, ninguna carretera conducía a ella, sino tan sólo caminos adecuados para los carros. Se trazó en el mapa un cuadrado simbólico de 100 kilómetros de lado, correspondiente a ese territorio, sede del distrito federal, en cuyo centro se levantaría la futura capital. Como no había allí ningún accidente natural que importunara a los arquitectos, éstos pudieron trabajar en el lugar como si lo hubieran hecho sobre planos. El trazado de la ciudad se dibujó en el suelo; se delimitó el contorno y dentro de él se marcaron las diferentes zonas: residencial, administrativa, comercial, industrial y la reservada a las distracciones; éstas son siempre importantes en una ciudad pionera: hacia 1925, Marilia, que nació de una empresa semejante, sobre 600 casas construidas contaba con casi 100 prostíbulos, en su mayoría consagrados a esas francesinhas que con las monjas constituían los dos flancos combatientes de nuestra influencia en el extranjero; el Quay d’Orsay lo sabía muy bien y todavía en 1939 dedicaba una fracción sustancial de sus fondos secretos a la difusión de las revistas “ligeras”. Algunos de mis colegas no me desmentirán si hago recordar que la fundación de la Universidad de Rio Grande do Sul, el Estado más meridional del Brasil, y la preeminencia que allí se dio a los maestros franceses, tuvieron por origen el gusto por nuestra literatura y nuestra libertad que una señorita de virtud ligera inculcó a un futuro dictador, en París, durante su juventud.

« De la noche a la mañana los diarios se llenaron de carteles que ocupaban páginas enteras. Se anunciaba la fundación de la ciudad de Goiánia; en torno de un plano detallado, tal como si la ciudad hubiera sido centenaria, se enumeraban las ventajas que se prometían a los habitantes: vialidad, ferrocarril, derivación de aguas, cloacas y cinematógrafos. Si no me equivoco, al principio, en 1935-1936 hasta hubo un período en que la tierra era ofrecida en primer lugar a los adquisidores que pagaban las costas. Pues los abogados y los especuladores eran los primeros ocupantes.

« Visité Goiánia en 1937. Una llanura sin fin con algo de terreno baldío y de campo de batalla, erizada de postes eléctricos y de estacas de agrimensura, que dejaba ver unas cien casas nuevas dispersas en todas direcciones. La más importante era el hotel, paralelepípedo de cemento que, en medio de semejante llanura, parecía un aeropuerto o un fortín. De buen grado se le hubiera podido aplicar la expresión «baluarte de la civilización» en un sentido no figurado sino directo, que así empleado tomaba un valor singularmente irónico, pues nada podía ser tan bárbaro, tan inhumano, como esa empresa en el desierto. Esa construcción sin gracia era lo contrario de Goiás; ninguna historia, ninguna duración, ninguna costumbre había saturado su vacío o suavizado su dureza; uno se sentía allí como en una estación o en un hospital, siempre pasajero, jamás residente. Sólo el temor a un cataclismo podía justificar esta casamata. En efecto, se había producido uno y su amenaza se veía prolongada en el silencio y la inmovilidad que reinaba. Cadmo, el civilizador, había sembrado los dientes del dragón. Sobre una tierra desollada y quemada por el aliento del monstruo se esperaba que los hombres avanzaran.»

________

Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss.

(Traduzido do francês ao espanhol por Noelia Bastard.)

Johann Wolfgang von Goethe: trechos do Diário de Otília

Goethe

“O melhor consolo para o medíocre é pensar que o homem de gênio também é mortal.”

* * *

“Na vida toma-se a pessoa pela aparência, mas é preciso que aparente alguma coisa. São mais bem suportados os importunos que os insignificantes.”

* * *

“Pode-se impor tudo à sociedade, menos o que tiver conseqüência.”

* * *

“Não conhecemos os homens, quando vêm ao nosso encontro; é preciso ir ao encontro deles para sabermos o que eles verdadeiramente são.”

* * *

“A convivência com senhoras é a base dos bons costumes.”

* * *

“Não há nenhum sinal exterior de cortesia, que não contenha sólida base de moral. A verdadeira educação seria a que prendesse a causa ao gesto.”

* * *

“A conduta é um espelho no qual cada um reflete sua imagem.”

* * *

“Há uma cortesia do coração, que é parenta do amor. Dela emana a mais natural urbanidade da conduta exterior.”

* * *

“Uma dependência voluntária é o mais belo estado; e como seria isso possível sem amor?”

* * *

“Nunca nos afastamos tanto dos nossos desejos, como quando julgamos possuir o objeto desejado.”

* * *

“Ninguém mais escravo que aquele que se julga livre sem sê-lo.”

* * *

“Basta que nos declaremos livres para que, no mesmo instante, nos sintamos escravizados. Se ousamos declarar-nos dependentes, sentimo-nos livres.”

* * *

“Contra grandes superioridades de segunda, o único meio de salvação é o amor.”

* * *

“Situação insuportável para um homem superior: ver tolos vangloriarem-se diante dele.”

* * *

“Ninguém é herói para seu camareiro, costuma-se dizer. Mas isso é porque o herói só é reconhecido por outro herói. É muito provável que o camareiro saiba apreciar outro camareiro.”

* * *

“Os maiores homens estão sempre ligados ao seu século por alguma fraqueza.”

* * *

“Geralmente julgamos os homens mais perigosos do que realmente são.”

* * *

“Os nécios e os sensatos são igualmente inofensivos. Somente os semiloucos e os semiprudentes são perigosos.”

* * *

“A arte é o recurso mais seguro de o homem evitar o mundo e nela está o meio mais eficaz de se ligar a ele.”

* * *

“Até no auge da ventura e da maior desgraça sentimos necessidade do artista.”

* * *

“A arte se ocupa do que é difícil e do que é bom.”

* * *

“Quando vemos o difícil ser facilmente executado, temos a impressão do impossível.”

* * *

“As dificuldades aumentam quanto mais nos aproximamos da meta.”

* * *

“Semear não é tão difícil quanto colher.”

_______

Afinidades Eletivas, de Johann Wolfgang von Goethe.

“A visita do casal”, uma crônica de Rubem Braga

Rubem Braga

Um casal de amigos vem me visitar. Vejo que sobem lentamente a rua. Certamente ainda não me viram, pois a luz do meu quarto está apagada.

É uma quarta-feira de abril. Com certeza acabaram de jantar, ficaram à toa, e depois disseram: vamos passar pela casa do Rubem? É, podemos dar uma passadinha lá. Talvez venham apenas fazer hora para a última sessão de cinema. De qualquer modo, vieram. E me agrada que tenham vindo. Da-me prazer vê-los assim subindo a rua vazia e saber que vêm me visitar.

Penso um instante nos dois; refaço a imagem um pouco distraída que faço de cada um. Sei há quantos anos são casados, e como vivem. A gente sempre sabe, de um casal de amigos, um pouco mais do que cada um dos membros do casal imagina. Como toda gente, já fui amigo de casais que se separaram. É tão triste. É penoso e incômodo, porque então a gente tem de passar a considerar cada um em separado – e cada um fica sem uma parte de sua própria realidade. A realidade, para nós, eram dois, não apenas no que os unia, como ainda no que os separava quando juntos. Havia um casal; quando deixa de haver, passamos a considerar cada um, secretamente, como se estivesse com uma espécie de luto. Preferimos que vivam mal, porém juntos; é mais cômodo para nós. Que briguem e não se compreendam, e não mais se amem e se traiam; mas não deixem de ser um casal, pois é assim que eles existem para nós. Ficam ligeiramente absurdos sendo duas pessoas.

Como quase todo casal, esse que vem me visitar já andou querendo se separar. Pois ali estão os dois juntos. Ele com seu passo largo e um pouco melancólico, a pensar suas coisas; ela com aquele vestido branco, o conhecido que “me engorda um pouco, chi, meu Deus, estou vendo a hora que preciso comprar esse livro Coma e Emagreça, meu marido vive me chamando de bola de sebo, você acha, Rubem?".

Eu gosto do vestido. Quanto a ela própria, eu já a conheço tanto, nesta longa amizade, em seus encantos e em seus defeitos, que não me lembro de considerar se em conjunto é bonita ou não, e tenho uma leve surpresa sempre que ouço alguma opinião de uma pessoa estranha; não uso imaginar qual seria minha impressão se a visse agora pela primeira vez. “Ele diz que eu tenho corpo de mulata, você acha, Rubem? Diz que quando engordo minha gordura vem toda parar aqui" – e passa as mãos nas ancas, rindo. “Nesse negócio de corpo de mulata você deve mesmo consultar o Rubem, mulher.” Um gosta de mexer com o outro falando comigo. “Você já reparou nessa camisa dele? Fale francamente, você tinha coragem de sair na rua com uma camisa assim?"

Penso essas bobagens em um segundo, enquanto eles se aproximam da minha casa. Na tarde que vai anoitecendo tem alguma coisa tocante esse casal que anda em silêncio na rua vazia; e eu sou grato a ambos por me visitar. Estou meio comovido.

A campainha bate. Acendo a luz e vou lhes abrir a porta e também discretamente, o coração. “Quase que não batemos, vimos a luz apagada. O que é que você faz aí no escuro?"

Digo que nada, às vezes gosto de ficar no escuro. “Eu não disse que ele era um morcegão?"

Sou um morcegão cordial; trago um conhaque para ele e um vinho do Porto para ela.

Maio,1949.

_______

“A visita do casal” (in 200 Crônicas Escolhidas), de Rubem Braga.

Página 50 de 80

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén