Enquanto seguíamos o Sumô, nosso gordo guia japonês — um estudante de geologia da USP —, eu e Daniel Christino, hoje professor na UFG, nos vimos numa tremenda enrascada dentro de uma das cavernas do PETAR, no Vale do Ribeira. Não me lembro se foi na Morro Preto ou se na Água Suja. (Na caverna Santana, foi tudo tranqüilo.) Lá pelas tantas, contornávamos uma imensa parede de rocha tendo um abismo à nossa frente, cujo fundo, se é que existia, desaparecia na escuridão. Íamos por uma trilha muito estreita, rente à parede, dessas que só costumamos ver em filmes do Indiana Jones ou do Senhor dos Anéis. Conforme seguíamos, a parede se inclinava sobre nós e, por isso, tínhamos de ir caminhando cada vez mais encolhidos, até que, por fim, já estávamos agachados e nos movendo de lado, de costas para a parede. A certa altura, para meu espanto, ao olhar para a esquerda, não vi mais o Sumô.

— Cadê você, Sumô?!

— Tô aqui — respondeu, sabe-se lá de onde. — Agora coloca a bunda no chão e vem se arrastando de lado. Tem um patamar aqui. E não olhe para baixo!

“Colocar a bunda no chão?”, pensei. “Isso vai contra tudo o que aprendi sobre escaladas: ‘Nunca coloque a bunda no chão! No ponga las nalgas en el suelo! Se necessário, ande como um caranguejo, etc.'”. Fiquei ali tentando decidir se ia ou não ia, já em posição de caranguejo, claro, quando então meus pés escorregaram e eu me vi realmente de bunda no chão, as pernas balançando sobre o abismo, as mãos salvadoras agarradas a umas saliências de rocha, como se eu estivesse a praticar o exercício de “tríceps na cadeira”. Tenso, de olhos arregalados, a um minuto de distância de entrar em pânico, de repente ouço o Daniel me chamar à minha direita com a maior fleuma deste mundo, como se fosse um lorde inglês:

— Yuri, será que você poderia fazer o favor de salvar a minha vida?

— Quê?! — soltei e, ao olhar na direção dele, o foco da minha carbureteira o iluminou: o cara estava na mesmíssima situação que eu.

— Daniel — comecei, a meio caminho entre o pânico e uma insuportável vontade de rir — salvo, sim, claro. Mas peraí: primeiro preciso salvar a minha própria vida!

Quando nos lembramos dessa história, damos muitas risadas, mas até hoje não consigo me lembrar como saímos da enrascada.

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