Blog do Yuri

palavras aos homens e mulheres da Madrugada

Uma babá feia. Bem feia.

A babá

Minha mãe, que continua se informando principalmente pelo rádio, veio me contar uma dessas notícias que, segundo ela, caso fossem impressas num jornal, não serviriam sequer para forrar uma gaiola de hamsters pouco asseados. Dizia respeito a uma viagem feita pelo marido da bela Gisela Bündchen, o tal do Tom jogador de futebol gostosão, em companhia do Ben Affleck, ator da mesma estirpe. Por alguma razão, não entendi direito, eles viajavam com uma babá. Bom, isso me leva a crer que talvez houvesse crianças na viagem — ou não, filmes pornôs indicam que a presença de crianças não é estritamente necessária à presença de babás. Enfim. O caso é que os dois gostosões ricos casados com gostosonas famosas — Ben Affleck é casado com alguma gostosona famosa? não sei, mas não perderei meu tempo no Google por conta disso —, os dois acabaram convidando a babá, que deveria ter ficado em New York, a ir com eles até Los Angeles. (E por isso imagino que não estivessem de carro, Los Angeles não é logo ali.) E a babá, gostosona (obviamente), aceitou o convite, e então… ninguém sabe. Suruba? Ménages? Baby sitting? Sitting no colo de alguém? Em dois colos? Sei lá, mas parece que uma das esposas gostosonas, ou ambas, ficaram P da vida e alguém já está falando em divórcio. Parece que há um papo sobre ganhar alguma coisa com uma bola murcha… sei lá, me desculpe, mãe, minha atenção a esses assuntos não vai tão longe. E só estou contando tudo isso porque, ao final, minha mãe disse:
— Se a Gisele Bündchen tivesse lido sua história da Hilda Hilst e da empregada feia, não estaria nessa agora. A Hilda tinha toda a razão. E também deve ser horrível ser uma pessoa famosa. Todo mundo atrás dessas picuinhas ridículas. Ainda bem que você e suas irmãs não são famosos…
Para quem não o leu, minha mãe se referia ao relato “Precisa-se de empregada feia. Bem feia“. Leia-o antes que você caia na mesma situação, querida leitora.

A expressão estética da verdade

Álvaro Lins

« Em arte, belo não é sinônimo de bonito. O artista procura, com a verdade, o que é característico. A expressão estética dessa verdade — bonita ou feia, elevada ou baixa, nobre ou sórdida — é que é a beleza em arte.»
Álvaro Lins

Una bella definición de la libertad

Alexis de Tocqueville

« Cuando, después de haber dirigido una mirada rápida a la sociedad norteamericana de 1650, se examina la situación de Europa hacia la misma época, se siente uno sobrecogido de profunda sorpresa: en el continente europeo, a principios del siglo XVII, triunfaba en todas partes la monarquía absoluta sobre los restos de la libertad oligárquica y feudal de la Edad Media. En el seno de esa Europa brillante y literaria, nunca fue tal vez más completamente desconocida la idea de los derechos; los pueblos nunca habían vivido menos su vida política; jamás las nociones de la verdadera libertad habían preocupado menos a los espíritus. Fue entonces cuando esos mismos principios, no conocidos en las naciones europeas o despreciados por ellas, se proclamaron en los desiertos del Nuevo Mundo y llegaron a ser el símbolo de un futuro gran pueblo. Las más atrevidas teorías del espíritu humano se hallaban convertidas a la práctica en esa sociedad tan humilde en apariencia, de la que sin duda ningún hombre de Estado de entonces hubiera dignado ocuparse. Entregada a la originalidad de su naturaleza, la imaginación del hombre improvisaba allá una legislación sin precedente. En el seno de esa oscura democracia, que no había engendrado aún ni generales, ni filósofos, ni grandes escritores, un hombre podía erguirse en presencia de su pueblo libre, y dar, entre las aclamaciones de todos, esta bella definición de la libertad:

“No nos engañemos sobre lo que debemos entender por nuestra independencia. Hay en efecto una especie de libertad corrompida, cuyo uso es común a los animales y al hombre, que consiste en hacer cuanto le agrada. Esta libertad es enemiga de toda autoridad; se resiste impacientemente a cualesquiera reglas; con ella, nos volvemos inferiores a nosotros mismos; es enemiga de la verdad y de la paz; y Dios ha creído un deber alzarse contra ella. Pero hay una libertad civil y moral que encuentra su fuerza en la unión y que la misión del poder mismo es protegerla; es la libertad de hacer sin temor todo lo que es justo y bueno. Esta santa libertad, debemos defenderla en todas las ocasiones y exponer, si es necesario, por ella nuestra vida (41).”

« Ya he hablado sobre esto lo suficiente para esclarecer el carácter de la civilización angloamericana. Es el producto -y este punto de partida debemos tenerlo siempre presente- de dos elementos completamente distintos, que en otras partes se hicieron a menudo la guerra, pero que, en América, se ha logrado incorporar en cierto modo el uno al otro, y combinarse maravillosamente: el espíritu de religión y el espíritu de libertad.»

Alexis de Tocqueville, La Democracia en América (1835).

Muro é cultura

Adoniran Barbosa, 1935

Lembro que, em São Paulo, toda vez que saía do meu colégio para voltar a pé para casa, passava diante duma casa de esquina, do outro lado da rua, em cujo muro estava pichado: “Muro é cultura”. Eu estudava no Colégio Spinosa e minha casa distanciava alguns poucos quarteirões. E mesmo com o passar dos anos — talvez tenham sido poucos, para uma criança dois anos são uma eternidade — o proprietário da casa não se atrevia a apagar aquela inscrição, talvez porque não quisesse se mostrar um perseguidor da cultura e da livre expressão, ou talvez porque achasse a frase engraçada, como eu ainda a acho. Lembro de vê-lo uma única vez, ao portão: um velhinho de baixa estatura ainda afeito à moda de usar chapéu. Só me inteirei de quem ele realmente era quando faleceu. Hoje é seu aniversário de nascimento e, caso já não tivesse cumprido sua missão, ele estaria completando 105 anos de idade. Enfim… feliz aniversário, Adoniran Barbosa!

Tradutor americano conta como conheceu a obra de Hilda Hilst

Letters from a Seducer [Cartas de um sedutor] – Hilda Hilst, Translated by John Keene, Nightboat Books
DANIEL MEDIN: How did you discover Hilda Hilst’s writing? What led you to want to translate this book? [TRAD.: Como você descobriu a escrita de Hilda Hilst? O que o levou a querer traduzir esse livro?]

JOHN KEENE: My first real encounters with Hilst’s writing are a decidedly 21st century phenomenon. I had seen her name mentioned several times in various critical texts, and finally did an online search for her work about a decade ago. What I found and dove into was the old Angelfire website, still live, that Yuri Vieira dos Santos set up for her in 1999, and launched from her Casa do Sol. It was via that site, which features links to many of her works, photos, and lists of translations, that I was able to immerse myself in Hilst’s world. [TRAD.: Meu primeiro encontro real com a escrita de Hilst é decididamente um fenômeno do século XXI. Eu tinha visto o nome dela ser mencionado diversas vezes em vários textos críticos, e finalmente fiz uma pesquisa online por seu trabalho cerca de uma década atrás. O que encontrei e onde mergulhei estava hospedado no velho Angelfire, um site ainda existente, que Yuri Vieira dos Santos criou para ela em 1999 e lançou a partir da Casa do Sol. Foi mediante aquele site, que apresentava links para muitos de seus trabalhos, fotos e traduções, que me tornei apto a imergir no mundo de Hilda Hilst.]

Fonte: Three Percent.

Jericho X Jerichoacoara

Jericho

Não sei se vocês já viram no Netflix uma série chamada JERICHO. São as aventuras e desventuras de uma cidade do interior dos EUA após a explosão de umas vinte bombas nucleares em solo americano. De repente, o povo vê aquele cogumelo no horizonte e apenas semanas depois — já sem energia elétrica, comunicação e combustíveis, e com pouco alimento — descobre a gravidade da situação: o país já foi até mesmo dividido em três e está à beira de nova guerra civil. (Os culpados pelo Armagedom, claro, foram escolhidos pelos roteiristas a dedo esquerdo…) Enfim… imaginei uma versão brasileira da série: JERICHOACOARA. Um sujeito se manda para umas férias em Jericoacoara, fica deslumbrado com o lugar e decide largar tudo para viver ali. Casa-se com uma linda hippie, ex-modelo, compra uma pousadinha, tem uns quatro filhos e, apenas após vinte anos, descobre que o mundo, três dias depois de sua mudança para lá, havia sido completamente devastado por uma guerra nuclear. Em Jericoacoara ninguém ficou sabendo…

Pelo outro lado

É sempre estranho conversar com alguém que — mesmo depois de todos os relatos a respeito dos canibais Tupinambás e quejandos (ou dos Korowai, ainda em plena atividade antropofágica na Papua-Nova Guiné), dos canibais da América do Norte (apud Alexis de Tocqueville), dos relatos a respeito dos Jívaros equatorianos (os famigerados “encolhedores de cabeças”) e dos não menos bizarros “caçadores de pênis” (Sir Francis Richard Burton, em sua primeira viagem para descobrir a nascente do Nilo, ganhou uma cicatriz no rosto ao escapar deles) — ainda acredite na teoria do bom selvagem. A coisa toda atingiu seu ápice nos dias que seguem, quando não apenas os bons selvagens são automaticamente bons, mas até mesmo as feras da selva são boníssimas. No fundo, tudo não passa de vácuo espiritual. Ou o mundo volta para os eixos pelo bem, ou um futuro califado islâmico o fará entender o espírito da coisa pelo outro lado…

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