palavras aos homens e mulheres da Madrugada

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Efeito madeleine

Por essa eu não esperava: meu cigarro eletrônico me causou recentemente um “efeito madeleine” (vide Proust) ou então, para que as crianças me entendam, um “efeito ratatouille”.

Como costumo vapear onde quer que eu esteja — sempre com a desculpa de que não estou emitindo fumaça mas vapor (logo, como diria Glauber Rocha, “não me encham o saaaaaacoo!”) — resolvi comprar essências com cheiros menos provocativos, do tipo que não transforme pessoas aparentemente normais em trolls anti-tabagistas mentalmente programados pela Organização Mundial da Saúde. (Poxa, até em bar de motoqueiros já me pediram para parar de “fumar”! Nego anda tão “leite de soja” que nem um bar com essa galera visualmente agressiva aceita fumantes.) Enfim, minhas essências com odor e sabor de cachimbo francês, de tabaco da Virginia, etc. estavam me causando atritos com a sociedade titereada. Então resolvi comprar duas essências “fofas” para misturar com uma base “austera” de charuto cubano: uma de chocolate, outra de cappuccino. Semanas atrás testei a mistura de cappuccino com charuto cubano: aprovada! Ninguém reclamou e o sabor de charuto continuou lá. Mais tarde, com o tanque já vazio, preparei uma mistura de charuto cubano com chocolate. E quando traguei… puts… fui transportado novamente para minha infância… e me lembrei de uma cena enterrada a sete palmos na minha memória…

Eu e um colega de colégio — cujo pai, assim como o meu, também era funcionário da VASP — estávamos no clube da empresa, não no de campo, mas no da cidade, aquele próximo ao Aeroporto de Congonhas. Nessa época devíamos ter uns onze ou doze anos de idade e, como meu pai era o presidente do clube, costumávamos andar por ali como se estivéssemos em casa. Na ocasião, não fazia frio, eram umas sete da noite, havíamos acabado de jogar futebol de salão e, cansados, nos dirigimos ao balcão do bar para pedir um refrigerante, onde nos sentamos ao lado de dois pilotos que fumavam cachimbos. Sabíamos que eram pilotos não apenas porque usavam o uniforme típico, mas porque um deles só se dirigia ao mais velho como “comandante”. (Nessa época eu ainda confundia pilotos com comissários.) Lá pelas tantas, enquanto eu falava qualquer coisa a meu amigo, notei que ele permanecia de olhos fechados, completamente alheio às minhas palavras, um ar extático estampado no rosto.

— Que cara é essa, meu? — perguntei.

— Cara de chocolate — respondeu.

— Hum?

Ele abriu os olhos e, inclinando-se na minha direção, sussurrou:

— Eles estão fumando chocolate!

De fato, sorvendo o ar com maior atenção, notei que aquela fumaça espessa realmente recendia à chocolate — claro, à chocolate e a algo, por assim dizer, mais adulto.

— Puts! É mesmo!

— Quando eu crescer — tornou ele — também vou fumar cachimbo.

De fato, anos mais tarde, ele até tentou fumar cachimbo, mas preferiu se ater ao Marlboro Light e a outros fumos mais controversos… Bem, isso não vem ao caso. A questão que importa é: Proust tinha razão, pois certas memórias realmente permanecem guardadas à chave, uma chave feita de sensações. E é por isso que o cheiro de bala de coco sempre me lembra as gargalhadas da minha mãe e da minha tia Lourdes, exaustas por esticar a quatro mãos a massa açucarada numa fria tarde paulistana, que o sabor de pé-de-moleque me lembra uma tarde qualquer na casa da minha avó paterna no Rio de Janeiro e que o som de algumas freadas súbitas de carros me lembra o berro agonizante de um porco, numa manhã ensolarada e fria de Julho, em Goiás, na fazenda da minha avó materna.

Dilma e a Pastoral Americana

Durante os debates do Encontro de Escritores organizado pelo Olavo de Carvalho nos EUA, mencionei o romance Pastoral Americana, escrito por Philip Roth. Falávamos, se não me falha a memória, sobre como certos acontecimentos na vida social, política e cultural estão prefigurados na literatura. E então comentei sobre como, a meu ver, teria sido a vida de Dilma Rousseff caso ela tivesse nascido nos EUA: basta acompanhar a vida da personagem Merry no referido romance. Para quem estiver sem tempo — a tradução brasileira tem 478 páginas — sugiro o filme Pastoral Americana, de 2016, disponível na Netflix, cuja trama é bastante fiel à do livro. (Claro, o cinema, contrastado à literatura, dificilmente atinge a mesma profundidade de expressão, mas, para quem quiser ter um lampejo sobre o que eu quis dizer, já é um bom começo.)

O romance, obviamente, não retrata apenas um modelo americano da nossa ex-presidente: mostra principalmente a transformação “antes da Federal / depois da Federal”, por assim dizer, de boa parte dos jovens do Ocidente e seu corolário, isto é, a situação na qual terminam seus pais, uma situação muito mais grave do que um mero “choro de chuveiro”.

No Brasil as pessoas babam na gravata há tanto tempo que Merry chegou a ser eleita… presidentA.

Stárietz Zossima: o mundo superior

Muitas coisas deste mundo nos são dissimuladas, mas em compensação Deus nos concedeu a misteriosa sensação do laço vivo que nos une ao outro mundo, o mundo celeste, superior; e, aliás, as próprias raízes dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos não estão em nós, porém em outra parte. E é por isso que os filósofos dizem que não se pode conhecer na terra a essência das coisas. Deus tomou sementes que pertenciam a outros mundos, semeou-as nesta terra e cultivou o seu jardim. O que podia germinar cresceu, mas tudo que se podia desenvolver não viveu senão graças ao sentimento do seu contato com outros mundos misteriosos; se esse sentimento enfraquece ou desaparece da tua alma, tudo o que floriu dentro de ti morrerá.

Stárietz Zossima em Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski.

Eugene O’Neil: o papel do escritor

Cumpre ao dramaturgo, hoje em dia, cavar até às raízes do mal moderno tal como o sente – a morte do antigo Deus e o fracasso da ciência e do materialismo em apresentar um outro Deus que satisfaça ao primitivo instinto religioso sobrevivente, a fim de que nele o homem encontre um sentido para a vida, com o qual se conforte dos temores da morte. Qualquer pessoa que atualmente tente realizar uma grande obra, parece-me, deve ter este magno assunto por detrás de todos os pequenos assuntos de suas peças e novelas, ou estará simplesmente arranhando a superfície das coisas, não pertencendo senão à categoria dum proporcionador de divertimentos de salão.

Eugene O’Neil em carta dirigida a um amigo.

Ortega y Gasset: La tragicomedia

EL género novelesco es, sin duda, cómico. No digamos que humorístico, porque bajo el manto del humorismo se esconden muchas vanidades. Por lo pronto, se trata simplemente de aprovechar la significación poética que hay en la caída violenta del cuerpo trágico, vencido por la fuerza de inercia, por la realidad. Cuando se ha insistido sobre el realismo de la novela, debiera haberse notado que en dicho realismo algo más que realidad se encerraba, algo que permitía a esta alcanzar un vigor de poetización que le es tan ajeno. Entonces se hubiera patentizado que no está en la realidad yacente lo poético del realismo, sino en la fuerza atractiva que ejerce sobre los aerolitos ideales.

La línea superior de la novela es una tragedia; de allí se descuelga la musa siguiendo a lo trágico en su caída. La línea trágica es inevitable, tiene que formar parte de la novela, siquiera sea como el perfil sutilísimo que la limita. Por esto, yo creo que conviene atenerse al nombre buscado por Fernando de Rojas para su «Celestina»: tragicomedia. La novela es tragicomedia. Acaso en la Celestina hace crisis la evolución de este género, conquistando una madurez que permite en el «Quijote» la plena expansión.

Claro está que la línea trágica puede engrosar sobremanera y hasta ocupar en el volumen novelesco tanto espacio y valor como la materia cómica. Caben aquí todos los grados y oscilaciones.

En la novela como síntesis de tragedia y comedia se ha realizado el extraño deseo que, sin comentario alguno, deja escapar una vez Platón. Es allá en el Banquete, de madrugada. Los comensales rendidos por el jugo dionisiaco, yacen dormitando en confuso desorden. Aristodemos despierta vagamente, «cuando ya cantan los gallos»; le parece ver que sólo Sócrates, Agatón y Aristófanes siguen vigilantes. Cree oir que están trabados en un difícil diálogo, donde Sócrates sostiene frente a Agatón, el joven autor de tragedias, y Aristófanes, el cómico, que no dos hombres distintos, sino uno mismo debía ser el poeta de la tragedia y el de la comedia.

Esto no ha recibido explicación satisfactoria, mas siempre al leerlo he sospechado que Platón, alma llena de gérmenes, ponía aquí la simiente de la novela.

Meditaciones del Quijote“, José Ortega y Gasset.

A paixão n’A Montanha Mágica

N’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, o personagem Wehsal descreve a Hans Castorp sua paixão por Clawdia Chauchat:

“uma coisa dessas não devia existir à face da Terra, contudo não a podemos pura e simplesmente erradicar. Quem sofre desse mal, não o consegue simplesmente erradicar, porque teria de erradicar a própria vida, com a qual ele se fundiu, e isso não é possível. De que nos serviria morrer? Depois — sim, com todo o gosto. Nos braços dela — sim, sem pensar duas vezes. Mas antes seria disparate, porque a vida é desejo e o desejo é vida, uma coisa não se pode voltar contra a outra, nisso é que reside o maldito impasse. (…). Há tantas formas de tortura, Castorp, e quem está sob tortura, só quer sair dela, só quer se libertar dela a todo custo, é esse o seu único objectivo. Mas para nos libertarmos da tortura infligida pelo desejo carnal, só há uma solução e um caminho que é a satisfação desse desejo — não há outra via, não há outra saída! É assim que as coisas se passam. Quem não sofre do mal, não perde tempo com considerações deste género, mas quem foi tocado pela desgraça, compreende as chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e os olhos enchem-se de lágrimas. Deus do céu! Que circunstância mais estranha esta de a carne desejar a carne de outrem, só porque não é nossa mas pertence a uma alma diversa! Como é singular este fenómeno e como é, bem vistas as coisas, simples e natural na sua bondade e pudor! É caso para dizermos: se é só isso que a carne deseja, que lho concedam, por amor de Deus! Será que peço algo extraordinário, Castorp? Será que por acaso a quero matar? Fazer derramar o seu sangue? A única coisa que quero é dar-lhe a minha ternura! (…) O desejo carnal dispersa-se em várias direcções, não se liga nem se fixa a nada e é por isso que lhe damos o nome de animalesco. Mas no momento em que se fixa numa pessoa, num rosto humano, começamos a chamar-lhe amor. (…) Pois é aí justamente que reside a desgraça — prosseguia a pobre alma — A desgraça é ela (Clawdia) ser dotada de alma, ser uma criatura humana com corpo e alma! Porque a sua alma não quer saber da minha e, portanto, o seu corpo também não quer saber do meu. Ó tristeza do mundo, ó lástima da vida! Por causa disso o meu desejo está condenado à ignomínia e o meu corpo terá de retorcer-se para todo o sempre! Porque não querem o seu corpo e a sua alma saber de mim, Castorp, porque lhe é o meu desejo tão abominável? Não serei por acaso um homem? Não continua um homem execrável a ser um homem? Pois eu sou homem ao mais alto nível, isso posso assegurar-lhe, e suplantaria qualquer homem se ela me franqueasse o paraíso dos seus braços, esses braços que são tão formosos por fazerem parte do rosto anímico! Oferecer-lhe-ia toda a volúpia do mundo, Castorp, se apenas o corpo estivesse em jogo e não o rosto, se a sua maldita alma não existisse, essa alma que nada quer saber de mim e sem a qual eu também não cobiçaria o seu corpo — é este o terrível impasse e desespero em que vivo e em que me retorcerei para todo o sempre. (…) Um mal que nos transforma os dias em tormento de luxúria e as noites em inferno de ignomínia”.

Um conselho de Fernando Pessoa

Um conselho que todo escritor deve seguir é o do Fernando Pessoa: “Faça o romance antes que ele lhe seja feito”. Por exemplo: quer matar alguém? Mate-o num poema, num conto, num romance. Em vez de ir até a UnB com uma metralhadora e meia dúzia de granadas, escrevi A Tragicomédia Acadêmica.

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